“Se me calo, esperarão que eu fale;
Se falo, estarão atentos;
E se prolongo o meu discurso, levarão a mão à boca...”
Sabedoria 8; 12.
“Mas quem ficará com meus abismos se os
Pobres diabos não ficarem?”
Manoel de Barros.
Se falo, estarão atentos;
E se prolongo o meu discurso, levarão a mão à boca...”
Sabedoria 8; 12.
“Mas quem ficará com meus abismos se os
Pobres diabos não ficarem?”
Manoel de Barros.
ÍNDICE.
AS GRAÇAS DA LAMÚRIA
A FARSA
VILAS
NA PELE DO NEGRO
OS DEMÔNIOS DE DONA OTÍLIA
A METÁFORA
A CONSPIRAÇÃO DO UNIVERSO
SANSÃO
CAIXA DOIS
ANTI-DEPRESSÍVOS
A GALINHA DOS OVOS DE OURO.
A INDENIZAÇÃO
QUADRO NEGRO
O VENDEDOR DE PAX
O BANQUETE
A MORTE DE CANTÍDIO
CANDANGO
O ABORTO
POBRES DIABOS
AS GRAÇAS DA LAMÚRIA
“A benção paterna fortalece a casa de seus filhos,
a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces.”
– Eclesiástico, III, 11.
a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces.”
– Eclesiástico, III, 11.
Dona Isaura.
Dona Isaura gostava de reclamar. Era mais do que um vício. Sabia que as palavras têm poder, mas sempre que lhe vinha o sofrimento; quando as coisas começavam a dar errado; quando a dor era maior que o prazer, ela desatava a falar com negatividade, dizendo palavras que provocavam em seu filho duas reações apenas: revolta ou desânimo.
A cantiga de sua lamúria era a mesma, eterna e imutável: que eu trabalho feito uma escrava; que patrão não dá valor; que tudo cai sobre as minhas costas; que eu não tenho sossego; que ninguém me ajuda; que antes eu fosse uma desnaturada; que eu não tenho vida; que...
O filho, por mais que lutava, não saía do lugar. De emprego em emprego, nenhum era bom, tudo quase a mesma coisa: quando não era o patrão que não assinava a carteira, era o patrão que atrasava o pagamento; quando não atrasava o pagamento, exigia muito; quando não exigia muito, não promovia; e quando não promovia, mandava-o embora.
Desempregado, o aluguel atrasava, as contas acumulavam e dona Isaura dizia: vamos ficar no escuro, vamos ser despejados, vai faltar o que comer, por que tudo dá errado?
E assim se fazia: o dono da casa pedia a casa; a luz cortava; a água cortava; a comida acabava. Com todos no escuro, restava a alternativa da violação:
– Vai lá, para ser eletrocutado.
O filho pegava a escada, subia lá no poste do padrão, tomava choque, os fios davam curto circuito, um fogaréu acendia, e ele pulava lá do alto da escada, se jogando no chão, dizendo: aí, meu Deus, não quero morrer agora não!
– Viu, não falei? – dizia ela.
– Também? Rogando praga – falava ele, mais pálido que um palmito.
Ele chamava algum eletricista, para fazer uma ligação clandestina, ilegal. Ela dizia: vão descobrir! Não dava outra: dias depois, a campainha elétrica aparecia, via o engano, dava multa, processava.
– Como foi que você falou? Que iam descobrir?
Outra briga. Dali a pouco, chorava; porque ela, a mãe, não queria o mal para ninguém; que ela, a mãe, coitada. De fato, não queria o mal. Queria o bem, isso sim. Mas na hora da dor, do sofrimento, comparando o que podia ser com o que era, falava: droga, não sei o que faço dessa vida, dia e noite, noite e dia, tudo a mesma coisa, tudo eu, tudo eu, tudo eu, até quando, oh meu Deus? Até quando? Não tem ninguém! Não tem um filho de Deus!
O nome de Deus não saia da boca dela, mas perdia para a frase: ai que ódio! O filho, hora ou outra, sentia a necessidade de se colocar a favor dela; pois, só podia ser isto o que ela queria, que o filho ficasse a seu favor. Deixava de pensar em si e ouvia os pedidos da mãe. Arregaçava as mangas; mas, logo ela dizia alguma coisa que lhe fazia sair de perto, depois de uma boa briga. Ela, em seu canto, vitimada, derramava-se em lágrimas, que não era isso o que queria em sua vida...
Tinha mil planos, o filho. Na hora da raiva, tirava a mãe deles. Na hora da calma, colocava-a de volta. Depois, ia para a realidade, já prevenido. Fazia o teste, colocava-a à prova: sempre o mesmo! Nunca muda? As namoradas: deixe sua mãe, vamos viver a nossa vida. Ele esperançava: ela muda.
Seu João.
Seu João é outro que não tem freios na língua. A única diferença entre ele e a dona Isaura é que, se numa tempestade esta profetiza que o barco vai afundar, pelo menos o João diz que não; nem que para isso jogue alguns tripulantes no mar. Bruto e estúpido, com a boca porca e cheia de maldições, não mede palavras para falar com os filhos e empregados, de tal forma que até hoje não se encontra um funcionário que fale bem dele – e vice-versa.
O filho mais velho ouvia as duas versões, e ficava do lado deles: quem agüenta o seu pai?! Vive nervoso, quebrando tudo! Ele chega aqui, joga a ferramenta, fala merda, não aceita uma falha! Por isso que ele não vai para frente! Por isso que ele vive de aluguel, aquele homenzinho infeliz e amargurado!
Não assinava carteira, não respeitava quem trabalhava para ele, não tinha paciência e se achava melhor do que os empregados. Os filhos, todos vagabundos. Nenhum prestava. Na idade dele, já tinha carro, casa, moto, mulheres. E eles têm o que nesta vida? Não tem nada! São inúteis, umas imundices!
Os filhos, mariposas em volta da luz, pássaros de asas quebradas, vivendo sob o teto da maldição.
Ainda assim, o filho mais velho tentava mudar o pensamento do pai. O irmão mais novo olhava para ele com desprezo: só mesmo sendo um burro para perder tempo com outro burro! O irmão mais novo desistira há tempos, quando brigava, brigava, e nada de bom acontecia; onde nessas brigas o mais prejudicado era ele mesmo no final, que acabava num bar, bebendo até cair.
O mais velho, acreditava. Cego ou visionário, acreditava.
Num dia, perguntou a um psicólogo: as pessoas mudam?
– Não. Só melhoram. E olha lá...
Cego ou visionário, mesmo assim ainda acredita na mudança do pai, coitado...
Seu Gilmar.
Se numa tempestade a dona Isaura profetiza o naufrágio; e o João joga para fora os outros tripulantes se preciso for para firmar o barco; o seu Abílio aproveita a situação e se joga logo no mar... Assim que acorda, não vê sentido em levantar, e só levanta porque não tem muito sentido também ficar dormindo. No elas por elas, é melhor sair da cama, porque o corpo fica dolorido e nada pior do que a dor.
A mulher com quem casou separou-se, cansada de ouvir a palavra “difícil”. Os filhos, quase não o visita, para não ouvir palavras de desânimo. De vez em quando, seu Abílio toma remédio para anemia. Reclama da falta de uma mulher em sua vida mas não procura, quase não sai de casa. O filho mais velho é imensamente gordo; e a filha mais nova, apesar de bonita, vive em depressão.
Um funcionário dele, com a cabeça cheia de tanto ouvir as lamentações, disse-lhe certa vez:
– Gilmar?
– Diga.
– Você já experimentou agradecer a Deus hoje, por todas as graças que ele te deu?
– Que graças, se na minha vida só vejo desgraça?
– A graça de você ter saúde, ter a vida, um teto para cobrir a cabeça, esse restaurante que pode sempre te desenvolver moral e intelectualmente... Tanta gente que não pode andar, não pode ver. Já agradeceu a Ele por isto, por poder andar e enxergar bem, filho de Deus?
Dias depois, esse funcionário ganhou as contas.
Gilberto.
Gilberto casou com uma mulher que francamente! Se a dona Isaura, na tempestade, diz que o barco vai afundar; e seu João diz que não; e o seu Abílio se atira no mar antes do resultado final; sua esposa fala: será? Será que vai afundar ou não? Gilberto, em alto mar, muda as velas e coloca os marinheiros para ajudar. Enquanto isto, conversa com a tempestade, a fim de convencê-la a dar trégua. Tem fé, e sempre vence.
Acredita que as palavras possuem poder. Se a pessoa diz a, mesmo querendo b, acontece a. E depois Deus criou o mundo através das palavras: e faça-se luz, e a luz se fez. Por isto, quando vê algo que quer, diz: eu vou comprar. Quando quer vender, diz: eu vou vender. Quando deseja ser, fala: eu vou ser. Quando traça uma meta, afirma: eu vou alcançar, e vencerei! No fim, sempre compra, vende, e vence – Gilberto, porque sabe separar a semente boa da má, sempre sai vitorioso.
A sua mulher; entretanto, nunca evolui. Casada de ser repreendida pelo marido, ainda não aprendeu a plantar. Não sabe esperar amadurecer e na colheita é um desastre: reclama do pouco e chora pelo muito. A mulher do Gilberto, coitada, ainda não aprendeu a dizer eu vou conseguir; tudo vai dar certo; no final sairei vencedora, com fé em Deus e confiando em mim. A mulher de Gilberto, francamente, deixa muito a desejar...
O filho de dona Isaura.
As pessoas mudam, acreditava. Precisava ensinar a mãe a soletrar o bem, repreendê-la nas maldições.
Necessário era cortar o mal pela raiz.
No entanto, sempre que usava da correção, o orgulho falava mais alto, e dava em briga. Tinha fé que um dia ela parasse com as maldições e murmúrios e passasse para as benções e agradecimentos. Um pastor, ao ouvir pacientemente o seu drama, lhe disse: já passei por isto.
– Já passou? – repetiu, iluminado de alegria.
– Já. Mas no meu caso era com a minha esposa.
– Ah é? E o que você fez?
– O que fiz foi o seguinte. Eu estava na frente da televisão, a minha esposa para lá e para cá. Eu já estava farto, não agüentava mais. Lembrei das palavras do meu pastor daquela época, levantei-me, falei para minha esposa: daqui a sua mão. Ela deu, e eu disse: espírito da lamúria, da miséria, da maldição; eu, em nome de Jesus, te dou uma ordem, que você pegue todas as suas coisas e vá embora, pro diabo que te carregue infeliz!
– O espírito foi?
– Demorou, mais foi. Você precisava de ter visto a briga. Lutei com ele uns dez minutos, mais ou menos. Mas no final, Jesus venceu. Jesus sempre vence, meu filho.
Não ia fazer isto, nem com a sua mãe nem com demônio: era melhor doutriná-los. Passou a dizer: você já agradeceu a Deus hoje, pela vida? Por ter onde morar? Por ter duas pernas, e não ser uma paralítica, uma paraplégica? Já agradeceu por ter visão, e não ser uma cega? Não tem medo do Senhor castigar?
