Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha - agora, toda sexta!

13:36

O Lobo do Circo

Postado por Glauber da Rocha |


FUI ACORDAR somente lá pelas dez horas da manhã, com uma dor de cabeça terrível. De olhos abertos, vi todos eles olhando para mim. Estavam do lado de fora da jaula, conversando enquanto me olhavam. Levantei-me, para falar com eles. Ao me verem de pé, espantaram-se, e recuaram, com medo.
Fiquei preocupado com isto, e perguntei-me: o que está acontecendo? Sem encontrar resposta, tentei perguntar para eles. Não tive êxito. Pois, por mais que tentava falar, não saía palavra alguma de minha boca. Será que estou mudo? Dei um grito, para testar. Eles se espantaram novamente. E desta vez, eu também fiquei espantado...
Me espantei porque ao gritar ouvi um uivo, saindo de minha boca. Um uivo?! Não acreditei. Gritei mais uma vez, para certificar se eu estava uivando. Estava! Fiquei com medo, apavorado. Olhei para eles e depois para o meu corpo. Olhei primeiramente para as minhas mãos, e vi que no lugar delas havia patas. Patas?! Não dava para acreditar.
Virei então para o restante do meu corpo: havia pêlos negros por toda parte. Lá atrás, vi um rabo balançar. Espere aí: um rabo?! Sim, um rabo, balançando. Abaixei a cabeça entre as pernas dianteiras e vi uma barriga branca, com poucos pêlos; e, depois da barriga, vi a cabeça vermelha de um pênis, saindo, tal qual dos cachorros. Foi então que percebi que havia virado um cachorro. Um cachorro não, porque cachorro não uiva...
Eu havia virado um lobo!
Fiquei desesperado. Aquilo não era possível. Pensei na possibilidade de estar sonhando. Bati a cabeça contra as grades da jaula, assustando-os. Machuquei-me, e a dor de cabeça aumentou. Senti um pouco de sangue escorrendo, me certificando que aquilo tudo não era um sonho dentro do sonho. Era real. Mas como?! Como que havia me tornado um animal, um lobo especificamente?! Dei mais alguns uivos. Depois, silenciei-me, para ouvir o que eles, do lado de fora da jaula, falavam a meu respeito.
– Como será que esse lobo foi parar aí? – perguntou seu Lagos, o dono do circo.
– Será que o Mauro se transformou em lobo? – disse o anão Rafael.
– Você ficou louco?! – disse o palhaço João.
– No mínimo ele colocou esse lobo aí – falou Marcos, o mágico.
– Para quê? – perguntou Maria, sua ajudante.
– Para brincar conosco.
– Será? – disse Carmem, uma das equilibristas.
– Com certeza.
– E agora? O quê vamos fazer? – quis saber Raquel.
– Vamos soltar ele? – disse Fabrínia.
– E se ele nos avançar? – falou a Lúcia.
– E se ele estiver com raiva? – perguntou Cláudia.
– E se ele for o Mauro? – disse Josy.
Escorreram lágrimas de meus olhos, quando ela falou isso.
– Vamos matá-lo! – sugeriu repentinamente o motoqueiro José.
– Matá-lo? – falou seu irmão Fábio, como que reprovando a idéia.
– Sim, matá-lo!
– Não. Matá-lo não podemos –, disse seu Lagos.
– Por quê? – disse o palhaço João.
– Matar animais de circo é crime.
– Mas ele não é do circo.
– Mesmo assim. Pode dar problemas.
– Será que ele tem dono? – perguntou Maria.
– Quem iria ser dono de um lobo? – disse Marcos, rindo da estupidez de sua ajudante.
Enquanto isto, eu ficava cada vez mais com raiva, deles falando dessa maneira sobre mim.
Comecei a rosnar para eles, a fim de intimidá-los.
Ficaram com medo, se afastaram.
– Mas como que ele foi parar aí? – disse, impaciente, o seu Lagos.
– A jaula está fechada? – perguntou o anão Rafael.
– Sim – e sem seguida, falou: – Mas aonde foi parar esse Mauro, meu Deus?!
– Isto é um mistério – disse a Carmem.
O meu sumiço havia virado um mistério.
Fiquei com mais raiva ainda.
Uivei.
Eles se assustaram.
– O que vamos fazer, chefe? – perguntou Marcos.
– Não sei. Vamos deixá-lo aí, por enquanto.
– E se ele for o Mauro? – perguntou ele.
– É por isso que também não podemos matá-lo.
– Mas você acredita na possibilidade dele ter se transformado num lobo? – perguntou o anão Rafael.
– Acredito! – disse seu Lagos.
– Acredita?! – disse o palhaço João, espantado.
– Claro. Já vi muita coisa nessa minha vida – falou seu Lagos.
– Pois eu não acredito! – disse Marcos
– Para mim, foi ele quem colocou esse lobo aí, para brincar conosco.
–... Ou para se vingar..., não? – disse o palhaço João.
– Meu Deus... – disse Carmem.
– Será que ele é capaz de se comunicar com a gente? – perguntou Josy.
– Comunicar? Como, se os animais não pensam?! – disse o anão Rafael.
– Para mim, eles pensam sim, que nem nós, seres humanos!
– Ah, é? Se eles pensam então eles podem ser filósofos, cientistas, inventores... – disse o palhaço João.
– Não é nesse sentido que estou falando, seu bruto – disse a Josy, se defendendo: – Estou falando no sentido de que eles nos entendem.
– Não, eles não nos entendem – falou o palhaço João.
– Vamos tentar – disse a Josy.
– Besteira – disse João.
– Eu vou!
– Vai?
– Vou.
– Como?
– Assim – disse ela se agachando, em minha direção.
– Cuidado... – disse seu Lagos.
E; ali na minha frente, agachada, olhando no fundo dos meus olhos, falou-me:
– Você me entende? Se você me entende, levanta a pata...
Fiquei sem saber se levantava a pata ou não.
– Você me entende?
Resolvi responder, e levantei a pata.
– Você é um lobo? – perguntou ela.
Abaixei: não, não sou.
– Você é o Mauro?
Não respondi.
– Hein? Você é o Mauro?
Não sabia se respondia para ela.
– Diga – pediu-me, com a voz meiga.
Não resisti, e levantei a pata.
– Viram? Ele é o Mauro! – gritou ela.
– Não acredito! – disse João.
– Também não – falaram alguns, em coro.
– Ele me respondeu – disse Josy.
– Mas isso não prova nada – falou seu Lagos.
– Como não?
– Precisamos de algo mais concreto, mais seguro. Vou atrás do Elias, ele saberá nos dizer – sempre que aparecia um problema de aparência insolúvel, o seu Lagos ia atrás desse Elias, um bruxo.
Ao dizer isto, eles viram que não podia fazer nada até uma segunda ordem. Logo depois, saíram todos de perto, me deixando sozinho. Fiquei triste, uivando como um lobo solitário. E me perguntava: como isto foi acontecer? Como que eu pude me tornar um lobo, da noite para o dia?


