Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha.

10:38

Publicado!!!

Postado por Glauber da Rocha |

Publicado a segunda parte do romance: Enquanto a Fama não Vem. Chama-se: o Purgatório!

10:19

Capítulo 2: O Purgatório.

Postado por Glauber da Rocha |

I


Desempregado, saí atrás de emprego, quando meu olho voltou ao normal. Deixei os meus currículos nas escolas, entretanto, as portas da educação se fecharam para o transgressor aqui; e sem escolha e desesperado como sempre, comecei a procurar em todos os lugares, aceitando qualquer proposta, inclusive as indecentes. Encontrei um na agência pública de empregos, lugar onde raramente se encontra um serviço bom e à altura da gente. Um lugar para desesperados, eu diria com o português bem claro.

– Seu nome? – perguntou a mulher que me atendeu.

– João.

– João do quê?

– Da Silva.

– Trouxe a sua carteira de trabalho, João da Silva?

– Sim.

– Deixe eu ver... – falou ela, olhando a carteira: – você trabalhou três anos de garçom, depois se formou e trabalhou como professor num colégio católico, onde foi demitido...

– Sim.

– E por que você foi mandado embora?

– Porque apareceu outro com um currículo melhor do que o meu.

– Ah, sim. Entendi.

– Tem algum emprego aí, de professor? – perguntei.

Ela olhou para o computador:

– Não, de professor não. Tem de garçom. Esse você pega facilmente, por causa dos anos de experiência que você tem.

– Ah, sim...

– Vai querer?

– Não.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Deixe eu ver se tem outro – disse ela, voltado os olhos para o computador.

Fiquei ali, ansioso, na expectativa dela achar uma vaga decente para mim.

– João? – disse ela, olhando ainda para o computador.

– Diga.

– Infelizmente não temos mais vagas para te oferecer.

– Ok, então amanhã eu volto.

– Tudo bem.

Sai da agência pública de empregos e fui deixar meus currículos em outras escolas e empresas. No outro dia, voltei. Quem me atendeu desta vez foi um homem. A história se repetiu. Sai dali e continuei a minha peregrinação, para voltar no outro dia. Tive a mesma resposta. E foi assim por um mês mais ou menos. Por isso, resolvi aceitar a vaga de garçom. Não aquela de um mês atrás, mas uma que apareceu naquele dia. Já no dia seguinte, comecei a trabalhar neste restaurante árabe, onde o meu orgulho apolíneo do conhecimento caiu de uma vez por todas por terra: há sim a reencarnação, a dívida kármica e espíritos obsessores para foder com a vida da gente. E eu, eu estava pagando por ser orgulhoso demais, vaidoso de mais, por ter negado a Umbanda, o Espírito Santo que desce como em Pentecostes.

Do contrário, teria arrumado um emprego de professor e não teria purgado quase tudo o que tinha para purgar neste restaurante, que era um penhasco entre o Paraíso e o Inferno. Digo assim porque foi a primeira vez na vida que tive a verdadeira visão do Paraíso. Não aquela com o Nosso Senhor Jesus Cristo num trono ao lado do Pai, com anjos e santos em sua volta, mas de semi-deuses que tem tudo na vida: beleza, dinheiro, popularidade, poder, status, saúde, inteligência, sabedoria, e assim por diante. Agora, os clientes que atendia não eram clientes da classe baixa e até média, e sim da classe alta, altíssima. E pior do que isso: a maioria era jovem; a maioria, belos.

Parecia um desfile de modas, uma telenovela só com atrizes novas e bonitas. As mulheres, verdadeiras princesas, deusas, musas, divas. Era um outro universo, uma outra realidade. Nem mesmo na Universidade e na escola da qual fui demitido havia tanta gente bonita e rica concentrada num único lugar. Comecei a me sentir mal naquele Olimpio, o meu complexo de inferioridade acentuou, nem mesmo o fato de ter um diploma de professor na mão me fazia sentir-se gente perto deles. Foi quando, enfim, tive a consciência de que eu era um desgraçado. Isto, um desgraçado e condenado ao Purgatório! Um condenado que precisava urgentemente da absolvição, ou melhor, da graça e da benção de Deus, da trégua. No obstante, não sabia que estava diante das maiores provações da minha vida: as vencesse, cumpriria o meu karma de uma vez por todas. Pois, trabalhar ali era o sofrimento dos sofrimentos, a privação das privações, a adversidade das adversidades, o grande obstáculo, a grande lição.

O sofrimento era o de trabalhar horas e horas seguidas, sem descansos, de terça a domingo, com os finais de semana trabalhando o dia e a noite inteira. As privações: não poder desfrutar das vantagens de um professor, como bom salário, status, aluna nova me querendo. A adversidade: o meu patrão, que era o anjo de Satanás que Deus me deu para esbofetear a minha face sempre que podia. Logo nos primeiros dias já fui sendo esbofeteado por ele. Nunca, em tantos anos de garçom, levei tanta bronca. O problema era que o homem, no começo, dizia que gostava de mim, e muito. Que eu era bom, e etc. Mas, não podia me ver fazendo nada errado para explodir os seus seiscentos e sessenta e seis relâmpagos tempestivos para cima do João pára-raios aqui – e não importava quando e aonde, se na frente dos clientes ou na presença dos outros funcionários lá da cozinha. Assim, ficava sem entender: se o homem diz que gosta de mim, por que ele só falta me chamar de negro?

– Se ele não gostasse, já teria te mandado embora, sinal que ele quer o seu bem – me diziam por aí, quando saia para beber e bêbado tinha um único assunto apenas: a minha purgação.

Resolvi ficar: não porque ele gostava de mim ou porque ele era rico, e sim porque precisava comer, pagar o aluguel de casa, energia e etc. Fiquei, tendo como principal dificuldade o anjo de Satanás e a sua raça. Além disto, estava de olho nos dez por cento que ele cobrava dos clientes e que por direito era nosso, os quatro funcionários da casa, e que ele, por malandragem, colocava no bolso – na cabeça dele, quem mandava ali, naquele estabelecimento, quem ditava os direitos e deveres, era ele, e não o Direito Trabalhista.

O problema era que cada dia era uma luta violenta. Não havia um dia sequer que não tinha vontade de ir embora. O desejo de não sair perdendo é que me prendia ali. Até mesmo porque se ele não roubasse o nosso dez por cento, juntando o meu salário e as gorjetas que ganhava, dava até mesmo para ganhar mais do que um professor em inicio de carreira. Deste modo, era só lutar pelo dez por cento que ele embolsava, e estava tudo em ordem. Mas no entanto, no dia a dia ali, engolindo tudo quanto é tipo de desaforo, analisando-o, via que isto era um sonho, pois o homem, além de ladrão, era um avarento, um grande avarento. E muito mais avarento que o dono daquela pizzaria dos infernos. E digo isto com provas, como testemunha ocular. Quando lhe perguntavam se ele preferia a época de guerra ou de paz lá na terra dele, o árabe respondia que a época da guerra, porque ganhava mais dinheiro...

Era por essas e outras que me enfraquecia, e assim, quando menos dava conta, levava o serviço de qualquer jeito. Evitava dar o máximo de mim, devido à minha revolta. Acreditava também que se me dedicasse estaria aceitando de vez o meu fracasso, a minha desgraça. Em razão disto, do meu serviço não corresponder às suas expectativas, acabava levando mais ainda advertência dele. De vez em quando, ele me pegava pensando na vida. Chamava a minha atenção, perguntava-me em que mundo eu estava. Na maioria das vezes, dava vontade de falar para ele que estava no abismo infernal, amarrado, olhando para o céu sem poder vivenciá-lo tal como ele e seus clientes ali, que tinham tudo na vida, vivenciavam, em abundância. Mas, como não podia dizer uma coisa desta, pedia desculpas e voltava a minha atenção ao trabalho. O que era difícil. Olhar para aquelas pessoas ricas, com a vida ganha, falando sobre viagens que fizeram pelo mundo afora, sobre as comidas que comiam em tais restaurantes, das festas que iam, me deixava profundamente indignado. Perguntava-me: por que será que fui nascer pobre? Foi uma escolha minha ou a vontade de Deus? Ou nenhuma das duas?

Refletia sobre isso, pensava sobre a minha sorte, e me sentia cada vez mais desgraçado. O que eu estava fazendo ali, Deus meu? Aquela profissão não era mais para mim. Por outro lado, sair do emprego era o mesmo que passar fome, tinha que ficar. Também, até que havia o seu lado bom, pessoas boas que atendia e me davam boas gorjetas. Entretanto, pesando com sinceridade na balança, tudo me era mais desfavorável. Era o meu purgatório. O lugar onde a pessoa pode ver os dois lugares ao mesmo tempo: o Paraíso e o Inferno. Era isto. Eu estava purgando os meus pecados. Eu podia muito bem estar numa sala de aula com um monte de gente à minha volta, me admirando, mas estava ali reduzido ao nada, exercendo uma profissão que não exige muito estudo, aniquilando o meu ego. E o mais pesado de tudo era no Sábado, e vocês logo vão saber o porquê. Na hora do almoço, começavam a chegar uma turma de ricos. Era a elite da sociedade: playboys, riquinhas, famosos e famosas. Almoçavam, e depois do almoço, liderados por um playboy malandro, de uns trinta anos ou mais ou menos, começavam a fumar, a beber, a rir, a conversar, a fazer da vida um banquete.

Até aí tudo bem, dava para suportar, se um deles não fosse um jovem escritor, da minha idade, que tinha mais de três livros publicados por uma das maiores editoras da América Latina. O sujeito gozava de tudo o que eu queria na vida. Era famoso e ganhava a vida com a literatura. Está certo que o dinheiro de seus livros, que eram vendidos aos montes, não lhe garantia a sobrevivência – o que pagava as suas contas eram as traduções que ele fazia – mas, o fato dele ser um escritor novo, no meio de um povo rico justamente por isto, me causava uma inveja danada. Cheguei inclusive a falar com ele sobre mim. Mas, o filho da mãe nem quis ler os meus escritos, falando: por que você não tenta a sorte? Faça como eu. Envie seus livros, meu amigo. Meu amigo uma ova!, falei para mim mesmo tal como gostava de falar a Cátia. Se fosse, leria alguns de meus contos, me daria uma ajuda, uma indicação. De qualquer modo, pelo menos ele me fez lembrar do pai Joaquim, da história dos três livros.

Em casa, peguei tudo o que havia escrito até então, e comecei a separar o trigo do joio. Sim, o trigo do joio, e não o joio do trigo. Pois, o que eu queria era sair dali, não era? E se a literatura podia me libertar deste purgatório, eu tinha que vender. E para vender, hoje em dia, ser conhecido e famoso, tal como este jovem escritor, os livros não podem ser profundo, difíceis, não é mesmo? Quem é que lê Guimarães Rosa hoje em dia? São poucos, em comparação com um Rubem Fonseca e um Dalton Trevisan, por exemplo. Pois então. O trigo, na minha literatura, era aqueles escritos que tinham um certo anseio do universal. O joio, enfim, tinha a fórmula básica do sucesso: violência, sexo e morte.

Já as poesias, nem fiz questão de lê-las, porque não queria mais ser poeta, devido à dificuldade de se ver um famoso, ainda mais jovem. Me fale de um que experimentou a fama de poeta na juventude que eu troco de nome. Os maiores deles não a conheceram: Arthur Rimbaud e Álvares de Azevedo, por exemplo, tiveram que morrer para serem conhecidos. Vôte, cobra! Está certo que um escritor jovem e famoso também é muito raro, mas muito mais fácil: veja o caso de Antônio João e Aluízio de Azevedo. E eu queria ser como um deles. Minto. Pela maneira em que estava escolhendo meus contos, preferindo aqueles em que rasgava o verbo escrevendo, escolhendo sempre os clichês, os chavões, as gírias e os temas polêmicos, eu estava muito mais para um Rubem Fonseca na vida, um Charles Bukowisky e um Nelson Rodrigues que um João Antônio e um Aluízio de Azevedo, que prezam a estética, a erudição, a linguagem e a forma rebuscada. Eu queria a fama naquele momento, e não a imortalidade.

Por outro lado, ainda que estes escritos eram os joios de minha literatura, não posso ser tão cruel assim para não dizer que as cenas violentas de sexo e morte eram apenas atrativos para os assuntos sérios que abordava, porque o que escrevia nesta época era sobre os ricos exploradores, patrões avarentos, políticos corruptos, pessoas fúteis que valorizam a moda, os bares, as bebidas, o sexo e desprezam impiedosamente os famintos e necessitados de comida, roupa, e dignidade – se as cenas fortes de sexo, morte e violência me condenavam, esses meus protestos sociais até que me redimiam. Separando, vi que estava com uma coletânea de contos. Faltavam, portanto, dois livros.

Lembrei do romance que queria escrever e dei início, ao mesmo tempo em que escrevia contos, para a outra coletânea. O que não demoraram muito para ficarem prontos, pois, quanto mais me estressava no restaurante, quanto mais invejava o jovem escritor e seus amigos, mais extravasava na arte. Ao fim, comecei a pensar nos títulos. Levei vários dias para decidir o primeiro. Todos os nomes que vinham na cabeça tinham uma seriedade que me incomodava. Não podia ser assim. Tinha que ser um clichê, um ditado popular, porque queria a maioria, a fama, o sucesso.

Num dia, assistindo televisão, vi numa reportagem uma vaca indo para o brejo, literalmente. Isto aconteceu numa cidade do sul, após chover por uns dois ou três dias seguidos. Um barranco despencou, derrubando casas, árvores e uma vaca, que estava lá em cima. Parei para pensar sobre isto, e de repente me dei conta de que estava com o primeiro título em mãos: é isto! E a Vaca Foi Pro Brejo!, pensei comigo. Depois, pensando sobre o título, resolvi colocar: É Assim que a Vaca Vai Pro Brejo! Tinha tudo a ver com as histórias do livro.

Feliz da vida, comecei a pensar em outro. Pensava, pensava e não conseguia encontrar um título. Num dia, conversando com um senhor, depois de me contar uma história finalmente falou: ele veio com uma conversa do arco da velha para cima de mim! Do arco da velha? Sim, do arco da velha. Pensei: é isto! O outro livro de contos se chamará: Histórias do Arco da Velha! Depois, refleti: histórias, histórias, hum, acho que não; vou colocar apenas o Arco da Velha. E assim ficou o segundo livro de contos: O Arco da Velha.

Depois de encontrar para as duas coletâneas de contos, parti em busca do título para o romance. Mas, por mais que pensasse numa porção de títulos, não achava nenhum que me agradava. Eu queria, para ser mais exato, o seu título verdadeiro, um que houvesse uma correspondência perfeita entre o objeto e o intelecto, como dizia o São Tomás de Aquino. Ou seja: um que representasse bem o conteúdo do romance. Até que um dia, ao passar em frente de uma banca de revistas, vi um livro chamado: Relatos Indecentes.

– Relatos indecentes?

Era o que estava procurando! Voltei à banca, perguntei ao dono, um velho de seus sessenta anos de idade, se aquele livro era de pornografia. Não soube responder assim, de imediato, mas já havia lido o livro. Foi até ele, pegou-o, começou a folheá-lo e a olhá-lo por cima, tentando lembrar a leitura. Repetia, murmurando, como que chamando à memória: relatos indecentes, relatos indecentes... deixe-me lembrar, ah, sim! Relato Indecentes! Pornografia das brabas, meu filho. Muito bom, histórias de mulheres adúlteras, de ninfomaníacas, de prostitutas, de tarados, de imoralidades atrás de imoralidades, um livro inspirado pelo demo, meu filho, vai querer?

Falei que não. Aí era demais. Pedi desculpa por ter ocupado o seu tempo e fui-me embora. Mas o título, o título era o ideal para nomear tantas injustiças relatadas nos meu romance. E assim, sem escrúpulos e hesitações, resolvi roubá-lo. Em casa, organizei tudo o que escrevi, fiz as capas das duas coletâneas e do romance e estavam prontos, prontinhos! Quero dizer, quase prontos, uma vez que os livros, por mais que sejam revisados, nunca ficam prontos, nunca!


