
Se eu escrevesse um livro cujo título seria: “COMO USAR BEM O GOOGLE”; e, com uma grande sorte conseguisse uma editora para publicá-lo, fatalmente este projeto resultaria num grande fracasso. Motivo: todo aquele que tem acesso à internet acredita que pelo menos uma coisa neste
vasto universo virtual ele sabe usar perfeitamente – o Google. Ok, todos sabem usar o Google. Basta digitar aquilo que procura e este incrível motor de busca faz todo o resto.
Mas, usar BEM o Google já não é uma capacidade para todos. Do contrário, não existiria milhares de pessoas caindo em golpes absurdos, de todos os tipos. Um exemplo. Dias atrás, resolvi fazer uma consulta virtual com uma vidente. O nome dela: Tara. Não vou aqui dar desculpas esfarrapadas por que tomei tal atitude: estas coisas me interessam da mesma maneira que interessa à maioria – inclusive a você, que deve ter chegado aqui após ter digitado no Google palavras como vidência, astrologia; e até quem sabe: pilantragem.
Então, eu digitei no Google: astrologia; e apareceu o site da Tara. A primeira impressão que tive era de que a vidente não era famosa, apesar de seu site ser bem elaborado. Na verdade, esta impressão se deve ao fato de que pensei que ela fosse brasileira; e, portanto, uma vidente desconhecida. Num de seus banner’s estava escrito: faça uma vidência de seu futuro grátis... Logo desconfiei: não existe nada de graça! Entretanto, todavia e porém, acreditei...
Assim que preenchi o relatório, e esperar vinte e quatro horas pela minha vidência gratuita, ela me retornou, dizendo que eu tinha grandes problemas com a sorte; que a minha vida inteira fui um azarado por causa da posição de Mercúrio em relação à Terra; mas que agora, por Mercúrio ocupar outra posição, a minha vida iria ser, à partir de diante, um verdadeiro mar de rosas que é uma beleza, com eu ganhando na sena e na mega sena; quero dizer, com eu ganhando UMA GRANDE SOMA EM DINHEIRO! – segundo ela, os seis meses seguintes iriam ser decisivos em minha vida, marcantes.
Esta grande soma em dinheiro iria surgir de maneira subida e inesperada, lá por volta do dia 10 de julho. Era um fato consumado, virtualmente inscrito em preto no branco do meu céu astral. Para não perder esta chance, precisava contratar os serviços de minha amiga dedicada. Bastava pedir uma vidência com data marcada para saber quais os dias de sorte e os números ideais para preencher os jogos lotéricos. Não tinha erro: era apostar para ganhar. Ora, como não sou tão idiota assim, resolvi esperar primeiro pelo dia 10 de julho, já que era um fato consumado: se ganhasse algo, ok, iria contratar seus serviços para não perder nenhuma oportunidade dali para frente; se não ganhasse nada, ficaria na minha.
No obstante, dois dias depois de ter recebido a minha vidência urgente e gratuita, acabei encontrando na entrada do supermercado uma nota de cinqüenta reais! Eu nunca havia encontrado uma nota que tivesse o valor além de um real, quanto mais cinqüenta! A primeira coisa que me veio em mente foi o nome dela: Tara! E que realmente estava passando por um período de sorte, de muita sorte! Assim, comecei a acreditar um pouco nela, embora a desconfiança ainda era grande, muito grande.
Mas veja: dias depois, havia na minha caixa de entrada do de e-mail duas mensagens: uma de uma revista muito antiga, séria, me pedindo para me inscrever a um concurso de um Nissan Sentra e mais uma quantia que chegava perto da casa de 1 milhão de reais; e, na outra mensagem, apareceu o nome dela, Tara, me dizendo que na noite passada havia tido um sonho premonitório de meu destino, onde eu ganhava uma imensa quantia em dinheiro! Não pensei outra coisa: Tara – que não devia ter este nome porque é uma tarada – está certa! Vou entrar em contato com ela, pagar o que ela me pede, pedir conselhos e tudo o mais...
Por outro lado, um anjo bendito – que no momento identifiquei como um diabo lazarento – me dizia: será que a Tara não está envolvida diretamente com esta revista, que me obriga a assiná-la para concorrer a prêmios extraordinários? Era uma possibilidade. No entanto, um diabo maldito – que na hora acreditei ser um anjo sábio e protetor, disse: não é loucura sua, Glauber, desconfiar tanto assim das pessoas?
Eu precisava acreditar mais nas pessoas, convenceu-me este diabo sujo. Eu já estava ficando um doente, um neurótico que desacredita em tudo e em todos. Eu precisava dar um voto de confiança à minha sorte... Mas eis que; de repente, lembrei-me do Google, que ele busca sites onde consumidores enganados expressam suas revoltas contra aquilo que compraram na internet e se deram mal, e etc., e etc... Daí, eu fui ver algo sobre esta revista: havia uma centena de pessoas falando mal dela, por causa disto e daquilo... Logo, eu vi que era furada fazer uma assinatura por causa do prêmio que iria ganhar, segundo a Tara...
Ora, se a revista era mal falada, não me custava nada saber o que falam desta Tara. Fui ver; e o resultado não podia ser outro: Tara é a pior espécie de pessoa... Uma pilantra! Num site norte-americano existe uma imensa lista de reclamações sobre ela, todas profundamente revoltadas... Então eu disse: é muita pouca vergonha na cara! E, falando em cara, resolvi levantar a sua biografia. Queria ver quem era aquela mulher vesga mas de olhar penetrante. Foi quando descobri, através do Google, este sábio senhor, que muito provavelmente esta tal de Tara não passa de um robô! De uma máquina que fala a mesma coisa dependendo do signo que a pessoa é...