* * *

Assim que a minha dor de cabeça cessou, lembrei de como fui parar dentro dessa jaula. Quem me trancou ali na noite anterior foi o seu Lagos e o palhaço João. Eu estava bêbado, e uma jaula era a única solução para me fazer parar. Do contrário, subiria na corda bamba e me equilibraria, como vinha fazendo dias atrás. Eu era o equilibrista do circo e, para aumentar o meu salário, passei a trabalhar bêbado.
Foi a maneira que encontrei para o circo ganhar mais público, pois somente assim o seu Lagos podia me dar aumento. O que deu certo: com um equilibrista embriagado a atração ficava mais emocionante – ainda mais sem a rede de segurança... Com todos esses atrativos, não eram poucas as pessoas que iam ao circo principalmente para me ver, obrigando o seu Lagos a aumentar meu ordenado.
Entretanto, depois da décima segunda apresentação que fiz bêbado, o seu Lagos me proibiu subir embriagado. O salário não era a questão, e manteve o que prometeu, sem abaixar o meu ordenado. A questão era a minha vida: eu podia cair e quebrar o pescoço. Para não acontecer uma tragédia, recolocou a rede de segurança e pôs o palhaço João para cheirar o meu hálito antes de subir lá em cima. Tornou-se o meu bafômetro, o palhaço: se meu bafo estivesse com cheiro de bebida, nada feito!
Depois de duas apresentações que fiz sóbrio, resolvi desobedecer João e quis subir mesmo alcoolizado. Ele barrou a minha passagem. Briguei com ele. E quando dei conta, estava sendo carregado por ele e pelo seu Lagos para essa jaula. Jogaram-me como se joga um criminoso para dentro da cela, e fiquei atrás das grades. Ao me trancarem na jaula, comecei a gritar, a chamar-lhes de tudo quanto é nome, dizendo que eles não podiam fazer aquilo comigo. Não deram ouvidos e saíram.
Mesmo assim, continuei gritando, e ia gritar muito mais quando o espetáculo terminasse, porque daí os espectadores iriam ver o que estavam me fazendo. Esperei. De vez em quando, soltava um grito de protesto, dizia coisas absurdas, prometia que ia acabar com a vida do palhaço João e de seu Lagos. No entanto, de muito gritar, berrar, espernear, maldizer e lançar maldições, acabei dormindo, para acordar somente no dia seguinte, metido numa pele de lobo. Depois que me lembrei do acontecido, parei para pensar nessa minha nova condição: iria ser um lobo para sempre? Se sim; eles seriam capazes de me sacrificar? Como iria sair dali, se a chave da jaula estava com o dono do circo? O que ia ser da minha vida agora, Deus do céu? Eu estava perdido, isto sim. Perdido e preso numa jaula, como se fosse um criminoso...
Enquanto andava de um lado para outro, fazia uma retrospectiva, desde o dia em que cheguei ao circo até o momento presente. Vinha duma cidade do interior, com a vontade de ser equilibrista – vontade esta que surgiu após ver a apresentação deste mesmo circo em minha cidade, quando ainda era seminarista e estava indeciso se iria ou não me tornar padre. Lembro que faltavam apenas algumas semanas para a minha ordenação diáconal, eu estava aflito e não sabia o que fazer. Então apareceu o circo, e tudo deu no que deu...


* * *

No dia que cheguei, o circo estava armado, com lonas listradas de cores amarelas, azuis e vermelhas, com uma bandeira verde lá em cima, no alto, balançando. Em volta, as jaulas dos animais, alguns trailers, carros e motocicletas espalhadas circo adentro. Não havia ninguém ao redor, nem mesmo um guarda, para prevenir algum roubo ou algo parecido. Ainda assim, não entrei. Fiquei esperando alguém aparecer, a fim de me dizer quem era o dono e me levá-lo até ele. Enquanto esperava, olhava.
De repente, um homem gordo apareceu, saindo de dentro do circo, indo em direção a alguns dos trailers. Vestia uma calça social enorme, uma camisa com listas finas, em vertical. Usava suspensórios. Andava rápido. Assim que me viu, parou; e de longe, perguntou o que eu queria. Disse em voz alta: conversar com o dono do circo.
– Entre! – disse ele, me chamando.
Entrei. Ao chegar perto dele, estendi a mão dizendo prazer, meu nome é Mauro. Ele disse prazer e ficou me olhando como se perguntasse o que eu queria, e que respondesse logo, porque estava com pressa. Falei. Disse para ele que queria trabalhar no circo, que queria ser equilibrista, mais exatamente. Ele me olhou de cima em baixo e respondeu venha, vamos conversar no meu escritório.
Fiz que sim e fui atrás dele. Ele entrou num dos trailers. Entrei também e logo vi uma mesa de escritório, com tudo muito bem organizado. Ele sentou-se atrás dessa mesa e me pediu para sentar-se numa cadeira que ficava à sua frente. Sentei-me.
– Você é um equilibrista? – foi logo me perguntando, com a respiração ainda ofegante.
– Não – eu respondi.
– Não?! – disse ele, surpreso.
– Não. – E como você pretende trabalhar como equilibrista, então? – falou abrindo um sorriso de curioso.
– Quero aprender...
– Aprender?! – disse ele, com o mesmo riso na face.
– Sim. Sou uma pessoa que aprende rápido.
– E porque você quer ser um equilibrista? – falou, voltando à seriedade.
Não querendo dizer apenas porque sim, falei:
– É um sonho de criança.
– Sonho de criança?! – disse ele, surpreso.
– Sim.
– Você só pode ser mesmo um maluco – falou rindo enquanto soltava o seu corpo na cadeira.
– Não, não sou um maluco. Quando eu era criança, via o equilibrista e queria ser igualzinho. Não tem gente que quer ser palhaço? Ou qualquer outro tipo de artista? Então... Eu quero ser equilibrista!
Acreditou.
– Sabe?... – disse ele voltando com o corpo – Quando contrato alguém que não sabe nada, normalmente coloco a pessoa para fazer os serviços gerais, até que ela aprenda algo – disse ele.
– Eu faço, sem problema algum.
– Não é esse o caso.
– Não?!
– Não. Vou deixá-lo aprendendo sem precisar fazer nada. É porque justamente estou sem equilibrista. Preciso de um. O último saiu da companhia e nunca mais voltou. Nem sei onde ele se encontra, sabe Deus. Então apareceu você. O emprego é seu. Mas você só vai ganhar algum dinheiro quando estiver pronto para o seu número, tudo bem?
– Tudo. Muito obrigado, seu?
– Lagos – disse ele.
– Seu Lagos. Muito obrigado. Não sei como lhe agradecer.
– Agradeça trabalhando.
– Sim.
E, me olhando, disse:
– Bom, vi que você veio com a mochila.
– Sim.
– Então nem preciso dizer que para trabalhar no circo é preciso morar conosco.
– Não, não precisa dizer.
– Então, vou levar você ao seu quarto.
– Obrigado. Fomos.

* * *

Saímos de seu trailer e entramos num outro. Estava tudo desorganizado. Havia na parte direita a cozinha; no centro, a sala, com dois sofás e uma televisão encostada na parede; e na parte esquerda, o quarto. No quarto havia um beliche, com a cama de cima desocupada. Tinha também, ao lado desse beliche, outra cama. Pelo chão, roupas espalhadas. Roupas masculinas, que eu logo perguntei de quem era.
– Do João, o palhaço do circo; e do Rafael, o homem-bala. Eles dormem aqui.
– No beliche?
– O João dorme no beliche de baixo; e o Rafael, nessa cama. Você vai dormir na cama de cima.
Era a cama do equilibrista que sumiu e nunca mais voltou.
– Eles não se importam de dividir o quarto? – perguntei.
– Não, não. São pessoas boas. Vão gostar de você.
Seu Lagos deu mais uma olhada no interior do trailer e depois falou vamos, vou mostrar para você o restante do circo; aproveito e apresento você para o pessoal.


* * *

Deixei a minha mochila ali e saímos do trailer. Lá fora, ele apontou para as jaulas dizendo: ali naquela estão os elefantes; naquela outra, os macacos; e do outro lado estão às jaulas dos leões, das girafas; e nessa a dos coelhos e das pombas do mágico. Outra hora você vai lá. Essas motos que você está vendo são as motos do globo da morte. Os carros, de alguns que trabalham aqui no circo. Você tem carro, moto?, perguntou em seguida.
– Não.
Entramos no circo. A maioria deles conversava na arquibancada, próximos da arena. Eram mais ou menos trinta pessoas, sendo que a maior parte eram mulheres. Senti-me num paraíso. Me cumprimentaram, dando boas vindas, e logo me enturmei. O seu Lagos, antes de sair, pediu a eles para me ajudarem no que fosse preciso. Responderam afirmativamente; e na saída de seu Lagos começaram a me fazer perguntas sobre mim. Uma delas, chamada Josy, perguntou-me o que fazia antes de chegar ao circo.
– Seminarista – eu respondi.
– Seminarista? – disse ela, surpresa.
– Sim.