A partir de então, criou vergonha, e cessou com as reclamações e com os murmúrios. E a vida, ah, a vida ficou bem melhor, tanto para ela quanto para o filho e para o demônio, que também aprendeu o bê-á-bá...
A FARSA
Tinha que ser uma mulher mais bonita que a Valéria, e mais alta, para ela sentir-se inferior. Que tivesse o corpo bonito, sexy, os seios um pouco menor que os da Valéria e as pernas mais grossas, porque eram esses dois lugares que ela sentia-se menos satisfeita. Tinha que ser, também, uma mulher inteligente, que sabe se comportar, mostrar espírito, saga, cultura, pois a Valéria não possuía nada disso.
– Aí fica difícil –, disse Carlos.
– Por que? –, falou Nelson, da boca para fora.
– Mulher assim não se encontra em qualquer lugar.
– Você acha que não é capaz de encontrar uma assim?
– Sexy, bonita, e inteligente sim.
– E espirituosa, culta?
– Não.
– Quer desistir?
– Só se não me chamasse Carlos.
Carlos era capaz, desconfiar disto era uma ofensa. Tinha uma hombridade a honrar. Não era fracassado. Vivia rodeado de mulheres bonitas, comemorando vitórias. Por isso Nelson pediu a ele, e não para outra pessoa. E tinha que ser logo, porque queria ir embora o quanto antes.
Nelson queria ir embora porque não tinha mais nada que fazer na cidade. A Valéria acabou com ele. Ia ser padre, estava no seminário há cinco anos, e faltavam apenas dois para ser ordenado. E ela, por diversão de adolescente, o desviou. Apaixonado, Nelson pediu dispensa do seminário. O reitor avisou-lhe que estava se transviando. Não deu ouvido. Saiu. Alugou um apartamento perto da casa da Valéria e prosseguiram o namoro por dois meses apenas. Assim que começou a falar em casamento, ela terminou o romance e foi rir com as amigas.
A notícia espalhou-se e Nelson sentiu-se envergonhado, derrotado; pois, todos da congregação, da igreja e do bairro ficaram sabendo que foi ela quem terminou. Para a maioria essa notícia foi a melhor do ano, principalmente para seus ex-superiores, que viram nisso uma esperança para tê-lo de volta para a ordem. Convidaram-lhe para voltar, recusou. Quis dar a volta por cima, e tentou reconquistá-la. Tentou diversos romantismos; mas nada adiantou: por mais que fazia, ele só conseguia afastá-la cada vez mais.
Não obstante, quanto mais fracassava na tentativa de tê-la de volta, mais frágil ficava. Quando foi ver, já estava se preocupando excessivamente com o que os outros pensavam sobre ele e sua vida. Só de pensar, ficava aflito. Calculava consigo: se eu voltar para a casa de meus pais, esse povo daqui vão me ter como um derrotado; se eu ficar, e sem a Valéria, eles me verão como um derrotado também; se eu sair de bermuda, vão ver as minhas pernas; se eu não fizer a barba, dirão que estou desiludido; se eu não fizer festa, dirão que estou de luto; se não sair de casa, falarão que eu morri; e assim por diante, no caminho exato da neurose e da loucura...
E os meses foram passando e ele não conseguia de maneira alguma a Valéria de volta: a moça era mais cruel que uma modelo no topo das mais bonitas. Com isso, não era a melhor opção continuar vivendo na mesma cidade em que ela, onde todas as pessoas que o conhecia sabiam de sua derrota, de seu fracasso, de sua decepção amorosa e desilusão sobre a vida. Era demais para ele. Por causa disto, resolveu que ia embora, para nunca mais voltar, nunca.
Antes de ir, teve uma idéia, a de encontrar uma mulher melhor que a Valéria, para todos saberem que ele deu a volta por cima: era a sua honra que estava em jogo. Porém, não era sedutor. Procurou aqui, ali, e nada. Nenhuma mulher queria saber de um homem desiludido como ele. Até que teve outra idéia: a de pedir para o Carlos que lhe arranjasse uma acompanhante, e pagava bem para isso...
– Mas isso não é uma farsa? –, perguntou Carlos.
– Não tem problema. Para quê uma farsa maior que a de passar por santo sem ser?
– Quem faz isso?
– A maioria daqueles padres pecadores, raça de víboras!
Carlos, apesar de achar um absurdo à idéia de arrumar uma suposta namorada para o colega, ao mesmo tempo achou excitante. Ficou pensando com qual mulher falar: alguma de suas amantes? Alguma de suas amigas? Quem? Qual? Ficou pensando e logo veio vários nomes em sua mente. De todas elas, era só escolher, porque todas se submetiam prazerosamente à suas vontades. Mas quem? Ficou pensando, sem contudo decidir. Em casa, como não conseguia decidir qual mulher que iria escolher para a farsa, resolveu dar uma volta de carro, para relaxar.
E eis que andando nas ruas, ao passar por uma esquina viu uma prostituta muito bonita, fazendo ponto. Era uma das mulheres mais lindas que seus olhos exigentes já viram. Era bem mais bonita que a Valéria. Se duvidasse, era mais bonita que a sua própria namorada! Tinha os olhos verdes, a pele bronzeada, o cabelo fio reto, castanhos; os braços pequenos, a cintura fina; e principalmente: ao contrário da Valéria, tinha os seios médios e as pernas grossas...
Parou o carro.
Perguntou quanto que era o programa. A prostituta aproximou-se do carro, abaixou-se e disse que cinqüenta.
– Cinqüenta? –, repetiu ele.
– Cinqüenta –, disse ela mais uma vez; e, olhando dentro de seus olhos, falou: – Mas já vou logo avisando que não sou mulher, tá benzinho? –, disse, num tom de voz sensual.
– O quê?! – exclamou ele.
– Isto mesmo que você ouviu. Por que o espanto? Parece mesmo que eu sou mulher de verdade? –, perguntou o travesti.
Ficou perplexo.
Desligou o carro e saltou, indo para perto dela; ou melhor, dele. Ao lado dele, viu que eram da mesma altura. De perto, pôde constatar que o travesti era mais bonita ainda. Ninguém, na face da terra, diria que ela era ele.
– Minha nossa... –, falou, embasbacado.
– Que foi?
– Eu conheço um travesti a quilômetros de distância; mas posso jurar por Deus que pensei que você fosse uma mulher –, disse.
– Mas não sou –, falou, rindo.
Carlos ficou olhando para ele. O travesti não era um travesti: era sim uma linda mulher, perfeita, delicada, charmosa, sexy. Por isso, duvidou que algum homem no mundo pudesse saber que fosse um travesti sem que ele falasse. Foi nesse momento que, a fim de colocar à prova a sua crença, lembrou-se do Nelson: era tudo o que ele queria... Ao lembrar-se do amigo, falou a história para o travesti, perguntando no final se ela, ops!; ele, topava fazer o serviço.
Topava.
Carlos colocou o travesti dentro do carro e o levou até a casa do Nelson. Este, ao vê-lo, ficou encantado.
– Serve? –, perguntou para o Nelson.
– Serve sim, como se não?
– Mas só tem um probleminha... – disse ele.
Nelson arregalou os olhos, olhando para o travesti; que por sua vez olhou para Carlos, para ver o que ele ia falar.
– Ela tem tudo o que você quer... É bonita, sexy, inteligente e esperta. Só não sei se ela é culta. Tem algum problema?
O travesti, assim que ouviu o Carlos dizer que ela talvez pudesse não ser culta, sentiu-se um pouco ofendida, quero dizer, ofendido. Mas com a resposta de Nelson, não levou à sério essa pequena afronta.
– Mas é claro que não... – respondeu Nelson, rindo.
No domingo, Nelson foi com ela; ou melhor, com ele, à missa. O travesti parecia uma mulher de seus vinte anos de idade, no máximo. Estava vestida com roupas comuns, que o próprio Nelson comprou, de acordo com seu plano. Na missa, todo o mundo ficou olhando para eles dois. No final da celebração, Nelson fez questão de apresentá-la; isto é, apresentá-lo, como namorada. As pessoas ficavam encantadas com ela: tinha a voz suave, feminina, o comportamento decente, com ar de moça de família, e falava com facilidade, sem timidez ou receio. Todos que conheciam o Nelson, até mesmo os padres, rodearam a moça, ops!, o moço.
– Que moça linda! –, diziam.
– Sou mil vezes ela que a Valéria –, falaram também.
– Ela parece ser mais inteligente, mais cuidadosa, mais bela –, disse um.
– E mais madura –, disse o outro.
– É assim que tem de ser, Nelson –, alguém falou também.
E comentários daí para adiante.
Nelson, enquanto ouvia esses elogios, ficava todo risonho e beijava o travesti na boca, sem saber o que de fato estava beijando. Carlos, quando via os dois se beijando, ria prazerosamente. Nelson, pelo fato de não suspeitar o que estava acontecendo, acabou até mesmo ficando apaixonado por ela, quero dizer, por ele. Pediu a moça; ou melhor, o moço, em namoro. Disse que já havia esquecido a Valéria, que ela foi à responsável por isso. A moça sentiu-se lisonjeada, mas falou que tinha namorado. Nelson ficou mais uma vez arrasado; e, ao invés de voltar para a sua cidade com o coração machucado pela Valéria, voltou com o coração apaixonado pelo Ricardo...
VILAS
Olá, minha irmã, estou mandando este e-mail para te contar como estão as coisas por aqui. Mudamos da vila Planalto para o bairro Aero Rancho, porque finalmente saímos do aluguel. Agora, não sei se estou feliz ou triste. Falo assim porque se por um lado não precisamos mais desembolsar uma grana preta para morar num bairro central, por outro lado estamos morando bem longe do centro; e o pior: numa casa pequena, sem reboque, feia, um moquifo.
Está certo que o Adão vai reformá-la mais para frente, e está pensando inclusive em fazer um puxadinho; mas nada comparado com a casa em que morávamos, com dois quartos grandes, sala grande, banheiro grande, que nem desses de hotéis. Estou sentindo a diferença, irmã, tanto que às vezes me pego chorando, com vontade de separar do Adão, que está adorando viver aqui no Aero Rancho, por causa dos amigos que fez e que são muitos, e que ele considera como gente verdadeira.
Quando ele fala isto, Ana, ele leva em conta os nossos vizinhos da vila Planalto. Lá ninguém é amigo de ninguém, e o sorriso falso forçado na cara na hora de cumprimentar é indisfarçável. Ninguém dizia: oi vizinho. Diziam oi, mas o vizinho nunca era usado. Ao contrário daqui, que é vizinho para lá e para cá. Aquele povo, Ana, lá da vila Planalto, são todos metidos, e só ficaram amigos da gente quando viram o caminhão de mudança com os nossos móveis dentro. Foi quando falaram com a gente, dizendo: vão mudar, é?
