Publicado a segunda parte do romance: Enquanto a Fama não Vem. Chama-se: o Purgatório!
I
Desempregado, saí atrás de emprego, quando meu olho voltou ao normal. Deixei os meus currículos nas escolas, entretanto, as portas da educação se fecharam para o transgressor aqui; e sem escolha e desesperado como sempre, comecei a procurar em todos os lugares, aceitando qualquer proposta, inclusive as indecentes. Encontrei um na agência pública de empregos, lugar onde raramente se encontra um serviço bom e à altura da gente. Um lugar para desesperados, eu diria com o português bem claro.
– Seu nome? – perguntou a mulher que me atendeu.
– João.
– João do quê?
– Da Silva.
– Trouxe a sua carteira de trabalho, João da Silva?
– Sim.
– Deixe eu ver... – falou ela, olhando a carteira: – você trabalhou três anos de garçom, depois se formou e trabalhou como professor num colégio católico, onde foi demitido...
– Sim.
– E por que você foi mandado embora?
– Porque apareceu outro com um currículo melhor do que o meu.
– Ah, sim. Entendi.
– Tem algum emprego aí, de professor? – perguntei.
Ela olhou para o computador:
– Não, de professor não. Tem de garçom. Esse você pega facilmente, por causa dos anos de experiência que você tem.
– Ah, sim...
– Vai querer?
– Não.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Deixe eu ver se tem outro – disse ela, voltado os olhos para o computador.
Fiquei ali, ansioso, na expectativa dela achar uma vaga decente para mim.
– João? – disse ela, olhando ainda para o computador.
– Diga.
– Infelizmente não temos mais vagas para te oferecer.
– Ok, então amanhã eu volto.
– Tudo bem.
Sai da agência pública de empregos e fui deixar meus currículos em outras escolas e empresas. No outro dia, voltei. Quem me atendeu desta vez foi um homem. A história se repetiu. Sai dali e continuei a minha peregrinação, para voltar no outro dia. Tive a mesma resposta. E foi assim por um mês mais ou menos. Por isso, resolvi aceitar a vaga de garçom. Não aquela de um mês atrás, mas uma que apareceu naquele dia. Já no dia seguinte, comecei a trabalhar neste restaurante árabe, onde o meu orgulho apolíneo do conhecimento caiu de uma vez por todas por terra: há sim a reencarnação, a dívida kármica e espíritos obsessores para foder com a vida da gente. E eu, eu estava pagando por ser orgulhoso demais, vaidoso de mais, por ter negado a Umbanda, o Espírito Santo que desce como em Pentecostes.
Do contrário, teria arrumado um emprego de professor e não teria purgado quase tudo o que tinha para purgar neste restaurante, que era um penhasco entre o Paraíso e o Inferno. Digo assim porque foi a primeira vez na vida que tive a verdadeira visão do Paraíso. Não aquela com o Nosso Senhor Jesus Cristo num trono ao lado do Pai, com anjos e santos em sua volta, mas de semi-deuses que tem tudo na vida: beleza, dinheiro, popularidade, poder, status, saúde, inteligência, sabedoria, e assim por diante. Agora, os clientes que atendia não eram clientes da classe baixa e até média, e sim da classe alta, altíssima. E pior do que isso: a maioria era jovem; a maioria, belos.
Parecia um desfile de modas, uma telenovela só com atrizes novas e bonitas. As mulheres, verdadeiras princesas, deusas, musas, divas. Era um outro universo, uma outra realidade. Nem mesmo na Universidade e na escola da qual fui demitido havia tanta gente bonita e rica concentrada num único lugar. Comecei a me sentir mal naquele Olimpio, o meu complexo de inferioridade acentuou, nem mesmo o fato de ter um diploma de professor na mão me fazia sentir-se gente perto deles. Foi quando, enfim, tive a consciência de que eu era um desgraçado. Isto, um desgraçado e condenado ao Purgatório! Um condenado que precisava urgentemente da absolvição, ou melhor, da graça e da benção de Deus, da trégua. No obstante, não sabia que estava diante das maiores provações da minha vida: as vencesse, cumpriria o meu karma de uma vez por todas. Pois, trabalhar ali era o sofrimento dos sofrimentos, a privação das privações, a adversidade das adversidades, o grande obstáculo, a grande lição.
O sofrimento era o de trabalhar horas e horas seguidas, sem descansos, de terça a domingo, com os finais de semana trabalhando o dia e a noite inteira. As privações: não poder desfrutar das vantagens de um professor, como bom salário, status, aluna nova me querendo. A adversidade: o meu patrão, que era o anjo de Satanás que Deus me deu para esbofetear a minha face sempre que podia. Logo nos primeiros dias já fui sendo esbofeteado por ele. Nunca, em tantos anos de garçom, levei tanta bronca. O problema era que o homem, no começo, dizia que gostava de mim, e muito. Que eu era bom, e etc. Mas, não podia me ver fazendo nada errado para explodir os seus seiscentos e sessenta e seis relâmpagos tempestivos para cima do João pára-raios aqui – e não importava quando e aonde, se na frente dos clientes ou na presença dos outros funcionários lá da cozinha. Assim, ficava sem entender: se o homem diz que gosta de mim, por que ele só falta me chamar de negro?
– Se ele não gostasse, já teria te mandado embora, sinal que ele quer o seu bem – me diziam por aí, quando saia para beber e bêbado tinha um único assunto apenas: a minha purgação.
Resolvi ficar: não porque ele gostava de mim ou porque ele era rico, e sim porque precisava comer, pagar o aluguel de casa, energia e etc. Fiquei, tendo como principal dificuldade o anjo de Satanás e a sua raça. Além disto, estava de olho nos dez por cento que ele cobrava dos clientes e que por direito era nosso, os quatro funcionários da casa, e que ele, por malandragem, colocava no bolso – na cabeça dele, quem mandava ali, naquele estabelecimento, quem ditava os direitos e deveres, era ele, e não o Direito Trabalhista.
O problema era que cada dia era uma luta violenta. Não havia um dia sequer que não tinha vontade de ir embora. O desejo de não sair perdendo é que me prendia ali. Até mesmo porque se ele não roubasse o nosso dez por cento, juntando o meu salário e as gorjetas que ganhava, dava até mesmo para ganhar mais do que um professor em inicio de carreira. Deste modo, era só lutar pelo dez por cento que ele embolsava, e estava tudo em ordem. Mas no entanto, no dia a dia ali, engolindo tudo quanto é tipo de desaforo, analisando-o, via que isto era um sonho, pois o homem, além de ladrão, era um avarento, um grande avarento. E muito mais avarento que o dono daquela pizzaria dos infernos. E digo isto com provas, como testemunha ocular. Quando lhe perguntavam se ele preferia a época de guerra ou de paz lá na terra dele, o árabe respondia que a época da guerra, porque ganhava mais dinheiro...
Era por essas e outras que me enfraquecia, e assim, quando menos dava conta, levava o serviço de qualquer jeito. Evitava dar o máximo de mim, devido à minha revolta. Acreditava também que se me dedicasse estaria aceitando de vez o meu fracasso, a minha desgraça. Em razão disto, do meu serviço não corresponder às suas expectativas, acabava levando mais ainda advertência dele. De vez em quando, ele me pegava pensando na vida. Chamava a minha atenção, perguntava-me em que mundo eu estava. Na maioria das vezes, dava vontade de falar para ele que estava no abismo infernal, amarrado, olhando para o céu sem poder vivenciá-lo tal como ele e seus clientes ali, que tinham tudo na vida, vivenciavam, em abundância. Mas, como não podia dizer uma coisa desta, pedia desculpas e voltava a minha atenção ao trabalho. O que era difícil. Olhar para aquelas pessoas ricas, com a vida ganha, falando sobre viagens que fizeram pelo mundo afora, sobre as comidas que comiam em tais restaurantes, das festas que iam, me deixava profundamente indignado. Perguntava-me: por que será que fui nascer pobre? Foi uma escolha minha ou a vontade de Deus? Ou nenhuma das duas?
Refletia sobre isso, pensava sobre a minha sorte, e me sentia cada vez mais desgraçado. O que eu estava fazendo ali, Deus meu? Aquela profissão não era mais para mim. Por outro lado, sair do emprego era o mesmo que passar fome, tinha que ficar. Também, até que havia o seu lado bom, pessoas boas que atendia e me davam boas gorjetas. Entretanto, pesando com sinceridade na balança, tudo me era mais desfavorável. Era o meu purgatório. O lugar onde a pessoa pode ver os dois lugares ao mesmo tempo: o Paraíso e o Inferno. Era isto. Eu estava purgando os meus pecados. Eu podia muito bem estar numa sala de aula com um monte de gente à minha volta, me admirando, mas estava ali reduzido ao nada, exercendo uma profissão que não exige muito estudo, aniquilando o meu ego. E o mais pesado de tudo era no Sábado, e vocês logo vão saber o porquê. Na hora do almoço, começavam a chegar uma turma de ricos. Era a elite da sociedade: playboys, riquinhas, famosos e famosas. Almoçavam, e depois do almoço, liderados por um playboy malandro, de uns trinta anos ou mais ou menos, começavam a fumar, a beber, a rir, a conversar, a fazer da vida um banquete.
Até aí tudo bem, dava para suportar, se um deles não fosse um jovem escritor, da minha idade, que tinha mais de três livros publicados por uma das maiores editoras da América Latina. O sujeito gozava de tudo o que eu queria na vida. Era famoso e ganhava a vida com a literatura. Está certo que o dinheiro de seus livros, que eram vendidos aos montes, não lhe garantia a sobrevivência – o que pagava as suas contas eram as traduções que ele fazia – mas, o fato dele ser um escritor novo, no meio de um povo rico justamente por isto, me causava uma inveja danada. Cheguei inclusive a falar com ele sobre mim. Mas, o filho da mãe nem quis ler os meus escritos, falando: por que você não tenta a sorte? Faça como eu. Envie seus livros, meu amigo. Meu amigo uma ova!, falei para mim mesmo tal como gostava de falar a Cátia. Se fosse, leria alguns de meus contos, me daria uma ajuda, uma indicação. De qualquer modo, pelo menos ele me fez lembrar do pai Joaquim, da história dos três livros.