* * *

Durante os sete anos no seminário, sempre direcionei os meus estudos para combater a filosofia de Nietzsche, embora eu tivesse uma forte inclinação pelo pensamento deste filósofo. Era a minha tentação intelectual, que me obrigava a combater do mesmo modo que combatia o meu grande desejo pelas mulheres. Para vencer ambas às tentações, eu me apegava ao terço e aos livros de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, juntamente com alguns teólogos modernos.
Não era nada fácil. Tudo o que acreditava e vivia era implacavelmente criticado por este pensador. Para ele, eu fazia parte de uma classe inferior ressentida, fraca, que transformou os verdadeiros valores em pecado: os judeus, impotentes com a ocupação da Palestina pelos romanos, encontraram no cristianismo o seu advogado, provocando uma inversão de valores, onde a nobreza e a honra passaram a ser vistos como mal...
Os escravos romanos, em sua impotência, fizeram o mesmo, fortalecendo o cristianismo, que para Nietzsche não passa de uma moral doentia e perigosa... Portanto, segundo ele eu era um fraco e ressentido, que negava a vida, os meus instintos. Não era um espírito livre, capaz de criar as próprias regras, a própria moral...
Para combater estas acusações, levava em conta à teologia que Nietzsche criticava: a puritana, da qual ele fora vitima – a minha, quero dizer, a teologia de minha época, é equilibrada, quase liberadora, que visa muito mais a felicidade, o prazer e a realização pessoal que o sofrimento. No mais, Nietzsche não via o meio termo, mas antes o extremo: para ele ou se é cristão, cheio de limites por causa da sua doutrina, ou se é um super-homem...
No entanto, apesar de ter esta perspectiva a respeito deste grande pensador, ainda entrava em crise quando lia suas obras. Angustiado, pensava em abandonar o seminário e a minha religião. Foi o que terminei fazendo. Prestes à me ordenar, pulei o muro e me mandei para outra cidade, à procura por este circo.
Entretanto, no circo continuei, por um bom tempo, um seminarista exemplar: educado, piedoso. Com este meu comportamento, as mulheres do circo fugiam de mim. Rejeitado, perguntava-me: será que elas não me enxergam como homem? Comecei a ficar inseguro – aliás, não há coisa pior na vida de um homem do que ser tomado pela insegurança: junto com ela vem o nervosismo, a amargura e a tristeza, essa tríade infalível para afastar todas as mulheres para bem longe. Para chamar a atenção delas, fui deixando a minha ganância aflorar, e pensei num modo de conseguir aumentar o meu salário. Encontrei esta alternativa, a de subir embriagado na corda bamba, sem a rede de segurança. Depois, fui tomando parte na administração do circo, aconselhando seu Lagos em tudo o que podia. Quando vi, estava mandando e desmandando.
Poderoso, comecei a chantagear as mulheres do circo: ou iam para cama comigo ou para rua. Todas preferiram a demissão, e eu fui mandando embora uma a uma, contratando outras, tais como a Carmem, a Fabrínia, a Maria, a Lúcia, a Cláudia e a Raquel. A única que não demiti foi a Josy, porque nunca cheguei a chantageá-la, embora ele fosse bonita e gostosa – quanto às demais; isto é, quanto a Carmem, a Fabrínia, a Maria, a Lúcia, a Cláudia e a Raquel, só não as chantageei por falta de tempo; ou melhor: porque quando ia começar a chantageá-las acabei me transformando em lobo.
Com os homens, era o seguinte: ou me obedecia ou eu mandava embora. Fizessem algo que fosse para me desafiar, estavam demitidos. Demiti muitos deles, sobrando apenas o palhaço João, o anão Rafael, o mágico Marcos e os irmãos Fábio e José, que eram os motoqueiros do globo da morte. Com todos eles eu não tinha problema algum, exceto com o palhaço João, que falava mal de mim pelas costas. Por esta razão, por duas ou três vezes pedi ao seu Lagos para mandá-lo para o olho da rua, mas não obtive sucesso algum.
E tudo para atrair as mulheres do circo para mim! Algo que hoje sei que estava completamente equivocado, que o meu erro não era ter um salário comum, e sim o de ser, antes de passar a ser uma espécie de gerente no circo, um sujeito bonzinho e educado de mais com elas. Quem me confirmou isto foi Elias, o bruxo que seu Lagos foi atrás, a fim de saber se o lobo na jaula era eu mesmo afinal.
– É ele.
– O Mauro?
– O próprio.
– Meu Deus do céu! Como isso foi acontecer?
– Simples. O moço era bonzinho, as moças lhe repudiavam... Resolveu ser mau. Acabou virando lobo.
– Não é possível.
– Tudo é possível.
– E agora?
– Agora o quê?
– O que vamos fazer para ele voltar ao normal?
– Nada.
– Nada? Não existe nenhum feitiço para resolver essa situação?
– O que você acha?
– Sei lá, oras. O bruxo aqui é você.
– Não, não há nenhum feitiço.
– E agora?
– Agora a coisa é com ele, só com ele. Se ele quiser voltar a ser o Mauro, primeiro ele precisa se transformar num cordeiro. Será que ele vai querer?
– No meu caso, quereria sim.
– Se fosse comigo, não queria não.
– Isto porque você é um bruxo.
– Não. Só não iria querer me transformar num cordeiro porque o lobo ganha vantagem na luta pela sobrevivência; enquanto o cordeiro, coitado, todo o mundo quer comer...
– Nisto você tem razão.
– E depois, para ele se transformar num cordeiro vai ser preciso se tornar um cristão. Não o cristão da boca para fora, mas o cristão que perde nesta vida para ganhar na outra. Quem quer isto nos dias de hoje?
– Quase ninguém.
– Ninguém hoje em dia quer ser casto, pobre e obediente. Você quer ser isto, seu Lagos?
– Eu não.
– Hoje o mundo vive o culto ao sexo, ao dinheiro a qualquer custo...
– A vida fácil, desregrada...
– Quase ninguém quer sair perdendo...
– Quase ninguém...
– São poucos os verdadeiros trabalhadores da fé, que praticam a caridade. O sonho da maioria é ficar rico. Um ou outro sonha em ocupar um lugar de destaque no céu.
– É isto mesmo...
– Está certo que existem muitas pessoas de bem, que trabalham para o próprio progresso e evitam fazer o mal para outro. Mas é certo também que muitos não querem o sofrimento, as provas dadas por Deus para a evolução de cada um.
– Verdade.
– Você, por exemplo, sofre sem murmurar?
– Não.
– Enfrenta crises financeiras, de saúde e emocionais com resignação?
– Também não.
– E se Deus lhe tirasse tudo: este circo, a sua saúde, e etc; você aceitaria rindo, feliz?
– Creio que não.
– Está vendo, como é difícil?
– Muito.
– Será que o Mauro vai querer essa vida para ele? O sujeito já se transformou num lobo porque queria todas essas mulheres lindas que trabalham aqui... Você acha que ele é capaz de renunciar o sexo livre e viver o amor com todas as suas implicações, principalmente a fidelidade?
– Acho que não.
– Ele queria ter dinheiro, não é? Você acha que ele vai querer viver uma vida simples, tendo que perder muitas vezes em favor de sua fé?
– Acho que não.
– Eu também acho.
– E o que será dele, então?
– Só Deus sabe, seu Lagos, só Deus.
– E o que faço enquanto isso?
– A única coisa que você pode fazer é rezar e esperar, só.
– Fazer o quê, não? Vamos rezar e esperar...