Adão ficava revoltado com esses descasos. Dos dois anos em que moramos lá, não fizemos um amigo sequer! Agora, agora Adão acha que está no paraíso, com tanto vizinho para lá e vizinho para cá, sempre dispostos a tudo. Até aí tudo bem, Ana, acho até normal ser feliz com a humildade dos outros. O problema é que ele incorporou, do dia para noite, todos os costumes daqui. Se lá ele andava sempre bem vestido, e muitas vezes até de terno e gravata, aqui ele anda de qualquer jeito, com chinela havaiana no pé, a camiseta sobre o ombro, um short do São Paulo e a barriga à mostra.
Ele, Ana, entrou para a turma dos barrigudos, que são os homens que ficam na frente do bar bebendo cerveja e exibindo a barriga lustrada e redonda: se antes de chegar aqui ele tinha uma barriga esbelta, agora ele se parece com uma mulher grávida de nove meses, minha irmã. Eles têm até um time de futebol, que se chama: “O Time Do Seu Barriga”. De quinze a quinze dias, eles jogam bola no campinho daqui, que numa parte tem grama e noutra não tem, apostando sempre uma, duas e até três caixas de cerveja. Já pensou?
O que me chateia mesmo, Ana, é que ele começou a me tratar como os amigos dele tratam suas mulheres. Quando eles assam uma carninha aqui em casa – é assim que eles falam, Ana, “carninha”, e não “churrasco” – ele começa com as piadinhas de mau gosto, dando tapas na minha bunda na frente de todos eles, dizendo anda patroa, vai lá pegar cerveja que o copo secou. Eu fico puta da vida com isso, mas a raiva logo passa; ela sempre passa como sempre passou.
Olha, Ana, como são as coisas. Até de religião ele mudou. Se antes Adão gostava de ir à missa, agora ele vive em centro de macumba, em terreiros de Umbanda e Candomblé. É um tal de Exu para lá e Exu para cá que eu não compreendo. Para falar a verdade, Ana, eu tenho medo. Ele fala que Exu nada tem a ver com o demônio, que ele é confundido com o coisa ruim por ser brincalhão, por falar como falamos, usando gírias e às vezes até palavrão.
Adão diz que ele é o Orixá que está mais próximo do ser humano, e fala deste jeito para ganhar a nossa simpatia, que quando lhe chamam de demônio ele concorda, porque não gosta de perder tempo com gente ignorante. Que o Exu é, na verdade, uma espécie de anjo, que ajuda as pessoas em seus negócios, no amor e etc. Eu não sei não, Ana, se isso é verdade, mas sei que o pastor lá da esquina vive gritando contra esse tal de Exu. É por isso que eu fico com raiva de ser tão ignorante e preguiçosa. Se não fosse isso, Ana, iria estudar, ah se iria.
No mais, Ana, está tudo bem. Ou melhor, penso que está tudo bem, fora tudo isso que te contei. Para falar a verdade, Ana, está bem sim, se visto que muita gente não tem nem onde morar, nem o que comer; que não tem saúde, e sofre por falta de tudo. Ainda assim, Ana, vou ver se aperto o Adão para ver se ele reforma logo essa casa; e também, se ele para um pouco de beber cerveja, e diminui a barriga, que já está de fazer vergonha, Ana...
NA PELE DO NEGRO
– Eu seria feliz se fosse surdo – disse-me o Zulu, à mesa do bar. – Mas como não sou, tenho que engolir: se não é o meu pai me aporrinhando é o meu irmão; se não é o meu irmão é a minha mulher; se não é a minha mulher, com seu nervosismo de botar qualquer um doido, é a minha sogra; se não é a minha sogra, aquela velha que só sabe falar mal dos outros, são as piadas de mau gosto, como por exemplo, a de que se o preto não caga na entrada ele caga na saída... Ah, se eu fosse surdo...
– Não fale isto –, disse eu; – Tem tanta gente surda neste mundo que daria tudo para poder ouvir, Zulu –, falei-lhe.
– Ah, é?! Problema é deles! Porque no meu caso, se eu fosse surdo tudo seria melhor –, prosseguiu dizendo. – Com certeza jamais pegaria ódio daquele filho duma cadela do careca e jamais teria saído do seu lava-jato, aonde além de trabalhar feito um negro antes da abolição ainda por cima era humilhado; pois, o filho duma cadela me chamava do que bem entendesse na frente de todo mundo: ô lona de barraco de sem-terra; ô picolé de piche; ô frango de macumba; ô pau de fumo; e, quando eu fazia uma cagada ( e preto não pode fazer cagada alguma que os filhos duma cadela já montam em cima) o desgraçado dizia: eu tenho raiva é de quem cortou o rabo deste macaco e ensinou ele a falar! Não, se eu fosse surdo, jamais pegaria ódio da cara dele e não faria as cagadas que fiz, e ninguém iria me tratar como me tratam agora, sem respeito algum, já que para todos eles eu não tenho juízo algum na cabeça e nunca vou ter...
Tive que interromper o Zulu, depois dele dizer tudo isso; afinal, o pai dele e o irmão tinham um escritório de contabilidade, ganhavam bem: era inconcebível ele trabalhar num lava-jato, ainda mais do careca. Perguntei:
– Por que diabos você foi trabalhar lá no lava-jato do careca?
– Na época que entrei no lava-jato do careca – disse ele – foi quando fugi de casa, porque lá não dava mais para viver. Eu queria fazer as minhas coisas de rapaz e meu pai e meu irmão me repreendiam que nem pastor repreende demônios, como se eles nunca foram rapazes na vida. E além do mais, quando queria dinheiro para sair, eles não davam. Eles tinham um mundo de dinheiro e não davam um centavo para o negro aqui gastar com as suas negras, nenhum centavo! Meu pai e meu irmão tinham fregueses para tudo quanto é lado na cidade, dinheiro não fazia falta. Mas... Ia eu pedir dinheiro para ver uma coisa... Não davam! O que me davam era serviço para fazer... Me mandavam atravessar a cidade, e de bicicleta ainda, para levar um documento à algum de seus clientes. E; quando voltava, ansioso para receber uma grana, cansado de tanto pedalar como se tivesse sempre uma voz atrás de mim dizendo: pedala, infeliz!; o quê ganhava era um vai tomar banho Zulu, você está fedendo...
– Nossa, disse eu.
– Não era motivo para se revoltar? De fumar tudo quanto é tipo de coisa; de beber tudo quanto é tipo de bebida; de injetar na veia tudo quanto é tipo de droga; de se tatuar com as imagens do demônio; de sair com travestis e virar bicha só de pirraça? Se fizesse, estava absolutamente no meu direito! Mas não fiz, porque nunca gostei de fumar, de beber, de drogas, tatuagens, bichas e piorou travestis. O que gostava era de fazer as minhas molecagens, de levar as minhas negras para um motel; não por mim, mas por elas, que sempre diziam Zulu meu amor, me leva num motel, já estou cansada de amar você nesses matos cheio de formigas para picar a bunda da gente! Ou então: Zulu, eu nunca fui ao cinema, como vão as minhas amigas, você me leva? Ou: Zulu, eu nunca levei dinheiro que se preze quando o pastor pede no ofertório; você me dá um dinheiro decente, não moedas que se joga em fontes, dinheiro mesmo, tipo dez reais? Mas eles não davam dinheiro para mim. Por isso eu saí de casa e fui me virar sozinho, a fim de ter o meu próprio dinheiro.
– Está certo.
– Fora de casa, procurei emprego. Consegui esse, com o careca filho duma cadela. Já no primeiro dia ele começou a me xingar. No começo, até que tolerava. Mas depois os outros começaram a fazer o mesmo que ele. Quero dizer, os funcionários orelhas secas que nem eu. Daí teve um dia que não agüentei e estourei, partindo para cima de um deles quando disse que preto é uma bosta. Bosta é o que saí do seu cú, seu merda!, eu falei. O quê?, perguntou o sujeito, que era o dobro de mim. Isso mesmo que você ouviu, ou quer que eu repita?, perguntei, provocando uma briga. Repete, se for homem, disse ele. Bosta é a que saí do seu cú, seu merda!, eu falei, alto, cuspindo na cara dele. A pancadaria rolou solta... Uns dizem que não pode sair briga num lava-jato, por causa das ferramentas, que podem servir como armas. Mas, nem pensei nisso. Nem eu, nem ele. De mão limpa mesmo, bati, não sei como, no sujeito até ele cair no chão. Isto é para você não se meter à besta comigo, eu falei, por cima dele. Você é um idiota, disse-me. Idiota é quem mexe comigo. Não levo desaforo para casa! Idiota!, falou ele, ainda. Repete! Idiota!, exclamou, o desgraçado. Dei mais uns chutes nele e parei, indo lá para frente do lava-jato. Tremia que nem uma taquara, de nervoso. Para me acalmar, acendi, com dificuldade, um cigarro. Dali um pouco o careca filho duma cadela apareceu.
– E?
– Ele disse, sem querer me ouvir: saia fora daqui, seu preto desgraçado. Como que é?, eu perguntei. Eu tô falando para você sair fora daqui, seu preto filho de uma puta!, disse. Não acredito... Foi ele quem me provocou!, eu protestei. Não interessa. Você está errado, preto. Suma, vai!, disse ele. Não consegui acreditar nisso. Peguei e saí de seu lava-jato jurando vingança. De lá, fui para o quarto que eu pagava aluguel, onde tinha apenas uma cama, uma cadeira, uma geladeira, um fogão e um pequeno armário para deixar os alimentos. No outro dia, fui atrás de emprego. Não encontrei em lugar algum, porque para quase todo o mundo um preto ou é ladrão, ou é safado, ou se ainda não é um dia ou outro vai ser...
– Que isso!
– Para você ver. Assim, dessa forma, como ninguém me dava emprego, resolvi fazer um empréstimo com um agiota e comprar uma moto. Isso porque quem tem uma moto dificilmente fica desempregado, inclusive um negro, porque sempre tem alguém precisando de quem tem moto para trabalhar ou de entregador ou de cobrador, independentemente da cor, do sexo e religião. Essa, enfim, foi a maior cagada que fiz na minha vida. Por causa dos juros que me cobrava, tinha que trabalhar dia e noite para quitar a divida com esse agiota filho duma prostituta – este é o único nome que encontro para chamar esse agiota: filho duma prostituta... E você vai logo entender o porquê... Contudo quando estava quase terminando de pagar a minha divida, acabei sofrendo um acidente escandaloso, que quase tirou a minha vida, mas que graças a Deus me tirou somente a moto. Sim, a moto deu perda total, e eu fui parar, inconsciente, na UTI. Fiquei em coma por um mês. Quando saí de coma, fiquei em observação por uma semana. Ao receber alta, com um monte de pinos na perna, fui para casa. Lá eu tive que me virar sozinho, afinal, nem meu pai, nem meu irmão, nem ninguém tinha o meu endereço, exceto as negras desse tempo – essas, que só me procuravam para andar de moto, desapareceram. Meus amigos também. A única pessoa que me procurou quando eu estava todo fodido em casa foi esse agiota filho duma prostituta, querendo saber como ia pagar ele.
– Que tragédia!, exclamei.