II


Revisei todos eles umas dez vezes no mínimo. Depois, imprimi várias cópias, para mandá-los para todas as grandes editoras que conhecia. Mas antes, precisava que alguém lesse tudo aquilo primeiro, para ver os erros que não vi, para dar as dicas que não tive na hora de escrevê-los. Pensei em diversas pessoas, para finalmente lembrar do professor Augusto, aquele que gostava da minha literatura durante o período em que me formava em Filosofia... Ao me ver na universidade, o professor Augusto abriu um sorriso orgulhoso, deu-me um abraço de lado, e perguntou o que o grande poeta fazia ali entre os meros mortais.

– Falar com você – eu disse.

– Então diga!

Mostrei os escritos para ele.

– Mas rapaz... Que é isso desta vez, João? Contos?

– Também. Dois livros de contos e um romance.

– E as poesias, abandonou?

– Abandonei.

– Pode me dizer por quê?

– Por nada, professor. Poesia não dá dinheiro.

– Que isso? Virou capitalista agora?

– Mais ou menos; é que me cansei dos outros defecarem na minha cabeça.

O professor riu, maneou a cabeça como que dizendo não, e olhou para os escritos.

– E agora quer redenção com os contos?

– Dinheiro.

– Está certo...

– Por que não estaria? – eu falei.

– Por que? –, disse ele.

– É o que faço de melhor: escrever. Está certo que não sou nenhum Rubem Fonseca na vida.

– Não é mas pode ser. Nunca se sabe a repercussão de um livro...

Ele olhou novamente para os escritos:

– É assim que a Vaca vai pro Brejo, O Arco da Velha e Relatos Indecentes?!

– Sim.

– Que isso?... Este Relatos Indecentes é um livro erótico, pornográfico?

– Não, professor. Chama-se Relatos Indecentes porque fala de ricos exploradores, de patrões avarentos, de políticos corruptos, de miseráveis que não lutam por seus direitos, de pessoas fúteis que valorizam a moda, os bares, as bebidas, o sexo e desprezam impiedosamente os famintos e necessitados de comida, roupa, e dignidade.

– Aí sim, hein, João? Parece que o livro é uma obra prima... O que eu faço?

– Nada. Só leia. O resto, dou um jeito.

– Então você quer uma análise?

– Isto mesmo. Leia e me diga o que está bom e o que está ruim.

– Está bem.

– Depois, me liga – falei dando o número do meu telefone para ele.

Enquanto aguardava a resposta do professor, ia sofrendo dos assédios morais do meu patrão e me convalescendo à cada dia de inveja dos semi-deuses e desse escritor jovem que nem eu. Num dia, apareceu no restaurante um ator famoso, conhecido no Brasil e no exterior. Ao vê-lo, quase não acreditei. Ele estava junto de um colega. Aproximei-me à mesa dele, levando o cardápio; e sem hesitações, perguntei se ele era quem eu estava pensando que fosse.

– Sou eu mesmo.

Pensei em falar com ele sobre os meus escritos naquele mesmo momento, mas, começou a chegar mais clientes para atender e resolvi deixar para outra oportunidade. Enquanto atendia os outros clientes, pensava comigo: fale com ele, João, vai que ele te ajuda; não perca esta oportunidade! Era num almoço de Sábado. Ao mesmo tempo em que atendia um monte de gente, ficava lhe cuidando. Assim que ele terminou e pediu a conta, decidi falar-lhe, firme.

Mas, não foi preciso, ao menos por enquanto, pois, logo em seguida apareceu aquele playboy que já falei aqui, acompanhado de sua turma, com o jovem escritor junto. O playboy e o jovem escritor conheciam-o, e logo me mandaram ajuntar mesas para sentar todos juntos. Ajuntei as mesas e disse: agora estou fodido. Disse isto porque já passava das duas horas e ia ter que atendê-los até umas nove da noite, tal como eles costumavam ficar. Prestando atenção à conversa dele, fiquei sabendo que estava dirigindo um filme agora, que seria filmado aqui na cidade. Numa hora, quando ele foi para o banheiro, ao voltar acabei lhe abordando. Falei para o ator famoso e agora diretor de cinema que tinha dois livros prontos, o Relatos Indecentes, o É assim que a Vaca vai pro Brejo e O Arco da Velha, e que era formado em Filosofia. Assim que falei a minha formação, o homem deu um pulo, impressionado: Filosofia?!

– Isto – respondi pensando: no mínimo ele deve estar se perguntando: o que um sujeito com o diploma de Filosofia fazia ali, trabalhando como garçom?

– Bom, hein. Onde você se formou?

Falei-lhe a faculdade.

– E os livros, do que é?

– Dois de contos e um romance.

– Um romance?

– Isto.

– Fala sobre o quê?

Expliquei-lhe.

– Hum, parece bom.

– Deve ser. Mas gosto mais dos contos.

– Por quê?

– Dá menos trabalho.

– Ah, sim. É mais sintético, não?

– É.

Depois disto, falamos sobre alguns autores, como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Plínio Marcos. Falei que a minha literatura tinha quase o mesmo estilo que os destes. O homem se interessou, e quis ler os textos, porque ele conhecia muita gente que podia publicá-los. Como eu não tinha nenhum texto ali comigo, pedi o seu e-mail, e ele me deu. Enquanto escrevia o seu e-mail, me falava sobre o filme que estava dirigindo. Assim que acabou, voltou para a turma do playboy, dizendo que aguardava os textos.

Lá na mesa, ele me apontou para aqueles que estavam mais próximos, dizendo o garçom ali é filósofo e escritor, sabiam? Ninguém sabia, e ninguém deu ouvido também para a sua novidade. Logo depois, eu estava invisível, tanto para ele quanto para os demais. Na hora de ir embora, apertou a minha mão, se despedindo, dizendo que ia esperar pelos textos. Disse que sim e voltei ao trabalho, que era limpar toda aquela sujeira que ele e seus amigos deixaram. Já era noite, e assim que foram embora, começamos a fechar o restaurante, para abri-lo no outro dia, cedo. E assim que larguei o expediente, passei numa lan house e enviei alguns textos para ele. Agora, quem aguardava quem era eu. E aguardava duas respostas: a dele e a do professor Augusto.

Uma semana depois, este ator famoso reapareceu, acompanhado de sua equipe de filmagem, com cinegrafistas, atores e atrizes. Ao me ver, cumprimentou, dizendo para todos eles: é esse o que falei para vocês, que é escritor. Todos me olharam, dizendo: já está famoso! Mas, assim que disseram, logo depois voltei a ficar invisível novamente: eu não era um escritor engraçado, era um garçom qualquer com vontade de ser alguma coisa na vida. – Daqui a pouco a gente conversa, João – disse ele. Ao atender a sua mesa, apareceram outros clientes para atender também.

Enquanto atendia esta legião de deuses e semi-deuses, de repente tive a impressão de que já havia sonhado com esta noite antes. Pensando sobre isto, vi que podia ser apenas coisa da minha cabeça. Entretanto, continuei na tentativa de recordar este sonho. Fui tentando, tentando até que consegui; mas no sonho, havia fogos de artifício dando um espetáculo no céu. – Bom, só faltam os fogos agora. Não deu outra. Meia hora depois, ali perto houve um show pirotécnico. A confirmação? A confirmação de que tudo vai dar certo? Será este o marco de minha saída do purgatório? Estou entrando no Paraíso? Negativo. Quem estava entrando no Paraíso era o meu patrão. Dali à pouco, o ator e diretor de cinema lhe chamou, dizendo que ia filmar algumas cenas ali no restaurante, e que queria que ele encenasse também.

– Será que dou conta?

– Dá sim. Amanhã eu passo aqui, ensaiamos, e depois, na próxima vez que voltar à cidade, filmamos.

Depois de combinarem, foram embora. Antes de ir, o ator veio falar comigo: agora estou muito ocupado, mas quando voltar à cidade de novo, sentamos e conversamos.

– Mas, vem cá, você gostou dos textos?

– Gostei.

– Então vai dar tudo certo – falei-lhe.

Ele achou estranho eu ter falado isto, mas apertou a minha mão e foi embora. Isto me deu um certo contentamento, mas queria algo mais sólido. Contudo, era um sinal, um sinal que logo, logo iria deixar o meu Purgatório. Dias depois, o professor Augusto me ligou.

– Li os originais, João.

– Leu, é?

– Li.

– E aí?

– E aí que eu tenho uma pergunta para fazer antes de dar as minhas considerações.

– Pode fazer, professor.

– Você acredita em Jesus Cristo?

– Claro que acredito. Mas que diabo Jesus Cristo tem a ver com a Literatura, Deus do Céu?

– Tudo a ver, João.

Em verdade, em verdade, eu tinha que concordar: Jesus Cristo tem tudo a ver com a literatura. Mas, não queria, pelo menos naquele momento, aparecer como um escritor metafísico – e quando digo metafísico não me refiro a esses escritores que deixam claro a sua fé em seus escritos, e sim aqueles que ocultam, que deixam de um modo disfarçado. Assim são aqueles que usam da literatura para humanizar, para mostrar que o amor está acima de tudo, sem com isto deixar de mostrar também as misérias humanas, numa sondagem profunda. Deste modo, não quis entrar numa discussão; do contrário, diria para ele, mesmo lhe agredindo: vem cá, virou padre agora, é? Deixou de ser doutor, é isto? Ao invés, apenas falei:

– Realmente, professor, tem tudo a ver.

– Eu sabia que você me compreenderia.

– Compreendo perfeitamente. Grandes escritores foram cristãos, como por exemplo Guimarães Rosa, Jorge de Lima, Dante e etc. E os que não foram, pelo menos lutaram pelo mesmo ideal, só que de outra maneira.

– Perfeitamente. É isto o que quero lhe dizer, João.

– Sim.

– Bom, o que tenho para te dizer é que a Literatura é um sacerdócio: não se pode querer ganhar a vida em cima dela. Antes, com as suas poesias, você era um poeta, quero dizer, um bardo. Percebia claramente que a sua literatura não tinha fins comerciais, como agora. O que vejo nestes seus livros é isto, João, obras destinadas à venda, à ganância de querer ser best seller’s.

– Por que você diz isso?

– Porque em suas obras se vê constantemente os três elementos essenciais para a venda de ficção hoje em dia.

– Quais são? – perguntei para ele, só para ver.

– Sexo, violência e morte. Hoje em dia, todo mundo gosta. Não sei até quando esta epidemia vai continuar eliminando escritores bons, tal como você era, com as suas poesias, antes de se vender.

– Eu não me vendi.

– Vendeu sim, João, e você sabe disto.

– Não, professor, eu te juro, não me vendi. Só uso estes três elementos essenciais para atrair os leitores para assuntos mais sérios.

– Mas, não precisa disto, e você sabe muito bem. Se você quiser, pode falar sobre estes assuntos mas de maneira mais bela, mais profunda. Portanto, repito: você se vendeu, João.

– Professor? Eu não me vendi!

– Se assim é, João, rasgue os originais aí que eu rasgo eles aqui e está tudo em ordem.

Para não decepcioná-lo, falei:

– Ok, ok. Vou rasgar.

– Eu sabia. Escritores bons como você tem que resistir às tentações do mercado. Ou você faz literatura, ou você faz comércio. Não se pode servir a dois senhores, entendeu?

– Mas não é possível conciliar os dois? – tentei, ainda.

– Meu amigo. O que você acha que vende mais hoje em dia: Tolstoi, Sthendal, Fiódor Dostoiévski, Shakespeare, Sidney Sheldon ou Dan Brown?

– Paulo Coelho.

– Então. Qual lista que você quer entrar, na primeira ou na segunda?

– Em relação a dinheiro, na segunda.

– E em relação à genialidade?

– Na primeira.

– Então você escolhe: ou a genialidade e pouco dinheiro, ou mediocridade e fama.

– Escolho o primeiro.

– Sabia que você iria tomar uma decisão inteligente.

– Obrigado.

– A Literatura precisa de autores austeros!

– Austeros!

– E você tem capacidade para isso, João.

– Tenho?

– Deixe de modéstia, homem.

– Não é modéstia. É auto-estima baixa.

– Pois então acabe com isto!

– Vou acabar.

– Um abraço, João.

– Outro.


III

Desliguei o telefone e fiquei pensando em tudo o que o professor disse. No começo, não me deixei levar pela sua crítica, mas depois, vendo que ele tinha razão, fui entrando em crise. Realmente, eu havia perdido o ideal. Estava pensando na fama, apenas na fama, e no dinheiro que poderia ganhar. Ou seja, estava trocando o verdadeiro e eterno pelo falso e transitório. Isto. Era isto o que estava fazendo!

O João da Silva aqui, desesperado, estava se vendendo, para falar com as palavras do professor. Do contrário, não precisava colocar cenas fortes de violência, de sexo e morte para falar o que queria falar. Não precisava ser tanto agressivo como estava sendo, para apenas causar impacto e conquistar os leitores. Não precisava nada disto. Bastava a simplicidade, a leveza, a graça e a ironia, só. Fazer como fizeram Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Clarice Lispector e principalmente Guimarães Rosa. Nada de violências, apelos eróticos, pornografias e personagens rebeldes ou estranhos. Desta feita, levando em consideração as palavras do professor, eu tinha duas opções: rasgar os originais, esquecer a fama e o dinheiro que dá este tipo de literatura, ou enviá-los para as editoras e quem sabe ter a sorte de sair da lama.

Era uma escolha difícil, demasiadamente difícil. Em casa, quando estava tranqüilo, longe de tudo aquilo que me aporrinhava, e bem perto da presença de Deus, dava vontade de esquecer o passado, o presente, e optar pela boa literatura, isenta de qualquer culpa e traição. Por uma literatura que, sem sombra de dúvida, nunca sabemos se o reconhecimento virá durante a vida. Mas, no serviço, me irritando cada vez mais com o meu Purgatório; com todo fim de semana sendo a mesma coisa, a mesma cena, a mesma história; com aqueles deuses e semi-deuses me dizendo, sempre: você, João, é pobre; você, João, é baixo; você, João, é inferior; precisa passar por muitos calvários para ser um semi-deus, para desfrutar do paraíso, como nós, jovens ricos, que não tem a vida como sofrimento, e sim como prazer, eu então pensava egoisticamente e dizia: foda-se, foda-se, foda-se tudo!

Com o peso material pesando mais na minha balança, decidi: sair da lama a qualquer custo! Não estava nem aí se isto me custasse o preço da traição, traindo o professor, a literatura e a arte acima de tudo. E assim, sem escrúpulos, sem nenhuma vergonha na cara, pensando unicamente em sair do Purgatório em que estava, peguei todos os meus livros, organizei tudo bonitinho e mandei os originais para as editoras. Enquanto aguardava, ia sofrendo com a realidade ali, forte, com os clientes dizendo que eu era pobre e com um patrão me chamando de incompetente e burro. E quanto mais sofria e padecia na mão desses deuses e semi-deuses, mais me apegava a doutrina espírita para responder a minha pergunta principal: por que eles são ricos e eu sou pobre se todos somos filhos de um mesmo Deus?

No mínimo, muito provavelmente fui um rico orgulhoso em vidas passadas, que vivia tirando o sarro dos garçons. Ou então, um professor vaidoso e arrogante, desses bem auto-suficientes. Alguém que não precisava e nem respeitava Deus, e que agora, desprovido de tudo, era convocado a amá-lo, e me resignar, e aceitar todas as suas provas de amor. Contudo, a cruz era pesada demais, e comecei a trabalhar mais ainda de qualquer jeito. Fui sucumbindo à minha missão. E o árabe, vendo isto, começou a me agredir mais ainda. Passou a gritar comigo com mais freqüência. E, por saber que eu era formado, falava com deboche para os seus amigos árabes: é professor, ele. Num dia, me chamou de garçom porcaria. Eu só não briguei fisicamente com ele porque nunca havia visto na minha vida um funcionário agredir o patrão. Você já viu? Tem gente que já.

Engolia o homem, era obrigado; e me perguntava pelo ator e diretor de cinema: onde está você, que não aparece? E quanto mais o árabe me assediava moralmente, mais fraco ficava diante da vida. Voltei a olhar indiscretamente as mulheres dos outros. Estas, muitas vezes iam sem calcinha por debaixo da saia, deixavam os seios soltos no decote, eu olhava para a bunda redonda delas, para as pernas torneadas, para a cintura fina e tinha vontade de ir ao banheiro, bater punheta como batia antes. Mas, me controlava. Respirava fundo e dizia comigo: calma, João, calma; sossega o facho, em breve você se tornará famoso, e poderá comer mulheres tanto ou mais bonitas que estas...