Em casa, peguei tudo o que havia escrito até então, e comecei a separar o trigo do joio. Sim, o trigo do joio, e não o joio do trigo. Pois, o que eu queria era sair dali, não era? E se a literatura podia me libertar deste purgatório, eu tinha que vender. E para vender, hoje em dia, ser conhecido e famoso, tal como este jovem escritor, os livros não podem ser profundo, difíceis, não é mesmo? Quem é que lê Guimarães Rosa hoje em dia? São poucos, em comparação com um Rubem Fonseca e um Dalton Trevisan, por exemplo. Pois então. O trigo, na minha literatura, era aqueles escritos que tinham um certo anseio do universal. O joio, enfim, tinha a fórmula básica do sucesso: violência, sexo e morte.
Já as poesias, nem fiz questão de lê-las, porque não queria mais ser poeta, devido à dificuldade de se ver um famoso, ainda mais jovem. Me fale de um que experimentou a fama de poeta na juventude que eu troco de nome. Os maiores deles não a conheceram: Arthur Rimbaud e Álvares de Azevedo, por exemplo, tiveram que morrer para serem conhecidos. Vôte, cobra! Está certo que um escritor jovem e famoso também é muito raro, mas muito mais fácil: veja o caso de Antônio João e Aluízio de Azevedo. E eu queria ser como um deles. Minto. Pela maneira em que estava escolhendo meus contos, preferindo aqueles em que rasgava o verbo escrevendo, escolhendo sempre os clichês, os chavões, as gírias e os temas polêmicos, eu estava muito mais para um Rubem Fonseca na vida, um Charles Bukowisky e um Nelson Rodrigues que um João Antônio e um Aluízio de Azevedo, que prezam a estética, a erudição, a linguagem e a forma rebuscada. Eu queria a fama naquele momento, e não a imortalidade.
Por outro lado, ainda que estes escritos eram os joios de minha literatura, não posso ser tão cruel assim para não dizer que as cenas violentas de sexo e morte eram apenas atrativos para os assuntos sérios que abordava, porque o que escrevia nesta época era sobre os ricos exploradores, patrões avarentos, políticos corruptos, pessoas fúteis que valorizam a moda, os bares, as bebidas, o sexo e desprezam impiedosamente os famintos e necessitados de comida, roupa, e dignidade – se as cenas fortes de sexo, morte e violência me condenavam, esses meus protestos sociais até que me redimiam. Separando, vi que estava com uma coletânea de contos. Faltavam, portanto, dois livros.
Lembrei do romance que queria escrever e dei início, ao mesmo tempo em que escrevia contos, para a outra coletânea. O que não demoraram muito para ficarem prontos, pois, quanto mais me estressava no restaurante, quanto mais invejava o jovem escritor e seus amigos, mais extravasava na arte. Ao fim, comecei a pensar nos títulos. Levei vários dias para decidir o primeiro. Todos os nomes que vinham na cabeça tinham uma seriedade que me incomodava. Não podia ser assim. Tinha que ser um clichê, um ditado popular, porque queria a maioria, a fama, o sucesso.
Num dia, assistindo televisão, vi numa reportagem uma vaca indo para o brejo, literalmente. Isto aconteceu numa cidade do sul, após chover por uns dois ou três dias seguidos. Um barranco despencou, derrubando casas, árvores e uma vaca, que estava lá em cima. Parei para pensar sobre isto, e de repente me dei conta de que estava com o primeiro título em mãos: é isto! E a Vaca Foi Pro Brejo!, pensei comigo. Depois, pensando sobre o título, resolvi colocar: É Assim que a Vaca Vai Pro Brejo! Tinha tudo a ver com as histórias do livro.
Feliz da vida, comecei a pensar em outro. Pensava, pensava e não conseguia encontrar um título. Num dia, conversando com um senhor, depois de me contar uma história finalmente falou: ele veio com uma conversa do arco da velha para cima de mim! Do arco da velha? Sim, do arco da velha. Pensei: é isto! O outro livro de contos se chamará: Histórias do Arco da Velha! Depois, refleti: histórias, histórias, hum, acho que não; vou colocar apenas o Arco da Velha. E assim ficou o segundo livro de contos: O Arco da Velha.
Depois de encontrar para as duas coletâneas de contos, parti em busca do título para o romance. Mas, por mais que pensasse numa porção de títulos, não achava nenhum que me agradava. Eu queria, para ser mais exato, o seu título verdadeiro, um que houvesse uma correspondência perfeita entre o objeto e o intelecto, como dizia o São Tomás de Aquino. Ou seja: um que representasse bem o conteúdo do romance. Até que um dia, ao passar em frente de uma banca de revistas, vi um livro chamado: Relatos Indecentes.
– Relatos indecentes?
Era o que estava procurando! Voltei à banca, perguntei ao dono, um velho de seus sessenta anos de idade, se aquele livro era de pornografia. Não soube responder assim, de imediato, mas já havia lido o livro. Foi até ele, pegou-o, começou a folheá-lo e a olhá-lo por cima, tentando lembrar a leitura. Repetia, murmurando, como que chamando à memória: relatos indecentes, relatos indecentes... deixe-me lembrar, ah, sim! Relato Indecentes! Pornografia das brabas, meu filho. Muito bom, histórias de mulheres adúlteras, de ninfomaníacas, de prostitutas, de tarados, de imoralidades atrás de imoralidades, um livro inspirado pelo demo, meu filho, vai querer?
Falei que não. Aí era demais. Pedi desculpa por ter ocupado o seu tempo e fui-me embora. Mas o título, o título era o ideal para nomear tantas injustiças relatadas nos meu romance. E assim, sem escrúpulos e hesitações, resolvi roubá-lo. Em casa, organizei tudo o que escrevi, fiz as capas das duas coletâneas e do romance e estavam prontos, prontinhos! Quero dizer, quase prontos, uma vez que os livros, por mais que sejam revisados, nunca ficam prontos, nunca!
II
Revisei todos eles umas dez vezes no mínimo. Depois, imprimi várias cópias, para mandá-los para todas as grandes editoras que conhecia. Mas antes, precisava que alguém lesse tudo aquilo primeiro, para ver os erros que não vi, para dar as dicas que não tive na hora de escrevê-los. Pensei em diversas pessoas, para finalmente lembrar do professor Augusto, aquele que gostava da minha literatura durante o período em que me formava em Filosofia... Ao me ver na universidade, o professor Augusto abriu um sorriso orgulhoso, deu-me um abraço de lado, e perguntou o que o grande poeta fazia ali entre os meros mortais.
– Falar com você – eu disse.
– Então diga!
Mostrei os escritos para ele.
– Mas rapaz... Que é isso desta vez, João? Contos?
– Também. Dois livros de contos e um romance.
– E as poesias, abandonou?
– Abandonei.
– Pode me dizer por quê?
– Por nada, professor. Poesia não dá dinheiro.
– Que isso? Virou capitalista agora?
– Mais ou menos; é que me cansei dos outros defecarem na minha cabeça.
O professor riu, maneou a cabeça como que dizendo não, e olhou para os escritos.
– E agora quer redenção com os contos?
– Dinheiro.
– Está certo...
– Por que não estaria? – eu falei.
– Por que? –, disse ele.
– É o que faço de melhor: escrever. Está certo que não sou nenhum Rubem Fonseca na vida.
– Não é mas pode ser. Nunca se sabe a repercussão de um livro...
Ele olhou novamente para os escritos:
– É assim que a Vaca vai pro Brejo, O Arco da Velha e Relatos Indecentes?!
– Sim.
– Que isso?... Este Relatos Indecentes é um livro erótico, pornográfico?
– Não, professor. Chama-se Relatos Indecentes porque fala de ricos exploradores, de patrões avarentos, de políticos corruptos, de miseráveis que não lutam por seus direitos, de pessoas fúteis que valorizam a moda, os bares, as bebidas, o sexo e desprezam impiedosamente os famintos e necessitados de comida, roupa, e dignidade.
– Aí sim, hein, João? Parece que o livro é uma obra prima... O que eu faço?
– Nada. Só leia. O resto, dou um jeito.
– Então você quer uma análise?
– Isto mesmo. Leia e me diga o que está bom e o que está ruim.
– Está bem.
– Depois, me liga – falei dando o número do meu telefone para ele.
Enquanto aguardava a resposta do professor, ia sofrendo dos assédios morais do meu patrão e me convalescendo à cada dia de inveja dos semi-deuses e desse escritor jovem que nem eu. Num dia, apareceu no restaurante um ator famoso, conhecido no Brasil e no exterior. Ao vê-lo, quase não acreditei. Ele estava junto de um colega. Aproximei-me à mesa dele, levando o cardápio; e sem hesitações, perguntei se ele era quem eu estava pensando que fosse.
– Sou eu mesmo.
Pensei em falar com ele sobre os meus escritos naquele mesmo momento, mas, começou a chegar mais clientes para atender e resolvi deixar para outra oportunidade. Enquanto atendia os outros clientes, pensava comigo: fale com ele, João, vai que ele te ajuda; não perca esta oportunidade! Era num almoço de Sábado. Ao mesmo tempo em que atendia um monte de gente, ficava lhe cuidando. Assim que ele terminou e pediu a conta, decidi falar-lhe, firme.
Mas, não foi preciso, ao menos por enquanto, pois, logo em seguida apareceu aquele playboy que já falei aqui, acompanhado de sua turma, com o jovem escritor junto. O playboy e o jovem escritor conheciam-o, e logo me mandaram ajuntar mesas para sentar todos juntos. Ajuntei as mesas e disse: agora estou fodido. Disse isto porque já passava das duas horas e ia ter que atendê-los até umas nove da noite, tal como eles costumavam ficar. Prestando atenção à conversa dele, fiquei sabendo que estava dirigindo um filme agora, que seria filmado aqui na cidade. Numa hora, quando ele foi para o banheiro, ao voltar acabei lhe abordando. Falei para o ator famoso e agora diretor de cinema que tinha dois livros prontos, o Relatos Indecentes, o É assim que a Vaca vai pro Brejo e O Arco da Velha, e que era formado em Filosofia. Assim que falei a minha formação, o homem deu um pulo, impressionado: Filosofia?!
– Isto – respondi pensando: no mínimo ele deve estar se perguntando: o que um sujeito com o diploma de Filosofia fazia ali, trabalhando como garçom?
– Bom, hein. Onde você se formou?
Falei-lhe a faculdade.
– E os livros, do que é?
– Dois de contos e um romance.