– Que tragédia? Tragédia é pouco! É que desgraça! Isso sim. Eu estava deitado quando ele me chamou. Não consegui levantar, como fazia para preparar algo para comer, e disse para ele ir entrando. Ele entrou e me pegou deitado, sem forças para levantar. Pode ficar deitado, negro, disse ele, assim que me viu. Depois sentou numa cadeira que estava perto da minha cama e foi logo me perguntando como ia fazer para pagar o que devia. Falei para ele: assim que começar a trabalhar eu pago tudo o que devo a você, tim-tim-por-tim-tim. E se você não conseguir arrumar um emprego?, perguntou ele. Aí eu não sei o que posso fazer, respondi. Não tem ninguém que pode lhe emprestar a grana? Não, eu disse. Mas todo mundo tem alguém que pode emprestar uma grana... Eu não tenho, falei. Faz uma força aí na cabeça, para lembrar. Não tenho, eu disse. Quem sabe um chute nessa sua perna cheio de pinos faz você lembrar, hein?, ameaçou ele. Não tenho ninguém que pode me emprestar, eu falei. Então: toma!, disse ele batendo na minha perna cheia de pinos. Ora, como eu estava na cama sem forças para levantar, a única coisa que me restou a fazer foi gemer de dor. Lembrou? Não, eu respondi. Toma outro, disse ele, me batendo novamente. Ai; tá doendo, eu falei. Lembrou? Não. E se eu queimar a sua perna com a brasa do meu cigarro?, perguntou, acendendo um. Aí eu tô perdido, falei. Ele deu uma boa tragada e a brasa ficou vermelhinha, queimando como fogo vivo. Toma, disse enfiando a brasa de seu cigarro na minha perna cheia de pinos. Ai, ai, ai, ai, eu falei. Lembrou? Não. Vou dar um mês, sentenciou. E se eu não arrumar a grana?, falei, preocupado. Aí você vai ver como eu sou ruim, disse o filho duma prostituta.
– Desgraçado! , eu falei, indignado.
– De fato, ele era muito ruim –, continuou dizendo o Zulu. Depois de um mês, ele retornou. Como não arrumei a grana que devia para ele, ganhei uns tapas, uns chutes, algumas queimadas da brasa de cigarros na perna, no rosto, no sovaco – lugar que dói pra caramba. Levei também chutes no saco, na barriga, na bunda, em tudo quanto é lugar. Até enfiar um pau no meu buraco negro ele quis. Mas não enfiou, porque quando ele estava para enfiar, eu falei está bem; não queria, mas vou pedir para o meu pai pagar a minha dívida. Ele parou logo em seguida. Cansado de tanto me bater, sentou-se numa cadeira perto da minha cama e ficou olhando para mim. Respirava ofegante. Aos poucos, a sua respiração foi voltando ao normal, e ele começou a falar. Ou melhor: a contar uma história. A história de seu avô, que era negro. Ele disse que seu avô foi o único da família que conseguiu levar uma vida honestamente; que nem seus pais, nem seus tios e nem ninguém conseguiu tal proeza. Em seguida, para concluir a história; isto é, para dizer a moral da história, ele falou, com a maior cara de pau: sabe por que meu avô... mesmo sendo negro... viveu uma vida honesta? Porque ele era um negro branco, entendeu? Era negro por fora, mas branco por dentro. Isto! Ele era negro mas um negro branco, mais branco que muitos brancos por aí...
– Meu Deus...!, – exclamei.
– Depois que ele falou isso, liguei para o meu pai pelo celular – sim, celular, porque hoje em dia até mesmo um miserável como eu por ter um. Contei para ele tudo o que havia acontecido e ele perguntou onde eu estava. Falei o endereço para ele e ele, junto com o meu irmão, apareceram quase no mesmo instante. O agiota filho duma prostituta esperou por eles mas lá do outro lado da rua, com medo de meu pai e meu irmão aparecerem com a polícia. Quando chegaram, sem a polícia, ele atravessou a rua e entrou no meu quarto, aonde meu pai e meu irmão me olhavam, com um ar de revolta e piedade – com certeza, não deve ter sido fácil para eles me verem assim, naquela situação, deitado na cama e cheio de pinos na perna e marcas de queimadura e hematomas pelo corpo inteiro. O agiota, a sua vez, entrou com uma arma apontada para o meu pai e para o meu irmão, a fim de intimidá-los; afinal, quem não se revoltaria e partiria a cara do agressor de seu filho e de seu irmão?
– Só se for um pai e um irmão bem indiferentes! –, eu disse.
– Era essa a vontade deles. Mas, com a arma apontada para eles, não puderam fazer nada. Iam fazer o quê? Tiveram que conter o sangue quente e ficar quietos. Enquanto isso, o agiota olhava para nós três com um sorriso malvado no rosto. Pediu para o meu pai passar a grana e ele passou. O agiota pegou o dinheiro, colocou no bolso e antes de sair, fez uma cara de que havia algo estranho. Vendo que meu pai era branco, e meu irmão também, perguntou se eu era filho dele de verdade ou não.
– Ele teve essa coragem?, perguntei.
– Teve. Quando ele perguntou isso eu me lembrei de uma certa conversa que tive com uma amiga. Alguém havia falado para ela que meu pai era branco. Daí ela veio e perguntou: por que você nasceu negro então? Ah!.., eu resmunguei. Boa pergunta! Eu realmente não sei. Talvez nasci negro para expiar com mais sofrimento os meus pecados. Ou então, nasci negro por causa de uma aberração genética do meu pai e da minha mãe. Difícil resposta, não? Aliás, agora quem ficou curioso em saber por que nasci negro sou eu. Por que será que eu nasci negro, hein?, perguntei para ela.
– Ela respondeu?
– Não. Nem ela respondeu para mim nem meu pai respondeu para o agiota. Ao invés disso, pediu para o agiota ir, pelo o amor de Deus, embora. Com o dinheiro no bolso, o filho duma prostituta do agiota foi. Ao ir, meu pai e meu irmão me colocaram no braço e me levaram para o carro deles. De lá, voltei para a casa do meu pai. Meses depois, eu estava melhor. Novamente, voltei a fazer as minhas molecagens. Minhas não: das minhas negras. Porque são elas que precisam de dinheiro ou para isso ou para aquilo. Até uma dessas negras ficar grávida e eu ser obrigado a me casar com ela. Casei. Mas ainda continuo o mesmo moleque de sempre. E quando não é o meu pai me aporrinhando por causa disso, é o meu irmão. E quando não é o meu irmão, é a minha mulher; e quando não é a minha mulher é a sogra, a vizinha, a avó, ou o avô...
– E o careca filho duma cadela?, eu perguntei.
– O careca filho duma cadela que me aguarde! O dele está guardado... Na hora certa, no dia certo, no momento certo ele vai aprender a respeitar um negro: vou dar uma lição de cidadania nele. Não acha que estou certo?
OS DEMÔNIOS DA DONA OTÍLIA.
Todos os dias, assim que a dona Otília chegava em casa, às sete horas da noite a sua vizinha começava a oração de exorcismo. Otília ficava ouvindo, achando graça nas palavras da evangélica: ó Senhor, o demônio chegou; o demônio e a sua legião de capetas chegaram; queima eles, Jesus, queima! Era engraçado, e Otília divertia-se muito, enquanto colocava lenha no fogão para fazer o jantar.
A casa da dona Otília era a única de madeira naquela rua; tinha pouca iluminação e o chão era puro barro. Ainda não havia asfalto nessa rua, mas a maioria das casas era grande e boa. Hoje, dez anos depois, o asfalto já chegou; e o bairro, enfim, ficou bem mais valorizado. Até a casa da dona Otília, que era um casebre feio de madeira, agora se encontra feita de material, tal como as outras, ainda que não tão grandes nem tão belas.
Mas o fato é que naquela época a casa da dona Otília era feiíssima; e ela, por ser boliviana, trazendo na face o aspecto indígena, era discriminada por algumas vizinhas – não muitas; aliás, talvez cinco ou seis, pois o resto lhe via com bons olhos: nem todo mundo tem pré-conceito e ódio dos pobres.
Nem mesmo a sua vizinha crente tinha, antes de converter-se. Não obstante, assim que o pastor começou a colocar na cabeça dela toda uma demonologia, explicando a partir daí a origem e a razão da miséria, ela passou a ter ódio dos pobres. Ou medo, não sei. O que sei é que para essa crente – vale lembrar que nem todos os crentes são assim; e a minha intenção não é ofender religião alguma, nem ninguém – a dona Otília, sua vizinha, era a representação mais cabal do deus da miséria: Satanás e Otília eram pai e filha.
Mas Satanás tem muitos filhos, e Otília tinha, portanto, muitos irmãos, tais como: o seu Tranca-Rua, demônio da morte e da miséria, que impedia o progresso da dona Otília; o seu Zé-Pilintra, demônio da bebida que pegava o marido dela e fazia dele um bêbado; a Pomba-Gira, demônio da sexualidade que botava desejos insaciáveis em sua filha assanhada; e assim por diante, uma legião interminável de encostos que acompanhava a dona Otília...
E não só isso: dona Otília era macumbeira e fazia feitiços todos os dias – se a vizinha fosse uma dessas que ganham coragem para espiar em cima do muro, iria ver que o único feitiço que a dona Otília fazia era o jantar para a sua família afinal, nada além disto. Portanto, ela não acendia incensos para ninguém: ela acendia a lenha para o seu fogão, oras bolas. E enquanto cozinhava, divertia-se com os gritos da vizinha crente, sem saber, na sua grande inocência, que tais gritos eram dirigidos para ela e a sua legião de encostos.
Mas um dia, graças a Deus, uma outra vizinha veio falar com ela, dizendo que o que a vizinha crente fazia era algo abominável; que coisas assim não se faz com ninguém, nem mesmo com as piores pessoas do mundo, que é chamar o outro de Satanás, de demônio.
– Como é que é?!, disse a dona Otília.
– Isso mesmo que a senhora ouviu. Quando ela diz ó Jesus, o demônio chegou, é a você que ela se refere...
Dona Otília ficou triste com isso. Pensou em guardar para si. Mas, sem querer, acabou contando para o marido, na hora em que estavam jantando, na frente da televisão. O marido, ouvindo esta ofensa, disse: deixa a ela comigo, Otília, vou mostrar para essa vizinha dos infernos quem é o demônio aqui... Dito e feito... No outro dia, quando a vizinha crente estava saindo de casa para ir à igreja com uma outra irmã, ele sacou o revólver e mandou bala para o ar, só para assustá-las. Saíram correndo, as duas; e ele, ali mesmo, gritou:
– Isto é para você nunca mais chamar a minha esposa de demônio, sua crente maldita!
Apavoradas, conseguiram chegar à igreja. Falaram com o pastor:
– É pastor, o demônio quase matou nós duas hoje...
O pastor perguntou como. Elas relataram o caso. O pastor diagnosticou: livramento. E rendeu glórias, porque no fim Jesus venceu. Na hora dos testemunhos, lhe chamou para o altar. E lá ela falou que há tempos vem lutando contra o demônio; que o encardido, de tão furioso, quase matou ela e sua amiga e irmã em Cristo naquela noite; mas que para a honra e a glória de Jesus, elas não morreram, e sim foram livres de todo mal.