Para cuidar da minha vida afetiva, saia, ver se arrumava uma namorada. Novamente, vi que a minha auto-estima estava péssima. Eu ia nos bares, nas boates, e não conseguia nenhuma mulher bonita como aquelas que atendia no restaurante árabe. Sem sucesso, bebia, e saia das danceterias e dos bares completamente bêbado.

– Oh, fraqueza! – eu bradava agora com a voz bêbada pelas ruas, evitando o máximo possível ofender os deuses lá em cima.

Lembro até de uma vez em que, decididamente obstinado a conseguir uma mulher bonita, fui à uma dessas danceterias luxuosas onde só vai gente de alto nível. Assim que entrei, eu disse: é hoje, João, que você tira a barriga da miséria! Sem demora, saí cantando as mulheres que passavam por mim. Ao ser rejeitado por umas dez mais ou menos, finalmente uma loira alta, bonita e educada se interessou. Ficamos conversando por um bom tempo, até chegar a hora dela ir embora de carona com uma amiga. Mas antes, me deu o sinal:

– João, já estou indo embora, com a minha amiga.

A mensagem sublunar, ou melhor, o que ela disse em entre linhas era: João, me leva para casa, me leva?

Ora, como eu não tinha carro nem muito menos dinheiro sobrando para pagar um táxi e quem sabe levá-la depois para um motel, a única coisa que pude fazer foi ficar com raiva por dentro, e dizer: ok. Na hora, devido a minha completa indignação, não tive nem mesmo inteligência para pedir seu telefone. Deixei-a ir, e completamente derrotado, resolvi voltar para casa. Lá fora, o azar ainda maior: chovia forte, numa chuva que parecia que nunca iria acabar – se ia ficar doente ou não, não me importei no momento, e fui embora, debaixo de chuva mesmo...

– Até quando, oh Senhor, até quando?

Para piorar mais ainda o meu espírito, inventei de procurar as mulheres do meu passado: primeiro fui atrás da Cátia, e ela disse nossa João, como você está derrotado! Depois, fui atrás da Aline: não te conheço mais, João; onde está o professor brilhante que conheci? Não sei, respondi para ela, numa tristeza incomum. As duas, me vendo neste estado, não quiseram mais nada comigo, é claro. Lembrei do tempo em que as levava para cama e fazia de tudo, numa potência que dava orgulho. Ao lembrar disto, perguntei-me: João, será que o seu pau ainda levanta? De todo modo, resolvi verificar.

E como não tinha mulher alguma devido ao meu fracasso, o jeito foi conferir solitariamente. Então eu ficava olhando para os seios das clientes, para as pernas delas, e excitado, esquecia do possível sucesso no futuro e corria lá pro banheiro, fazer o que não se deve fazer em horário de serviço. Satisfeito com o desempenho, voltava para o salão com a auto-estima um pouco melhor; entretanto, logo vinha aquela voz que derruba a gente e que deve ser a voz do diabo, só pode, dizendo: nos cinco contra um é fácil, João, eu quero ver se você ainda agüenta com uma mulher de verdade!

– Será que ainda levanta?...

Para ter certeza de que ainda era potente, vi que tinha, de uma maneira ou de outra, levar uma mulher para cama. Tentei esquecer que era professor derrotado e um garçom fodido e comecei a conversar com todas as mulheres que me davam atenção. Não obstante, nenhuma mulher dava mole para o João fodido aqui: por mais que me esforçasse, ousasse e pedisse, a resposta era sempre não. Sem conseguir arranjar alguma mulher, fiz o que um homem faz nessas horas: fui a um prostíbulo. Lá chegando, escolhi uma morena bem bonita, levei-a para o quarto, passei vexame. Fiquei com raiva, furioso, e xinguei a morena, o quarto, o prostíbulo; e sem conseguir me conter, xinguei também a vida e os deuses todos, inclusive o Criador – é assim que a gente blasfema sem ver.

Depois, me vesti, paguei a mulher e voltei para casa. No caminho, passei num mercado e comprei uma garrafa de vodka, para bebê-la até o fim, a ponto de esquecer pelo menos um pouco a minha vida. No caixa, havia na minha frente uma bela mulher conversando com o operador, um rapaz que devia ser um pouco mais novo do que eu. Olhei para o corpo dela, vi as marcas de biquíni aparecendo nas costas, e disse para mim mesmo: o que adianta olhar, João? Desviei os olhos e prestei atenção na conversa dos dois. O operador estava reclamando de uma senhora que queria pagar apenas cinqüenta reais quando a sua conta era de cinqüenta e um. Motivo: os operadores sempre ficavam lhe devendo alguns centavos, e agora ela queria tudo de volta!

– Não estou conseguindo pagar nem as minhas dívidas e agora vou ter que pagar as dívidas dos outros? – disse ele, com uma voz fina, efeminada.

Ao ouvir isto, essa bela mulher olhou para mim e riu. Depois, pegou a sua compra, que era apenas de uma sacola, e saiu, devagar. Eu, na minha vez, paguei a vodka e sai andando, rápido. Passando ao seu lado, ela me olhou mais uma vez e soltou o comentário de que para ela o rapaz do caixa era bicha. Sem perceber, falei o que pensava a respeito da voz do operário:

– O sujeito ganha uma miséria, não consegue pagar nem as contas, e você ainda quer que ele fale grosso, que nem homem?

Ela riu, pegou no meu braço e pediu para dizer o meu nome. Falei. Então ela perguntou onde eu morava e daí fui obrigado a mentir o endereço, falando que a minha casa ficava lá do outro lado da cidade, pois, assim dizendo, ela desistiria logo cedo de qualquer tipo de envolvimento comigo. Mas, foi o mesmo que dizer: eu moro bem ali, vamos lá para casa? Porque assim que disse o falso endereço, ela falou: eu moro a uma quadra daqui, vamos lá, conversar um pouco? Eu só não falei para ela que conversar é coisa de gente desocupada porque hoje em dia há uma supervalorização da conversa.

– Estou atrasado, moça –, falei-lhe.

– Jura?

– Por tudo quanto é mais sagrado.

– Pra onde?

– Trabalho.

– Pro trabalho e com uma garrafa de vodka debaixo do braço?

– Essa garrafa é para o meu pai, que é alcoólatra –, falei.

– Vai, só um minutinho –, pediu ela, ainda.

– Sinto muito – falei, atravessando a rua, fugindo.

Bebi a garrafa de vodka inteirinha, e no outro dia, lá estava eu enfrentando o anjo de Satanás que era o meu patrão. E quanto mais eu tentava agradá-lo, mais o homem me humilhava. Não podia me ver fazendo nada errado, algo simples e insignificante que fosse, que já me chamava a atenção na frente de todo mundo, inclusive dos clientes ricos que eu invejava até mesmo o nome. E quanto mais ele me agredia, quanto mais ele me desaforava e descarregava todas as suas tensões para cima do João fodido aqui, mais eu me afundava na vida. Enquanto isto, as editoras não me mandavam nenhuma resposta: cadê, pai Benedito, o cumprimento de sua profecia? – perguntava.

Tive vontade de voltar lá no terreiro, mas, a vergonha era maior: como ia olhar para eles depois de chamar seus médiuns de malucos da silva? Não dava. Perguntava também: cadê este ator, que não aparece de jeito nenhum? Para ver se alguma coisa dava certo em minha vida, resolvi então procurar uma igreja, e fui primeiramente numa católica. Mas, a igreja católica estava fria de mais. Eu precisava de uma fé mais quente, e por isto resolvi ir a uma igreja pentecostal. Lá eles acreditavam na existência dos encostos, mas não na reencarnação. Não falei com nenhum deles sobre isso. Eu não estava ali para discutir doutrina. Eu estava ali para ser enganado. Mas isso eu só fui ver tempos depois.

O pastor disse, quando pedi para ele abençoar meus livros:

– Você quer ver seus livros conquistando o mundo todo?

– Quero! – falei, como se fosse um cachorro babão, na frente do osso.

– Faz sacrifícios.

– Que tipo de sacrifícios?

O salário do mês, algo de valor que eu gostava, enfim, algo que doesse o meu coração, pois aí, Jesus, lá do alto, iria ver a minha ação, e iria me retribuir mais de sete vezes sete. Acreditei. Fazia sentido. Se Salomão fazia isto, se todos os heróis da Bíblia fizeram sacrifícios para alcançar o céu, porque eu não podia fazer também? Não fiz um como fiz vários. Quanto mais eu queria deixar o Purgatório; quanto mais o meu patrão me ofendia; quanto mais eu tinha vontade de ser como os semi-deuses que apareciam lá no restaurante; quanto mais demoravam a resposta das editoras e a volta do ator famoso e diretor de cinema, eu sacrificava mesmo: sacrifiquei o meu salário, o meu PIS, tudo, tudo o que eu tinha de algum valor. É claro que eu estava sendo enganado pelos pastores.

Fora isto, pelo menos me deu um certo equilíbrio, e passei a sentir que a minha vida iria ser melhor. Comecei a ganhar mais gorjetas e, finalmente, a mulher do meu patrão me falou que ia me dar cinco dos dez por cento, pois o contador lhe avisou que era do meu direito. Mas isto ela não disse, que era do meu direito. No lugar, quis dizer que gostava de mim e queria me ajudar, como se estivesse fazendo caridade. Eu olhei bem para a cara dela, ri, balancei a cabeça que não, olhei para o Céu, depois olhei para ela, e falei tudo bem – os cinco por cento eram melhor do que nada. Entretanto, a burra entendeu errado, junto com o burro do esposo dela. Eles achavam de que de cem reais, por exemplo, não ficava para mim os cinco reais, e sim cinqüenta centavos. Não era algo para mandar a pessoa dar uma voltinha lá pelos Quintos dos Infernos?!

Expliquei para eles como se fazia as contas, e acabaram fazendo a “minha” vontade. Mas o árabe passou a me olhar diferente, achando que eu estava lhe passando a perna. Chegou inclusive a perguntar se eu sabia matemática, e eu falei que melhor do que ele.

– Eu vou te levar na faculdade onde você estudou para os seus próprios professores te mostrarem o quanto você é burro.

– Vamos, e você quebrará a cara, não sabe nem fazer conta de porcentagem...

Ele teve de engolir. Continuou me dando o que era meu, de direito, mas com pé atrás, achando que eu estava lhe roubando. De repente, resolveu parar de me dar os meus cinco por cento. Eu liguei para o sindicado, e lá eles me falaram: ele está metendo a mão no seu bolso... Incrível, não?, disse para mim mesmo: o rico roubando o pobre... Falei para o árabe a respeito dos meus cinco por cento, e ele disse: agora você virou o meu sócio? Respondi que estava querendo o que era meu, de direito. E ele disse: agora vou dar o que é meu por que te amo? Não falei nada depois disso. A vontade que me dava era a de pedir as contas, sair antes que enlouquecesse de vez. Mas, segundo as minhas contas, estava perto do ator chegar – se ele me desse uma oportunidade que fosse, quem sabe sairia por cima, e não por baixo, como eu estava.

Acho que era só este fator que me prendia ali, naquele purgatório pesado, cheias de caixinhas de Pandora por todos os lados. Fiquei, fazendo o meu serviço até ele contratar outro garçom. Logo soube o que ele queria, e por isso, fui dando um foda-se para ele, um foda-se para a mulher dele, e um foda-se para os seus filhos, que, mesmo sendo ricos, tinham a capacidade de meter a mão na minha gorjeta também: tai pai, tal filhos. Num dia, ele apareceu nervoso, olhei para ele com cara de deboche, e ele perguntou: o que é a vida para você, João? O que é a vida para mim?, eu me perguntei.

De tão mal que estava, não consegui nem mesmo perceber que estava diante de uma afronta; de que ele só estava aguardando o momento certo para dizer algo vingativo para mim – pois quando ele disse isto estávamos sós – e; também, não imaginava se quer que esta pergunta me perseguiria por um bom tempo. Deste modo, a única coisa que conseguir responder, e mentalmente ainda, foi: uma provação! Isto! A vida para mim é uma provação! Pensei em dizer o que pensei para ele mas iria parecer uma dessas pessoas religiosas cujo fanatismo é grande demais, e fiquei quieto, calado.

Em contrapartida, porém, me veio como lampejo um grito revoltado de meu super-ego, dizendo: ei, o filósofo aqui sou eu! É claro que eu não era um filósofo no sentido profissional da palavra, um desses pensadores respeitados que ganham a vida pensando; era sim um filósofo no sentido figurado, disfarçado, escondido por detrás do uniforme de garçom e da estética das palavras. Então, eu me enchi de coragem e lhe disse:

– O mesmo para você!

Não concordou.

– A vida não é igual para todos? – falei, então.

– Não sei. A única coisa que sei é que a vida para você não é a mesma para mim...

O semântico contra o pragmático falando sobre o transcendental: ou seja, interpretações diferentes sobre a mesma realidade... Dias depois, ele me deu às contas, dizendo que era eu quem queria aquilo. Eu disse que não: quem estava querendo que eu fosse embora dali era ele mesmo afinal, para não me pagar os cinco por cento, mas que, graças a Deus, existe a Justiça, e que eu iria lutar para fazer valer os meus direitos. Depois, com todo o prazer, virei as minhas costas para ele. Peguei as minhas coisas e fui embora, sentido livre de um peso muito grande sobre os ombros.

– Adeus, ladrão filho da puta – foi o que eu disse ao sair deste restaurante.

Com muito orgulho, publico aqui a primeira parte do romance: Enquanto a Fama Não Vem. É o livro que mais gostei de escrever, e o mais engraçado. Vocês vão gostar. Já publiquei o romance em impresso e muita gente quase morreu de rir. É bastante divertido, cômico. A história de um garçom que sonhava com a fama literária. Para vocês, vai aqui então a primeira parte do livro.

06:01

ENQUANTO A FAMA NÃO VEM

Postado por Glauber da Rocha |

Capítulo 1: O Inferno.