– Um romance?
– Isto.
– Fala sobre o quê?
Expliquei-lhe.
– Hum, parece bom.
– Deve ser. Mas gosto mais dos contos.
– Por quê?
– Dá menos trabalho.
– Ah, sim. É mais sintético, não?
– É.
Depois disto, falamos sobre alguns autores, como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Plínio Marcos. Falei que a minha literatura tinha quase o mesmo estilo que os destes. O homem se interessou, e quis ler os textos, porque ele conhecia muita gente que podia publicá-los. Como eu não tinha nenhum texto ali comigo, pedi o seu e-mail, e ele me deu. Enquanto escrevia o seu e-mail, me falava sobre o filme que estava dirigindo. Assim que acabou, voltou para a turma do playboy, dizendo que aguardava os textos.
Lá na mesa, ele me apontou para aqueles que estavam mais próximos, dizendo o garçom ali é filósofo e escritor, sabiam? Ninguém sabia, e ninguém deu ouvido também para a sua novidade. Logo depois, eu estava invisível, tanto para ele quanto para os demais. Na hora de ir embora, apertou a minha mão, se despedindo, dizendo que ia esperar pelos textos. Disse que sim e voltei ao trabalho, que era limpar toda aquela sujeira que ele e seus amigos deixaram. Já era noite, e assim que foram embora, começamos a fechar o restaurante, para abri-lo no outro dia, cedo. E assim que larguei o expediente, passei numa lan house e enviei alguns textos para ele. Agora, quem aguardava quem era eu. E aguardava duas respostas: a dele e a do professor Augusto.
Uma semana depois, este ator famoso reapareceu, acompanhado de sua equipe de filmagem, com cinegrafistas, atores e atrizes. Ao me ver, cumprimentou, dizendo para todos eles: é esse o que falei para vocês, que é escritor. Todos me olharam, dizendo: já está famoso! Mas, assim que disseram, logo depois voltei a ficar invisível novamente: eu não era um escritor engraçado, era um garçom qualquer com vontade de ser alguma coisa na vida. – Daqui a pouco a gente conversa, João – disse ele. Ao atender a sua mesa, apareceram outros clientes para atender também.
Enquanto atendia esta legião de deuses e semi-deuses, de repente tive a impressão de que já havia sonhado com esta noite antes. Pensando sobre isto, vi que podia ser apenas coisa da minha cabeça. Entretanto, continuei na tentativa de recordar este sonho. Fui tentando, tentando até que consegui; mas no sonho, havia fogos de artifício dando um espetáculo no céu. – Bom, só faltam os fogos agora. Não deu outra. Meia hora depois, ali perto houve um show pirotécnico. A confirmação? A confirmação de que tudo vai dar certo? Será este o marco de minha saída do purgatório? Estou entrando no Paraíso? Negativo. Quem estava entrando no Paraíso era o meu patrão. Dali à pouco, o ator e diretor de cinema lhe chamou, dizendo que ia filmar algumas cenas ali no restaurante, e que queria que ele encenasse também.
– Será que dou conta?
– Dá sim. Amanhã eu passo aqui, ensaiamos, e depois, na próxima vez que voltar à cidade, filmamos.
Depois de combinarem, foram embora. Antes de ir, o ator veio falar comigo: agora estou muito ocupado, mas quando voltar à cidade de novo, sentamos e conversamos.
– Mas, vem cá, você gostou dos textos?
– Gostei.
– Então vai dar tudo certo – falei-lhe.
Ele achou estranho eu ter falado isto, mas apertou a minha mão e foi embora. Isto me deu um certo contentamento, mas queria algo mais sólido. Contudo, era um sinal, um sinal que logo, logo iria deixar o meu Purgatório. Dias depois, o professor Augusto me ligou.
– Li os originais, João.
– Leu, é?
– Li.
– E aí?
– E aí que eu tenho uma pergunta para fazer antes de dar as minhas considerações.
– Pode fazer, professor.
– Você acredita em Jesus Cristo?
– Claro que acredito. Mas que diabo Jesus Cristo tem a ver com a Literatura, Deus do Céu?
– Tudo a ver, João.
Em verdade, em verdade, eu tinha que concordar: Jesus Cristo tem tudo a ver com a literatura. Mas, não queria, pelo menos naquele momento, aparecer como um escritor metafísico – e quando digo metafísico não me refiro a esses escritores que deixam claro a sua fé em seus escritos, e sim aqueles que ocultam, que deixam de um modo disfarçado. Assim são aqueles que usam da literatura para humanizar, para mostrar que o amor está acima de tudo, sem com isto deixar de mostrar também as misérias humanas, numa sondagem profunda. Deste modo, não quis entrar numa discussão; do contrário, diria para ele, mesmo lhe agredindo: vem cá, virou padre agora, é? Deixou de ser doutor, é isto? Ao invés, apenas falei:
– Realmente, professor, tem tudo a ver.
– Eu sabia que você me compreenderia.
– Compreendo perfeitamente. Grandes escritores foram cristãos, como por exemplo Guimarães Rosa, Jorge de Lima, Dante e etc. E os que não foram, pelo menos lutaram pelo mesmo ideal, só que de outra maneira.
– Perfeitamente. É isto o que quero lhe dizer, João.
– Sim.
– Bom, o que tenho para te dizer é que a Literatura é um sacerdócio: não se pode querer ganhar a vida em cima dela. Antes, com as suas poesias, você era um poeta, quero dizer, um bardo. Percebia claramente que a sua literatura não tinha fins comerciais, como agora. O que vejo nestes seus livros é isto, João, obras destinadas à venda, à ganância de querer ser best seller’s.
– Por que você diz isso?
– Porque em suas obras se vê constantemente os três elementos essenciais para a venda de ficção hoje em dia.
– Quais são? – perguntei para ele, só para ver.
– Sexo, violência e morte. Hoje em dia, todo mundo gosta. Não sei até quando esta epidemia vai continuar eliminando escritores bons, tal como você era, com as suas poesias, antes de se vender.
– Eu não me vendi.
– Vendeu sim, João, e você sabe disto.
– Não, professor, eu te juro, não me vendi. Só uso estes três elementos essenciais para atrair os leitores para assuntos mais sérios.
– Mas, não precisa disto, e você sabe muito bem. Se você quiser, pode falar sobre estes assuntos mas de maneira mais bela, mais profunda. Portanto, repito: você se vendeu, João.
– Professor? Eu não me vendi!
– Se assim é, João, rasgue os originais aí que eu rasgo eles aqui e está tudo em ordem.
Para não decepcioná-lo, falei:
– Ok, ok. Vou rasgar.
– Eu sabia. Escritores bons como você tem que resistir às tentações do mercado. Ou você faz literatura, ou você faz comércio. Não se pode servir a dois senhores, entendeu?
– Mas não é possível conciliar os dois? – tentei, ainda.
– Meu amigo. O que você acha que vende mais hoje em dia: Tolstoi, Sthendal, Fiódor Dostoiévski, Shakespeare, Sidney Sheldon ou Dan Brown?
– Paulo Coelho.
– Então. Qual lista que você quer entrar, na primeira ou na segunda?
– Em relação a dinheiro, na segunda.
– E em relação à genialidade?
– Na primeira.
– Então você escolhe: ou a genialidade e pouco dinheiro, ou mediocridade e fama.
– Escolho o primeiro.
– Sabia que você iria tomar uma decisão inteligente.
– Obrigado.
– A Literatura precisa de autores austeros!
– Austeros!
– E você tem capacidade para isso, João.
– Tenho?
– Deixe de modéstia, homem.
– Não é modéstia. É auto-estima baixa.
– Pois então acabe com isto!
– Vou acabar.
– Um abraço, João.
– Outro.
III
Desliguei o telefone e fiquei pensando em tudo o que o professor disse. No começo, não me deixei levar pela sua crítica, mas depois, vendo que ele tinha razão, fui entrando em crise. Realmente, eu havia perdido o ideal. Estava pensando na fama, apenas na fama, e no dinheiro que poderia ganhar. Ou seja, estava trocando o verdadeiro e eterno pelo falso e transitório. Isto. Era isto o que estava fazendo!
O João da Silva aqui, desesperado, estava se vendendo, para falar com as palavras do professor. Do contrário, não precisava colocar cenas fortes de violência, de sexo e morte para falar o que queria falar. Não precisava ser tanto agressivo como estava sendo, para apenas causar impacto e conquistar os leitores. Não precisava nada disto. Bastava a simplicidade, a leveza, a graça e a ironia, só. Fazer como fizeram Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Clarice Lispector e principalmente Guimarães Rosa. Nada de violências, apelos eróticos, pornografias e personagens rebeldes ou estranhos. Desta feita, levando em consideração as palavras do professor, eu tinha duas opções: rasgar os originais, esquecer a fama e o dinheiro que dá este tipo de literatura, ou enviá-los para as editoras e quem sabe ter a sorte de sair da lama.
Era uma escolha difícil, demasiadamente difícil. Em casa, quando estava tranqüilo, longe de tudo aquilo que me aporrinhava, e bem perto da presença de Deus, dava vontade de esquecer o passado, o presente, e optar pela boa literatura, isenta de qualquer culpa e traição. Por uma literatura que, sem sombra de dúvida, nunca sabemos se o reconhecimento virá durante a vida. Mas, no serviço, me irritando cada vez mais com o meu Purgatório; com todo fim de semana sendo a mesma coisa, a mesma cena, a mesma história; com aqueles deuses e semi-deuses me dizendo, sempre: você, João, é pobre; você, João, é baixo; você, João, é inferior; precisa passar por muitos calvários para ser um semi-deus, para desfrutar do paraíso, como nós, jovens ricos, que não tem a vida como sofrimento, e sim como prazer, eu então pensava egoisticamente e dizia: foda-se, foda-se, foda-se tudo!
Com o peso material pesando mais na minha balança, decidi: sair da lama a qualquer custo! Não estava nem aí se isto me custasse o preço da traição, traindo o professor, a literatura e a arte acima de tudo. E assim, sem escrúpulos, sem nenhuma vergonha na cara, pensando unicamente em sair do Purgatório em que estava, peguei todos os meus livros, organizei tudo bonitinho e mandei os originais para as editoras. Enquanto aguardava, ia sofrendo com a realidade ali, forte, com os clientes dizendo que eu era pobre e com um patrão me chamando de incompetente e burro. E quanto mais sofria e padecia na mão desses deuses e semi-deuses, mais me apegava a doutrina espírita para responder a minha pergunta principal: por que eles são ricos e eu sou pobre se todos somos filhos de um mesmo Deus?