– Aleluia!, gritou um.
– Glória a Deus –, gritou o outro.
O certo é que lá na igreja delas Jesus venceu; mas, depois deste dia, ela nunca mais ousou fazer uma oração de exorcismo dentro de casa...
A TRAMA
Vou começar esta trama contando como conheci a Valéria. Eu estava nos testes para uma vaga de emprego como auxiliar administrativo de uma grande empresa, e ela também. Neste dia, havia umas cinqüenta pessoas disputando duas vagas apenas. Quem aplicava os testes era uma psicóloga, acompanhada por Evair, gerente de nossa repartição.
No primeiro teste, ela passou com uma sacolinha com um monte de papeizinhos dentro, onde em cada um estava escrito o nome de um animal com o seu parceiro ou parceira. A regra era simples: assim que ela desse o sinal, era para todos representar, por meio de mímicas apenas, o seu bicho, a fim de se formar os casais. Não valia fazer ruídos, nem emitir uma palavra antes de encontrar o seu bicho correspondente: quem fizesse, estava fora.
Assim que ele deu o sinal, eu comecei a imitar um galo. Pulava e batia as minhas asas, com uma vontade imensa de gritar cocorocó. Enquanto isto, procurava a minha galinha. Olhando para os lados, finalmente encontrei uma linda mulher loira, dos olhos azuis e os lábios bem grossos, da cintura fina e os quadris largos, imitando uma galinha. Não pensei duas vezes: corri em sua direção e me grudei nela.
– Você que é o galo? – perguntou a loira.
– Sim, sou eu – disse me levantando e levantando ela também.
Fomos o primeiro casal a encontrar o seu par. Ali de pé, ficamos observando os outros. Aquelas pessoas, de terno e gravata no chão, se passando por animal, se sujeitando, assim como eu e ela para conseguir um emprego, era realmente muito engraçado. Aliás, o mundo inteiro está engraçado. Para onde se vai, é preciso se sujeitar, dizer que faz tudo pelo emprego, desde imitar galinha à rebolar de bambolê com um pirulito na boca.
Perguntei o nome dela:
– Valéria.
– O meu é Aldair.
– Prazer, Aldair.
Os outros testes foram feitos visando avaliar nos candidatos a capacidade de concentração, a memória, a criatividade e como cada um lida com as pressões. Tanto eu quanto a Valéria nos saímos bem nestes testes, ocupando as únicas vagas que tinham. Eu me senti um verdadeiro espermatozóide dentro de um óvulo, um grande vencedor, embora o fato da sujeição me deixava um tanto impotente. Dias depois, estávamos trabalhando junto.
Ainda que fosse proibido o relacionamento amoroso entre dois funcionários desta empresa, passamos a namorar – escondidos, é claro. Na realidade, éramos praticamente como casados, pois ela vivia mais na minha casa do que na dela. Tanto é que suas coisas estavam quase todas em casa, ocupando o meu quarto, a minha sala, o meu banheiro.
Para não levantarmos nenhuma suspeita, cada qual ia com o seu carro, e durante o serviço evitávamos afetos calorosos. E assim ficamos por uns dois anos, e muito provavelmente ficaríamos uns cem, se não tivesse acontecido o que aconteceu. Tudo começou quando passei a desconfiar da Valéria com o Evair. O jeito que os dois conversavam não era algo normal. Eu ficava de olho, cuidando, esperando eles se denunciarem de uma maneira ou de outra. Até que num dia, aconteceu algo inesperado, que me colocou numa situação limite.
Eu estava entrando na sala do Evair quando vi, do lado da mesa dele, os sapatos da Valéria aparecendo, dando-me a interpretar que ela estava ali, escondida atrás da mesa, de joelhos, praticando sexo oral no horário de serviço. Quase perdi o juízo! A vontade que me dei foi a de sair na porrada, de quebrar tudo, de colocar o emprego em jogo, de dizer que Deus ia castigar os dois.
Mas, esperei para me certificar, até ela levantar-se e me ver, empalidecendo-se. Já Evair, vendo a minha reação, sentiu a necessidade de explicar-se, de mostrar que não era nada daquilo que eu estava pensando, perguntando para Valéria se ela conseguiu encontrar a lente de contato que havia caído no chão.
– Não, não encontrei – disse a Valéria, olhando para ele.
– Que lente de contato? – quis saber, já que a Valéria não usava lentes de contato.
– A minha –, disse Evair.
– Por que não procura você mesmo a sua lente de contato? – questionei, bravo, sem conseguir disfarçar meu ciúme.
– Como, se não enxergo nada? – argumentou.
Nisto ele tinha razão. Mas não me convenceu. Queria provas que me dessem certeza, de que não havia nada errado entre eles. Por isso, aproximou-me da mesa, dei a volta dizendo que ia procurar a lente de contato no chão e aproveitei para dar uma olhada em sua braguilha, para ver se ela estava fechada ou não: estava. Logo, só me restava procurar uma outra evidência: a lente. Não achei.
– Ela é muito, mas muito fina...–, disse Evair.
O que era verdade. Por outro lado, não dava mais para ficar ali. Saí da sala de Evair e fui para o pátio da empresa, tomar um ar. Não demorou muito e a Valéria apareceu para falar sobre o que havia acontecido. Ao me ver, me falou baixinho, para ninguém ouvir, que não havia acontecido nada do que eu estava pensando. Depois, me mostrou a lente de contato de Evair, ao que eu disse que aquilo não provava nada.
– Então vai ser preciso que você acredite em mim, Aldair.
– Você jura que está me dizendo a verdade?
– Juro por Deus – disse ela.
– Então acredito – falei, num ato irracional de fé.
– Acredita? – perguntou, alegre.
Falei que sim, e para me testar, a Valéria, olhando para os lados a fim de ver se havia alguém perto, pediu-me um beijo. Beijei-a, com um medo terrível de encontrar um gosto estranho em sua boca...
* * *
A Valéria era a mulher da minha vida, e não seria por uma besteira dessas que iria perdê-la. E se algo realmente tivesse acontecido, e daí? Eu teria casado com ela inclusive, se não fosse um fato muito estranho que aconteceu. Estávamos num bar, bebendo cerveja e se beijando, quando de repente, durante o beijo eu resolvi abrir os olhos, vendo Evair numa outra mesa. Interrompi o beijo no mesmo instante, e a Valéria perguntou o que foi.
– Não olhe agora, mas o Evair está por aqui.
Minutos depois, ela olhou.
– Deus do Céu, será que ele nos viu?
– Não sei, mas ele está vindo para cá.
– Tudo bem com vocês? – disse Evair, ao se aproximar.
– Tudo. Você chegou agora? – fui logo perguntando, para ver se ele havia nos visto enquanto beijávamo-nos.
– Eu estava aí. Vi vocês na mesa.
No mínimo, havia visto sim.
– Sente-se conosco – falei.
O filho da mãe sentou.
– Convidei a Valéria para um happy hour –, falei-lhe.
– Ah, sim.
– Mas, eu já estava de saída – disse para ele, em seguida.
– Já?! Está cedo!
– Está nada. Tenho algumas coisas para fazer em casa.
– Ah, então está certo.
Levantei-me, puxando um dinheiro na carteira.
– A minha parte da conta.
– Tudo bem – disse ela, pegando o dinheiro.
E sai, deixando os dois sozinhos, fazendo sabe Deus o quê.
Fui direto para casa, esperar por ela. E quanto mais pensava no ocorrido, mais ansioso ficava. Uma hora depois, ela apareceu.
– Demorou, hein? – falou, ao abrir a porta de casa para ela.
– Tive que despistar o homem – falou-me, indo direto para o banheiro, tomar um banho.
– Sei.
– Lá vem você, com a sua desconfiança... –, disse ela, entrando no banheiro.
Enquanto esperava a Valéria sair do banho, me perguntava: viu ou não viu? E fazer o quê, caso ele tenha visto? E agora, Deus meu?
Quando a Valéria saiu do banho, conversamos sobre isto, com ela dizendo relaxa, Aldair, acho que ele nem viu. Tranqüilizado com as suas palavras, fui para cima dela, querendo sexo, o qual ela negou, alegando cansaço e dor de cabeça, por causa do chope. Não insisti, e deitou-me ao lado dela, que logo em seguida dormiu. Passei a noite em claro, pensando sobre tudo o que aconteceu.
– Você não dormiu, Aldair? – perguntou ela, pela manhã, ao acordar.
Respondi que não; que passei a madrugada toda pensando no que aconteceu – não somente nisso como também na possibilidade de ficar mais uma vez desempregado e ter que voltar a trabalhar num serviço qualquer, como se fosse um joão-ninguém na vida, que não estudou.
– Você sofre por antecipação – disse a Valéria.
* * *
No dia seguinte, Evair me chamou em seu escritório, dizendo que havia visto tudo. Explicou-me que regras são regras, que nós dois podíamos ter cargos de confiança futuramente, e um poder privilegiar o outro, em função do romance. Entretanto, entre eu e ela, preferia me conservar na empresa.
– E você quem decide, Aldair.
– Não tem um jeito? No Brasil para tudo se arruma uma maneira.
– Desta vez não.
– Eu a amo.
– ?
– Está bem. Pode me demitir – falei.
Ao passar na sala da Valéria, dei o comunicado.
– Ele vai me mandar embora também?
– Não. Apenas eu. Estou indo. Te espero em casa.
* * *
A Valéria nunca mais apareceu em casa, nem mesmo para pegar as coisas dela. Trama dos dois? Medo de enfrentar o meu desemprego? Fui atrás dela, semanas depois, lá na empresa. A Valéria estava largando o expediente quando apareci.
– Por que você sumiu? – fui logo dizendo.
Não me respondeu.
– Cadê seu carro?
– Na oficina.
– Vai embora do quê?
– De ônibus.
– Quer que eu te leve?
– Não, obrigado.
– Posso ao menos acompanhá-la até o ponto? – falei, então.
– Pode.
Começamos a andar. Andávamos na calçada. Ela do lado mais próximo da rua e eu do lado mais distante. Ela estava linda, radiante. Usava sapatos de salto alto, que eu tanto gostava. E usava o perfume que era o meu predileto, também. E usava a blusa azul que tanto admirava nela e usava a sua saia preta, de couro. Num dos pulsos, o seu lindo relógio, que com muito custo e economia dei de presente.
– Por que você sumiu? –, perguntei novamente.
– Não sei, Aldair. Mas acho que não vai dar mais certo, entende?
O pior era que não dava para entender. Por causa disso, silenciou-me, enquanto andávamos em direção ao ponto de ônibus. E no silêncio, coloquei-me a observar o rosto da Valéria. Ela era linda. As pessoas que passavam por nós olhavam para ela com admiração. Isto me deixava bastante ciumento. Teve até mesmo um momento em que quase estourei quando ouvi de dois homens a frase: “Benza Deus!”, olhando para ela como se eu não estivesse ao seu lado. E foi assim até chegar ao ponto.