I

Esta minha vida era um verdadeiro inferno, com o perdão da palavra. Eu só não dava um fim porque sabia que era essa a vontade do maligno: suicidava-me e ia viver lá no Vale dos Suicidas, como certa vez disse um amigo meu. Era o que acreditava. Já pensou? Viver ao lado de um monte de gente que acabou com a própria vida? Deus me livre! O melhor é viver, ainda que nada esteja bom, e lutar, a fim de sair da posição inferior, deixar para trás toda a condição miserável, própria dos pobres diabos como um dia fui.
E o que era um inferno em minha vida merece ser contado aqui. Não que eu queira ser aquele sujeito que adora reclamar, longe disto. Mas é que é preciso contar, pintar as profundezas, caracterizar os demônios, dizer como é quente o fogo, terrível a sede, indecorosa a fome. É preciso viver e reviver, sentir e ressentir, até que se possa perdoar, ficar em paz com o passado, estar de acordo com a vida. Eu sei que não será nada fácil, ainda mais porque nestas linhas terei que expor vergonhas, vilezas, mesquinharias, misérias humanas de todo tipo, e correr o risco de produzir uma literatura que passa longe de ser bonita.
Mas mesmo assim, vou contar tudo. E para começar bem, falarei do meu antigo emprego de garçom numa pizzaria, onde trabalhei por três anos mesmo contra a minha vontade. Ao que o leitor pode perguntar: por que eu trabalhava então nesta pizzaria dos infernos se não gostava nem um pouco deste serviço? Trabalhava porque tinha que ajudar em casa, eis a minha resposta. Ou então, não fazia nada e deixava ver no que dava, que no mínimo seria uma desgraça ainda maior, destas que se vêem em certas casas, onde o filho bate na mãe por causa de comida ou coisa pior, como por exemplo alguns colegas da minha juventude, que batiam na mãe, nos irmãos menores, nas irmãs e quem quer que fosse quando a situação estava negra – não, não queria isto para a minha família de jeito nenhum.
Por este motivo, não podia ficar esperando um emprego melhor para começar e muito menos pelo dia que passasse no vestibular para fazer a faculdade de Jornalismo que tanto queria, pois, se assim acontecesse, certamente não iria trabalhar numa pizzaria enquanto me formava, mas quem sabe num jornal como estagiário sim, escrevendo, andando sempre bonito, de terno, com a cabeça erguida e a postura de vencedor. Aí sim ia ser motivo de orgulho para a mãe, de inveja para os colegas e de ciúmes doentio para as namoradas.
Sem contar que não iriam faltar oportunidades para publicar alguns de meus contos e algumas poesias no suplemento cultural, preparando o caminho para me tornar um escritor, coisa que desde os quinze anos quis ser. E quem sabe, já ir ganhando leitores, afinal de contas, um jovem de dezoito anos, que gosta de romances, contos e poesias, sempre acaba escrevendo algo bom, sempre! – só quem não gosta é o próprio autor quando fica mais velho e mentiroso, renegando tudo o que escreveu com verdade.
Mas, como na vida nem tudo é como a gente quer, principalmente na minha, trabalhei sim de garçom durante três anos da minha preciosa vida em uma pizzaria... E trabalhar nesta pizzaria era um sofrimento verdadeiramente infernal. Lotava de clientes. Tinha que correr, gritar, pensar rápido e, o pior de tudo, ficar até de madrugada atendendo aqueles clientes malditos e desgraçados! Era uma legião de demônios por noite! Havia vezes que, de tantos clientes para atender, dava vontade de sumir, de sair gritando, de correr pelas ruas feito um doido; porém, ou corria para colocar ordem em todo aquele serviço infindável ou deixava a desordem e o caos falar, que seria muito pior, com certeza seria.
Aliás, até sonhar com esta pizzaria infernal eu sonhava. Sonhava que começava a chegar cliente de tudo quanto é lugar, ao mesmo tempo, e por isto, fugia correndo para o banheiro para me trancar lá dentro. O meu patrão batia na porta dizendo que não parava de chegar clientes para atender, e eu, enfim, fingia que não era comigo: tomava um banho frio, pegava no meu corpo, cagava, dava uma olhada no espelho ou fazia outra coisa bizarra qualquer – sempre que tinha este tipo de pesadelo, eu acordava sem saber se era de dia ou se era de noite, e custava a dormir depois, com medo de ter outro pesadelo como este, de sonhar com este meu serviço nojento.
E mais nojento ainda era esse meu patrão, figura de ânsia para meu estômago e sinônimo de revolta e ressentimento em minha vida. O Labão não dava férias e nem décimo terceiro, alegando que éramos diaristas em sua pizzaria e que quem não quisesse assim havia outros que queriam, e toda essa conversa de patrão desonesto. Assim, até eu subia na vida. Logo, logo estava como ele, com carro do ano, casa mobiliada, móveis caros, cinema todo final de semana, vinho caro na adega, viagens para o litoral, faxineira para limpar o meu banheiro, a minha pia, o meu esgoto, dar presentes caros para os outros e tudo isso que o pessoal gosta de fazer quando começam a melhorar de vida.
Desse jeito, até eu...
No entanto, como não tinha outro trabalho, era obrigado a suportar tudo isso. Além do mais, precisava comer, ajudar no aluguel de casa, na conta de água, de luz, roupa, enfim, todas essas coisas que precisamos pagar na vida. Não sobrava dinheiro nem para comprar um presente para alguém; ou então, para comprar um sapato novo, uma roupa nova, um perfume que atraísse ao menos uma garota bonita a fim de me namorar, um dinheiro para assistir os filmes no cinema que todos comentavam. Em outras palavras: inferno de vida!
Era feia, a coisa.
Não havia uma mulher bonita que queria saber do João fodido aqui. As que queriam saber de mim sempre tinham um defeito: se não era gorda era desdentada; se tinha bunda, tinha pouco seio; se tinha muito seio, tinha pouca bunda; se não tomava remédio para depressão, era uma alcoólatra e fumante compulsiva que nem eu. Só não as renegava para não viver completamente solitário, e também, porque tinha muita imaginação, para falar como Marcel Proust. Entretanto, havia vezes que emburrava e dizia: já que não vou ficar com uma mulher bonita, não vou ficar com uma feia também!
Isto geralmente acontecia quando ia a alguma festa, alguma boate e era repelido, que nem encosto na mão do pastor, pelas garotas e pelas mulheres bonitas. Vivia saindo bêbado das festas em que me aventurava. Mas também: como que ia competir sem uma roupa nova, cara, sem carro nem vitórias para cantar? O jeito era voltar com fome e solitário para casa, xingando o chão, o céu, os deuses todos, não deixando nenhum deles de lado, nem Jesus Cristo como muito menos alguns dos Orixás; para depois, no outro dia, atender aquelas diabinhas lindas na pizzaria, que iam sem calcinha por debaixo da saia só para me deixar excitado e nada mais...
A maioria delas ia com o namorado, com o amante ou sei lá o quê. Iam e mostravam as partes íntimas para o garçom aqui, que olhava para aqueles seios, para aquelas vaginas, para aquelas coxas e saia correndo para o banheiro, socar uma punheta. Era algo muito rápido, porque a imagem ficava viva aqui, bem nítida, perfeita em minha cabeça: se os seios eram loiros, os biquinhos eram rosas; se os seios eram marrons, os biquinhos, pretos; se os seios eram brancos, alguns biquinhos eram brancos, outros rosas, e outros pretos; se a vagina era pelada, via-se os lábios; se não era, os pentelhos, cada um com uma forma...
Então, em um minuto eu gozava lá no banheiro, dava a descarga e voltava menos irritado para o salão, com os olhos mais devagar para essas coisas, fingindo que a vida estava boa. Mas o pior era que de bom não tinha nada. Sempre tinha os homossexuais para me importunar, para me tirar a paciência, para me provar que a minha vida era um verdadeiro inferno – neste tempo, que ainda não conhecia o filósofo Jean Paul Sartre, concordaria plenamente com ele se ouvisse a sua afirmativa, a de que o inferno são os outros!
Pois, na minha vida, ao meu redor, não havia ninguém que pudesse contrariar esta teoria, nem mesmo a minha mãe. Mas, voltando aos viados que atendia. Eles sempre andavam de bando. Quase nunca sozinhos. Quando não muito, de dois. Ao vê-los, já os reconhecia de longe, e soltava um inferno para o chão, e ia atendê-los, mesmo contrariado. Me aproximava à mesa deles e perguntava o que eles queriam.
– Nós queremos piça, você pode dar, garçom? – falavam, os pederastas.
Eu dizia:
– Pizza? Pizza tem, qual sabor? – falava em seguida, como se não tivesse entendido.
– Salgada – respondiam, os sem-vergonhas.
Eu ria, para não ser mal educado, mas por dentro tinha ódio, tinha vontade de partir para cima deles, de quebrar a cara deles no meio. Não que eu fosse homo fóbico, mas porque a minha vida era um inferno, porque eu queria que essa fala fosse feitos por elas, as mulheres que eu vivia prestando homenagem no banheiro, e não por estes tarados sacanas, que olham para a nossa cara e mesmo sabendo que não somos da mesma religião ficam com mil piadinhas de mau gosto, com cantadas que só acendem a fúria de gente revoltada como eu.
– Agora é sério... – falavam, ameaçando cortar a brincadeira.
Mas era só o começo.
Depois perguntavam se dava para fazer uma pizza meia a meia. Eu dizia que sim.
– E de três sabores, pode?
– Sim – eu respondia.
– E de quatro, dá para fazer de quatro? Uma de quatro bem gostosa?
E dá-lhe aquelas gargalhadas toscas. Isto era o fim para mim. Só não os mandava tomar naquele lugar porque era isso o que eles queriam no fim das contas; no mais, eu tinha que seguir a maldita moral que os fortes e superiores impõe aos fracos e inferiores, que diz: o cliente tem sempre razão!... Sabe de uma coisa? O cliente nem sempre tem razão; e na maioria das vezes, o cliente é na verdade um sujeito miserável que só porque tem um trocado no bolso pensa que pode tudo, inclusive pintar e bordar na cara do garçom.
E tudo isto me causava uma profunda indignação. Tinha vontade de sair dali mas não conseguia. Estava preso, sem poder decidir o meu futuro. O darwinismo social, como certa vez disse um amigo meu, ditava o meu destino. E se nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir, como disse Sêneca, só comigo que não acontecia o mesmo. Pois eu sabia para onde queria ir, que era pular o fora dali o quanto antes, entrar na faculdade de Jornalismo para não acabar tomando veneno de vez, ou quem sabe parar num hospício, num desses hospitais psiquiátricos cheios de zumbis para todos os lados.
E o pior é que o mundo dava voltas para todo mundo, menos para mim, como disse num momento furtivo o escritor Antônio João. Dos meus amigos mais inteligentes, todos estavam se dando bem, menos eu. E sabe por que? Porque eu estava preso! É isto! Eu estava preso, pagando por uma dívida que não sabia se era desta vida ou se de outras passadas. Estava numa prisão tão fechada que não tinha deus que me libertasse, nem mesmo o mais poderoso.
Era o meu karma, E se não era karma, devia ser um encosto, um espírito zombeteiro brincando com a minha vida. Sim, porque só podia ser coisa feita, algo muito bem pago para o demônio mais poderoso, um trabalho cuja oferenda o macumbeiro devia de ter levado ao pé de uma cachoeira bem perigosa, porque quanto mais arriscado o sacrifício, maior a eficácia da mandiga – se não era o meu karma, só podia ser isto, de certo. Fui até num terreiro de Umbanda, ver o que era.
Naquele tempo nem sabia por que as igrejas protestantes e até mesmo a católica acusam, injustamente, essa religião de demoníaca. Nem mesmo suspeitava a troco de quê o padre Quevedo, junto com uma boa parte da população, diz que na Umbanda tudo é loucura; ou, na melhor das hipóteses, superstição. Para falar francamente, ainda nem me preocupava com a questão da verdade. Nem sabia o que era isto. A única coisa que sabia era que existe a macumba e espírito maligno, para destruir a vida da pessoa.
Lá chegando, o preto-velho, por nome de pai Benedito, me mandou tomar um banho de descarrego, acender uma vela de sete dias para o meu anjo protetor, rezar, estudar e me preparar para o vestibular, porque era muita gente que queria ser jornalista, e não apenas eu. Fiz o que ele me mandou fazer e voltei à luta. Contudo, tudo continuou a mesma coisa, a mesma vida de sempre. No entanto, apesar de toda a luta que enfrentava, eu ainda conseguia estudar para o vestibular, e por isso dizia para todo o mundo lá na pizzaria: vocês vão ver, um dia passo no vestibular e viro jornalista e escritor!
E podem escrever, falava também: quando este esplendoroso dia chegar, quando vier a minha tão esperada hora e vez, sublime e estonteante, bela e majestosa como uma explosão cósmica na via-láctea, interessante e admirável como a riqueza dos reis, eu pegarei o meu uniforme de garçom, colocá-lo-ei no chão, assim, em monte, bem bonitinho, um em cima do outro, e atearei fogo! Queimo tudo! Não deixo nada como lembrança, a não ser as cinzas desse passado negro!, falava, concluindo.
Depois, voltava para o serviço. Enquanto trabalhava e enriquecia o homem tal como Jacó enriquecia Labão, eu estudava e sonhava com o meu livramento. Ajoelhava e rezava. Dizia: tenha piedade de mim, ó meu Pai! São sete anos de pastor, não agüento mais, não permita que tenha que trabalhar mais sete, Misericórdia, ó Deus do Céu! E prometia: se eu sair daqui, andarei em retidão, serei uma pessoa justa, bondosa, misericordiosa, faça isto, oh Senhor! Deu certo. Deus ouviu as minhas suplicas, os meus cantos de lamentos, e passei no vestibular depois de ter tentado umas três vezes consecutivas!
Lembro que quando vi o meu nome lá na lista dos vestibulandos aprovados, pregada na parede da universidade federal, eu saí que nem um maluco, gritando, dizendo coisas sem sentido, e por isso, me pegaram na rua e me levaram para o hospital. Fiquei internado durante uma semana num hospício, tomando tranqüilizantes adoidado, e dormindo. Até sair no jornal eu sai. Disseram: “jovem passa no vestibular e fica louco”; “maluco passa no vestibular de Jornalismo provando que o processo seletivo é uma farsa”; “garçom de uma pizzaria passa no vestibular de jornalismo e é internado num manicômio por sabotagem”, e mais coisas que verdadeiramente nem vale à pena falar aqui.
Não obstante, apesar dos remédios pesados, das humilhações que passei – já que nem banho sozinho tomava –, daqueles enfermeiros me tratando como se fosse um maluco perigoso, como alguém que a qualquer momento pudesse sair dando porrada em todo mundo, eu fiquei, apesar de tudo isto, bom. Recuperado, mandei o Labão ir para Israel, procurar um outro Jacó que trabalhasse para ele todos os dias do ano, como sempre trabalhei, inclusive em feriados santos, como no Natal e na Semana Santa, período este que somente os espíritos inferiores, ruins e de pouca luz trabalham, porque aproveitam a ausência dos espíritos bons para fazer tudo o que querem, como me disseram lá no centro de Umbanda...
No dia em que saí, os outros garçons me pediram para não tocar fogo em meu uniforme, como havia prometido, mas sim distribuir entre eles as minhas peças; que para fulano miserável de tal eu desse a gravata borboleta; para cicrano infeliz de tal, o colete; para beltrano com a mãe na zona, a camisa branca; para outro, a minha calça preta de linho. Pediram até os meus sapatos, que estavam furados na sola e na ponta dos dedos. Dei. Deixei para eles tudo o que tinha: abridor, calculadora de bolso, isqueiro, comandas, gel para passar no cabelo, barbeadores, lenços, tudo. Depois de dar tudo o que tinha como ferramentas de trabalho, vi que sempre tem alguém querendo o que é nosso, por mais que não demos o mínimo valor.
Ao sair do inferno, fui todo feliz e confiante para a universidade, para fazer a minha matrícula no curso de Jornalismo. No caminho, eu louvava e bendizia o Nosso Senhor. Mas eis que, chegando lá, foi posta mais uma provação na minha vida: o prazo da matrícula havia vencido – enquanto estava louco no hospício, tomando gadernal para cima, o meu destino era decidido sem mim. Fiquei nervoso, me alterei, mostrei o meu atestado médico para a moça da recepção, para o secretário geral, e finalmente para o reitor.
– A única coisa que posso fazer – disse o homem – é matriculá-lo no curso de Filosofia, que resta muitas vagas.
– Filosofia?! – falei.
– Sim. Por que o espanto?
– Porque não quero ficar nem ateu nem louco.
– Mas quem disse que Filosofia deixa alguém ateu e louco?
– Todo mundo.
– Negativo. Quem diz isto é o povão, a massa. Eles não sabem o que falam. Vai querer ou não vai?
Agi como aquele homem apaixonado que não foi correspondido no amor: desiludido da vida, aceita a primeira que aparece pela frente. Aceitei, e logo em seguida pedi ao reitor um emprego na universidade. O homem me deu, como estagiário na biblioteca...