No mínimo, muito provavelmente fui um rico orgulhoso em vidas passadas, que vivia tirando o sarro dos garçons. Ou então, um professor vaidoso e arrogante, desses bem auto-suficientes. Alguém que não precisava e nem respeitava Deus, e que agora, desprovido de tudo, era convocado a amá-lo, e me resignar, e aceitar todas as suas provas de amor. Contudo, a cruz era pesada demais, e comecei a trabalhar mais ainda de qualquer jeito. Fui sucumbindo à minha missão. E o árabe, vendo isto, começou a me agredir mais ainda. Passou a gritar comigo com mais freqüência. E, por saber que eu era formado, falava com deboche para os seus amigos árabes: é professor, ele. Num dia, me chamou de garçom porcaria. Eu só não briguei fisicamente com ele porque nunca havia visto na minha vida um funcionário agredir o patrão. Você já viu? Tem gente que já.
Engolia o homem, era obrigado; e me perguntava pelo ator e diretor de cinema: onde está você, que não aparece? E quanto mais o árabe me assediava moralmente, mais fraco ficava diante da vida. Voltei a olhar indiscretamente as mulheres dos outros. Estas, muitas vezes iam sem calcinha por debaixo da saia, deixavam os seios soltos no decote, eu olhava para a bunda redonda delas, para as pernas torneadas, para a cintura fina e tinha vontade de ir ao banheiro, bater punheta como batia antes. Mas, me controlava. Respirava fundo e dizia comigo: calma, João, calma; sossega o facho, em breve você se tornará famoso, e poderá comer mulheres tanto ou mais bonitas que estas...
Para cuidar da minha vida afetiva, saia, ver se arrumava uma namorada. Novamente, vi que a minha auto-estima estava péssima. Eu ia nos bares, nas boates, e não conseguia nenhuma mulher bonita como aquelas que atendia no restaurante árabe. Sem sucesso, bebia, e saia das danceterias e dos bares completamente bêbado.
– Oh, fraqueza! – eu bradava agora com a voz bêbada pelas ruas, evitando o máximo possível ofender os deuses lá em cima.
Lembro até de uma vez em que, decididamente obstinado a conseguir uma mulher bonita, fui à uma dessas danceterias luxuosas onde só vai gente de alto nível. Assim que entrei, eu disse: é hoje, João, que você tira a barriga da miséria! Sem demora, saí cantando as mulheres que passavam por mim. Ao ser rejeitado por umas dez mais ou menos, finalmente uma loira alta, bonita e educada se interessou. Ficamos conversando por um bom tempo, até chegar a hora dela ir embora de carona com uma amiga. Mas antes, me deu o sinal:
– João, já estou indo embora, com a minha amiga.
A mensagem sublunar, ou melhor, o que ela disse em entre linhas era: João, me leva para casa, me leva?
Ora, como eu não tinha carro nem muito menos dinheiro sobrando para pagar um táxi e quem sabe levá-la depois para um motel, a única coisa que pude fazer foi ficar com raiva por dentro, e dizer: ok. Na hora, devido a minha completa indignação, não tive nem mesmo inteligência para pedir seu telefone. Deixei-a ir, e completamente derrotado, resolvi voltar para casa. Lá fora, o azar ainda maior: chovia forte, numa chuva que parecia que nunca iria acabar – se ia ficar doente ou não, não me importei no momento, e fui embora, debaixo de chuva mesmo...
– Até quando, oh Senhor, até quando?
Para piorar mais ainda o meu espírito, inventei de procurar as mulheres do meu passado: primeiro fui atrás da Cátia, e ela disse nossa João, como você está derrotado! Depois, fui atrás da Aline: não te conheço mais, João; onde está o professor brilhante que conheci? Não sei, respondi para ela, numa tristeza incomum. As duas, me vendo neste estado, não quiseram mais nada comigo, é claro. Lembrei do tempo em que as levava para cama e fazia de tudo, numa potência que dava orgulho. Ao lembrar disto, perguntei-me: João, será que o seu pau ainda levanta? De todo modo, resolvi verificar.
E como não tinha mulher alguma devido ao meu fracasso, o jeito foi conferir solitariamente. Então eu ficava olhando para os seios das clientes, para as pernas delas, e excitado, esquecia do possível sucesso no futuro e corria lá pro banheiro, fazer o que não se deve fazer em horário de serviço. Satisfeito com o desempenho, voltava para o salão com a auto-estima um pouco melhor; entretanto, logo vinha aquela voz que derruba a gente e que deve ser a voz do diabo, só pode, dizendo: nos cinco contra um é fácil, João, eu quero ver se você ainda agüenta com uma mulher de verdade!
– Será que ainda levanta?...
Para ter certeza de que ainda era potente, vi que tinha, de uma maneira ou de outra, levar uma mulher para cama. Tentei esquecer que era professor derrotado e um garçom fodido e comecei a conversar com todas as mulheres que me davam atenção. Não obstante, nenhuma mulher dava mole para o João fodido aqui: por mais que me esforçasse, ousasse e pedisse, a resposta era sempre não. Sem conseguir arranjar alguma mulher, fiz o que um homem faz nessas horas: fui a um prostíbulo. Lá chegando, escolhi uma morena bem bonita, levei-a para o quarto, passei vexame. Fiquei com raiva, furioso, e xinguei a morena, o quarto, o prostíbulo; e sem conseguir me conter, xinguei também a vida e os deuses todos, inclusive o Criador – é assim que a gente blasfema sem ver.
Depois, me vesti, paguei a mulher e voltei para casa. No caminho, passei num mercado e comprei uma garrafa de vodka, para bebê-la até o fim, a ponto de esquecer pelo menos um pouco a minha vida. No caixa, havia na minha frente uma bela mulher conversando com o operador, um rapaz que devia ser um pouco mais novo do que eu. Olhei para o corpo dela, vi as marcas de biquíni aparecendo nas costas, e disse para mim mesmo: o que adianta olhar, João? Desviei os olhos e prestei atenção na conversa dos dois. O operador estava reclamando de uma senhora que queria pagar apenas cinqüenta reais quando a sua conta era de cinqüenta e um. Motivo: os operadores sempre ficavam lhe devendo alguns centavos, e agora ela queria tudo de volta!
– Não estou conseguindo pagar nem as minhas dívidas e agora vou ter que pagar as dívidas dos outros? – disse ele, com uma voz fina, efeminada.
Ao ouvir isto, essa bela mulher olhou para mim e riu. Depois, pegou a sua compra, que era apenas de uma sacola, e saiu, devagar. Eu, na minha vez, paguei a vodka e sai andando, rápido. Passando ao seu lado, ela me olhou mais uma vez e soltou o comentário de que para ela o rapaz do caixa era bicha. Sem perceber, falei o que pensava a respeito da voz do operário:
– O sujeito ganha uma miséria, não consegue pagar nem as contas, e você ainda quer que ele fale grosso, que nem homem?
Ela riu, pegou no meu braço e pediu para dizer o meu nome. Falei. Então ela perguntou onde eu morava e daí fui obrigado a mentir o endereço, falando que a minha casa ficava lá do outro lado da cidade, pois, assim dizendo, ela desistiria logo cedo de qualquer tipo de envolvimento comigo. Mas, foi o mesmo que dizer: eu moro bem ali, vamos lá para casa? Porque assim que disse o falso endereço, ela falou: eu moro a uma quadra daqui, vamos lá, conversar um pouco? Eu só não falei para ela que conversar é coisa de gente desocupada porque hoje em dia há uma supervalorização da conversa.
– Estou atrasado, moça –, falei-lhe.
– Jura?
– Por tudo quanto é mais sagrado.
– Pra onde?
– Trabalho.
– Pro trabalho e com uma garrafa de vodka debaixo do braço?
– Essa garrafa é para o meu pai, que é alcoólatra –, falei.
– Vai, só um minutinho –, pediu ela, ainda.
– Sinto muito – falei, atravessando a rua, fugindo.
Bebi a garrafa de vodka inteirinha, e no outro dia, lá estava eu enfrentando o anjo de Satanás que era o meu patrão. E quanto mais eu tentava agradá-lo, mais o homem me humilhava. Não podia me ver fazendo nada errado, algo simples e insignificante que fosse, que já me chamava a atenção na frente de todo mundo, inclusive dos clientes ricos que eu invejava até mesmo o nome. E quanto mais ele me agredia, quanto mais ele me desaforava e descarregava todas as suas tensões para cima do João fodido aqui, mais eu me afundava na vida. Enquanto isto, as editoras não me mandavam nenhuma resposta: cadê, pai Benedito, o cumprimento de sua profecia? – perguntava.
Tive vontade de voltar lá no terreiro, mas, a vergonha era maior: como ia olhar para eles depois de chamar seus médiuns de malucos da silva? Não dava. Perguntava também: cadê este ator, que não aparece de jeito nenhum? Para ver se alguma coisa dava certo em minha vida, resolvi então procurar uma igreja, e fui primeiramente numa católica. Mas, a igreja católica estava fria de mais. Eu precisava de uma fé mais quente, e por isto resolvi ir a uma igreja pentecostal. Lá eles acreditavam na existência dos encostos, mas não na reencarnação. Não falei com nenhum deles sobre isso. Eu não estava ali para discutir doutrina. Eu estava ali para ser enganado. Mas isso eu só fui ver tempos depois.
O pastor disse, quando pedi para ele abençoar meus livros:
– Você quer ver seus livros conquistando o mundo todo?
– Quero! – falei, como se fosse um cachorro babão, na frente do osso.
– Faz sacrifícios.
– Que tipo de sacrifícios?
O salário do mês, algo de valor que eu gostava, enfim, algo que doesse o meu coração, pois aí, Jesus, lá do alto, iria ver a minha ação, e iria me retribuir mais de sete vezes sete. Acreditei. Fazia sentido. Se Salomão fazia isto, se todos os heróis da Bíblia fizeram sacrifícios para alcançar o céu, porque eu não podia fazer também? Não fiz um como fiz vários. Quanto mais eu queria deixar o Purgatório; quanto mais o meu patrão me ofendia; quanto mais eu tinha vontade de ser como os semi-deuses que apareciam lá no restaurante; quanto mais demoravam a resposta das editoras e a volta do ator famoso e diretor de cinema, eu sacrificava mesmo: sacrifiquei o meu salário, o meu PIS, tudo, tudo o que eu tinha de algum valor. É claro que eu estava sendo enganado pelos pastores.