* * *

Acreditei nas palavras do bruxo. Fazia sentido. Contudo, estava num paradoxo crucial: queria voltar a ser homem, mas não queria de maneira alguma voltar a ser cristão. Eu não queria perder a minha vida, e sim aproveitá-la ao máximo com mulheres e dinheiro. E agora, caso quisesse ter a minha pele humana de volta, ia ter que voltar a rezar como rezam os verdadeiros cristãos...
Primeiramente, ia ter de me arrepender de tudo o que fiz. Depois, fugir e me apartar do mal. Perdoar. Amar Deus sobre todas as coisas e o próximo com a si mesmo... Coisa difícil, muito difícil. Se quisesse, ia ter de esquecer as mulheres do circo – eu queria todas elas, uma por uma, numa obsessão incurável, numa idéia e vontade fixa – e escolher apenas uma, casar-se com ela, ter filhos e formar uma família sagrada, sem traições.
Por outro lado, continuar sendo um lobo, um animal, dava no mesmo que ser um cristão: como iria tê-las para mim agora? Antes uma que nenhuma. Por isso, decidi ser cristão. Arrependi-me dos meus pecados, renunciei ao mal, perdoei quem tinha que perdoar. Assim, pude iniciar no Caminho: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo...
Passei o dia inteiro meditando sobre isto, andando de um lado para outro, cheirando o chão, cuidando os meus sentimentos e o meu pensar. Enquanto meditava, sabia que não iria ser nada fácil ser um homem de Deus; e, por conseguinte, me transformar num cordeiro, a fim de ter a minha pele humana de volta. Iria haver as provações, as tentações, e todas essas coisas que acontecem a todo aquele que deseja ser um fiel. Iria haver as mulheres e Nietzsche no meu ouvido... Dito e feito: só foi a noite chegar, com todas as suas venturas, para vir sobre mim às primeiras provações...
Mais exatamente, pela madrugada.
Isto aconteceu quando as mulheres começaram a chegar de uma festa. Chegaram todas juntas, menos a Maria, que não foi. A Josy, a Raquel e a Fabrínia foram direto para seus respectivos trailers, dormir. A Lúcia e a Carmem, não. Ficaram ali, perto da jaula. Conversavam, sobre a festa. Enquanto conversavam, fumavam. Estavam alegres, por causa da bebida. De repente, resolveram aproximar-se de mim.
– Será que ele é mesmo o Mauro? – perguntou a Lúcia para a Carmem.
– Nada. Você acredita nisso?
– A Josy acreditou.
– Ela acredita em tudo. Aonde já se viu um ser humano virar animal?... – disse Carmem.
– Estranho, não? Esse lobo aparecer assim, justo no dia em que trancaram o Mauro aí... – comentou Lúcia.
– Muito estranho.
– Será que esse lobo é capaz de machucar alguém? – perguntou a Lúcia.
– Acho que sim.
– Você tem coragem de passar a mão nele?
A Carmem disse que não.
– Pois eu tenho – disse a Lúcia.
Aproximou, me chamando, com uma voz doce. Fui, porque queria ser bonzinho, manso e humilde de coração. Levou a mão à minha cabeça e eu deixei ela me acariciar. – Viu, ele não é tão mau assim...
– Parece que não.
– Passe a mão nele.
– Eu não!
– Por que não?
– Tenho medo. Apesar de me mostrar um ser manso e bom, a minha imagem de lobo ainda assustava muito.
– O risco vale à pena.
– Acho melhor não.
– Ah, eu não sabia que você era tão medrosa...
– E não sou!
– Então vai, passe a mão nele...
Carmem aceitou o desafio.
Aproximou-se, levando à mão em minha cabeça.
Deixei.
Depois, comecei a lamber a mão dela, num gesto de carinho; afinal, eu queria a Salvação.
– Ui – disse a Carmem.
– Que foi?
– Ele tem uma língua molhada.
– Uma língua molhada? – perguntou Lúcia, excitada.
– Credo, Lúcia, deixa de ser nojenta!
– Não é nojento.
– Claro que é!
– Deixe eu ver – disse ela, colocando a mão em minha boca.
Lambi a sua mão, tal como fazem os cachorros em seus donos.
– Ai, que delícia – disse – Dá até vontade de. N
a hora que ela pensou nisso, logo vi que estava diante de uma tentação.
- Não acredito que você pensou numa coisa dessas!
– Pensei. Deve ser excitante.
– Excitante?
– Sim. Será que ele lambe a nossa?
De fato, era uma tentação, uma grande tentação: se antes precisava fazer chantagens para tentar levá-las para cama, agora uma delas estava ali, de graça para mim, sem precisar esforço algum de minha parte.
– Não acredito que você teria a coragem.
– Teria!
– Que nojento!
– Não tem nada de nojento. Tem de gostoso. Você nunca deixou um animal fazer isso por você, Carmem?
– Um animal?
– É, um animal. O cachorro de casa, um gato...
– Eu não!
– Que mentira!
– Verdade!
– Todo mundo já fez isso quando criança ou no começo da adolescência!
– Pois eu não!
– Já eu sim! Quando era adolescente. Eu pegava um gato lá de casa e deixava ele lamber – disse a Lúcia.
– E ele lambia?
– Melhor do que os homens!
Que vadia!, pensei comigo.
– Era bom?
– Nossa, nem me fale.
– Você tem coragem de deixar esse lobo fazer isso? – perguntou a Carmem.
– Tenho!
– Vai fazer?
– Vou!
Na hora que ela disse isso, fiquei demasiadamente excitado.
– Viu isso? Ali, no meio das pernas dele, saindo para fora?
– Vi.
– É muito vermelho.
– E grande.
– Ai, fiquei excitada, e você? – disse a Lúcia.
– Não.
– Vou levantar a minha saia.
– Você ficou louca? E se alguém aparecer?
– Você me avisa – disse Lúcia para Carmem.
Em seguida, levantou a saia.
Ao levantar a saia, tirou a calcinha e eu pude ver sua genitália.
Era uma das bucetas mais belas que vi em toda a minha existência: a rosa aberta dos poetas safados.
Depois, ela aproximou-se da grade e levou sua vagina perto da minha boca.
Uma voz interior me disse: agora é a hora da verdade, da provação – resistir e alcançar a graça de me tornar um cordeiro ou entregar-me ao pecado e continuar sendo um lobo?
Desta vez, a escolha era mais difícil ainda; pois, se antes imaginava que enquanto lobo nunca poderia tê-las para mim, agora a situação me mostrava exatamente o contrário: era o fato de ser lobo que elas estavam ali, querendo sexo comigo.
Tentei uma oração, virei à cara, mandei Satanás afastar-se. Não afastou. Pelo contrário: fez com que a Lúcia colocasse a buceta mais perto ainda, e como se não bastasse a tentação em si, começou a pedir com uma voz sensual para que eu lambesse:
– Vem, lobinho, vem...
Não resisti.
Coloquei o foucinho e cheirei.
Depois, comecei a lambê-la; e ela, a ficar louca.
– Ai, que delícia, Carmem! – disse ela.
– É mesmo?
– Nossa!
– Eu também vou querer!
– Agora não. Espere um pouco.
Fiquei lambendo a buceta da Lúcia, me esquecendo completamente do meu dever de cristão.
– Vou gozar – disse ela.
– Verdade?
– Verdade.
– Então é bom mesmo! – exclamou a Carmem.
– Muito! Ahhhhhhhhhhhhhh!
E gozou.
Ficou com as pernas bambas.
Quase caiu, sem forças.
– Agora sou eu – disse a Carmem, levantando a saia.
E; logo depois, tirou a calcinha e se aproximou, colocando a vagina na minha cara.
Fiz o mesmo com a Carmem: primeiro encostei o meu foucinho e depois comecei a lamber.
– Nossa, que tesão! – disse ela.
– É demais!
– Será que ele lambe meus seios também? Adoro quando os homens lambem meus seios.
– Faça o teste Fez.
Levantou a blusa e o sutiã.
Eram redondinhos, bem redondinhos, e firmes.
Ela agachou, para eu poder lambê-los.
Primeiro encostei o foucinho e senti que eles estavam bem quentes; depois, lambi-os.
– Ai, que delicia – disse Carmem.
– Estou vendo.
Ficou agachada até sentir as pernas formigarem.
– Que pena! As minhas pernas formigaram!
Levantou.
Colocou a buceta na minha cara e eu lambi.
Fiquei lambendo a buceta da Carmem até ela gozar.
Quando gozou, ficou com as pernas tremendo, que nem a Lúcia.
– Agora vamos embora – disse a Carmem.
– Será que alguém viu, ouviu?
– Acho que não.
– Vamos contar para alguém?
– Não. Segredo nosso.
E foram.