II


Não fazia quase nada na biblioteca da universidade. Só na hora do intervalo que trabalhava um pouco, quando apareciam os alunos em busca de livros. Depois, ficava lendo tanto os filósofos quanto os escritores de ficção, de poesia e etc. Lia tanto que quando alguém aparecia perguntando um livro eu não hesitava em falar sobre ele. Alguns preguiçosos, ou gente sem tempo, logo pediam para fazer uma resenha em troca de dinheiro. E eu fazia, é claro, até o reitor descobrir e me ameaçar tirar fora do meu emprego...
Durante o curso, ao contrário do que ele me falou, fui ficando ateu e louco. Para falar a verdade, quase todo mundo era ateu e louco ali, a começar pelos professores. Mas, preciso dizer que isto não foi assim, da noite para o dia. Demorou um pouco. Talvez, um ano, porque é a partir do terceiro semestre que a coisa começa a ficar feia para o acadêmico de Filosofia – no início, por mais que um filósofo ateu prova por a mais b que Deus não existe, ninguém acredita. Pelo contrário: arrumamos argumentos do arco da velha para acreditar na existência do Absoluto.
Tanto é que no primeiro ano os meus escritos sempre acabavam transcendendo a realidade, principalmente na poesia – neste tempo, estava mais para poeta do que para ficcionista. Quem gostava dos meus textos era o professor Augusto e a professora Helena. O primeiro dizia que a minha literatura era polida, repleta de personagens altivos, austeros, coisa de artista preocupado com a transcendência e com a humanização dos leitores. Já a professora Helena me considerava um poeta essencialmente cristão, cujo tema principal era o da eternidade, do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo.
Nos eventos culturais, era chamado para declamar alguma poesia ou contar algum conto. Em cima dos palcos, nem parecia mais com o garçom fodido que era. Parecia um desses literatos vaidosos, com camisa de linho branca e um chapéu na cabeça. Por outro lado, era apenas nos eventos culturais que aparecia desta maneira, pois, no dia a dia, pelos corredores, não tinha como negar a minha origem humilde, o meu nervosismo de não ter dinheiro sobrando para comprar as mesmas roupas que os universitários do curso de Medicina, Odontologia e Direito usavam.
Mas, como disse, fui descambando para o ateísmo e para a loucura durante o curso. Primeiro, fui ficando mais racionalista, desses que negam os deuses e as religiões, tal como fizeram Sócrates, Aristóteles, Descartes, Kant, Voltaire, Shoupenhauer, Feuebarch e assim por diante. Está certo que quase todos eles vacilaram na prática quanto ao que acreditavam teoricamente – Sócrates ofereceu sacrifícios a um deus antes de tomar cicuta; Kant apelou para a razão prática para admitir um Deus Justiceiro; Voltaire, segundo o que dizem, pediu a presença de um padre na hora da morte, para obter perdão de seus pecados, e etc., e etc.
Mas, depois de ler Nietzsche, Marx e Sartre, fui tomando coragem para negar aquilo que não acreditava mais. Com o primeiro, neguei o cristianismo; com os dois últimos, qualquer tipo de transcendência. Entretanto, se teoricamente era muito fácil negar tudo, na prática era exatamente o contrário. Ainda mais para um sujeito como eu, que não pode ver a realidade apertando para logo apelar para os deuses todos. E mais: como que ia negar o Senhor Jesus Cristo se foi ele quem me tirou do inferno? Como ia negar os preto-velhos e os caboclos incorporados lá na tenda de Umbanda?
– Leia o padre Quevedo – me falou um acadêmico.
– Ué? Mas o padre Quevedo não é católico?
– É católico mais explica cientificamente os fenômenos que acontecem nessas igrejas pentecostais e nas casas espíritas.
– Explica, é?
– Você vai ver. Milagre mesmo, segundo ele, é muito difícil. Tudo o que acontece nesses lugares, como cura, libertação, manifestação demoníaca, incorporação e etc não passa de fenômenos humanos.
Li o homem: tudo não passa de para-normalidade, que precisa ser curada antes que o médium e os que acreditam no médium fiquem loucos – para ele, incorporação não é o espírito que ocupa o corpo da pessoa: é sim desdobramento de personalidade. Predições do futuro, clarividência, “adivinhação”, como ele gosta de chamar, não é um dom dado por Deus, é hiperestesia indireta por meio do efeito de esforço: em transe, qualquer um diz o que vai acontecer no futuro, exceto os números que vão ser sorteado na loteria.
Sobre a cura, sobre a pessoa sentir um calor, algo quente, uma energia, é uma faculdade humana chamada pirôgenes: fenômeno de exteriorização e transformação da energia corporal. Nada vem de fora, tudo vem de dentro, do subconsciente – a cinqüenta metros de distância todo Exu se aposenta, não há caboclo que cura, preto-velho que revela, padre famoso que profetiza.
Fiquei curioso com estas teorias, e resolvi ir no mesmo centro de Umbanda aonde fui na época em que trabalhava na pizzaria, para ver se alguém tinha feito alguma macumba brava para mim. Queria ver se era verdade o que o padre Quevedo afirmava. Logo na entrada, o caboclo que me deu o passe me disse, sem rodeios: você está aqui por causa do estudo. Não entendi o motivo que ele me falou isto, e lembrei do padre Quevedo: estão lendo a minha mente. Em seguida, me mandou para o preto-velho, chamado pai Joaquim, que pacientemente, me falou sobre o orgulho apolíneo do conhecimento.
Ouvindo-o, não sei por que, fui me simpatizando com ele. Parecia que falava com alguém que amava muito, como se eu fosse um parente dele, um filho. Tratava-me como alguém que queria muito bem, como se me conhecesse há tempos. Olhei para ele, para algumas imagens ali e sem perceber estava cheio de fé, pensando em Jesus Cristo, no Céu, em Nossa Senhora, nos santos e nos anjos de Deus. Perguntei-lhe:
– Eu vou conseguir ser um escritor famoso?
– Vai sim, misifio. Só que dos três escrevedor seu, eles vão publicar só um primeiro. É esse que vai fazer seu nome conhecido. Depois, eles vão publicar os outros, tá bom misifio?
Fiquei alegre, abri um sorriso.
– Mas, não agora, tá bom, misifio?
Fechei a cara.
– Não?
– Não. Isto é mais pra frente.
Fiquei triste, mas não muito, uma vez que nem tinha ainda esses três livros prontos: o que tinha era um monte de poesias escritas, e alguns contos que ia escrevendo aleatoriamente, sem o objetivo de um livro; e a vontade de escrever um romance. Só, mais nada. Então, perguntei-lhe das aulas:
– Eu vou conseguir emprego de professor?
– Vai sim, misifio.
– Beleza! – falei, alegre.
– Agora, misifio. Toma banho de descarrego. Acende vela de sete dias para o seu anjo de guarda. Reze de noite e reze de dia, ao acordar. E vem aqui, para tomar passes, que todos os seus caminhos vão se abrir, tá bom misifio?
– Tá.
– Mais uma coisa, misifio?
– Não.
– Então pode ir. Bate três vezes a cabeça na mesa e tome água. Faz o que o pai Joaquim está mandando, tá bom, misifio?
– Tá bom, pai Joaquim.
Sai da Umbanda simpatizado com ele, e crente. E assim fiquei por vários dias. Cheguei inclusive a tomar o banho de descarrego, acender a vela de sete dias, mas, de repente, comecei a desconfiar de que fosse realmente verdade tudo aquilo ali. E, voltando à universidade, aos livros de filosofia e aos livros do padre Quevedo, logo fui tomado pelo orgulho, e disse que não ia ficar supersticioso depois de ler tantos pensadores, de ter tanto conhecimento: eu estava caindo na loucura deles. Por esta razão, passei a olhar os espíritas como gente doente mesmo, carentes de psiquiatras.
E o pior: parei até mesmo de rezar, pois, no meu modo de ver nesta época, acreditava que a multidão, a massa, isto é, o povo explorado, devia parar de rezar e começar a ter uma consciência política, lutar pelos seus direitos frente a frente, e não se enfiando dentro do quarto ou de uma igreja. Ou seja: aprendendo a pensar como um ocidental, que tende considerar apenas uma verdade, ou esta ou aquela, e não esta e aquela, como fazem os orientais, não conseguia ver a religião a não ser como instrumento de dominação dos poderosos, que burlava e adulterava a Bíblia a fim de deixar claro que ser pobre e explorado é uma vontade de Deus.
Em outras palavras: eu estava me deixando tomar pelo orgulho apolíneo do conhecimento, negando a parte dionisíaca da vida, a parte de sombra que une o mundo mítico e às forças obscuras da vida, como diz Jacques Rancière. Por outro lado, ainda que negasse a religiosidade, o mesmo não deu para continuar negando, como Marx e Sartre, a existência do Ser Absoluto, Criador de todas as coisas. Acreditava sim, na existência Dele, mas não como um Deus Pessoal, que interfere na vida humana, tal como defende as religiões.
Agnóstico e orgulhoso, passei a desdenhar os filósofos idealistas, principalmente Platão e o seu Eperurâneo. Ria e debochava de Santo Agostinho, com a sua cidade dos homens e a cidade de Deus. Sobre Tomás de Aquino, considerava-o um traidor de Aristóteles. Quanto aos filósofos cristãos, como Gabriel Marcel, Kiggegard e entre tantos outros, não passavam de gente fraca, para acreditar em histórias de revelação e contos de fada.
Depois, esta minha racionalidade começou a refletir em meus escritos. Tanto é que parei de escrever uma literatura mais metafísica e existencial e me voltei para as questões naturais e urbanas. Acabei me tornando um naturalista, para dizer logo a palavra correta. Um naturalista com uma visão marxicista da realidade, taxando de loucos e burros todos que praticavam uma espiritualidade mais exaltada – mas esta literatura, por medo de acabar sendo agressivo, não apresentava no curso, é claro.
Uma vez sem religião, fui ficando cada vez mais louco. Não havia outra pessoa ali no curso que tinha mais razão do que eu. Se duvidar, briguei com todos os colegas de minha turma: se alguém tinha um pensamento diferente do meu, me levantava da carteira e começava a discursar, a impor o meu ponto de vista. Ria e debochava daqueles que acreditavam em algum deus; denominava argumento falacioso tudo o que me diziam contra: petição de princípios!
Teve até um dia que na aula de um professor, ao assistir sua aula sobre “amor eros”, “amor filia” e “amor ágape” eu me levantei e disse: que droga de catequese é essa agora? A sala inteira parou para me olhar. O professor, me pedindo calma, disse que só estava falando das teorias existentes sobre o amor. Eu fiquei mais injuriado com isto, ainda mais porque na imagem do Power Point havia Jesus Cristo com um monte de ovelhas em sua volta. Babei, e falei que não iria participar daquela aula anti-filosófica, que aulas de ensino religioso são para o ensino médio.
– Calma, João, você está nervoso – disse o professor ainda, com a voz calma.
– Não estou nervoso coisíssima nenhuma! Eu estou puto! Tudo isto me dá uma vontade de vomitar! Eu vomito, professor Walter, eu vomito sobre essa sua aula!
– Mas, João, é só as teorias sobre o amor. Mais para frente, falarei o que os filósofos não-cristãos falam a respeito deste assunto.
– O seu argumento é uma falácia, professor Walter, uma petição de princípio! Um regresso ao infinito! A sua aula é na verdade uma catequese. Do contrário, não teria esta imagem de Jesus estampada para todos ver!
– Então, tenha paciência.
– Tenho não. Eu me recuso a assistir a esta aula. Para os encabrestados, até a próxima!
E sai; nervoso, acendendo um cigarro lá fora. Acho que fumei uns três, um atrás do outro, sem descanso para o pulmão. Enquanto fumava, andava para lá e para cá, falando alto: aonde já se viu? Se eu tivesse na igreja, tudo bem, estava tudo certo; mas estou numa universidade, numa universidade! Que que é isso agora? Que droga de amor é esse que não vejo? Amor pela humanidade... Nunca vi. O que vejo é ganância, ganância, e mais ganância!
Depois deste dia, nunca mais nos cumprimentamos. Só assistia a suas aulas porque precisava do diploma. Fora da universidade, a minha loucura e meu ateísmo transgrediam. Não podia ver alguém de fé para falar que um Deus Pessoal não existe, que tudo não passa de uma ilusão, de um ópio para a sociedade, de uma invenção dos fracos e incautos. A minha mãe, coitada, arregalava os olhos, quando me ouvia falando coisas deste tipo. Nas reuniões de família, empilhava inimizades, principalmente com um tio, evangélico.
– Então quer dizer que Adão e Eva não existiram?
– Você sabe que não.
– Como eu sei que não, se acredito que o homem não vem do macaco?
– Dos primatas, o que é diferente.
– Que seja.
– Você sabe que Adão é Eva é um mito judaico cristão. Só não tem coragem de aceitar.
– Não. Não é um mito. É uma verdade.
– Então quer dizer que os filhos de Adão e Eva cruzaram entre si, o que quer dizer que além deles cometerem incesto, nós, que somos todos irmãos de sangue, já que viemos todos de Adão e Eva, não passamos de gente incestuosa...
Meu tio ficou pensando nisto, e foi me perguntando:
– Quer dizer então que o Dilúvio não aconteceu?
– Não, não aconteceu.
– Então você não acredita que o Mar Vermelho se abriu para Moisés?
– Não, não acredito.
– Que Moisés feriu a rocha e dela saiu água, para o povo beber?
– Não, não acredito nisto.
– Então você não acredita que o Senhor destruiu Sodoma e Gomorra?
– Também não acredito.
– Que o Senhor, para honrar Elias, colocou fogo na lenha para queimar um novilho?
– Não.
– Que Jonas ficou preso por três dias na barriga da baleia?
– Muito menos. Eu mesmo nunca vi isto, alguém ficar por três dias dentro da barriga de uma baleia e sair vivo. Você já viu?
– Não. Mas acredito na Bíblia, que é a Palavra de Deus.
– Engano. É a palavra dos homens. Foram os homens que a escreveram.
– Então você quer dizer que a Bíblia é um grande livro de mitos?
– Sim.
– Você está ficando louco, João – disse ele.
– E você um burro ignorante!
– Prefiro ser um burro ignorante e ser salvo.
– E eu prefiro o bom senso – falei, fechando a conversa, ganhando com isto apenas a inimizade do meu tio, que passou a me caluniar por todos os cantos, me chamando de ateu e louco, dizendo por aí que sou do tipo que taca pedra nas pessoas que passam na rua...