Fora isto, pelo menos me deu um certo equilíbrio, e passei a sentir que a minha vida iria ser melhor. Comecei a ganhar mais gorjetas e, finalmente, a mulher do meu patrão me falou que ia me dar cinco dos dez por cento, pois o contador lhe avisou que era do meu direito. Mas isto ela não disse, que era do meu direito. No lugar, quis dizer que gostava de mim e queria me ajudar, como se estivesse fazendo caridade. Eu olhei bem para a cara dela, ri, balancei a cabeça que não, olhei para o Céu, depois olhei para ela, e falei tudo bem – os cinco por cento eram melhor do que nada. Entretanto, a burra entendeu errado, junto com o burro do esposo dela. Eles achavam de que de cem reais, por exemplo, não ficava para mim os cinco reais, e sim cinqüenta centavos. Não era algo para mandar a pessoa dar uma voltinha lá pelos Quintos dos Infernos?!
Expliquei para eles como se fazia as contas, e acabaram fazendo a “minha” vontade. Mas o árabe passou a me olhar diferente, achando que eu estava lhe passando a perna. Chegou inclusive a perguntar se eu sabia matemática, e eu falei que melhor do que ele.
– Eu vou te levar na faculdade onde você estudou para os seus próprios professores te mostrarem o quanto você é burro.
– Vamos, e você quebrará a cara, não sabe nem fazer conta de porcentagem...
Ele teve de engolir. Continuou me dando o que era meu, de direito, mas com pé atrás, achando que eu estava lhe roubando. De repente, resolveu parar de me dar os meus cinco por cento. Eu liguei para o sindicado, e lá eles me falaram: ele está metendo a mão no seu bolso... Incrível, não?, disse para mim mesmo: o rico roubando o pobre... Falei para o árabe a respeito dos meus cinco por cento, e ele disse: agora você virou o meu sócio? Respondi que estava querendo o que era meu, de direito. E ele disse: agora vou dar o que é meu por que te amo? Não falei nada depois disso. A vontade que me dava era a de pedir as contas, sair antes que enlouquecesse de vez. Mas, segundo as minhas contas, estava perto do ator chegar – se ele me desse uma oportunidade que fosse, quem sabe sairia por cima, e não por baixo, como eu estava.
Acho que era só este fator que me prendia ali, naquele purgatório pesado, cheias de caixinhas de Pandora por todos os lados. Fiquei, fazendo o meu serviço até ele contratar outro garçom. Logo soube o que ele queria, e por isso, fui dando um foda-se para ele, um foda-se para a mulher dele, e um foda-se para os seus filhos, que, mesmo sendo ricos, tinham a capacidade de meter a mão na minha gorjeta também: tai pai, tal filhos. Num dia, ele apareceu nervoso, olhei para ele com cara de deboche, e ele perguntou: o que é a vida para você, João? O que é a vida para mim?, eu me perguntei.
De tão mal que estava, não consegui nem mesmo perceber que estava diante de uma afronta; de que ele só estava aguardando o momento certo para dizer algo vingativo para mim – pois quando ele disse isto estávamos sós – e; também, não imaginava se quer que esta pergunta me perseguiria por um bom tempo. Deste modo, a única coisa que conseguir responder, e mentalmente ainda, foi: uma provação! Isto! A vida para mim é uma provação! Pensei em dizer o que pensei para ele mas iria parecer uma dessas pessoas religiosas cujo fanatismo é grande demais, e fiquei quieto, calado.
Em contrapartida, porém, me veio como lampejo um grito revoltado de meu super-ego, dizendo: ei, o filósofo aqui sou eu! É claro que eu não era um filósofo no sentido profissional da palavra, um desses pensadores respeitados que ganham a vida pensando; era sim um filósofo no sentido figurado, disfarçado, escondido por detrás do uniforme de garçom e da estética das palavras. Então, eu me enchi de coragem e lhe disse:
– O mesmo para você!
Não concordou.
– A vida não é igual para todos? – falei, então.
– Não sei. A única coisa que sei é que a vida para você não é a mesma para mim...
O semântico contra o pragmático falando sobre o transcendental: ou seja, interpretações diferentes sobre a mesma realidade... Dias depois, ele me deu às contas, dizendo que era eu quem queria aquilo. Eu disse que não: quem estava querendo que eu fosse embora dali era ele mesmo afinal, para não me pagar os cinco por cento, mas que, graças a Deus, existe a Justiça, e que eu iria lutar para fazer valer os meus direitos. Depois, com todo o prazer, virei as minhas costas para ele. Peguei as minhas coisas e fui embora, sentido livre de um peso muito grande sobre os ombros.
– Adeus, ladrão filho da puta – foi o que eu disse ao sair deste restaurante.
ENQUANTO A FAMA NÃO VEM
I
Esta minha vida era um verdadeiro inferno, com o perdão da palavra. Eu só não dava um fim porque sabia que era essa a vontade do maligno: suicidava-me e ia viver lá no Vale dos Suicidas, como certa vez disse um amigo meu. Era o que acreditava. Já pensou? Viver ao lado de um monte de gente que acabou com a própria vida? Deus me livre! O melhor é viver, ainda que nada esteja bom, e lutar, a fim de sair da posição inferior, deixar para trás toda a condição miserável, própria dos pobres diabos como um dia fui.
II
Não fazia quase nada na biblioteca da universidade. Só na hora do intervalo que trabalhava um pouco, quando apareciam os alunos em busca de livros. Depois, ficava lendo tanto os filósofos quanto os escritores de ficção, de poesia e etc. Lia tanto que quando alguém aparecia perguntando um livro eu não hesitava em falar sobre ele. Alguns preguiçosos, ou gente sem tempo, logo pediam para fazer uma resenha em troca de dinheiro. E eu fazia, é claro, até o reitor descobrir e me ameaçar tirar fora do meu emprego...
E sai; nervoso, acendendo um cigarro lá fora. Acho que fumei uns três, um atrás do outro, sem descanso para o pulmão. Enquanto fumava, andava para lá e para cá, falando alto: aonde já se viu? Se eu tivesse na igreja, tudo bem, estava tudo certo; mas estou numa universidade, numa universidade! Que que é isso agora? Que droga de amor é esse que não vejo? Amor pela humanidade... Nunca vi. O que vejo é ganância, ganância, e mais ganância!
Me formei, e dentro de pouco tempo, deixando meus currículos em todas as escolas da cidade, logo, logo consegui um emprego, e passei a dar aula, a ganhar razoavelmente bem, e a andar vestido com as roupas que sempre quis usar, na moda, usando perfumes caros e irresistíveis. Foi quando acabei descobrindo que os professores possuem certo respeito na sociedade; e mais: foi quando a vida me provou definitivamente que quem não tem pelo menos um certo “status” não consegue nada, nem mesmo uma mulherzinha decente para foder de vez em quando.
Contudo, mal suspeitava que essa minha fraqueza, a de privilegiá-las com instruções, podia dar no que deu. Nesse dia, estava eu e a Aline no laboratório de informática da escola, quando de repente a Cátia surgiu, dizendo:
Me levantei e peguei a Cátia pelos braços, levando-a para fora do laboratório, num lugar onde ao menos naquele momento não tinha ninguém por perto.
Nessa altura, pedir para elas cuidarem com a boca era perda de tempo.
Depois disto, saí entristecido de sua sala e fui para casa, e à pé, porque não tinha vontade nem de pegar um ônibus, de tão abatido que estava. No caminho me perguntava: será que estou certo, negando a religião? Será que Jesus Cristo não está me punindo, para ver se deixo de ser tão orgulhoso? E se tivesse sido um homem de oração, teria evitado todas estas coisas? Mas onde estava com a cabeça para negar a Bíblia do jeito que negava? E conclui comigo: é João, Jesus Cristo é o Filho de Deus, você errou, agora sofra as conseqüências!
Era a Aline, querendo saber com que eu ia ficar. Falei que com ninguém, que por causa delas havia perdido o meu emprego, e que era para ela nunca mais ligar e muito menos me procurar. Ao dizer isso, desliguei, sem dar chance para a réplica. Logo em seguida, o telefone tocou de novo. Atendi, dizendo que vida, ninguém me deixa em paz! Era a Cátia, querendo saber o mesmo que Aline. Dei a mesma resposta, e desliguei o telefone dizendo por favor, não me ligue nunca mais...
Não passava outra coisa em nossas cabeças e em nossos corações senão a idéia e a vontade de mudar de vida, sei lá, fazer outra coisa, algo que desse dinheiro, que não precisasse sofrer tanto, que libertasse nossas pessoas das restrições financeiras, e que nos permitisse ser aquilo que realmente éramos, no mais profundo de nossos seres.
Foi quando eu, que vivia metido em igreja, escutando tudo quanto é tipo de pastor pregar a Palavra de Deus, decidi afinal fundar uma. Pensei até no nome, e veio: Jesus Cristo é a Nossa Riqueza. Falei com o Alaor, que repugnou a idéia. Não deixei-me desanimar com a sua resistência, e fui perguntando o porquê não, o onde, o quando, o que é o que é, que faz o homem ficar rico e o outro ficar pobre?
Me chamou de doido. Mas daí veio a sua esposa, a Lídia, que sempre se metia na frente de tudo, mudava a cabeça dele, e dava a última palavra. E foi perguntando o porquê não, dizendo que ninguém merece viver uma vida como a que viviam, que hoje em dia todo mundo faz isto, que o salário do pastor, pelo tanto que ele fala, nunca é de fato merecido, que o pastor, por dar tanto ânimo, tanta luz, merece mesmo ser rico, milionário, comprar emissoras de tevê e viajar de férias umas dez vez por ano.
– Viu, Alaor? Tem que pensar assim, que nem ela. Por isso que eu e você não saímos da miséria. Porque pensamos que tudo é injusto.
– Está bem, está bem, mas eu não vou ser pastor nenhum! O máximo que posso fazer é passar com a sacolinha na hora da oferta.
– O Santos que vai ser o pastor, porque conhece mais – disse a Lídia.
– E você? – perguntou Alaor para ela.