* * *


Assim que elas se foram, a tristeza do pecado invadiu a minha alma de lobo. Agora, estava certo de que por ter cedido às tentações eu havia dado um grande passo atrás no plano espiritual. Precisava portanto me arrepender, recomeçar do zero, e não pecar de novo. Orei, pedindo perdão ao Criador.
Enquanto orava, comecei a duvidar se o que havia cometido era de fato um pecado: no meu intimo, onde a doutrina cristã e Nietzsche moravam, era sim e não. Preferi acreditar que sim. Precisava, portanto, me arrepender. E não só isto: para mostrar arrependimento verdadeiro, era obrigado nunca mais fazer de novo.
Não, eu nunca mais iria fazer aquilo novamente.
Meia-hora depois, apareceram na minha cela os motoqueiros do globo da morte. Vinham do centro da cidade. Pararam na minha frente, e ficaram me olhando. Fábio puxou o maço de cigarros do bolso e ofereceu para José. José aceitou, acendeu, deu um trago e soltou a fumaça no ar. A fumaça logo desapareceu, com o vento. Fábio fez o mesmo. Enquanto davam os primeiros tragos, olhavam-me, curiosos.
De repente, o silêncio foi quebrado entre eles e começaram a falar.
– Será mesmo que esse lobo é o Mauro?
– Pode ser que sim.
– É algo muito difícil de acreditar.
– Pois é.
– Você lembra do Pé-de-garrafa?
– Lembro sim!
– Eu morria de medo dele, quando era criança.
– Mamãe nos deixava apavorados, quando a gente dava trabalho para ela. Lembra o que ela falava quando a gente se comportava mal?
– Lembro. Ela dizia que o Pé-de-garrafa ia nos pegar de noite e levar a gente para a caverna dele, onde ele costumava a devorar as pessoas.
– Credo em Cruz! Tenho arrepios só de lembrar.
– Eu morria de medo dele.
– E eu, então? Nem dormia...
– Cansei de passar a noite acordado por isso.
– Como será que ele era?
– Eu acho que ele era que nem esse lobo aí.
– Eu já acho que ele tinha uma cabeça de cavalo, com um olho só no meio da testa.
– Virgem Nossa!
– Deus que me defenda!
– Você lembra dos assovios dele, no meio da mata do sítio?
– Não gosto nem de lembrar.
– Papai falava que era para marcar território.
– E que com esses assovios ele hipnotizava as pessoas que queria capturar ele.
– Meu Deus...
– E as pegadas que ele deixava?
– Parecia de fundo de garrafas...
– Pois é.
– Será que não era alguém que fazia essas marcas no chão?
– Sei lá!
– E esse lobo aí, será que é um Pé-de-garrafa também?
– Bom, pelo menos os pés dele é de lobo.
– Será que é um lobisomem?
– Se for o Mauro, agora é.
– Vamos sair daqui?
– Que isso, homem, tá com medo do quê?
– Sei lá. De ele de repente sair daí e pegar a gente.
– Deixa de bobagem. Ele não é mau, não. Olha para ele.
José me olhou.
Fiz uma cara simpática, eram meus amigos.
– Ei, é você Mauro?
Respondi que sim.
– Deixe disso.
– Ele nos respondeu. Parece que é o Mauro sim.
–Pobre do Mauro, não?
Ei, não quero que tenham pena de mim, não!
– Bem que ele mereceu. Ué, Fábio, você não era o meu amigo?
– Por que? – perguntou José.
– Desse negócio dele querer ser o melhor do que os outros. Não gosto disto.
– Culpa das meninas, que não queriam saber do coitado.
Já falei: coitado não, pomba!
– Pois é.
– Se as garotas ao menos fossem gente boa...
– Umas piranhas...
– Só salva a Josy. O resto, nenhuma delas prestam, inclusive a Maria, mulher do mágico.
– Por que você diz isso?
– Porque se não fosse o Marcos, eu já teria levado ela para o trailer.
– É mesmo?
– Pode escrever. Mas o Marcos é nosso amigo, e não merece.
– Verdade.
– Vamos entrar, dormir? Estou com sono.
– Vamos.
E saíram.

* * *

Minutos depois, a Maria saiu do seu trailer e entrou no trailer de seu Lagos. Fiquei vendo. Até esse dia, não havia suspeitado nada dela. Nem de seu Lagos. Contudo, a vida é deles; e um bom cristão não se preocupa com a vida alheia, a não ser em caso de ajuda, de solidariedade, de compaixão. Logo depois, apareceu o Marcos. Parou na frente da minha jaula, olhando para os lados, como quem procura por alguém.
– Onde a Maria foi se meter, meu Deus?
Tive vontade de apontar a pata para o trailer do safado de seu Lagos.
O Marcos, depois de fazer essa pergunta, olhou para mim.
– Será que é você mesmo, Mauro, que está aí?
Fiz que sim.
– Meu Deus do Céu! Será?
Repeti o meu gesto.
– É loucura demais. Não dá para acreditar.
O corno é sempre o último a acreditar, pensei comigo.
– Eu só acredito vendo!
É a sina do corno: só acredita quando vê!
– Se você de repente se transformar no Mauro, na minha frente.
É o que mais quero.
– Eu só devo estar ficando louco, ficar falando com um lobo. Eu vou atrás da Maria – disse ele, saindo.
Entra por ali, tentei dizer, apontando para o trailer do seu Lagos.
E sumiu, na escuridão.
Pouco depois, Maria saiu do trailer de seu Lagos.
Ao passar na minha frente, aproximou-se. Parou e ficou me olhando.
– Será mesmo que você é o Mauro?
Não respondi.
– Mas como é possível um ser humano se transformar num bicho, meu Deus? – disse consigo mesmo.
E começou a pensar em voz alta: será que foi um castigo, o Mauro ter se tornado um lobo? Se sim, que bicho eu seria transformada caso fosse castigada? Numa galinha? Numa cadela? Numa piranha? Ai meu Deus, nunca me castigue nesta vida! E pensando ainda, disse: e o seu Lagos, se fosse castigado com um castigo desses, que bicho ele seria? Um bode velho? Um cavalo? Um camaleão? Ah, nem quero pensar numa coisa destas! Vou-me embora para meu trailer, dormir, porque ganho mais... E antes de ir, me olhou no fundo dos olhos e disse:
– Olhe, Mauro, você não me viu sair do trailer de seu Lagos, combinado?
Não respondi.
– Ai, meu Deus, eu devo estar ficando louca, combinando algo com um lobo... – disse ela, se retirando.
Assim que saiu, o Marcos passou, indo para o seu trailer.
De repente, o seu Lagos saiu do seu trailer e veio apavorado para o meu lado.
– Minha nossa, eu estava esquecendo, Mauro. Você viu tudo, não viu?