III

Me formei, e dentro de pouco tempo, deixando meus currículos em todas as escolas da cidade, logo, logo consegui um emprego, e passei a dar aula, a ganhar razoavelmente bem, e a andar vestido com as roupas que sempre quis usar, na moda, usando perfumes caros e irresistíveis. Foi quando acabei descobrindo que os professores possuem certo respeito na sociedade; e mais: foi quando a vida me provou definitivamente que quem não tem pelo menos um certo “status” não consegue nada, nem mesmo uma mulherzinha decente para foder de vez em quando.
Foi aí que pela primeira vez na vida arrumei uma namorada que pudesse andar de mão dada comigo para onde quer que fosse sem ter vergonha alguma de mim; pelo contrário, orgulho; que, pela primeira vez na vida passei a ser cobiçado e assediado, com mulheres para todos os lados me querendo, me desejando, dizendo que eu era isto e era aquilo. E, já que eu não tinha religião, com todos esses assédios e privilégios, comecei a transgredir tanto as regras religiosas quanto as regras da sociedade, namorando duas garotas ao mesmo tempo.
Mas, o que era para ser um verdadeiro paraíso tornou-se um maldito inferno para mim, uma vez que essas duas namoradas minhas eram nada mais nada menos que minhas alunas do terceiro ano do ensino médio. Por outro lado, ainda que no começo eu não quisesse outra coisa a não ser tirar proveito delas, com o tempo fui ficando cegamente apaixonado pelas duas: pela Aline por ela ser loira, alta, com um ar de ingênua, e pela Cátia, por ela ser morena, corpulenta, briguenta e astuta – as duas sabiam que tinha um caso com a outra, e sempre que podiam me colocavam contra a parede, para decidir com quem ficar.
Mas eu, que não era bobo nem nada, sempre adiava a decisão. E assim fui adiando até o pior dia da minha vida chegar, pois, numa vida de sofrimento e provações sempre tem o seu pior dia. E tudo começou com um trabalho que mandei a minha turma fazer! As duas, porque sabiam que eu era apaixonado por elas, se viam no direito de me exigir ajuda em seus trabalhos escolares; e eu, que não queria desapontar nenhuma delas, lhes ajudava, mesmo passando muita raiva com isso.
Contudo, mal suspeitava que essa minha fraqueza, a de privilegiá-las com instruções, podia dar no que deu. Nesse dia, estava eu e a Aline no laboratório de informática da escola, quando de repente a Cátia surgiu, dizendo:
– Então quer dizer que você gosta mais dessa piranha do que de mim, não é, João?
Não deu tempo nem de repreendê-la do nome sujo – apesar de não ter religião, era contra a linguagem baixa, ainda mais dentro de uma escola. Em vez disto, olhei em minha volta: além da Aline e eu, havia alguns alunos no laboratório. Olhei para eles, para ver se alguém havia escutado o que a Cátia disse, e todos olharam para mim.
Imediatamente, vi que podia me dar mal de vez com isso, e acabar ficando novamente inferior diante de alguém, de ter que suportar as conseqüências calado, que nem um mudo, um mancueba que não anda direito, que nem um ladrão quando pego em flagrante, que nem um leguelhé ou um bandalho na frente de pessoas ricas e importantes.
Me levantei e peguei a Cátia pelos braços, levando-a para fora do laboratório, num lugar onde ao menos naquele momento não tinha ninguém por perto.
– Você ficou louca? – eu disse lhe oprimindo da mesma maneira que era oprimido quando garçom; quando mesmo estando certo tinha que calar como se estivesse errado, fazendo com isso nada mais que afirmar ao meu opressor que ele era melhor do que eu, que eu não tinha nenhum valor, nenhuma inteligência, nem nome, se duvidar.
– Não agüento mais isso, João! – respondeu ela, alterada.
– Calma, Cátia, você está nervosa demais. Respire fundo.
– Respirar fundo uma ova! Não suporto mais ter que dividir você com aquela vagabunda – disse ela, chorando.
– Olha o palavrão, Cátia – falei-lhe.
– Vagabunda, vagabunda e vagabunda! Você vai ter que escolher, João, ou eu ou ela!
Que situação, pensei comigo, pois, o negócio era muito sério: se alguém aparecesse ali, eu já podia me dar como condenado. Pensei em algo para fazer e a única solução que encontrei foi a de fugir, de sair correndo, antes que me prejudicasse de vez.
Ia fazer, mas resolvi tentar contornar a situação, fazer como fazem a maioria dos homens neste tipo de contratempo.
– Ainda não consegui decidir, Aline, com quem ficar – falei em voz baixa – eu gosto dela também
– disse como se estivesse perguntando para mim mesmo: a morena ou a loira?
– Não diz isso, João, assim você me mata! – falou com a cara de quem quer chorar.
– O que eu posso fazer? É verdade! E você não vê que eu também sofro por causa disso? Em coração não se manda!
– Já esperei de mais. Me diz agora. Eu ou aquela vagabunda? – perguntou, cortando o meu sentimentalismo barato.
– Não sei. Ainda não sei – nessa hora, nem conseguia mais lembrar-me de censurá-la.
– Se você não disser agora, pode saber que nunca mais converso com você, João! – ameaçou ela, com voz alta.
Fiquei com medo, pois a Cátia, a linda morena, corpulenta, briguenta e astuta Cátia não era mulher de voltar atrás, principalmente quando nada está bom para o seu lado; e para piorar mais ainda a situação, de repente apareceu a Aline, e eu vi o castigo da sociedade moralista me esperando lá na frente, para punir as transgressões do professor sem religião aqui.
– Eu não entendo como você pode gostar de uma mulher baixa como a Cátia, João – disse ela, vindo ao nosso encontro.
– E eu não entendo como o João pode gostar de uma branquela sem sal como você! – falou a Cátia.
– Olha, garota – disse a Aline – eu não vou me rebaixar a você. Eu vou fazer o que deve ser feito. João? – falou, olhando para mim: – você vai ter que escolher entre eu e essa barraqueira!
– Isto, gostei! E aí João, com qual das duas você vai ficar, hein? – falou a Cátia, colocando as duas mãos na cintura.
Ou seja: estava contra a parede. E como decidir? Elas não conseguiam se colocar em meu lugar. O que há de mais difícil na vida de um homem ter que escolher apenas uma das duas mulheres que ama ao mesmo tempo? Como que ia escolher a Cátia se amava a Aline e vice-versa? Como ficar sem a loira ou sem a morena se gosto destes dois tipos de mulheres? Era como se me colocassem para decidir entre os dois senhores...
– Eu não sei com quem ficar – falei para as duas.
– Escolhe! – gritou Aline.
– Mas eu amo as duas – eu disse, com uma cara de coitado.
– Escolhe! – gritou também a Cátia.
– Não tem como!
– Diz que me ama. Deixa essa vagabunda para lá – falou a Aline.
A Cátia não gostou.
Aliás, esse nome, para a Cátia, como ela mesmo sempre me dizia, era o pior nome para ofender uma mulher. Outros davam para perdoar, mas esse nome não. Não mesmo. Ainda mais para ela, que trabalhava para comprar suas coisas.
– Quem é vagabunda, hein, sua piranha? – disse a Cátia.
Nessa altura, pedir para elas cuidarem com a boca era perda de tempo.
– Você mesma! Você é uma vagabunda! Deu em cima dele mesmo sabendo que ele era o meu namorado!
– O quê?! Eu não sabia de nada. E foi ele quem me seduziu, não fui eu!
– Foi sim. Você com esse seu jeito ingênuo... Olha aqui, garota, de ingênua você não tem nada, viu?
– Cale essa boca! Você não sabe o que está dizendo – falou a Cátia, não agüentando mais as ofensas da Aline.
– Vamos parar com isso! – falei, pois sabia que era impossível reconciliar as duas: é mais fácil reconciliar a Europa inteira do que duas mulheres, já dizia Luíz XIV. Ou, nas minhas palavras, já que a Europa hoje em dia anda de mãos dadas: é mais fácil reconciliar Israel e Palestina do que duas mulheres.
E mandei as duas irem embora, cada um para o seu lugar, afinal, alguém poderia aparecer a qualquer momento e saber da discussão: a discussão de duas colegiais por causa de um professor sem religião; a discussão de uma linda loira com uma bela morena por causa de um homem feio; a discussão de duas mulheres por causa de um homem que foi garçom mas que se tornou professor, isto é, mais digno e honrado um pouco.
Não me obedeceram:
– Não sei como você pode gostar de uma mulher miserável como essa, João – disse a Cátia para mim.
Desviei o olhar.
– Miserável? Sou mesma! Não gosto de você e pronto! – disse a Aline, enfurecida.
– Você não merece o João! O João merece coisa melhor! – disse a Cátia.
– E quem ele merece, você? – provocou a Aline.
– Sim.
– Vou te mostrar o que é que você merece! Você merece uma surra – disse a Aline indo para cima da Cátia.
Depois disto, a arena estava feita, não havia mais nada a fazer. As duas foram para o chão e uma puxava o cabelo da outra. A poeira subiu. Tentei separar as duas mas não consegui. Levantaram-se, e continuaram a briga de pé. Entrei mais uma vez na briga e não tive êxito algum. A única coisa que consegui foi levar um soco na cara não sei de quem, se da Cátia ou se da Aline, que iluminou um clarão nas minhas vistas. Ainda assim, continuei no meio delas, tentando parar a briga.
Com a gritaria das duas, alguns alunos surgiram correndo, para ver o que era. E assim que viram que se tratava de uma briga, fizeram uma roda e começaram a torcer, os demônios, incitando mais ainda a pancadaria. Nessa hora, graças a sei lá qual dos deuses, um professor amigo meu apareceu e segurou a Cátia, imobilizando-a.
Fiz o mesmo com a Aline.
– Vaca! – disse a Cátia, do lado de lá.
– Piranha – falou a Aline, do lado de cá.
– Loira burra!
– Desgraçada!
– Vadia!
– Você não vai ficar com ele – disse Aline, exatamente no momento em que o diretor da escola apareceu.
Compreendendo claramente que a briga era por minha causa, olhou-me com uma profunda raiva e gritou para todos voltarem para a sala de aula, se não quisessem ganhar suspensão. No mesmo instante, todos desapareceram, inclusive o professor amigo meu.
– Vamos até a minha sala, assinar sua demissão – disse o diretor sem olhar para mim, indo em direção à diretoria.
– Mas... – eu falei, com a voz já oprimida.
– Sem mas... Se quiser ir à justiça, pode ir. O que é isso? Se aqui fosse uma escola pública, do governo ou do prefeito, tudo bem, lá a safadeza é comum... Mas aqui? Aqui é um colégio católico, tem uma moral religiosa, e portanto não aceita baixarias, nem por parte dos funcionários nem por parte dos alunos. Não quiseram estudar aqui? Pois bem. Ao aceitarem, assinaram um contrato, concordando com as normas da instituição. O mesmo ocorre com os funcionários. Ou você já esqueceu que esse colégio é um colégio de Deus? Hã?
Não falei nada. Só acompanhei o homem: ele com a cabeça erguida, onipotente, poderosa; e eu com a cabeça baixa, envergonhado, sentindo-me a pessoa mais inferior do mundo, inclusive de quando era um garçom humilhado por Deus e por todos. Ao chegarmos em seu escritório, assinei a demissão sem dizer nada, nada mesmo, nem um “a” se quer, assim como não dizia um “a” quando apanhava da minha mãe e ela falava não diga um “a”, um “pio”, “nada”, fica quietinho aí seu porcaria, sua criança rebelde, a vida já é difícil e você dificulta mais ainda!...
– Inferno! – eu resmunguei, ao assinar.
Se meu diretor soubesse do meu histórico, não o de notas em meu currículo, dos meus méritos, mas da minha vida, da minha historicidade, de que tive que começar a trabalhar com quatorze anos de idade, que precisava ajudar a mãe por causa de um pai ausente e irresponsável, com certeza ele faria uma ponderação mais justa. No entanto, a nossa sociedade é assim mesmo: pelo ato que o julgamento procede. Só vai importar quem cometeu tal delito quando o criminoso for alguém muito rico, muito importante.
– Volta na segunda-feira para pegar o seu acerto. Não precisa nem vir aqui, na diretoria, que não gosto de olhar para gente irresponsável. Pegue na secretária. Passar bem.
Depois disto, saí entristecido de sua sala e fui para casa, e à pé, porque não tinha vontade nem de pegar um ônibus, de tão abatido que estava. No caminho me perguntava: será que estou certo, negando a religião? Será que Jesus Cristo não está me punindo, para ver se deixo de ser tão orgulhoso? E se tivesse sido um homem de oração, teria evitado todas estas coisas? Mas onde estava com a cabeça para negar a Bíblia do jeito que negava? E conclui comigo: é João, Jesus Cristo é o Filho de Deus, você errou, agora sofra as conseqüências!
E as conseqüências era ficar sem um emprego que tanto gostava. Pelos menos por enquanto, ia ter que dar adeus ao status, ao poder. Fui pedindo perdão ao Senhor, por tê-lo negado. Caminhando, era como um filho pródigo de encontro ao pai, cheio de arrependimentos, de pedidos de perdão: me perdoa, oh meu Pai; me perdoa, oh meu Senhor! E assim fui, até chegar em casa. Minha mãe, ao me ver com o olho roxo, ficou aflita, desesperada, achando que tinha sido assaltado na rua.
– Não, não foi isto, mãe.
– Então você brigou? Foi isto?
– Não, não foi isto.
– Mas o que aconteceu, então, Deus do Céu?
– Mãe, não me pergunte sobre isto. Mas, preciso te dizer que perdi o emprego.
– Perdeu o emprego? Meu Deus! E agora, meu filho? Como é que vai ficar?
– Logo, logo arrumo um emprego.
– E as contas?
– Nós damos um jeito.
Quando vi, ela começou a chorar e então fiquei sem saber o que fazer. Disse para ela não se preocupar, que segunda-feira iria passar na escola, pegar meu acerto e colocar todas as contas em dia. Depois, sentei no sofá, para assistir televisão. Enquanto assistia, pensava no que havia acontecido. Até que de repente, o telefone, que ficava numa mesinha ao lado do sofá, tocou.
Era a Aline, querendo saber com que eu ia ficar. Falei que com ninguém, que por causa delas havia perdido o meu emprego, e que era para ela nunca mais ligar e muito menos me procurar. Ao dizer isso, desliguei, sem dar chance para a réplica. Logo em seguida, o telefone tocou de novo. Atendi, dizendo que vida, ninguém me deixa em paz! Era a Cátia, querendo saber o mesmo que Aline. Dei a mesma resposta, e desliguei o telefone dizendo por favor, não me ligue nunca mais...





03:34

ENQUANTO A FAMA NÃO VEM

Postado por Glauber da Rocha |

Estou pensando em publicar aqui o meu romance: Enquanto a Fama não Vem. É uma história muito engraçada de um ex-garçom que tinha como objetivo ser um escritor famoso. Vocês estão a fim de ler? Preciso de pelo menos uns dez sim, para valer à pena.