– Eu? Fico administrando.
– Administrando?
– Por quê, não confia em mim?
– Ok.
– E a sua mulher, o que ela vai fazer?
– A minha mulher – disse eu – pode ficar na porta da igreja, porque é simpática e inocente: sorri até para ladrão.
– E quando vamos começar?
– Agora.
E começamos. A primeira coisa que fizemos foi ver quanto que cada um ia dar, onde íamos abrir a igreja, que ninguém ia mandar em ninguém, que tudo ia ser decidido em conselho. Depois de tudo combinado, colocamos as mãos em obra. Achamos um salão para alugar e começamos dias depois. Cada um foi chamando seus amigos, que foram chamando seus amigos e os amigos de seus amigos, até dar uma média de cem pessoas.
A bonança e a fartura veio rápido, com o meu argumento de que “quem dá mais, recebe mais”; que se o crente SACRIFICA todo o seu salário, ou as suas jóias, ou o carro, ou a sua casa, o Senhor se sente honrado e lhe dá cem vezes mais, infinitamente. As pessoas acreditavam. Não vou dizer que acreditavam por causa apenas deste argumento falacioso, mas é porque eu pregava com aquela voz de choro, de desespero, e dizia: oh meu Deus, não posso continuar sonhando com uma vida de realizações e vivendo uma vida de fracassos, que eu não posso acreditar num Deus Grandioso e as pessoas rirem de mim das coisas que eu tenho; oh Senhor, manifesta, vira a mesa meu Pai, aceita o meu salário como oferta, as minhas jóias, o meu carro, a minha casa; renove a minha vida, Senhor!
Porque tudo dava certo, quase não havia briga entre a gente, e tudo era decidido em conselho. Mas isto foi assim até a Lídia, a mandona da Lídia, começar a ser o que ela realmente é, e eu e o Alaor a sermos aquilo que realmente somos, junto com a minha esposa. A Lídia, que já vinha manifestando a sua vontade de poder, a sua mania de querer controlar toda a situação, começou a tomar a frente em tudo, a decidir tudo, a querer fazer tudo sozinha. Quando vi, ela queria ser, além de tudo o que já era, pastora também, no meu lugar.
Eu podia muito bem protestar – era isto o que mais fazia em cima do altar afinal – mas, já que eu não ia ganhar nem mais nem menos com isso, dei o meu cargo para ela de mão beijada, e deixei o altar. Antes de passar o Ministério para ela, eu falei, no altar, para os meus fiéis: o Espírito Santo me revelou que a Lídia tem um poder muito maior que o meu para pregar, curar e libertar; a partir de hoje, ela é a nossa pastora, amém?!
O amém foi um tanto triste, mas, assim que ela, animada com as minhas palavras, começou a pregar, maravilhas aconteceram em nosso salão: havia ofertas de cem, duzentos, trezentos e até quinhentos reais numa só pregação. No fim das contas, eu passei por humilde, como aquele cantor famoso que deixou apenas a voz do irmão aparecer, e meu nome deixou de ser pastor Santos para transformar-se em: santo homem.
Com a Lídia querendo mandar em tudo e fazer tudo, desde as decorações de cada dia a idéia de arrancar mais dinheiro das pessoas, eu e o Alaor fomos ficando de fora, e íamos beber cerveja e uísque lá na casa dele. A minha mulher, nesta altura, já era uma espécie de escrava da Lídia, mas, eu já estava pouco me fodendo para tudo: tinha dinheiro sobrando, não tinha? Eu trabalhava pouco, não trabalhava? Então? Para quê esquentar o chifre com rixas que não levam a nada?
Eu e o Alaor, depois de alcoolizados, íamos para casas de luxo, comer as prostitutas que fazem faculdade e abrem as pernas para pagar seus cursos. Não havia diferença alguma entre elas e nós, e por isto nos dávamos muito bem. E assim ficou por vários anos, até a Lídia, cada vez mais poderosa, além de mandar em nós como se manda num cachorrinho, passou a jogar na nossa cara as nossas “sem vegonhices”.
Foi quando vi que dinheiro não é tudo nesta vida para muitas pessoas, principalmente gente como ela, que além de ser rica quer ser melhor do que os outros. Com raiva dela, resolvi fazer um curso de Teologia. Ao que você já deve de estar perguntando mas que tem a ver Teologia com tudo isto?
Não era só matar a imundície?
Eu vou mostrar que violência física e verbal são coisas do passado. Hoje em dia, a força tem de ser intelectual: tenho mais medo de um hacker do que dum assassino sangre frio...
Depois de formado, subi no altar com o título de testemunho por ter conseguido me formar mas o intuito de me proclamar bispo. Lá em cima, todo poderoso, falei: além de tudo, minhas irmãs e meus irmãos em Cristo, preciso anunciar a vocês que a partir de hoje sou o bispo desta igreja...
A Lídia ficou vermelha de raiva. Vi na cara dela a nítida vontade de sair do púlpito e quebrar o pau, me pegar pelos cabelos e bater como se bate nos filhos. Na hora de descer, ao passar por ela, ouvi: você me paga, filho duma mãe, por tudo isto o que você fez...
Ao ouvir a sua ameaça, retruquei, baixinho para só ela ouvir: como, sendo Papa?
Eu devia ter falado tudo, menos isso. Mas também, como que ia imaginar que ela me levasse à sério? Meses depois, no meio do culto, ela falou que o Senhor havia lhe revelado algo muito maravilhoso dias atrás, que ainda não tinha comunicado porque precisava da confirmação.
Disse que tal revelação foi em sonho.
Ela sonhou que estava junto comigo, com o Alaor e a minha esposa quando de repente Jesus olhou para ela e disse: Pedro, tú és pedra, e sobre ti edificarei a tua igreja, tudo que ligardes na terra, será ligado ao céu, e tudo o que desligares na terra, será também desligado no céu.
E depois disto, lhe entregou a chave.
A multidão aplaudiu; e ela, não só se contentou em se auto-proclamar Papa como me desligou da minha função de bispo publicamente, colocando o marido dela em meu lugar. Eu fiquei pior do que São Tomé quando ela disse isso, e fui até o seu ouvido, dizer: ah, é?, bruaca, você quer que eu conte tudo para eles, é isso? Quer?
Ela falou sim.
E então eu contei: essa igreja é uma farsa, o Nosso Senhor não é Jesus Cristo, porque este só fala a verdade; a nossa igreja tem como padroeiro o Diabo, os nossos santos são os demônios, e o seu fundador, sabem que é? É Satanás, amigo intimo de Lúcifer, Pai da Mentira; e nós, por pregarmos a mentira, somos os seus filhos legítimos. Mas, a partir de hoje, eu renuncio a esta igreja, a esta farsa, a esta prática de arrancar o dinheiro de vocês, dizendo que é dando que se recebe...
Depois disto, peguei a minha esposa e fui embora. Em casa até pensei em levar adiante a minha vingança, denunciando todos os nossos roubos para a polícia. Entretanto, eu tinha o rabo preso também, e deixei de lado a Lídia com a sua igreja, que, por mais ilógico que pareça, aumentou umas dez vezes o número de fiéis depois do escândalo. Dias depois, como tinha de ser quando sempre ocorre um cisma, eu fundei uma outra igreja, mas, desta vez, é claro, sem sócios...
Mas o pior de tudo é que não para por aí. Muitos deles são de uma perversidade fora do comum, se comprazem mesmo do mal. Divertem-se muito com isto. Eles começam com aquela fala mansa, calma, dizendo de fora para dentro, com pausas profundas, e, quando percebem que já amarraram suas vítimas, impostam a voz, nos assustam. Geralmente acordamos aflitos, achando que o teto desabou, mas, o que vemos é o palestrante lá, rindo, deliciando-se de sua crueldade, com aquela cara lisa de ditador sanguinário, de amigo intimo de Satanás.
Aliás, ontem participei de uma palestra cujo palestrante tinha este perfil. O assunto em suas mangas era polêmico, capaz de provocar discussões calorosas, com direito à ofensas, à ameaças de morte, à injúrias definitivamente imperdoáveis. Mas, eu e talvez metade do auditório pescávamos, dormindo e acordando, fisgando e perdendo o peixe ao mesmo tempo. Se não estou enganado, babei. Deixei aqueles filetes de baba escorrendo de minha boca. E, quando me dei conta, a palestra havia acabado. Para não sair sem dizer nada, fui falar com o homem. Disse-lhe, com os olhos inchados:
– Muito boa a sua palestra.
– Você gostou? – disse ele, percebendo a minha cara sonolenta.
– Gostei – respondi, com a vontade de dizer: – tanto que dormi quase o tempo inteiro.
Não disse, é claro, não iria perder o meu tempo com um filho da mãe desses...
Nem todos os casamentos são sagrados, Israel, eles até podem ter passado pelos sacramentos, recebido a benção do sacerdote, se exibido para umas cem a duzentas pessoas que compareceram na festa, mas, de sagrado não tem nada, nada mesmo.
Israel, se você se encontra pobre aí onde está, e de repente uma mulher bonita, jovem, rica e solitária começar a te dar mole, não crie fantasias, achando que agora você vai casar, que achou a pessoa certa, que vai ficar rico. Desconfie primeiro. Ela pode ser mulher de um homem rico.
Israel, a fidelidade é algo muito bonito que acontece somente nas famílias dos pobres. Com os ricos as coisas são diferentes. Um dia você vai ser rico, quero dizer, se continuar desse jeito que você está, trabalhando e investindo, você vai ser rico e vai saber o que estou falando. Você vai ver que ser corno é como dentes bem cuidados: nunca dói.
A única coisa que dói num rico, Israel, é o seu bolso, quando leva prejuízo. Se um dia você ver algum homem de posses bebendo, enchendo a cara, não pense você que ele deve estar aborrecido porque morreu alguém ou porque levou chifres da esposa: quando um homem de posses bebe, Israel, é porque ele perdeu dinheiro.
Israel, caso você encontre uma jovem bonita e solitária que mesmo casada se diz apaixonada por você, não caia na besteira de pensar que ela pode trocar toda a riqueza do marido por um homem interessante, bonito mas pobre. Você não é mais criança, Israel, para acreditar em contos de fadas, ou é?