– Meu Deus, como uma mulher tão linda assim pode entrar num ônibus coletivo?, pensei consigo mesmo, em silêncio.
Longe, vi um moto-taxi. Pensei: nem que eu pague a corrida para ela, mas num ônibus coletivo não a deixo entrar! Olhou então para o moto- taxista e fiz sinal para ele parar. A Valéria perguntou por que ele fez isso. Falei para ela que era melhor ir de moto que de ônibus, que eu pagava. Ela balançou a cabeça, reprovando a idéia. Não me importei: ela ia de moto!
O motoqueiro parou. Olhei para ele e vi na minha frente um homem com uma cara de safado, usando óculos escuros, cavanhaque, e roupas bem baratas. Imaginei a Valéria subindo na moto desse sujeito, pegando em sua cintura para apoiar-se. Depois imaginei o moto-taxista acelerando; e o corpo dela indo para trás e para frente, esfregando seus seios contra as costas do safado. E imaginei-a ficando excitada, pedindo para o motoqueiro que transassem.
– Vai aonde? – perguntou ele.
– Lugar nenhum. Me desculpe, mudei de idéia –, respondi.
– Mudou de idéia? – disse ele, sem entender.
– É.
– Quer dizer que desistiu da corrida?
– Sim, desisti da corrida.
– Então, tá bom – disse ele, seguindo a diante, sem entender.
E foi.
A Valéria me olhou e perguntou por que havia dispensado o moto-taxista. Falou para ela que tive um pressentimento ruim. Ela repetiu: um pressentimento ruim? Falei: isto mesmo! Valéria então disse: você sempre tem pressentimentos ruins, Aldair, quando é que vai começar a ter pressentimentos bons?
Não respondi.
Em silêncio, fiquei ao seu lado, aguardando o ônibus chegar. Olhava para ela e lembrava de quando estávamos juntos. Até que o ônibus da Valéria apareceu e eu voltei para o momento presente. Quando o ônibus parou e abriu a porta para ela entrar, Valéria me olhou e disse, antes de subir:
– Um dia a gente se vê por aí, Aldair.
Fez que sim e fiquei ali, olhando ela desaparecer dentro do ônibus. Depois, triste como nunca antes, voltei para o meu carro. Em casa, fiquei olhando para as coisas da Valéria. Pensou no que fazer com elas. Eu podia muito bem fazer o que as pessoas geralmente fazem quanto terminam, repentinamente, com alguém, como por exemplo: queimar tudo, jogar fora ou algo parecido; entretanto, resolvi guardar tudo o que era dela, no seu devido lugar...
INFELIZ NATAL
Vinte e uma horas de dez anos atrás: chegam os primeiros convidados. Vinte e duas horas: quase todos estão presentes: irmãos, irmãs, cunhados, noras, genros, netos e netas. Vinte e três horas: a ceia está pronta, servida à mesa, em volta de alegria, abraços, risos e palavras bonitas. Vinte e quatro horas: é natal! É festa! É hora de trocar presentes!
Vinte e uma horas de dez anos depois: ninguém na casa a não ser o dono. As luzes estão apagadas. A única coisa que reluz é a televisão. Vinte e duas horas: o dono, pai de muitos filhos e muitas filhas; avô de muitos netos e muitas netas; bisavô de bisnetos e de bisnetas vai até o portão da frente, espia, nada vê. Vinte e três horas: uma das filhas aparece, acompanhado do filho mais velho, um jovem de vinte e oito anos.
– Benção, pai.
– Deus te abençoe.
– Benção, vô.
– Deus te abençoe.
– Ninguém, pai?
– Ninguém.
Dois velhos, conhecidos do dono e também abandonados, se aproximam. Mãe e filho adentram na casa. A mãe pega o telefone, e começa a ligar, a querer saber onde está a família. O filho, sentado lá no fundo, tem vinte e oito anos de idade...
– Ele só está colhendo o que plantou – diz a voz do outro lado da linha.
– Mas ele é seu pai.
– Ele quis assim.
– Então vocês não vão vir?
– Não. Se quiserem vir, venham.
– Não, não vou. Não vou deixar meu pai sozinho.
E desligou.
O filho, vindo lá do fundo, diz:
– Não deu nem o feliz natal?
– Não.
– E o que vamos fazer?
– Vamos passar o natal aqui.
Que solidão!
A mãe vai para a cozinha, ver o que tem para comer: arroz, feijão, carne. O dono da casa se despede dos velhos abandonados e entra. O neto diz:
– Vamos beber?
Os olhos do avô brilham.
– Se você pagar, qual o problema?
O filho busca as garrafas de cerveja. Os três bebem. Meia noite dizem feliz natal e o filho busca mais cerveja. Depois destas, filha e neto dizem: chega! E vão dormir. O velho, não muito bêbado ainda, faz que vai fechar o portão e sai para a rua. O velho, viúvo, avô e bisavô, abandonado na pobreza, aprisionado na amargura, entra no bar do Ari. Bebe uma, bebe duas, bebe seis.
Volta.
– Eu vou matar o Ari, eu vou matar o Ari!
Filha e neto levantam assustados: o velho tem uma arma debaixo da cama.
– Que foi que o Ari fez, meu pai?
– Eu vou matar o Ari, já disse, e saia da minha frente.
O neto se põe no meio, impedido a passagem para o quarto do velho. O avô pede para o neto sair do meio, o neto não sai. Tenta a força, mas o neto é mais forte. O velho começa a gritar e a lutar contra o neto, dizendo: saia da frente que eu vou matar aquele filho da puta do Ari! O neto, escutando a mãe chorar, derruba o velho no chão e diz: pegue uma corda, mãe, rápido!
A filha-mãe, chorando, encontra uma corda lá no quintal e volta, para entregá-la ao filho. O velho grita: eu vou matar o filho da puta do Ari, aquele desgraçado infeliz. O filho-neto fala: esquece o Ari, vô; e o amarra. Amarrado, o velho dorme, rangendo os dentes...
A METÁFORA
Depois que João Guerra ganhou a eleição não faltou mais serviço para a empresa de construção civil onde Olavo trabalhava. É claro que no seu primeiro ano de mandato as coisas não estavam assim, uma maravilha. Foi preciso primeiro repor o dinheiro gasto na campanha eleitoral. Mas assim que ele repôs, as obras começaram nos quatros cantos da cidade.
Aonde se ia, ouvia as pessoas falarem dele, louvando o prefeito João Guerra. Olavo ria, diante da ingenuidade dos moradores de sua cidade; e só não dizia o que o homem era de verdade porque tinha o rabo preso e as pontas dos chifres cortados.
A última vez que Olavo viu o prefeito ele ficou com uma raiva danada. Isso foi num sábado antes do almoço, lá na casa dele. Estava bêbado, o homem. Perguntou o que Olavo queria e ele disse que estava ali a mando do seu chefe, o Rosa.
– Ah, o Rosa?
– Sim, o Rosa.
– E o que ele quer? – perguntou.
– Quer que você assine o contrato – disse Olavo.
– É o contrato da rodoviária?
– Sim, da rodoviária.
– Deixe-me ver esses papéis.
João Guerra pegou o contrato e começou a ler. No fim da leitura, assinou o seu nome e entregou-o de volta.
– Bebe cerveja?
Por educação, Olavo aceitou.
Mas antes não tivesse aceitado, porque teve de ouvir a conversa sempre provocadora do prefeito. O homem falava usando um tom de superioridade que dava nos nervos. Olavo foi se aporrinhando, e para suportar tantas provocações, resolveu beber no mesmo ritmo do prefeito.
Beberam uma, duas, três, seis cervejas. Quando viu, estava falando que nem o prefeito. A partir de então, a conversa se tornou um verdadeiro desafio de monólogos; com João Guerra contando as histórias dele e Olavo, as suas. Digo desafio porque a mensagem que transmitiam era uma apenas: eu sou melhor do que você; eu sou melhor do que você; eu sou melhor do que você.
Olavo, entretanto, foi se cansando desta disputa imbecil. Ainda mais porque o prefeito, na hora de contar suas histórias, tinha uma mania feia de fazer perguntas para o seu ouvinte adivinhar o que ele havia feito numa determinada situação. Sem conseguir se conter; Olavo, já cansado de bancar o adivinho e sapientíssimo sábio guru, resolveu dizer:
– Não, seu prefeito, eu não sei o que você fez. Diga aí: o que você fez?
João Guerra, com esta afronta, ficou bravo, irritado, e chamou Olavo de ingênuo.
– Eu? Ingênuo?
– Ingênuo sim!
– Não, não sou um ingênuo, e você sabe muito bem disto! – falou Olavo.
– O que eu sei é que você é ingênuo sim senhor! Do contrário, não estaria trabalhando ainda como funcionário!
Ficou calado, olhando para os lados, rindo sem graça, querendo desdenhá-lo. O prefeito, por sua vez, não se deixou vencer pelo desdenho, porque sabia que se Olavo estava ali era porque ele não valia nada também.
Não valia nada também porque Olavo era um engenheiro que prestava serviços para a prefeitura; e um engenheiro que faz algum serviço para o prefeito, ao menos na sua cidade, geralmente se deixa corromper, porque a tentação é grande e o roubo parece mais que normal.
Porque sabia disso, o prefeito continuou o seu discurso, fazendo com que Olavo ficasse quieto, só lhe escutando. No fim desse discurso; ele, com a sua mania feia de querer que os outros adivinhem o que quer dizer, perguntou-lhe: você sabe o que eu sei? A única coisa que sei?
– Não, não sei; seu prefeito – respondeu-lhe Olavo, secamente.
– A única coisa que sei é que a prefeitura comeu todas as putas! – falou, virando o copo.
Olavo sentiu-se definitivamente ofendido. Levantou-se e saiu bruscamente, sem despedir-se. Na camionete, colocou no guarda-volume o contrato assinado pelo prefeito; ligou o carro e bateu a porta com força. Depois, acelerou forte, arrancando, queimando pneu. Lá na frente, repetiu o que o prefeito disse, desdenhando-o: a única coisa que sei é que a prefeitura comeu todas as putas... Hum...
SANSÃO
O seu Cláudio tinha os cabelos brancos, era grande e forte. Até hoje não conheço uma pessoa que tenha mais força e saúde como ele. Veio para fazer a experiência da força. Mas não só isso. Dela, extraiu toda a sabedoria. Era um homem inteligente, sábio; e, além disto, forte como Sansão.
A primeira vez que me dei conta disto eu estava indo ao mercado com um vizinho quando de repente ele me falou: quer ver como esse seu Cláudio é forte? E logo em seguida pegou-o pelo braço, puxando-o, medindo a sua força. Levou um baile do homem, que brincava com ele como se brinca com uma criança: está bom seu Cláudio, chega, está doendo.
Como eu era um sujeitinho que estava mais preocupado com os livros de filosofia, teologia, sociologia, psicologia, ciências políticas e direito, deixei passar despercebido este fato, para um ano depois, retornar a assistir a sua força em movimento, junto com a sua alta capacidade de raciocínio. Na ocasião, ele estava fazendo frete para a nossa mudança.