14:30

LÍDIA

Postado por Glauber da Rocha |

Nem eu, nem o Alaor, nem a Lídia e muito menos a minha esposa gostávamos de trabalhar no serviço em que estávamos. Não que fossemos vagabundos, mas é que não éramos felizes nas atividades que exercíamos: tanto eu quanto todos eles, além de ganhar muito pouco, uma miséria quase, trabalhávamos feitos burros de carga para no fim das contas gozar da ingratidão de nossos esforços.
Não passava outra coisa em nossas cabeças e em nossos corações senão a idéia e a vontade de mudar de vida, sei lá, fazer outra coisa, algo que desse dinheiro, que não precisasse sofrer tanto, que libertasse nossas pessoas das restrições financeiras, e que nos permitisse ser aquilo que realmente éramos, no mais profundo de nossos seres.
Foi quando eu, que vivia metido em igreja, escutando tudo quanto é tipo de pastor pregar a Palavra de Deus, decidi afinal fundar uma. Pensei até no nome, e veio: Jesus Cristo é a Nossa Riqueza. Falei com o Alaor, que repugnou a idéia. Não deixei-me desanimar com a sua resistência, e fui perguntando o porquê não, o onde, o quando, o que é o que é, que faz o homem ficar rico e o outro ficar pobre?
Me chamou de doido. Mas daí veio a sua esposa, a Lídia, que sempre se metia na frente de tudo, mudava a cabeça dele, e dava a última palavra. E foi perguntando o porquê não, dizendo que ninguém merece viver uma vida como a que viviam, que hoje em dia todo mundo faz isto, que o salário do pastor, pelo tanto que ele fala, nunca é de fato merecido, que o pastor, por dar tanto ânimo, tanta luz, merece mesmo ser rico, milionário, comprar emissoras de tevê e viajar de férias umas dez vez por ano.
– Viu, Alaor? Tem que pensar assim, que nem ela. Por isso que eu e você não saímos da miséria. Porque pensamos que tudo é injusto.
– Está bem, está bem, mas eu não vou ser pastor nenhum! O máximo que posso fazer é passar com a sacolinha na hora da oferta.
– O Santos que vai ser o pastor, porque conhece mais – disse a Lídia.
– E você? – perguntou Alaor para ela.
– Eu? Fico administrando.
– Administrando?
– Por quê, não confia em mim?
– Ok.
– E a sua mulher, o que ela vai fazer?
– A minha mulher – disse eu – pode ficar na porta da igreja, porque é simpática e inocente: sorri até para ladrão.
– E quando vamos começar?
– Agora.
E começamos. A primeira coisa que fizemos foi ver quanto que cada um ia dar, onde íamos abrir a igreja, que ninguém ia mandar em ninguém, que tudo ia ser decidido em conselho. Depois de tudo combinado, colocamos as mãos em obra. Achamos um salão para alugar e começamos dias depois. Cada um foi chamando seus amigos, que foram chamando seus amigos e os amigos de seus amigos, até dar uma média de cem pessoas.
A bonança e a fartura veio rápido, com o meu argumento de que “quem dá mais, recebe mais”; que se o crente SACRIFICA todo o seu salário, ou as suas jóias, ou o carro, ou a sua casa, o Senhor se sente honrado e lhe dá cem vezes mais, infinitamente. As pessoas acreditavam. Não vou dizer que acreditavam por causa apenas deste argumento falacioso, mas é porque eu pregava com aquela voz de choro, de desespero, e dizia: oh meu Deus, não posso continuar sonhando com uma vida de realizações e vivendo uma vida de fracassos, que eu não posso acreditar num Deus Grandioso e as pessoas rirem de mim das coisas que eu tenho; oh Senhor, manifesta, vira a mesa meu Pai, aceita o meu salário como oferta, as minhas jóias, o meu carro, a minha casa; renove a minha vida, Senhor!
Porque tudo dava certo, quase não havia briga entre a gente, e tudo era decidido em conselho. Mas isto foi assim até a Lídia, a mandona da Lídia, começar a ser o que ela realmente é, e eu e o Alaor a sermos aquilo que realmente somos, junto com a minha esposa. A Lídia, que já vinha manifestando a sua vontade de poder, a sua mania de querer controlar toda a situação, começou a tomar a frente em tudo, a decidir tudo, a querer fazer tudo sozinha. Quando vi, ela queria ser, além de tudo o que já era, pastora também, no meu lugar.
Eu podia muito bem protestar – era isto o que mais fazia em cima do altar afinal – mas, já que eu não ia ganhar nem mais nem menos com isso, dei o meu cargo para ela de mão beijada, e deixei o altar. Antes de passar o Ministério para ela, eu falei, no altar, para os meus fiéis: o Espírito Santo me revelou que a Lídia tem um poder muito maior que o meu para pregar, curar e libertar; a partir de hoje, ela é a nossa pastora, amém?!
O amém foi um tanto triste, mas, assim que ela, animada com as minhas palavras, começou a pregar, maravilhas aconteceram em nosso salão: havia ofertas de cem, duzentos, trezentos e até quinhentos reais numa só pregação. No fim das contas, eu passei por humilde, como aquele cantor famoso que deixou apenas a voz do irmão aparecer, e meu nome deixou de ser pastor Santos para transformar-se em: santo homem.
Com a Lídia querendo mandar em tudo e fazer tudo, desde as decorações de cada dia a idéia de arrancar mais dinheiro das pessoas, eu e o Alaor fomos ficando de fora, e íamos beber cerveja e uísque lá na casa dele. A minha mulher, nesta altura, já era uma espécie de escrava da Lídia, mas, eu já estava pouco me fodendo para tudo: tinha dinheiro sobrando, não tinha? Eu trabalhava pouco, não trabalhava? Então? Para quê esquentar o chifre com rixas que não levam a nada?
Eu e o Alaor, depois de alcoolizados, íamos para casas de luxo, comer as prostitutas que fazem faculdade e abrem as pernas para pagar seus cursos. Não havia diferença alguma entre elas e nós, e por isto nos dávamos muito bem. E assim ficou por vários anos, até a Lídia, cada vez mais poderosa, além de mandar em nós como se manda num cachorrinho, passou a jogar na nossa cara as nossas “sem vegonhices”.
Foi quando vi que dinheiro não é tudo nesta vida para muitas pessoas, principalmente gente como ela, que além de ser rica quer ser melhor do que os outros. Com raiva dela, resolvi fazer um curso de Teologia. Ao que você já deve de estar perguntando mas que tem a ver Teologia com tudo isto?
Não era só matar a imundície?
Eu vou mostrar que violência física e verbal são coisas do passado. Hoje em dia, a força tem de ser intelectual: tenho mais medo de um hacker do que dum assassino sangre frio...
Depois de formado, subi no altar com o título de testemunho por ter conseguido me formar mas o intuito de me proclamar bispo. Lá em cima, todo poderoso, falei: além de tudo, minhas irmãs e meus irmãos em Cristo, preciso anunciar a vocês que a partir de hoje sou o bispo desta igreja...
A Lídia ficou vermelha de raiva. Vi na cara dela a nítida vontade de sair do púlpito e quebrar o pau, me pegar pelos cabelos e bater como se bate nos filhos. Na hora de descer, ao passar por ela, ouvi: você me paga, filho duma mãe, por tudo isto o que você fez...
Ao ouvir a sua ameaça, retruquei, baixinho para só ela ouvir: como, sendo Papa?
Eu devia ter falado tudo, menos isso. Mas também, como que ia imaginar que ela me levasse à sério? Meses depois, no meio do culto, ela falou que o Senhor havia lhe revelado algo muito maravilhoso dias atrás, que ainda não tinha comunicado porque precisava da confirmação.
Disse que tal revelação foi em sonho.
Ela sonhou que estava junto comigo, com o Alaor e a minha esposa quando de repente Jesus olhou para ela e disse: Pedro, tú és pedra, e sobre ti edificarei a tua igreja, tudo que ligardes na terra, será ligado ao céu, e tudo o que desligares na terra, será também desligado no céu.
E depois disto, lhe entregou a chave.
A multidão aplaudiu; e ela, não só se contentou em se auto-proclamar Papa como me desligou da minha função de bispo publicamente, colocando o marido dela em meu lugar. Eu fiquei pior do que São Tomé quando ela disse isso, e fui até o seu ouvido, dizer: ah, é?, bruaca, você quer que eu conte tudo para eles, é isso? Quer?
Ela falou sim.
E então eu contei: essa igreja é uma farsa, o Nosso Senhor não é Jesus Cristo, porque este só fala a verdade; a nossa igreja tem como padroeiro o Diabo, os nossos santos são os demônios, e o seu fundador, sabem que é? É Satanás, amigo intimo de Lúcifer, Pai da Mentira; e nós, por pregarmos a mentira, somos os seus filhos legítimos. Mas, a partir de hoje, eu renuncio a esta igreja, a esta farsa, a esta prática de arrancar o dinheiro de vocês, dizendo que é dando que se recebe...
Depois disto, peguei a minha esposa e fui embora. Em casa até pensei em levar adiante a minha vingança, denunciando todos os nossos roubos para a polícia. Entretanto, eu tinha o rabo preso também, e deixei de lado a Lídia com a sua igreja, que, por mais ilógico que pareça, aumentou umas dez vezes o número de fiéis depois do escândalo. Dias depois, como tinha de ser quando sempre ocorre um cisma, eu fundei uma outra igreja, mas, desta vez, é claro, sem sócios...
Glauber da Rocha

12:38

PALESTRAS ONÍRICAS

Postado por Glauber da Rocha |


Não sei aonde certos palestrantes aprenderam a deixar seus ouvintes em estado de sono profundo. Sei lá. Deve haver algum curso que ensina técnicas infalíveis, verdadeiramente poderosas, com professores que possuem mestrado e doutorado em todos os tipos de meditação. Não obstante, estes professores, estas técnicas, este curso são de uma maldade ferina, diabólica, cruel, desumana. Pois, além de dificultar o aprendizado, nos obrigam a dormir em bancos nada confortáveis para se tirar uma boa soneca.
Mas o pior de tudo é que não para por aí. Muitos deles são de uma perversidade fora do comum, se comprazem mesmo do mal. Divertem-se muito com isto. Eles começam com aquela fala mansa, calma, dizendo de fora para dentro, com pausas profundas, e, quando percebem que já amarraram suas vítimas, impostam a voz, nos assustam. Geralmente acordamos aflitos, achando que o teto desabou, mas, o que vemos é o palestrante lá, rindo, deliciando-se de sua crueldade, com aquela cara lisa de ditador sanguinário, de amigo intimo de Satanás.
Aliás, ontem participei de uma palestra cujo palestrante tinha este perfil. O assunto em suas mangas era polêmico, capaz de provocar discussões calorosas, com direito à ofensas, à ameaças de morte, à injúrias definitivamente imperdoáveis. Mas, eu e talvez metade do auditório pescávamos, dormindo e acordando, fisgando e perdendo o peixe ao mesmo tempo. Se não estou enganado, babei. Deixei aqueles filetes de baba escorrendo de minha boca. E, quando me dei conta, a palestra havia acabado. Para não sair sem dizer nada, fui falar com o homem. Disse-lhe, com os olhos inchados:
– Muito boa a sua palestra.
– Você gostou? – disse ele, percebendo a minha cara sonolenta.
– Gostei – respondi, com a vontade de dizer: – tanto que dormi quase o tempo inteiro.
Não disse, é claro, não iria perder o meu tempo com um filho da mãe desses...

Glauber da Rocha

09:56

Israel

Postado por Glauber da Rocha |


Nem todos os casamentos são sagrados, Israel, eles até podem ter passado pelos sacramentos, recebido a benção do sacerdote, se exibido para umas cem a duzentas pessoas que compareceram na festa, mas, de sagrado não tem nada, nada mesmo.
Israel, se você se encontra pobre aí onde está, e de repente uma mulher bonita, jovem, rica e solitária começar a te dar mole, não crie fantasias, achando que agora você vai casar, que achou a pessoa certa, que vai ficar rico. Desconfie primeiro. Ela pode ser mulher de um homem rico.
Israel, a fidelidade é algo muito bonito que acontece somente nas famílias dos pobres. Com os ricos as coisas são diferentes. Um dia você vai ser rico, quero dizer, se continuar desse jeito que você está, trabalhando e investindo, você vai ser rico e vai saber o que estou falando. Você vai ver que ser corno é como dentes bem cuidados: nunca dói.
A única coisa que dói num rico, Israel, é o seu bolso, quando leva prejuízo. Se um dia você ver algum homem de posses bebendo, enchendo a cara, não pense você que ele deve estar aborrecido porque morreu alguém ou porque levou chifres da esposa: quando um homem de posses bebe, Israel, é porque ele perdeu dinheiro.
Israel, caso você encontre uma jovem bonita e solitária que mesmo casada se diz apaixonada por você, não caia na besteira de pensar que ela pode trocar toda a riqueza do marido por um homem interessante, bonito mas pobre. Você não é mais criança, Israel, para acreditar em contos de fadas, ou é?
Também, Israel, nunca desrespeite o corno, nunca se ache melhor do que ele só porque está comendo a sua esposa. Nem sinta-se um justiceiro, ou um vingativo, dizendo eu posso ser pobre, mas levo para a cama as mulheres dos ricos. Não caia nesta besteira. Ele não precisa saber que você o ajuda, que você faz o bem para ele, pois é isto o que você faz, o bem.
Pesquisas comprovam, Israel, e por isso que gosto muito da ciência, que noventa e nove por cento das pessoas que traem dizem que a relação conjugal volta a ser como antes. É como se a traição renovasse a energia sexual do traidor, compreende? Eu poderia falar os mistérios que estão por detrás disto, mas tenho medo de você não poder entender; mas, na sua linguagem, entrando no seu universo, posso te dizer:
Você come arroz e feijão todo dia, não come?
Então.
Comer arroz e feijão todo o dia, por mais que se use temperos diferentes, acaba enjoando. Assim, você precisa comer uma coisa diferente, não precisa? Algo que te encoraje a aceitar todos os dias o seu arroz e feijão que você come. E assim, sem perceber, você acaba até comendo o seu baião de dois com mais gosto. É o que acontece com o homem ou com uma mulher depois da traição...
Escuta, oh Israel, não seja moralista, nem puritano, achando que o quê é certo tem que ser absolutamente certo, e o que é errado é errado. Não entre no jogo do sim é sim e não é não. Diga sim e não ao mesmo tempo. Não fique com este ou aquele, mas fique com este e aquele, Israel.
E quando você ficar rico, e de repente um pobre comer a sua mulher, não dê importância, pois ele está lhe fazendo um favor, um bem; antes, guarde as suas energias para cuidar de suas financias, Israel, porque é este o único motivo justificável para um homem rico derramar suas lágrimas, o único!, oh Israel...
Glauber da Rocha

13:46

Boas novas!!!!!

Postado por Glauber da Rocha |

Veja o que andam falando a meu respeito:

GLAUBER DA ROCHA é um promissor novo escritor. Dele, temos o prazer de apresentar:"Os demônios de Dona Otília."
Para ver o texto, cliquem aqui e entrem num dos sites mais respeitados de literatura.

11:51

JOANA, A LOUCA

Postado por Glauber da Rocha |

Todos aqui no distrito sabem por qual motivo Joana ficou louca: virgindade. Ela, que não casou, enlouqueceu aos trinta anos, coisa que jamais teria acontecido se o nosso falso moralismo interiorano não existisse. É claro que a sua personalidade ajudou um pouco: era um tanto sonsa, coitada.
Mas isso também tinha culpados: os pais – se eles não a tivessem prendido tanto, desde quando ela se tornara moça, muito provavelmente ela chegaria pelo menos no patamar de mulher educada, oras. Joana, por essa razão, vestia-se como a mãe, falava como a mãe, comportava-se tal qual.
E sendo filha de mulher tapada, que não sabe se vestir, não sabe falar e muito menos se comportar com alguma elegância ou sensualidade, acabou assim, vestindo saias cumpridas e blusas bem tampadas, respondendo como bicho do mato as perguntas de seus possíveis pretendentes.
Logo, não demorou muito para ganhar mil apelidos pelo distrito, e ser motivo de piadas quando o assunto era mulher feia e bocó. O bocó, tudo bem, até que dava para admitir, mas feia, no sentido exato do termo, isto ela não era. Era bonita, então? Também não posso dizer, mas feia, repito: isto ela não era.
Ela só não sabia se cuidar como mulher, ainda mais depois da loucura, quando ela começou a usar saias rasgadas e blusas regatas sem o sutiã por debaixo. Qualquer um que quisesse ver os seios dela, branquíssimos e volumosos, podia ver sem muito esforço. Mas, o fato dela ser louca, acrescentando o ralaxismo, pois nem tomar banho ela tomava, como também não cortava o cabelo e nem rapava o sovaco, fazia com que muitos nem admirasse ou ficasse com tesão.
Eu, por outro lado, olhava para os seios delas, balançando por debaixo das blusas regatas que ela usava. E pensava cá comigo: dando-lhe um banho, cortando-lhe o cabelo, raspando-lhe o sovaco, cortando-lhe as unhas, depilando, jogando perfume, por que não? Só porque era o prefeito? E daí que ela era louca? Para que servem as cordas nos momentos de acesso? Era só amarrá-la, trancá-la no quarto, deixá-la gritar e me mandar para o gabinete da prefeitura nas noites de lua cheia, não era?
Foi o que decidi.
Num belo dia, fui até à sua casa e pedi ao seu pai, o seu Ernesto, e a sua mãe, a dona Capivara, quero dizer, Isaura, a mão de Joana em casamento. Seu Ernesto, desconfiadíssimo, me fez uma infinidade de perguntas, exigindo que eu me explicasse disso, me justificasse naquilo, que certamente um homem sadio como eu não podia querer uma mulher doente como a Joana e etc., e etc.
Respondi todas as perguntas e questionamentos do velho e por fim dei o meu xeque mate dizendo: eu amo a sua filha, seu Ernesto – e, para convencer mais ainda, acrescentei: e isso bem antes dela ficar louca; portanto, só por que ela ficou assim eu haveria de deixar de amá-la? Dias depois, Joana estava na minha cama, fazendo amor comigo.
Era uma loucura, o que ela fazia. Tudo o que eu mandava, obedecia. O único problema era quando ela queria morder a minha bunda ou algum dos meus testículos – quando isto acontecia, e tinha que ser rápido, eu tava um tapa na cabeça dela, para evitar o pior.
Joana nem chorava, e voltava para o nosso amor.
Era curiosa, a danada. Tudo queria ver, tocar, abrir, enfiar o dedo, mas nem tudo eu deixava, é claro.
Salvo os seus acessos de loucura, Joana era perfeita, a melhor coisa que podia me acontecer na vida, principalmente na cama. Que mulher, em plena sã consciência, se passaria por cachorrinha, por macaca? Qual delas aceitaria uma coleira no pescoço e tudo mais? É muito difícil arrumar mulher assim, que aceita tudo.
Então, eu tinha tirado a sorte grande.
Por outro lado, como quase ninguém nesta vida pode ver um prefeito feliz, e o que não falta é gente querendo a infelicidade dos poderosos, logo comecei a sofrer criticas duras a respeito de meu amor. Até um empichermant foi cogitado. Mas graças a Deus, isto não conseguiram. O máximo que conseguiram foram as críticas. A mais freqüente delas, era a respeito do tratamento psiquiátrico da Joana, algo que ela podia fazer, muito mais agora, que era mulher do prefeito.
– Tratamento psiquiátrico? Para quê?
– Para ela ficar boa.
– E você já viu algum louco ficar são?
– Mas menos louco sim.
– Não, não. Deixe Joana como está, está bom assim... Melhor estraga...