Também, Israel, nunca desrespeite o corno, nunca se ache melhor do que ele só porque está comendo a sua esposa. Nem sinta-se um justiceiro, ou um vingativo, dizendo eu posso ser pobre, mas levo para a cama as mulheres dos ricos. Não caia nesta besteira. Ele não precisa saber que você o ajuda, que você faz o bem para ele, pois é isto o que você faz, o bem.
Pesquisas comprovam, Israel, e por isso que gosto muito da ciência, que noventa e nove por cento das pessoas que traem dizem que a relação conjugal volta a ser como antes. É como se a traição renovasse a energia sexual do traidor, compreende? Eu poderia falar os mistérios que estão por detrás disto, mas tenho medo de você não poder entender; mas, na sua linguagem, entrando no seu universo, posso te dizer:
Você come arroz e feijão todo dia, não come?
Então.
Comer arroz e feijão todo o dia, por mais que se use temperos diferentes, acaba enjoando. Assim, você precisa comer uma coisa diferente, não precisa? Algo que te encoraje a aceitar todos os dias o seu arroz e feijão que você come. E assim, sem perceber, você acaba até comendo o seu baião de dois com mais gosto. É o que acontece com o homem ou com uma mulher depois da traição...
Escuta, oh Israel, não seja moralista, nem puritano, achando que o quê é certo tem que ser absolutamente certo, e o que é errado é errado. Não entre no jogo do sim é sim e não é não. Diga sim e não ao mesmo tempo. Não fique com este ou aquele, mas fique com este e aquele, Israel.
E quando você ficar rico, e de repente um pobre comer a sua mulher, não dê importância, pois ele está lhe fazendo um favor, um bem; antes, guarde as suas energias para cuidar de suas financias, Israel, porque é este o único motivo justificável para um homem rico derramar suas lágrimas, o único!, oh Israel...
Veja o que andam falando a meu respeito:
Mas isso também tinha culpados: os pais – se eles não a tivessem prendido tanto, desde quando ela se tornara moça, muito provavelmente ela chegaria pelo menos no patamar de mulher educada, oras. Joana, por essa razão, vestia-se como a mãe, falava como a mãe, comportava-se tal qual.
E sendo filha de mulher tapada, que não sabe se vestir, não sabe falar e muito menos se comportar com alguma elegância ou sensualidade, acabou assim, vestindo saias cumpridas e blusas bem tampadas, respondendo como bicho do mato as perguntas de seus possíveis pretendentes.
Logo, não demorou muito para ganhar mil apelidos pelo distrito, e ser motivo de piadas quando o assunto era mulher feia e bocó. O bocó, tudo bem, até que dava para admitir, mas feia, no sentido exato do termo, isto ela não era. Era bonita, então? Também não posso dizer, mas feia, repito: isto ela não era.
Ela só não sabia se cuidar como mulher, ainda mais depois da loucura, quando ela começou a usar saias rasgadas e blusas regatas sem o sutiã por debaixo. Qualquer um que quisesse ver os seios dela, branquíssimos e volumosos, podia ver sem muito esforço. Mas, o fato dela ser louca, acrescentando o ralaxismo, pois nem tomar banho ela tomava, como também não cortava o cabelo e nem rapava o sovaco, fazia com que muitos nem admirasse ou ficasse com tesão.
Eu, por outro lado, olhava para os seios delas, balançando por debaixo das blusas regatas que ela usava. E pensava cá comigo: dando-lhe um banho, cortando-lhe o cabelo, raspando-lhe o sovaco, cortando-lhe as unhas, depilando, jogando perfume, por que não? Só porque era o prefeito? E daí que ela era louca? Para que servem as cordas nos momentos de acesso? Era só amarrá-la, trancá-la no quarto, deixá-la gritar e me mandar para o gabinete da prefeitura nas noites de lua cheia, não era?
Foi o que decidi.
Num belo dia, fui até à sua casa e pedi ao seu pai, o seu Ernesto, e a sua mãe, a dona Capivara, quero dizer, Isaura, a mão de Joana em casamento. Seu Ernesto, desconfiadíssimo, me fez uma infinidade de perguntas, exigindo que eu me explicasse disso, me justificasse naquilo, que certamente um homem sadio como eu não podia querer uma mulher doente como a Joana e etc., e etc.
Respondi todas as perguntas e questionamentos do velho e por fim dei o meu xeque mate dizendo: eu amo a sua filha, seu Ernesto – e, para convencer mais ainda, acrescentei: e isso bem antes dela ficar louca; portanto, só por que ela ficou assim eu haveria de deixar de amá-la? Dias depois, Joana estava na minha cama, fazendo amor comigo.
Era uma loucura, o que ela fazia. Tudo o que eu mandava, obedecia. O único problema era quando ela queria morder a minha bunda ou algum dos meus testículos – quando isto acontecia, e tinha que ser rápido, eu tava um tapa na cabeça dela, para evitar o pior.
Joana nem chorava, e voltava para o nosso amor.
Era curiosa, a danada. Tudo queria ver, tocar, abrir, enfiar o dedo, mas nem tudo eu deixava, é claro.
Salvo os seus acessos de loucura, Joana era perfeita, a melhor coisa que podia me acontecer na vida, principalmente na cama. Que mulher, em plena sã consciência, se passaria por cachorrinha, por macaca? Qual delas aceitaria uma coleira no pescoço e tudo mais? É muito difícil arrumar mulher assim, que aceita tudo.
Então, eu tinha tirado a sorte grande.
Por outro lado, como quase ninguém nesta vida pode ver um prefeito feliz, e o que não falta é gente querendo a infelicidade dos poderosos, logo comecei a sofrer criticas duras a respeito de meu amor. Até um empichermant foi cogitado. Mas graças a Deus, isto não conseguiram. O máximo que conseguiram foram as críticas. A mais freqüente delas, era a respeito do tratamento psiquiátrico da Joana, algo que ela podia fazer, muito mais agora, que era mulher do prefeito.
– Tratamento psiquiátrico? Para quê?
– Para ela ficar boa.
– E você já viu algum louco ficar são?
– Mas menos louco sim.
– Não, não. Deixe Joana como está, está bom assim... Melhor estraga...
Não estou certo?
Glauber da Rocha
Joana, a segunda mulher da minha vida, era alcoólatra, agressiva, bem violenta. Eu só insistia nesse romance porque no fim das contas ela ainda conseguia ser bela e bonita. E, principalmente: fiel – Joana era de uma fidelidade que nem mesmo um padre conseguiria lhe convencer de que era preciso experimentar outros homens, outros estilos.
Já Carolina, a terceira mulher da minha vida, era exatamente o contrário: ficava comigo, com o padre, com o marginal, com o bandido, com o filósofo, com o intelectual, com o místico. Não havia argumento algum capaz de defini-la, de assumir uma posição na vida – ia atrás de tudo o que estava na moda, que estava em voga.
Mas, cansei desta vida de corno, e terminei o meu lance com ela. Foi quando conheci a Kassandra, uma mulher bem sarcástica, irônica, que tirava o sarro de tudo, inclusive dela mesma, numa auto-ironia digna de um Machado de Assis. Por outro lado, ela era o entusiasmo em pessoa, e às vezes duma leveza que dava gosto de sentir.
Sei lá porque, fui deixando Kassandra de lado, embora hora ou outra ainda saio com ela. Talvez, o que me desmotivou esse romance foi o meu novo relacionamento com a Fabiana. Como ela, acabei ficando preguiçoso. Sim, a Fabiana é preguiçosa, duma preguiça que chega ser imoral. E a minha literatura, agora, está assim como ela, não querendo nada com nada, deixando tudo para amanhã, para amanhã...
“Teme a velhice, porque ela nunca vem só.” Platão.
– Anda, cachorro, caminha para o fundo! – grita o velho, delirando no leito do hospital.
– Que cachorro? Não tem cachorro. Você não está em casa, está no hospital, velho maluco – diz a velha, esposa dele há mais de cinqüenta anos.
O velho se cala, mas, inquieto, tenta sair do leito.
– Pare com essas pernas, velho desgraçado! Vê se dorme, infeliz. Há mais de doze dias no hospital, com a bunda em carne viva, não deixa ninguém dormir tranqüilo.
– Amanhã vou aí, amanhã vou aí, Arnaldo.
– Que Arnaldo? Arnaldo morreu faz tempo, velho imbecil. Mas que velho, que vida!
– Mas por enquanto, quero que você não fala nada para ninguém.
– Cala essa boca se não eu te bato. Vou te bater, velho maluco.
O velho se cala. O enfermeiro aparece.
– Como está o senhor? – pergunta, em voz alta.
– A Cuma?
– Ele tá delirando. Não para quieto. Que velho teimoso! Como que é o destino da gente!
– Tem que ter paciência, minha senhora. Esse é o único remédio, paciência.
– Mas eu não agüento mais!
– Mas tem que agüentar. E o senhor... – diz ele se dirigindo ao velho – tem que ficar quieto, tem que parar de dar trabalho.
A velha começa a chorar.
– Olha como é o destino da gente. Ter que agüentar este traste. E só eu! Ninguém vem aqui, me ajudar nem que seja um pouco!
– Paciência, minha senhora – diz o enfermeiro dando-lhe um abraço e saindo logo em seguida.
Sozinha, batendo nas pernas do velho, resmunga: olha como é o destino da gente...
Glauber da Rocha
– Ô. Mas vem cá, como que você arrumou essa aí? É bonita ela?
Bonita, bonita, não, mais ou menos, ela é meio gordinha, tem um filho, mas é mulher e tem o que eu gosto. Tenho mulher em casa, mais arroz e feijão todo dia enjoa, eu ajudo qualquer pessoa, pego bastante serviço, dinheiro não me falta e nunca faltou, mas é assim: tem que fazer do meu jeito. E eu sou cara de pau. Taí o Marquinhos que não me deixa mentir. Eu já falo: mas e aí, vai virar uma coisa para o meu lado ou não vai?
– Meu pai é igualzinho a você.
Mas tem que ser. Eu travo uma batalha todos os dias, de manhã já começa a encheção de saco, elas pensam o quê, que o meu dinheiro dá em árvore? Eu já logo intimo, não perco tempo. Elas falam: Gilberto, você pode ver uma tomada lá em casa que tá dando problema? Você pode ver o meu chuveiro? Eu falo posso, e vou. Aí eu já logo vou falando: e aí, vai virar alguma coisa comigo ou não? Elas falam: mas credo, Gilberto, você só faz alguma coisa querendo algo em troca. Eu falo: mas a vida é assim, ninguém faz nada de graça para ninguém...