Fiz que sim. – Vai me entregar, se você voltar a ser o Mauro?
Vou.
– Como eu posso comprar o seu silêncio?
Fiquei quieto, e ele ficou pensando em algo.
– Já sei! – disse ele, de súbito.
O quê?
– Vou chamar o pastor Mello aqui. Ele vai fazer você voltar a ser o Mauro. Se eu fizer isso, e der certo, você jura que não viu nada?
Fiz que sim, era uma possibilidade, e por que não?
– Então amanhã cedo vou buscar o pastor Mello. Com ele não tem para ninguém. Deus faz tudo o que ele pede.
E voltou, para o seu trailer.
Meia-hora depois, o palhaço João e o anão Rafael apareceram.
Antes de irem para o trailer, aproximaram-se à jaula, tal como fizeram os irmãos Fábio e José.
Vinham da casa de dona Tereza, um prostíbulo.
Estavam bêbados.
Ao me verem, começaram a falar a meu respeito.
– Será que esse lobo é o Mauro mesmo? – perguntou o palhaço João.
– Não – disse Rafael.
– Como esse lobo foi parar aí?
– Coisa do Mauro, para nos sacanear.
– Sabe que eu já estava ficando com nojo da cara dele?
– Por que? – perguntou Rafael.
– Esse negócio dele mandar as garotas embora porque não iam para a cama com ele.
– Realmente, ele deixou de ser aquele rapaz bom que era quando apareceu aqui.
– Você sabia que ele estava fazendo uma campanha para o seu Lagos me tirar do circo?
– Não.
– Pois é. Fiquei sabendo esses dias. O filho da mãe inventou um monte de calúnias a meu respeito.
– Será que ele fez isso comigo também?
– Não, com você não.
– Por que será que ele ficou assim?
– Eu acho que foi a rejeição das mulheres do circo.
– Mas precisava ele ficar assim?
– Não.
– E esse lobo, hein? O que vamos fazer com ele? – disse Rafael.
– Sabe o que vamos fazer com ele? – falou o palhaço João.
– O quê?
– Vamos urinar nele!
– O quê?
– Isso mesmo... Vamos urinar em cima desse lobo... Estou com vontade de urinar e vou fazer isto bem na cabeça dele!
Urinar na minha cabeça?
– Para quê? – perguntou Rafael.
– Para quê sim. Estou bêbado e com vontade de urinar. Que seja na cabeça dele, então!
– Você ficou louco.
– Não fiquei. É divertido. Você vai fazer o mesmo!
– Eu?
– Sim, você!
– Eu não!
– Por que não?
– Porque não sou de ficar mijando em cabeça de lobo!
– Você está com medo!
– Medo do quê?
– Dele te pegar depois, machucar você!
O que era verdade: eles iriam ter comigo, se fizessem isso; ah, se teriam!...
– Eu não!
– Então urine nele!
– Não vou urinar!
– Frangote!
– Não sou frangote!
– Então urina... O quê que custa?
– Não custa nada!
– Então?
– Não.
– Vamos urinar os dois, juntos!
Rafael, de repente, resolveu topar.
Rosnei para eles.
Mas foi em vão: os dois, quase ao mesmo tempo, tiraram o pinto para fora e começaram a mijar em mim.
Tentei fugir mas não teve como.
Molharam a minha cabeça, o meu corpo, entrou mijo em minha boca...
Eles acharam divertido, gargalharam:
– Rá-rá-ra! Toma mijo, lobo! Toma mijo!....
Depois, quando terminaram, foram para o trailer. Eu fiquei completamente molhado, fedendo. Passei a madrugada inteira acordado, puto da vida. Quem de dia estava perdoando, à noite estava tendo ódio. Lancei diversas maldições em cima deles. Mandei os dois para o Inferno. Quando amanheceu, graças a Deus a Josy veio me dar comida e água. Ao chegar perto de mim, sentiu o fedor da urina.
– Nossa! Que cheiro horrível!
Fiz uma cara de cachorro triste.
– Alguém fez isso... – disse ela consigo mesma – Quem deve ter sido?
Tentei responder, mas saiu apenas alguns ruivozinhos.
–Foi o palhaço João?
Levantei a pata.
– Perverso! Como ele teve essa audácia!
Uivei.
– Vou dar um jeito nesse cheiro – disse ela, saindo de perto.
Voltou com um balde de água e jogou sobre mim.
Depois, pegou mais um balde de água e jogou na jaula.
Aliviou.
– Você deve estar com fome, não está, Mauro?
Fiz que sim.
Ela voltou para o seu trailer, e me trouxe uma vasilha com comida.
Comi, e ela ficou me vendo comer.
Depois foi embora.
E; ali sozinho, pensando em tudo o que aconteceu, vi que não iria ser nada fácil deixar de ser lobo, de ser rancoroso e malvado.


* * *

A primeira coisa que tinha que fazer era perdoar o palhaço João e o anão Rafael. Mas, como iria perdoar quem urinou em mim? Como? Era algo muito difícil. Mesmo assim, tentei. Comecei a orar e a pedir esse dom de perdoar a quem nos faz o mal. Orei, e na oração, pude sentir o amor de Deus, e com isso consegui perdoá-los. Depois, ficou bem claro que iria ter que resistir às tentações do adversário, porque estava sendo fortemente provado. E, ao pensar nisso, de repente apareceu o seu Lagos com o pastor Mello.
– Aqui está ele.
– Ele quem?
– O Mauro.
– Você está de brincadeira comigo, não está?
– Não, não estou. É o Mauro.
– Você não quer que eu acredite num absurdo desses, quer? –
Você não acredita que existem demônios?
– Acredito.
– E não consegue acreditar que alguém pode se transformar num animal?
Espere aí, seu Lagos, animal é a.
– Se você tivesse me dito isto, nem teria vindo.
– Mas eu lhe juro, ele é o Mauro. Quer ver? Mauro, se você é o Mauro, levante a pata direita.
Levantei a pata direita.
– Viu? Está vendo. É ele, o Mauro!
– Mas isto não prova nada.
– Então pede para ele te dar um sinal.
O pastor Mello pensou, viu que era um absurdo, mas por insistência de seu Lagos, me pediu um sinal.
– Se você é mesmo o Mauro, como o seu Lagos está dizendo, dê uma volta – pediu ele.
Uma volta? Só faltava essa...
– Viu? Ele não fez nada.
– Espere – pediu o seu Lagos. Dei a volta.
– Está vendo? É ele!
– Mas isto não prova nada.
– Então pede outra coisa para ele fazer.
O pastor Mello pediu para dar três pulos vezes três.
Dei nove pulos, como ele pediu.
– Viu?
– Vi.
– Acredita agora?
– Estou perplexo. Isto só pode ser obra do cão.
– Então faz uma oração nele, para dar um jeito nisso.
– Só se ele não me morder. Vou precisar impor a mão na cabeça dele. – Ele não vai te morder. O pastor Mello colocou a mão na minha cabeça e começou a orar.
Ao fazer isso, fui ficando com raiva dele, com ódio, e comecei a rosnar, a uivar.
– Em nome de Jesus, Satanás eu te ordeno: saia deste corpo! C
omecei a babar, e tentei morder a mão dele, sem conseguir.
– Demônio dos Infernos, eu te ordeno: saia!
Uivei mais forte, rosnei, e então o pastor Mello ficou com medo e desistiu do exorcismo.
– Sozinho não consigo. Vou buscar mais pastores; para nós todos, juntos, poder expulsar esse Capeta que está nele. E saiu, junto com o seu Lagos, prometendo voltar logo, logo.