Não estou certo?
Glauber da Rocha

13:22

Minhas mulheres, minha literatura

Postado por Glauber da Rocha |


Quase todas as mulheres que me envolvo e que me envolvi sempre representam a minha literatura atual. Ana, a primeira mulher da minha vida, era fantasiosa de mais, incoerente, ilógica. Vivia numa mudança de humor fora do comum: uma hora estava alegre, outra hora, era de uma tristeza que nem mesmo o sexo resolvia.
Joana, a segunda mulher da minha vida, era alcoólatra, agressiva, bem violenta. Eu só insistia nesse romance porque no fim das contas ela ainda conseguia ser bela e bonita. E, principalmente: fiel – Joana era de uma fidelidade que nem mesmo um padre conseguiria lhe convencer de que era preciso experimentar outros homens, outros estilos.
Já Carolina, a terceira mulher da minha vida, era exatamente o contrário: ficava comigo, com o padre, com o marginal, com o bandido, com o filósofo, com o intelectual, com o místico. Não havia argumento algum capaz de defini-la, de assumir uma posição na vida – ia atrás de tudo o que estava na moda, que estava em voga.
Mas, cansei desta vida de corno, e terminei o meu lance com ela. Foi quando conheci a Kassandra, uma mulher bem sarcástica, irônica, que tirava o sarro de tudo, inclusive dela mesma, numa auto-ironia digna de um Machado de Assis. Por outro lado, ela era o entusiasmo em pessoa, e às vezes duma leveza que dava gosto de sentir.
Sei lá porque, fui deixando Kassandra de lado, embora hora ou outra ainda saio com ela. Talvez, o que me desmotivou esse romance foi o meu novo relacionamento com a Fabiana. Como ela, acabei ficando preguiçoso. Sim, a Fabiana é preguiçosa, duma preguiça que chega ser imoral. E a minha literatura, agora, está assim como ela, não querendo nada com nada, deixando tudo para amanhã, para amanhã...

13:46

Destinos

Postado por Glauber da Rocha |

“Teme a velhice, porque ela nunca vem só.” Platão.


– Anda, cachorro, caminha para o fundo! – grita o velho, delirando no leito do hospital.

– Que cachorro? Não tem cachorro. Você não está em casa, está no hospital, velho maluco – diz a velha, esposa dele há mais de cinqüenta anos.

O velho se cala, mas, inquieto, tenta sair do leito.

– Pare com essas pernas, velho desgraçado! Vê se dorme, infeliz. Há mais de doze dias no hospital, com a bunda em carne viva, não deixa ninguém dormir tranqüilo.

– Amanhã vou aí, amanhã vou aí, Arnaldo.

– Que Arnaldo? Arnaldo morreu faz tempo, velho imbecil. Mas que velho, que vida!

– Mas por enquanto, quero que você não fala nada para ninguém.

– Cala essa boca se não eu te bato. Vou te bater, velho maluco.

O velho se cala. O enfermeiro aparece.

– Como está o senhor? – pergunta, em voz alta.

– A Cuma?

– Ele tá delirando. Não para quieto. Que velho teimoso! Como que é o destino da gente!

– Tem que ter paciência, minha senhora. Esse é o único remédio, paciência.

– Mas eu não agüento mais!

– Mas tem que agüentar. E o senhor... – diz ele se dirigindo ao velho – tem que ficar quieto, tem que parar de dar trabalho.

A velha começa a chorar.

– Olha como é o destino da gente. Ter que agüentar este traste. E só eu! Ninguém vem aqui, me ajudar nem que seja um pouco!

– Paciência, minha senhora – diz o enfermeiro dando-lhe um abraço e saindo logo em seguida.

Sozinha, batendo nas pernas do velho, resmunga: olha como é o destino da gente...

Glauber da Rocha

11:31

CANDANGO

Postado por Glauber da Rocha |

Tem essa menina, que eu acabei de ligar para ela, disse que o dinheiro é para pagar umas contas aí que está devendo, mas não sei não, a garota tem vinte e dois anos de idade na cara e diz para mim que só garante o papai-mamãe? Aí eu falei, perguntei se vai rolar uma chupeta também, dou até mais se ela quiser, porque no papai-mamãe tenho em casa, eu quero a sacanagem, não é?

– Ô. Mas vem cá, como que você arrumou essa aí? É bonita ela?

Bonita, bonita, não, mais ou menos, ela é meio gordinha, tem um filho, mas é mulher e tem o que eu gosto. Tenho mulher em casa, mais arroz e feijão todo dia enjoa, eu ajudo qualquer pessoa, pego bastante serviço, dinheiro não me falta e nunca faltou, mas é assim: tem que fazer do meu jeito. E eu sou cara de pau. Taí o Marquinhos que não me deixa mentir. Eu já falo: mas e aí, vai virar uma coisa para o meu lado ou não vai?

– Meu pai é igualzinho a você.

Mas tem que ser. Eu travo uma batalha todos os dias, de manhã já começa a encheção de saco, elas pensam o quê, que o meu dinheiro dá em árvore? Eu já logo intimo, não perco tempo. Elas falam: Gilberto, você pode ver uma tomada lá em casa que tá dando problema? Você pode ver o meu chuveiro? Eu falo posso, e vou. Aí eu já logo vou falando: e aí, vai virar alguma coisa comigo ou não? Elas falam: mas credo, Gilberto, você só faz alguma coisa querendo algo em troca. Eu falo: mas a vida é assim, ninguém faz nada de graça para ninguém...

– Tem gente que faz...

Tem, e bastante. Mas eu não sou otário não. Ainda mais quando tem um candango por perto.

– candango? Que diabo é isso?

Candango, candango, você não sabe o que é um candango? É o sujeitinho que fica em cima do sofá e não move uma palha para a mulher. Esses dias uma lá perto de casa me chamou para ver o chuveiro dela. Assim que entrei, vi o candango lá, estirado no sofá e assistindo televisão. Passei por ele sem dar as horas e chamei ela para conversar lá no fundo. Eu falei: e aí, vai virar alguma coisa para mim ou só para esse candango aí? Ele é o meu namorado, Gilberto. Sim, tudo bem, não estou questionando isso, quero saber se o meu vai sair? Ah, não, eu gosto muito dele. Não vai ter jeito? Não. Então tá bom. Tá aqui a minha chave de fenda e o meu alicate. Fala para aquele kandango deixar de ser preguiçoso e virar homem. Amanhã eu volto aqui, para pegar as minhas ferramentas. Mas Gilberto, ainda disse ela. Eu falei: tchau, menina, amanhã venho pegar o que é meu.

– Pô, que cara folgado, quando é assim devia ser um baita marmanjão.

Candango. Eu tenho uma raiva disso que você não faz idéia. Em vez delas valorizar os caras que trabalham, que se suja inteiro de poeira, de cal, de cimento, elas dão valor para esses kandagos que não faz porra nenhuma da vida, e depois vem pedir a ajuda da gente. Tem idiota que dá. Eu não dou. Não podia ser tudo mais certinho? Elas dão o que a gente gosta e nós damos para ela o que ela precisa, que é o dinheiro...

– Podia...

Glauber da Rocha

12:35

Meu mal

Postado por Glauber da Rocha |


Eu tenho um mal, uma doença terrível, talvez até contagiosa, mas que graças a Deus não mata. Na verdade, nem sei se esse mal é uma doença; em todo caso, se algum médico ou algum cientista confirmar que sim, quero o meu nome nela, que nem Alzaimer e o Parkson conseguiram. E ela chamará: o mal de Glauber, e ponto final – se alguém meter-se a besta de me tirar desta pode ter certeza que entrarei com uma ação judicial contra Deus e contra todos, seja quem for!
Essa doença é o seguinte: o sujeito, desatento, guarda o que é seu num lugar que nunca é o mesmo. Depois, ao procurá-lo, nunca encontra. Põe a culpa nos outros: alguém pegou! Quem foi?! Anda! Quero saber! Parece uma maldição... Tenho ódio de que pegam as minhas coisas! Então, de repente, a bendita coisa aparece, refrescando-lhe a memória. O doente então dá uma risada de sem-vergonha, joga culpa na doença, e escuta: isso não é doença nenhuma, o nome disso é relaxismo!
Relaxismo ou não – deixo a questão para os médicos e os cientistas – é um mal bastante malvado. Já perdi as contas de quanto fui prejudicado por ela. Perdi horas preciosíssimas da minha vida procurando aqui e acolá algo que guardei e esqueci aonde. Sem contar os constrangimentos – sim, assim como todos os seres humanos, confesso que já acusei os outros de roubo, julguei e fiz calúnias, encontrando depois o que havia deixado em algum lugar que escondi... Relaxismo ou não, quero o meu nome na doença.
Glauber da Rocha

10:50

orientação

Postado por Glauber da Rocha |

Escrever seja o que for, uma tese, uma dissertação de mestrado, uma monografia, um artigo, uma resenha, uma linha sequer sob a orientação de um professor é sempre uma tortura, um sofrimento sem fim, uma relação de dominador e dominado, de explorador e de explorado. Lembro de quando estava fazendo a minha monografia de conclusão de curso. Todos os dias eu voltava furioso para casa, dentro do ônibus eu vinha com uma cara de colocar medo em qualquer um.
“Quem ele pensa que é? Deus? O conhecedor de todas as coisas? Quem é ele para falar que o que escrevi não presta?”
A vontade que dava era a de rasgar os manuscritos na cara dele e dizer: já que você é o bom, me prova que Deus não existe, vai, me prova! O melhor era trancar o curso, escrever sobre o rabo do tatu, sobre a filosofia dos vagabundos, sobre o time do meu coração. Quem iria me censurar? Quem tem mestrado ou doutorado sobre o rabo do tatu, sobre os vagabundos, sobre o Palmeiras, quem? Mas a gente precisa de um negócio chamado diploma, título, que pode salvar a nossa vida ou destruí-la de vez. Portanto, é sempre bom seguir a seguinte dica: engole o sapo, meu filho, engole o sapo...
Com o tempo, passei a olhar do lado de lá, sob a perspectiva deles. E descobri, após muito cuidado, reflexão e aprofundamento, o que eles pensam: agora é a minha vez de acabar com o sossego de alguém, do mesmo modo que fizeram comigo. Estão achando o quê? Que nunca tive estafo por causa de um professor maluco? Que eu nunca pensei em pegar o revólver de meu pai e matá-lo no campus da universidade, na frente de todo mundo, principalmente do reitor? O que eles pensam da vida? Agora é a minha vez! Ah, se é!
Então eles pegam o pobre do Judas e o malham até sair sangue: sangue das vistas, sangue do coração, da cabeça, dos dedos, das mãos. Daí, com o texto longe de ficar bom mas próximo do prazo permitido, aprovam o sujeito e o mandam para a banca. Lá ele geralmente tira dez. Tem o seu momento de fama, de importância. Fica tão emocionado que acreditam que os professores estão de fato preocupados com ele, quando na verdade eles não vêem a hora de dar a hora de ir embora para casa, de serem logos dispensados para as férias. Por fim, o seu trabalho vai para a biblioteca, e lá fica, para muito provavelmente não ser lido por ninguém...
Glauber da Rocha

10:20

city tour na minha cidade

Postado por Glauber da Rocha |


Não há vista melhor que aquela que podemos olhar por cima, a começar no nosso dia-a-dia, quando olhamos para as pessoas. por isso, aconselho ao turista que acaba de chegar em Campo Grande que primeiramente dê uma volta no nosso city tour, esse ônibus sem teto e com assentos lá em cima - não é como os bondinhos do pão-de-açucar, mas já e alguma coisa...

Depois de conhecer as nossas maravilhas - esse ônibus só mostra o que a cidade tem de bom - falo para o turista não contentar-se com pouco. E, para quem chegou de avião, não contente-se apenas com o nosso aeroporto: dê uma passadinha lá na rodoviária central também. Lá é um lixro que vale a pena ver, desde as prostitutas que ninguém quer comer aos mendigos caídos nas calçadas depois de passarem o dia inteiro bebendo corote de pinga e fumando os cigarros assassinos do Paraguai.

Ah, e nao se esqueça de passar os olhos nos drogados, ali tem um monte de viciados em zuka, em crack, em melado e assim por diante. E, caso dê fome, não come os salgados vendidos ali dentro da rodoviária, porque é gatantia de uma boa dor de barriga.

entretanto, se o turista sair decepcionado deste belo cartão-postal, não custa nada pegar a marginal e ir até à nova rodoviária, cuja construção parou faz tempo. O único problema no percurso é o mau cheiro, mas, basta você fechar as janelas do seu táxi - digo taxi para você nãos ser assaltado na tarifa do vale trasnporte, uma das maiores do país, que é o valor de 2, 50 - e pedir para o motorista ligar o ar condicionado.

Mas, vou logo avisando: se você conseguiu chegar até a nova rodoviária, e quiser entrar, prossiga apenas se estiver usando calça jeans, pois o mato é grande e os carrapichos são muitos. Não se esqueça também de estar armado ou de facão ou de revólver, uma vez que ninguém sabe o que pode sair lá de dentro, se uma onça, se algum bandido, se o prefeito...

Mas, se for o prefeito, finjas que está num safári, e pode atirar, que é veado!

Quer um conselho? Não de um turisnólogo mas de um amigo? Esqueça que a nova rodoviária existe. Se o prefeito já esqueceu, por que você que nem dessa cidade é não pode esquecer? E por favor, na volta, não passe perto dos nossos córregos, nem vai em nossos lagos, porque tenho vergonha só de lembrar que eles fazem parte de nossa cidade. No lugar de perder o seu tempo com isso, vá até o estádio Morenão.

Sim, ali é uma beleza de se contemplar, principalmente se você gosta de antiguidades. Mas, tome cuidado: a qualquer momento aquilo pode desabar sobre a sua cabeça. Não entre, até mesmo porque você provavelmente nunca verá uma partida de futebol ali, e se ver, ou é uma entre anões ou uma entre pernas de pau.

Contudo, já que você está pertinho da universidade federal, aproveite a oportunidade para conhecer o nosso maior centro universitário da cidade. Ali você poderá ver muita gente bonita; e, se você gosta de ver a desigualdade social, verá muitas ricos ocupando o lugar que, teoricamente, deveria ser dos pobres injustiçados.

Bom, mas isso você já deve estar acostumado, ainda mais se você é brasileiro. Por outro lado, se te enjoa ver os burgueses, há um programa divertidíssimo que podes fazer, que é ver ladrões de terno e gravata. Não, não é no presídio de segurança máxima, nem muito menos na Igreja Universal do Reino do Seu Dinheiro. É lá no Parque dos Poderes! Mas, já vai aqui um aviso: cuidado com os animais na pistas - esses são animais mesmo...

Glauber da Rocha.

10:39

A BOQUINHA DO INFERNO

Postado por Glauber da Rocha |

Das histórias que colhi na cidade de Dourados, a de um médico que publicou um revoltado artigo no jornal foi a que mais me impressionou. Quem me contou foi meu meio-irmão, que trabalhava numa conveniência de bebidas. Era ele quem, de madrugada, vendia bebida através de um pequeno buraco, o qual o médico denominou de “A boquinha do Inferno.”

“Por que ele fez isso?”

“Não me lembro muito bem. Parece que um sobrinho dele morreu num acidente de trânsito, após ter comprado cerveja com a gente.”

“E daí ele escreveu este artigo no jornal...”

“Sim. O sobrinho dele bebe, saí dirigindo feito louco, bate, morre, e depois o culpado é a gente, vê se pode...”

“E o que ele escreveu?”

“Escreveu que a conveniência era o Inferno; o meu patrão, o Satanás; o gerente, o Diabo, e nós, os demônios. E a bebida que a gente vendia era a feita pelo próprio Capeta, a qual eu, através da Boquinha do Inferno, passava para as pessoas inocentes...”

Eu tive que rir.

Não que não acreditasse nessas coisas, acredito sim, mas dizer uma coisa dessas é demais, principalmente num jornal. Aliás, até concordava, ainda que em termos, com ele, e sinto muito por seu sobrinho. Entretanto, no fim das contas, no cerne real da questão, aquela conveniência não era um Inferno; e seu dono, um católico, não era o Satanás; e seu gerente e seus funcionários não eram um Diabo e um monte de demônios, ali era sim um Comércio, que tanto o dono quanto os funcionários dependiam dali para sobreviver – e quanto a cerveja ser feita pelo Capeta, contesto: quem a inventou foram os monges, inspirados por Deus, rê, rê!

Glauber da Rocha

Subscribe