– Tem gente que faz...
Tem, e bastante. Mas eu não sou otário não. Ainda mais quando tem um candango por perto.
– candango? Que diabo é isso?
Candango, candango, você não sabe o que é um candango? É o sujeitinho que fica em cima do sofá e não move uma palha para a mulher. Esses dias uma lá perto de casa me chamou para ver o chuveiro dela. Assim que entrei, vi o candango lá, estirado no sofá e assistindo televisão. Passei por ele sem dar as horas e chamei ela para conversar lá no fundo. Eu falei: e aí, vai virar alguma coisa para mim ou só para esse candango aí? Ele é o meu namorado, Gilberto. Sim, tudo bem, não estou questionando isso, quero saber se o meu vai sair? Ah, não, eu gosto muito dele. Não vai ter jeito? Não. Então tá bom. Tá aqui a minha chave de fenda e o meu alicate. Fala para aquele kandango deixar de ser preguiçoso e virar homem. Amanhã eu volto aqui, para pegar as minhas ferramentas. Mas Gilberto, ainda disse ela. Eu falei: tchau, menina, amanhã venho pegar o que é meu.
– Pô, que cara folgado, quando é assim devia ser um baita marmanjão.
Candango. Eu tenho uma raiva disso que você não faz idéia. Em vez delas valorizar os caras que trabalham, que se suja inteiro de poeira, de cal, de cimento, elas dão valor para esses kandagos que não faz porra nenhuma da vida, e depois vem pedir a ajuda da gente. Tem idiota que dá. Eu não dou. Não podia ser tudo mais certinho? Elas dão o que a gente gosta e nós damos para ela o que ela precisa, que é o dinheiro...
– Podia...
Glauber da Rocha
Essa doença é o seguinte: o sujeito, desatento, guarda o que é seu num lugar que nunca é o mesmo. Depois, ao procurá-lo, nunca encontra. Põe a culpa nos outros: alguém pegou! Quem foi?! Anda! Quero saber! Parece uma maldição... Tenho ódio de que pegam as minhas coisas! Então, de repente, a bendita coisa aparece, refrescando-lhe a memória. O doente então dá uma risada de sem-vergonha, joga culpa na doença, e escuta: isso não é doença nenhuma, o nome disso é relaxismo!
Relaxismo ou não – deixo a questão para os médicos e os cientistas – é um mal bastante malvado. Já perdi as contas de quanto fui prejudicado por ela. Perdi horas preciosíssimas da minha vida procurando aqui e acolá algo que guardei e esqueci aonde. Sem contar os constrangimentos – sim, assim como todos os seres humanos, confesso que já acusei os outros de roubo, julguei e fiz calúnias, encontrando depois o que havia deixado em algum lugar que escondi... Relaxismo ou não, quero o meu nome na doença.
Glauber da Rocha
“Quem ele pensa que é? Deus? O conhecedor de todas as coisas? Quem é ele para falar que o que escrevi não presta?”
A vontade que dava era a de rasgar os manuscritos na cara dele e dizer: já que você é o bom, me prova que Deus não existe, vai, me prova! O melhor era trancar o curso, escrever sobre o rabo do tatu, sobre a filosofia dos vagabundos, sobre o time do meu coração. Quem iria me censurar? Quem tem mestrado ou doutorado sobre o rabo do tatu, sobre os vagabundos, sobre o Palmeiras, quem? Mas a gente precisa de um negócio chamado diploma, título, que pode salvar a nossa vida ou destruí-la de vez. Portanto, é sempre bom seguir a seguinte dica: engole o sapo, meu filho, engole o sapo...
Com o tempo, passei a olhar do lado de lá, sob a perspectiva deles. E descobri, após muito cuidado, reflexão e aprofundamento, o que eles pensam: agora é a minha vez de acabar com o sossego de alguém, do mesmo modo que fizeram comigo. Estão achando o quê? Que nunca tive estafo por causa de um professor maluco? Que eu nunca pensei em pegar o revólver de meu pai e matá-lo no campus da universidade, na frente de todo mundo, principalmente do reitor? O que eles pensam da vida? Agora é a minha vez! Ah, se é!
Então eles pegam o pobre do Judas e o malham até sair sangue: sangue das vistas, sangue do coração, da cabeça, dos dedos, das mãos. Daí, com o texto longe de ficar bom mas próximo do prazo permitido, aprovam o sujeito e o mandam para a banca. Lá ele geralmente tira dez. Tem o seu momento de fama, de importância. Fica tão emocionado que acreditam que os professores estão de fato preocupados com ele, quando na verdade eles não vêem a hora de dar a hora de ir embora para casa, de serem logos dispensados para as férias. Por fim, o seu trabalho vai para a biblioteca, e lá fica, para muito provavelmente não ser lido por ninguém...
Não há vista melhor que aquela que podemos olhar por cima, a começar no nosso dia-a-dia, quando olhamos para as pessoas. por isso, aconselho ao turista que acaba de chegar em Campo Grande que primeiramente dê uma volta no nosso city tour, esse ônibus sem teto e com assentos lá em cima - não é como os bondinhos do pão-de-açucar, mas já e alguma coisa...
Depois de conhecer as nossas maravilhas - esse ônibus só mostra o que a cidade tem de bom - falo para o turista não contentar-se com pouco. E, para quem chegou de avião, não contente-se apenas com o nosso aeroporto: dê uma passadinha lá na rodoviária central também. Lá é um lixro que vale a pena ver, desde as prostitutas que ninguém quer comer aos mendigos caídos nas calçadas depois de passarem o dia inteiro bebendo corote de pinga e fumando os cigarros assassinos do Paraguai.
Ah, e nao se esqueça de passar os olhos nos drogados, ali tem um monte de viciados em zuka, em crack, em melado e assim por diante. E, caso dê fome, não come os salgados vendidos ali dentro da rodoviária, porque é gatantia de uma boa dor de barriga.
entretanto, se o turista sair decepcionado deste belo cartão-postal, não custa nada pegar a marginal e ir até à nova rodoviária, cuja construção parou faz tempo. O único problema no percurso é o mau cheiro, mas, basta você fechar as janelas do seu táxi - digo taxi para você nãos ser assaltado na tarifa do vale trasnporte, uma das maiores do país, que é o valor de 2, 50 - e pedir para o motorista ligar o ar condicionado.
Mas, vou logo avisando: se você conseguiu chegar até a nova rodoviária, e quiser entrar, prossiga apenas se estiver usando calça jeans, pois o mato é grande e os carrapichos são muitos. Não se esqueça também de estar armado ou de facão ou de revólver, uma vez que ninguém sabe o que pode sair lá de dentro, se uma onça, se algum bandido, se o prefeito...
Mas, se for o prefeito, finjas que está num safári, e pode atirar, que é veado!
Quer um conselho? Não de um turisnólogo mas de um amigo? Esqueça que a nova rodoviária existe. Se o prefeito já esqueceu, por que você que nem dessa cidade é não pode esquecer? E por favor, na volta, não passe perto dos nossos córregos, nem vai em nossos lagos, porque tenho vergonha só de lembrar que eles fazem parte de nossa cidade. No lugar de perder o seu tempo com isso, vá até o estádio Morenão.
Sim, ali é uma beleza de se contemplar, principalmente se você gosta de antiguidades. Mas, tome cuidado: a qualquer momento aquilo pode desabar sobre a sua cabeça. Não entre, até mesmo porque você provavelmente nunca verá uma partida de futebol ali, e se ver, ou é uma entre anões ou uma entre pernas de pau.
Contudo, já que você está pertinho da universidade federal, aproveite a oportunidade para conhecer o nosso maior centro universitário da cidade. Ali você poderá ver muita gente bonita; e, se você gosta de ver a desigualdade social, verá muitas ricos ocupando o lugar que, teoricamente, deveria ser dos pobres injustiçados.
Bom, mas isso você já deve estar acostumado, ainda mais se você é brasileiro. Por outro lado, se te enjoa ver os burgueses, há um programa divertidíssimo que podes fazer, que é ver ladrões de terno e gravata. Não, não é no presídio de segurança máxima, nem muito menos na Igreja Universal do Reino do Seu Dinheiro. É lá no Parque dos Poderes! Mas, já vai aqui um aviso: cuidado com os animais na pistas - esses são animais mesmo...
Glauber da Rocha.
Das histórias que colhi na cidade de Dourados, a de um médico que publicou um revoltado artigo no jornal foi a que mais me impressionou. Quem me contou foi meu meio-irmão, que trabalhava numa conveniência de bebidas. Era ele quem, de madrugada, vendia bebida através de um pequeno buraco, o qual o médico denominou de “A boquinha do Inferno.”
“Por que ele fez isso?”
“Não me lembro muito bem. Parece que um sobrinho dele morreu num acidente de trânsito, após ter comprado cerveja com a gente.”
“E daí ele escreveu este artigo no jornal...”
“Sim. O sobrinho dele bebe, saí dirigindo feito louco, bate, morre, e depois o culpado é a gente, vê se pode...”
“E o que ele escreveu?”
“Escreveu que a conveniência era o Inferno; o meu patrão, o Satanás; o gerente, o Diabo, e nós, os demônios. E a bebida que a gente vendia era a feita pelo próprio Capeta, a qual eu, através da Boquinha do Inferno, passava para as pessoas inocentes...”
Eu tive que rir.
Não que não acreditasse nessas coisas, acredito sim, mas dizer uma coisa dessas é demais, principalmente num jornal. Aliás, até concordava, ainda que em termos, com ele, e sinto muito por seu sobrinho. Entretanto, no fim das contas, no cerne real da questão, aquela conveniência não era um Inferno; e seu dono, um católico, não era o Satanás; e seu gerente e seus funcionários não eram um Diabo e um monte de demônios, ali era sim um Comércio, que tanto o dono quanto os funcionários dependiam dali para sobreviver – e quanto a cerveja ser feita pelo Capeta, contesto: quem a inventou foram os monges, inspirados por Deus, rê, rê!
Glauber da Rocha
Quem sou eu
- Glauber da Rocha
- Uma espécie de Santo e Perverso ao mesmo Tempo. Professor de Filosofia, História e Ciências Sociais. Escritor, e agora, blogueiro. Contatos: glauberdarocha@hotmail.com
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