* * *

Assim que os dois saíram, uivei, chamando a Josy. Ela veio, e eu parei de uivar.
– Você está triste? – perguntou ela.
Não, falei, com a pata.
– Você precisa ser forte, para sair dessa.
Olhei para ela.
– Estou com você – falou-me, levantando-se para sair.
Balancei o rabo. – Ficou feliz? Sim, falei de novo, com a pata. – Quando precisar de mim, é só uivar. Do jeito q
ue você estava fazendo. Está bem.
– E me perdoe.
Perdoar? Do quê?
– Me perdoe por não ter tido coragem de assumir o que estava sentido por você... Quem sabe, nada disso teria acontecido.
Balancei a cabeça, gesticulando que ela estava perdoada.
– Te amo! – disse também.
Me ama?!, indaguei, surpreso.
– Vou estar sempre perto – falou, saindo.
Fiquei ali pensando em tudo o que ela disse. Ela me amava! Como nunca fui perceber? De fato, nunca daria para perceber, uma vez que não estava interessado no amor, mas apenas em comer as mulheres do circo. Então, o peso do arrependimento pesou em meu ser, e fiquei triste.
Por outro lado, ela me amava, e isso era motivo para ter esperança. O amor sempre nos dá isso, esperança. Por esta razão, me senti forte para vencer todas as tentações. Eu tinha o seu amor, o amor de Deus, e isso eram armas poderosas para deixar de ser um lobo.
Não obstante, assim que a madrugada chegou – o pastor não voltou nesse dia com os outros pastores – fui tentado mais uma vez, e de forma mais forte e cruel. A Lúcia e a Carmem, desta vez, apareceram acompanhadas da Raquel e da Cláudia!
As duas haviam traído a promessa de guardar segredo e contaram o que tinham feito comigo na noite anterior, despertando interesse nelas. Aproximaram-se. A Lúcia, para provar que o quê ela estava dizendo era verdade, logo foi se aproximando de mim. Senti o seu perfume, e quase esqueço de todo o meu propósito. Ela, chegando bem perto, levantou a saia e colocou a buceta bem diante do meu foucinho – nesta noite, ela estava tão preparada que nem calcinha vestiu.
Recusei.
– O que foi benzinho, está com vergonha das outras?
Fiquei imóvel.
– Vem – pediu ela.
Orei: afasta-se de mim, tentação dos Infernos!
– Não vai querer? – disse ela.
A Raquel e a Cláudia começaram a desconfiar que fosse verdade o que elas lhes disseram.
– Vem, vem? Lambe a minha bucetinha, lambe?
Fiz que não.
Elas riram.
– Que foi, tá dodói hoje, é?
Não respondi.
– E seu eu der meus seios para você lamber? – falou ela, levantando a blusa.
Também não respondi.
Ela tirou o sutiã.
Vi que seus seios eram perfeitos, lindos.
Meu pau endureceu e saiu para fora do coro.
Fiz então um esforço mental para ele amolecer.
Foi em vão.
– Viram? Ele está excitado!
– Mais um pouco e ele te lambe – falou a Carmem.
Dito e feito: coloquei o foucinho nos seios dela e cheirei, colocando a perder todo o meu esforço.
Depois, a língua; e fiquei lambendo até ela se levantar, a fim de que agora eu lambesse a sua vagina. Lambi até ela gozar. A Raquel e a Cláudia acharam isso incrível, muito excitante. Levantaram a saia também e colocaram a buceta para o lobo lamber. E não somente a buceta, mas os seios, as pernas, e as coxas também.
A Raquel, com muito tesão, virou a bunda em minha direção, dizendo me come, lobinho, me come. Levantei as patas dianteiras; e, segurando-me nas grades, levei o meu cacete de lobo em direção à genitália de vadia dela. Enfiei, e ela começou a gemer. As amigas dela viram isso e começaram a rir, excitadas, dizendo eu também quero. Comi a Raquel com avidez, me segurando para não gozar e conseguir comer elas todas: com certeza, o Inferno já era meu... Adeus, Mauro! Jamais será cordeiro!
Depois dela, veio a Lúcia; e depois da Lúcia, a Carmem, seguida pela Cláudia. Quando gozei, afastei-me delas e cai exausto, no chão da cela. Me perdoa, meu Deus... Elas, ao me verem ali deitado, saíram de perto, voltando para seus trailers. E eu, fiquei na jaula, mais uma vez derrotado pelo Adversário...


* * *
Pela manhã acordei com o palhaço João e o anão Rafael colocando uma vasilha de comida na minha jaula. Levantei e fui ver o que tinha para mim. A refeição estava com um aspecto horrível. Cheirei-a, para ver se dava para comer. Negativo. A comida fedia a lixo, a lavagem, e não duvidei que o palhaço João e o anão Rafael mijaram e defecaram nela, a fim de sacanearem comigo. Rejeitei. Os dois perceberam a minha recusa e começaram a zombar da minha cara.
– Estou achando que ele não gostou muito da comida – disse João para Rafael.
– Fez até cara de nojo, você viu?
– Vi. O que será que ele quer comer, filé mignon?
– Arroz bem branco, mandioca e picanha, de certo – disse Rafael.
Eu vou é comer um pedaço de vocês!
– Sabe? – disse João.
– O quê?
– O que você acha da gente cuspir nele?
– Cuspir?
– Sim, cuspir. Dar umas cusparadas bem amarelas nele.
– Uma boa idéia.
– Quem cospe primeiro?
– Eu – falou Rafael.
E cuspiu, o desgraçado. O cuspe acertou o meu rosto em cheiro. Em seguida, João cuspiu também. Deram várias cusparadas em mim, e se divertiam muito. Tentei suportar tudo isso com resignação, tal como Cristo no Calvário. Contudo, não consegui me conter, e rosnei alto, com raiva; e mostrei os dentes, ameaçando atacar. Eles me subestimaram, fazendo ironias, dizendo ah é, o lobo está nervosinho? Vamos cuspir nele, para ver se acalma...
E cuspiram.
Fiquei mais nervoso ainda e comecei a rosnar mais alto, que nem um cachorro louco. Depois, avancei na direção deles. Assustaram. Deram um passo para trás; e, vendo as grades da jaula me impedindo de atingi-los, resolveram não ceder à minha ameaça. Fiquei mais furioso ainda, ao ver que eles permanecerem parados na minha frente. A minha fúria foi tão grande que sem me dar conta virei uma verdadeira fera.
Provavelmente a fera mais assustadora que eles viram até então. Pois, ao avançar em direção deles pela segunda vez, saíram correndo, assustados, apavorados. Jesus faria igual, disse para mim mesmo. E, sem conseguir me conter, continuei furioso, rosnando, como se estivesse louco, e nada me fazia parar. Chamei a atenção de todos no circo; e começaram, um a um, ver o que estava acontecendo.
Os primeiros a chegar foram os irmãos Fábio e José. Me pediram calma; que eu parasse de rosnar pelo amor de Deus; que eles estavam preocupados comigo; que queriam, de todo o coração, fazer algo por mim, mas que não sabiam o que fazer. Em seguida apareceram o mágico Marcos e Maria. Ficaram apavorados com a minha fúria. Quiseram fugir; mas ficaram, à pedido dos motoqueiros. Depois deles, apareceu o seu Lagos.
– Meu Deus do céu, acalme-se, Mauro!
Não me acalmei. Eu estava furioso, possuído, e rosnava sem parar. Era algo maior do que eu. Seu Lagos, com isso, me pedia calma. Resolveu aproximar-se, e colocou a mão perto da grade. Mordi-a, com violência. Ele saiu de perto gritando de dor, mas evitou me xingar. Saiu sangue, e ele apartava a outra mão no ferimento, para estancar. Depois clamou pelo amor de Nosso Senhor que eu me acalmasse. Mas não acalmei. Eu estava fora de mim, surtado. E quanto mais nervoso ficava, mais alto rosnava para eles e para o mundo.
O seu Lagos, mesmo ferido, aproximou-se novamente, dizendo-me que o pastor Mello estava chegando com outros pastores, para resolverem o meu problema. Ainda assim, continuei no mesmo estado. Logo depois, apareceram a Lúcia, a Carmem, a Raquel e a Cláudia. Ficaram apavoradas. Quiseram sair correndo mas o seu Lagos proibiu, e então tiveram que ficar ali, assistindo um lobo em estado de transe, de loucura. De fato, eu estava louco, e nem mesmo a presença da Josy, que chegou logo depois, me fez acalmar.
Continuei rosnando e uivando alto desenfreadamente. Minutos depois, o pastor Mello apareceu. Estava com trezentos e dezoito pastores junto com ele. Ao vê-los, comecei a rosnar mais alto ainda, e mais furioso. Eles, ao mesmo tempo, começaram a orar. De repente, o pastor Mello ousou colocar a mão na minha cabeça. Quase perdeu os dedos, com a mordida que dei. Outros pastores tentaram o mesmo, mas não deixei. E quanto mais eles oravam, mais eu rosnava. E quanto mais rosnava mais eles oravam, em voz alta. Foram uns dez minutos assim, até eles desistirem de vez.
– Nunca, em toda a minha vida, vi um demônio tão forte como este.
– Esse deve ser o próprio.
– Só pode, para se transformar num lobo.
– E agora, o que vamos fazer?
– Vamos voltar para as nossas casas. Mas vamos ficar em jejum por quarenta dias, e depois voltamos, com mais força.
E foram.
O seu Lagos, ao verem que nada podiam fazer, foi até o seu trailer, e voltou com uma seringa. Havia um líquido dentro dela, e uma agulha enorme na ponta. Veio rápido, correndo, e sem medo de levar uma mordida, conseguiu aplicar a injeção em mim. Fui perdendo a força. De repente, tive vertigens. Olhava para eles e via-os embaçados. Depois, o que era claro se fez escuro, e fiquei zonzo, até cair. Assim que fui ao chão, apaguei sem poder me defender. E ali fiquei por umas vinte horas mais ou menos.
Ao acordar, vi a Josy, ao pé da jaula.
Era noite.
– Tudo bem com você, Mauro?
Mais ou menos.
– Está com fome? Estou.
– Vou buscar comida para você.
Fiz que sim, que ia esperar. Ela foi até o seu trailer, preparar uma boa refeição para mim. Logo depois, voltou, empurrando a comida ao meu alcance. Eu estava com muita fome. Não pude nem mesmo agradecê-la. Fui logo comendo. Enquanto comia, a Josy me observava. Ria, da velocidade em que devorava o quê ela trouxe.
– Pode ficar tranqüilo, que eu não vou deixar faltar nada para você, está bem?
Ok, falei, balançando a cabeça.
Comi tudo em questão de segundos. Ao terminar, ela se aproximou, agachando. De frente com ela, coloquei a pata na porta da jaula, onde estava o cadeado. Fiz uma cara triste, implorado para ela trazer a chave para mim. Josy entendeu. Eu precisava fugir dali! Minutos depois, ela voltou, abriu o cadeado e ficou me esperando sair. O que quase fiz; se não tivesse passado pela minha cabeça uma idéia macabra...