Ficou em cima do caminhão, e de lá não saiu. Olhava para os móveis, perguntando o que tinha e o que não tinha. E mandava pegar isso, e mandava pegar aquilo, tudo meticulosamente planejado em sua cabeça branca de velho. Numa certa hora, eu falei para ele: eu quero é ver onde você vai colocar esse sofá. O Sansão só respondeu: deixe comigo que esses meus cabelos brancos não são de hoje.
Entre uma brincadeira e outra, fui desejando um filho assim. Que Deus me desse um que não viesse fazer a experiência da reflexão filosófica que for; nem da descoberta de um grande bem para a humanidade, mas que viesse simples, forte, que usasse a cabeça apenas em serviço da força. Era isso o que eu queria: a completa negação minha; pois, o que eu sofria pensando não desejava para ninguém.
Tanto é que escolhi uma mulher forte, não muito gorda, mas alta e larga, e com ela me casei. O sofá? O sofá coube direitinho na mudança, num lugar pensado milimetricamente. O meu filho nasceu. Um negro forte, cheio de saúde: Deus ouviu as minhas preces! Acompanhei cada passo de seu crescimento, preocupando-me mais com a sua alimentação do que com qualquer outra coisa. Quando eu brincava com ele, era sempre medindo a sua força. O meu filho, que coloquei o nome de Sansão, lutava contra, resistia, chorava e voltava à luta.
Fui exercendo este papel até não poder mais, quando ele finalmente ficou bem maior do que eu e a minha força não passava de cócegas em seus braços e músculos. Entretanto, só foi parar com essas minhas brincadeiras que ele começou a levar a vida mais a sério. Eu interferia: relaxa, meu filho; não se preocupe com isso, tem um monte de gente que já está preocupada com esta questão, não precisam de você para isso.
– Mas pai, eu preciso saber.
– Não, não precisa não. A vida é muito mais bonita que as teorias de Einstein.
– Mas pai, e esse tal de Nietzsche? Todos falam dele. Eu quero ler.
– Não, não, larga de mão, não compensa. Os filósofos são todos chatos. Não vale à pena.
– Mais pai! A professora falou de um Max Weber. Fique fascinado. Quero ler!
– Não precisa, meu filho. Só quem precisa de Max Weber são os veados, e você não é veado que eu sei, é?
– Pai, você sabe que não. E não tem nada a ver com isso que você falou; que Max Weber são para os homossexuais.
– Olha aí, já está até falando termo científico. Pare com isso. Você é um rapaz bonito, cheio de saúde, vá ser um lutador, um atleta, sei lá.
– Não quero, pai.
– Mas Sansão... Você não acredita em Deus? Quando eu pedi um filho a ele, pedi para que fosse um que quisesse fazer a experiência da força. Então veio você. É dá experiência da força que você vai extrair a sua sabedoria. Vai por mim. Os livros vão te estragar.
– Não quero saber.
Os filhos são uma rebeldia que entristece todos os pais. Se há um pai que é perfeitamente feliz com o seu filho, esse homem é cego e não quis aprender a ler em braile. Fui ver, meu filho já estava me copiando, me imitando. Enquanto isto, sem poder fazer nada, fui vendo ele desperdiçar a vida em cima dos livros. Fui ficando amargurado, triste, talvez mais triste que Fernando Pessoa, poeta que gosto tanto. Por muito pouco não entrei em depressão.
Fiquei torcendo para isto ser algo passageiro; mas, quanto mais meu filho lia, mais ele queria ler mais. E não só isto. Queria aprender outras línguas, conhecer outras culturas, ler todos os filósofos que existem. E então, com ele se afundando cada vez mais nos estudos, não tive outra alternativa a não ser aceitar, a aceitar.
CAIXA DOIS
Dias atrás, antes de o Marcos ter certeza, a dona da loja, assim que chegou deu uma bronca na Priscila, que lhe doeu os tímpanos, a cabeça e a alma. Pensou em pedir as contas, ir para nunca mais voltar, e dizer umas verdades engasgadas há muito à dona Liana. Depois, desistiu, foi para trás do caixa, balançou as pernas, ansiosa, e disse para si mesmo: do primeiro cliente que comprar, dez por cento da venda é minha; ah, se é!
Logo após, a dona Liana saiu e ela ficou sozinha com o Marcos; que, com a cara alegre, devia estar feliz pela bronca que a colega de trabalho levou logo cedo. Olhou para ele, riu, e disse: ri das desgraças dos outros, ri... Minutos depois, um cliente entrou. O Marcos foi lhe atender, mostrou umas roupas e fechou negócio. O cliente foi ao caixa, pagar, e saiu de sacolas nas mãos.
– Ele pediu desconto? – perguntou Marcos, chegando de lado.
– Pediu.
– E você deu?
– Dei.
Perguntou: quantos?
– Dez por cento.
– Dez por cento?
– Por que o espanto?
– Por nada... – falou, saindo de perto.
Na porta da loja, balançou as pernas, ansioso, e acendeu um cigarro, já que a patroa não estava. Dez por cento... Dez por cento uma mentira! Pensa que sou burro? Deixa ela... Deixa ela pensar que sou isso, um burro.... Apagou o cigarro e voltou. Foi até o banheiro, tirar o cheiro da nicotina da mão e dos dedos. Olhou no espelho, e mais uma vez disse: pensa que sou burro, não? Voltou para o trabalho. Na hora do almoço, no lugar de almoçar ali perto, num restaurante, como sempre fazia, almoçou em casa. Falou com irmão mais novo:
– Vai lá na loja; mas finja que você não é meu irmão, que nem me conhece.... Compra duas camisas, pede desconto, e me fala quanto ela deu. Toma o dinheiro. A Priscila vai comer aqui, na minha mão!
O irmão foi, escolheu duas camisas, e se dirigiu ao caixa.
– Faz desconto?
– Faço.
– De quantos você pode fazer?
– De quantos você quer?
– Dez por cento?
– Dez por cento não posso fazer, moço. Pode ser de cinco?
– Está bem.
Pagou e saiu.
Logo em seguida, Marcos sondou:
– Pediu desconto, o cara?
– Aquele idiota?
Teve vontade de dizer: idiota é o seu noivo, aquele playboyzinho metido; mas disse: isso, o idiota... Não, idiota não, o laranja; isso, o laranja...
– Pediu.
– Você fez? – perguntou ele.
– Fiz.
– Ah?! Não acredito... De quanto?
– Dez por cento.
– Dez por cento?! – indagou, e saindo de perto, disse: pensa que sou um idiota.
– O que você disse?
– O dia está bonito lá fora, não?
Foi para frente da loja. Pegou o celular e ligou para o irmão.
– De quanto foi o desconto?
– Cinco.
– Ladra... Falou que de dez...
– Gostou das camisas? – quis saber, o irmão.
– Só da branca.
– E da verde?
– Não, pegue ela para você.
– Valeu!
– Falou.
E desligou.
Voltou para a loja.
– Priscila?
– Diga.
– Aquele idiota é o meu irmão.
Ficou surpresa, empalideceu.
– Sério?
– Sério. Liguei para ele e ele disse que você fez cinco por cento de desconto, e não dez!
– Eu fiz, é? Acho que me enganei quando lhe falei dez – disse ela.
Marcos enfureceu-se, e numa raiva de inconformado, disse: escuta aqui; menina, já faz tempo que estou lhe cuidando, sondando os seus passos, o seu coração: fui eu que planejei de meu irmão vir aqui, confirmar como você aplica o golpe, sua golpista!
Priscila ficou quieta, sem reação.
– E agora?
– E agora o quê? – perguntou ela.
– O que vamos fazer? Falar com a dona Liana?
– Não, com ela não, por favor.
– O que vamos fazer, então?
– O que você quer que eu faça?
Teve vontade de falar: sexo comigo, porque gostava muito do corpo dela, do rosto dela, dos seios, das pernas, da bunda e dos cabelos. Entretanto, uma coisa não tinha nada a ver com a outra: o pecado dela era de ordem financeira, e não sexual.
– Meio a meio – falou.
– Meio a meio?
– Meio a meio e não se fala mais nisso!
– Fazer o quê?...
Depois, combinou com ela como que iria pegar a sua parte: só no fim do mês, para evitar o risco de serem pegos.
– No final do mês quero tudo o que é meu, tudo!
– Está bem.
– E se você for pega por ela, não me entrega!
– Por que não?
– Porque se não eu te mato; eu te mato, Priscila!
– Você não é capaz disso – falou ela.
Era?
Não, não era...
Mesmo assim, fez questão de responder: você não me conhece, Priscila, não me conhece...
ANTI-DEPRESSIVOS
Eu ando fumando um cigarrinho após o outro; veja meus dedos, bem amarelos, mas antes não fumava tanto assim não, e sabe?... Por trás deste bichinho aqui se esconde uma depressão, uma ansiedade dos diabos... Mas a gente escolhe: ou toma remédio, ou fuma e bebe à vontade... No meu caso, prefiro beber a minha cervejinha e fumar o meu cigarrinho até morrer, se é que vou morrer por causa de fumar e de beber... Então... Antes não fumava assim, mas depois que o homem da minha vida me traiu, passei a fumar um atrás do outro. Isso já faz três anos.
Quando ele me traiu, fiquei ruim por um ano mais ou menos. Até dar alergia em meu corpo deu. Começou com uma coceira no pé, depois foi para as minhas pernas, e de repente atacou a minha barriga. Mas não coçava com as unhas não, para não machucar o meu corpo. Eu pegava uma fralda e passava em cima da coceira. Num dia, a alergia estava demais e então fui num médico conhecido meu. Ele me perguntou: Néia; faz quanto tempo que você não se deita com homem? Eu disse que fazia um ano, mais ou menos; que depois que o homem da minha vida me traiu comecei a pensar que todos os homens por quem me apaixonar vão fazer o mesmo.
O médico conhecido meu disse besteira, você não pode pensar que homem é tudo igual; arruma aí algum e se deita com ele que essa alergia vai passar no mesmo dia. Sabe? Eu pensei comigo: esse doutor está coberto de razão, eu vou ficar aqui?!... Me acabando por causa de um homem que me traiu?!... E que agora deve estar lá com a outra fazendo um amor bem gostoso?!... Que deve estar tomando a sua cervejinha e dançando os bailes com a outra?! Curtindo a vida? Eu não! Peguei o meu carro, me emperiquitei toda e fui para o baile...
Lá eu arrumei um rapazinho que sabe dançar que é uma delícia. Mas não me deitei com ele na primeira noite em que nos conhecemos. Nem na outra. Na verdade, ele nunca me cantava... Os outros homens lá do baile viviam me dando aquelas cantadas horríveis e ele nada! Os homens diziam: e aí, vamos dormir essa noite num motel? Eu falava o que é isso, motel?... É de comer?... É de vestir?... Eu não sei o que é isso não!... E fingia de boba, sem dar a resposta. Os homens se levantavam da mesa e iam atrás de outras...