* * *

Recuei uns passos, olhei para ela e comecei a rosnar. Ela ficou sem entender como que eu poderia estar sendo hostil quando deveria ser grato e generoso. Tentou mudar a minha ação, ficando parada, mostrando que não estava nem um pouco com medo de mim. Por causa disto, rosnei mais forte, e avancei nela, mordendo o seu braço. Josy correu, machucada, e não voltou mais, nem tampouco alertou os outros o que havia acontecido com ela. Assim que saiu apareceram a Lúcia, a Carmem, a Raquel e a Cláudia.
– Parece que ele está bem, agora.
– Eu pensei que ele ia sair daí e devorar a gente.
– Ele deve ter tido apenas um acesso, só isso.
– Morri de medo.
– E eu?
– Eu também fiquei apavorada.
– Eu adorei o que ele fez comigo antes de ontem – disse a Lúcia.
– Eu também – falou a Raquel. –
Será que ele faz de novo? – perguntou a Carmem.
– Será? Eu que não tenho mais coragem de fazer de novo. Vai que ele fica que nem ontem, maluco?
– Fica nada. O surto já passou.
– Será?
– Pode crer. Querem ver? – disse a Lúcia, levando a mão em minha cabeça. Lambi a mão dela.
As mulheres se alegraram, dando gritinhos maliciosos.
– Ele é tão gostoso...
– Uma delícia.
– Vou fazer com ele de novo – disse a Lúcia, levantando a saia.
Estava sem calcinha, a cadela.
– Vai, lambe ela, lobinho, lambe.
Lambi, e depois, me ergui, segurando-me nas grades, a fim de penetrar nela. Ao penetrá-la, tirei as mãos da grade e me enlacei em sua cintura, aprisionando-a. Com ela presa em meus braços, comecei a rosnar, porque queria que todo mundo visse o quanto que elas não prestavam. Pouco depois, apareceram os irmãos motoqueiros, o seu Lagos, o anão Rafael e o palhaço João. As mulheres, para se safarem, começaram a gritar: foi ele quem pegou ela! Eles acreditaram nelas, e tiraram a Lúcia dos meus braços.
Depois, com raiva de mim, o palhaço João disse: vamos mijar em cima dele! Mas nenhum dos homens toparam, exceto o anão Rafael. Fiquei quieto, esperando: era tudo o que mais queria que eles fizessem! Abriram as calças e colocaram os pintos para fora. E nesse momento eu saí da jaula e fui direto ao pinto do palhaço João.
Abocanhei-o, mordi com força, até arrancá-lo de seu corpo. Ele gritou de dor. O anão Rafael, ao ver isso, saiu correndo. Cuspi o pinto do palhaço no chão e fui atrás dele. Peguei-o, e fiz o mesmo: arranquei fora o pinto do anão também. Ele começou a gritar. Os homens e as mulheres começaram a gritar e a correr, se escondendo. Mas, eu não queria fazer mal ao restante, e fugi decidido em jamais ser um cordeiro...

* * *

Passei alguns dias rondando o local, me escondendo nas matas, lugar onde vivo até hoje. Nos dias de apresentação, vou ao circo. Subo rapidamente na corda bamba, sem deixá-los me pegar, e faço o meu espetáculo e represento da melhor maneira o que o homem é e a sua condição. O homem é um lobo numa corda bamba. É vingativo, é raivoso, é agressivo. Pode até lá ter as suas redenções, as suas bondades, as suas purezas. Mas em seu íntimo, em sua estrutura mais ontológica, ele é tudo isso o que eu disse e mais um pouco.
Agora, uma vez por mês, quando a lua fica cheia, eu pego uma mulher – ou até mesmo uma donzela, alguma virgem – e avanço nelas e as como por inteira. Não deixo nenhuma viva. As pessoas da cidade, lideradas pelos eunucos João e o anão Rafael, saem em caçada ao lobo do circo. Nunca me pegam. E quando há apresentação, entro no circo, driblo todo mundo, e faço o meu espetáculo.
Depois desço, correndo para não me pegarem. Me escondo num canto e fico esperando alguma mulher passar, para comê-la inteira. Às vezes, de vez em quando, eles tentam armar uma cilada, uma arapuca para mim. Mandam as mulheres do circo como iscas, e elas vêm, ficam perto das matas, e me chamam. Eu sempre vou, e então elas tiram a roupa, me deixam lamber o corpo, enquanto os homens saem da surdina devagarzinho, com passos lentos, cuidadosos, para me surpreenderem.
Contudo, nunca conseguem. Tenho um faro que me permite identificar o inimigo a quilômetros de distância. Assim, logo que sinto o cheio deles, volto correndo para a mata, lugar onde só os bichos conhecem bem. Eles pegam os revólveres, as espingardas e atiram em minha direção. Nunca acertam; os ruins de mira. Então entro num covil, fico por lá por algum tempo, para depois andar pelas matas, até dar a vontade de ir para a cidade e comer alguma mulher, alguma donzela, alguma virgem.
Outras vezes, o palhaço João, junto com o anão Rafael e o prefeito, oferecem prêmios valiosíssimos a quem tem coragem de entrar na mata e me matar. E sempre aparece alguém corajoso. Vêm à mata, arma ciladas, armadilhas; fica à minha espreita. Confesso que alguns deles quase me pegaram, mas sempre venço. E quando venço, faço questão de arrancar o pênis do valente. Eles então voltam para a cidade gritando de dor, anunciando o que fiz. É a minha marca de vitória, e já estou fazendo a cidade uma cidade de eunucos.
Alguns eunucos, entretanto, voltam para se vingar. E voltam mais nervosos, mais raivosos, mais cheios de ódio ainda. Quando esses voltam, não me resta outra coisa a não ser matá-los e jogá-los de volta à cidade.
– Lobo maldito!
– Desgraçado!
– Por que ele faz isso?
– Por que ele não morre?
– Por que ele não desaparece?
De vez em vez, Josy se oferece para vir falar comigo, pedir para parar com as minhas atrocidades. Mas sempre nego, e rosno para ela. Às vezes, lhe machuco. Ela foge, porém sempre volta, para me ver, para conversar, para tentar me converter. No entanto, nunca purifico o meu coração. Mantenho-o sempre faminto, insaciável, cheio de maldades e impurezas. E quando ela sai, eu uivo a noite toda, numa canção triste e solitária, tal como o blues. E uivo tão alto que a cidade inteira não consegue nem mesmo dormir, com um medo terrível do lobo do circo...

Glauber da Rocha

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