Até que um dia, no baile, depois de tantas e tantas vezes a gente conversar, esse rapaz finalmente me cantou. E me cantou de uma maneira bem bonitinha. Na hora de me deixar na minha mesa, assim que terminamos uma rodada de dança, ele me disse: Néia, eu não sei se você percebeu, mas estou querendo te conhecer melhor... Fomos para um motel. Gostei dele. Fizemos um amor bem gostoso e daí para frente começamos a namorar. E sabe? O doutor amigo meu tinha razão: depois de transar com ele, alguns dias depois a minha alergia sumiu completamente.
Mas, voltando ao cigarro, ao motivo que ando fumando tanto assim, que é por isso que estou falando com você. Esse homem, que pensava ser o homem da minha vida, eu conheci num baile, há uns seis anos atrás. Ele era um homem muito bom, tratava bem os meus filhos, e por isso fiquei apaixonada. Era presidiário, ou melhor, um fugitivo. Nessa época ele já havia cumprido três anos de prisão, e estava sob a condicional. Eu nem sabia disso, e só fui saber quando a polícia o prendeu na rodoviária. Na delegacia, perguntaram por que ele fugiu assim, quando estava prestes a cumprir de vez a pena. Disse que só fez isso porque não queria matar a esposa, que aproveitava a sua ausência de noite para traí-lo...
Para não matá-la, resolveu sumir da cidade onde morava e começou a viajar para tudo quanto é lado, até me conhecer e decidir morar comigo e meus filhos. O juiz nem se comoveu com a história e mandou o Antônio para o presídio daqui mesmo, cumprir mais um ano, só para ele aprender a respeitar as leis. Enquanto cumpriu a pena aqui, durante um ano eu fui fiel, ia de quinze em quinze dias visitar ele no presídio, levava cigarro, me deitei somente com ele e com nenhum outro homem, mostrei que era mulher. Mas ele..., ele me apunhalou pelas costas, aquele covarde! Depois que cumpriu a pena e veio morar comigo, ele passou a viajar novamente, à trabalho. Um ano depois, a ex-mulher dele, a que ele teve vontade de matar daquela vez, me ligou dizendo: “olha Néia, o Antônio tá com amante aqui. Estou falando porque eu gosto de você. E se você quiser provar que eu não estou mentindo, vem para cá que eu levo você para ver com seus próprios olhos. Você tem como vir aqui?”
Podia ser mentira dela, para destruir a minha união com o seu ex-marido. Mesmo assim, resolvi pagar pra ver. Falei para ela que tinha sim como eu ir até a cidade dela, mas que não conhecia nada lá. Ela falou vem que eu te pego na rodoviária. Você paga uma pernoite em alguma pensão e a gente vai na casa onde ele está vivendo com a outra. Eu disse estou indo agora mesmo. Peguei e fui para a rodoviária. Eram oito horas da noite. Cheguei de manhã. A ex-mulher dele estava lá, me esperando. Era uma mulher simpática, até. Me pegou de carro e me levou. Ao chegar, ela disse: é aquela casa ali. Mas não posso ir lá, levar você. E você não diz que fui eu quem disse para você, tá bom? Eu falei tá bom, eu não falo. Agora eu vou embora. Eu falei obrigado e ela foi. Depois, eu bati lá na porta da casa que ela me disse que era.
Uma mulher bem feia, horrível, apareceu na porta perguntando o que eu queria. Eu disse: quero falar com o homem que MANDA aí nessa casa... De repente o Antônio apareceu. Néia?..., perguntou ele, surpreso. Era verdade... Ele estava me traindo mesmo! Enquanto a besta aqui acreditava que ele estava viajando a trabalho somente, ele estava é morando também com outra mulher! Respondi para ele: sou eu mesma, a Néia, sua mulher... Vim aqui para saber o que você anda fazendo comigo, e também, para agradecer: obrigado por me trair! Mas... À partir de hoje, eu morri para você!
A mulher feia e horrível dele quis me agredir com palavras mas o Antônio falou para ela: cala a boca, entra pra dentro, vai caçar o que fazer que ela é a primeira, você que é a segunda e sabe muito bem disso!
– Onde você está hospedada? – perguntou ele, virando para mim.
– Lá perto da rodoviária – falei para ele.
– Eu vou te levar lá, a gente vai conversando...
Eu disse tudo bem, vamos lá, porque eu precisava mesmo falar com ele, dizer tudo o que sentia. Acabamos indo para um bar. Bebemos todas. Eu fiquei bêbada e ele também.
Daí, os dois pôde dizer tudo o que estava sentindo. Desabafei. Eu chorei e ele chorou. Falei para ele: você quebrou o meu coração; deixou ele em pedaços, estraçalhado. Antônio pediu desculpas, implorou para eu dar uma chance, que se eu o perdoasse ele nunca mais na vida nem iria olhar para a mulher com quem estava morando... Quase voltamos... Quase falei para ele tudo bem, eu esqueço tudo. Mas não podia! Eu tinha que me respeitar! Falei não, não, e não! Ele, ainda assim, perguntou se não podíamos ir para um motel, porque na cama era o lugar onde a gente sempre se entendia. Eu falei: depois do que você fez comigo, Antônio, este CORPO aqui não deita mais no seu; deita no corpo de um cachorro vira-lata da rua... Mas no seu não se deita mais não!...E não me deitei... Voltei para casa e fiquei triste por um ano mais ou menos, sem sair, sem ir nos meus bailes, sem tomar a minha cerveja. Só fumava, um cigarro atrás do outro, até deixar os dedos amarelos. Até que veio a coceira dos infernos e o doutor pedir para eu fazer amor que a coceira passava.
Fui para os bailes. Eu amo dançar, beber, fumar, me divertir. Mas não gosto de qualquer homem não, principalmente esses que saem falando das outras mulheres. A coisa que eu acho mais terrível no mundo é um homem falar de outra mulher, que essa é larga... Que aquela é uma vadia... Que a outra é fedida... E essas coisas... Eu falo para os meus filhos. Tenho três. Um de vinte e sete anos; outro de vinte e seis, e o mais novo de vinte e um. Eu falo: não fale mal das mulheres que vocês saem, porque se não servem para vocês, servem para outros...
Daí, eu conheci esse rapaz... Ele tem a idade do meu filho mais velho. Eu tenho quarenta e cinco anos de idade... Mas sou bonita. No baile aonde sempre vou só vai pessoas da mais idade. Vão homens com menos de trinta, mas são poucos. Lá eles me chamam de Barbie, de boneca... Eu?..., penso comigo, Barbie?... Aos quarenta anos de idade?...
Graças a Deus, nenhum me falta com respeito, porque eles sabem que o rapaz que fica comigo tem muito ciúmes de mim. Ele me ama. Vai fazer um ano que estamos juntos. Mas não vamos casar não. Ele tem uma filha. É separado. Já pediu para me casar com ele. Eu falei que não; que já estava velha para isso; que tinha filhos adultos e que não ia saber viver com um homem dentro de casa me mandando. Eu sou muito independente. Mas, não impeço dele conhecer outra mulher que queira casar com ele, não quero fazer ninguém infeliz, não é? Enquanto isso, vamos vivendo a nossa vidinha..., dançando..., bebendo..., fumando..., fazendo amor bem gostoso..., afinal, o amanhã só a Deus pertence, não acha?
A GALINHA DOS OVOS DE OURO
Da casa n° 369, na rua Bartolomeu de Gusmão, aquela pintada de branco e de azul, com o telhado tradicional, gramado bem verde na frente, varanda, muro e portão, sai todos os dias da semana, bem cedinho, a Silvana. E se manda para o serviço, no seu automóvel popular, um pálio de dez anos atrás. Sempre bonita, de saia próxima aos joelhos, camisa curta, cinto, bolsa, o cabelo volumoso, óculos de sol, ela entra no carro e vai embora, sempre de um bom humor contagiante.
Logo depois dela, saem os três filhos pequenos, indo para o colégio. Às onze horas da manhã, surge Orlando, o marido. Na varanda, ele levanta os braços, se espreguiça, senta na cadeira, acende um cigarro e fica fumando. Depois, joga o cigarro, volta para dentro de casa, liga o aparelho de som num volume alto, abre um sorriso, e vai para a cozinha, fazer o almoço. Enquanto isto, acompanha:
Nunca foi de trabalhar. Tudo o que possui, foi a mulher quem deu. Importa-se com isso? Jamais. A casa onde vivem; o carro da mulher; o seu; tudo veio graças à Silvana. Mas nem por isso algum dia deixou-se submeter. Quando vê as asas da Silvana crescer, poda, como sempre podou e continuará podando. Se preciso; lhe pega pelos braços, agride, chacoalha, mostra quem é que dá a última palavra. Silvana, com isso, se derrete: homem de verdade é como Orlando; o resto, cópia...
Tem dó e nojo de homens que não se impõe; que aparecem com o rabo balançando e o focinho molhado só num estalar de dedos. Homens assim não merecem respeito. Quando arrumam uma mulher, ela é cheia de não pode isso não pode aquilo, a flor-do-não-me-toque. Quando arrumam uma que é fogo por todo corpo, entregam tudo o que tem. Que nem o seu primeiro chefe, seu Jaime. Morto de ciúme; deu-lhe um carro, só para ela parar de ficar conversando com os funcionários da empresa.
– Sabe dirigir, Silvaninha?
– Não sei mas aprendo.
Entrou na auto-escola, três meses depois tirou a carteira, ganhou o pálio, jurou eterno amor. Orlando, neste tempo, que era somente namorado, pediu para fazer um test driver. Silvana disse que sim, que ia adorar dar uma volta de carro com ele. Mas Orlando entrou no pálio, pegou no volante, ligou a ignição, deu umas aceleradas e disse:
– Espere aí; já volto, vou dar uma volta no quarteirão sem você, porque quero ir em alta velocidade e é perigoso.
E foi; sem lhe dar tempo de falar que não tinha problema algum correr risco de vida estando ao lado dele. Dessa volta ele sumiu no mundo. Silvana passou a noite inteira chorando, de ódio. Pela manhã o distinto apareceu, para lhe entregar o carro. Estava bêbado e com a roupa cheia de marcas de batom:
– Olha o que você ganhou, para deixar de ser imbecil – disse para si mesma.
Sem querer, descobriu um modo de arrancar dinheiro de seu Jaime sem este desconfiar de qualquer maldade por parte dela, quando pensou estar grávida dele. Pediu a ela para tomar injeção, tomou, e no outro dia, a menstruação desceu. Assim que seu Jaime lhe viu, apurou. Por brincadeira, resolveu mentir. Seu Jaime, sem rodeios, perguntou se ela conhecia alguém que fazia aborto. Falou que sim, apenas por falar. Então seu Jaime sacou o talão de cheque, assinou uma folha em branco, e deu para ela:
– Aborta.
Olhou para a folha de cheque em branco e decidiu levar adiante a mentira. Contou para Orlando. Ele disse: você é uma bandida; uma pistoleira; menina, e tomou dela o cheque. Meses depois, Orlando pediu para ela aplicar mais uma vez o golpe do aborto. Fez resistência; e ele, chantagem. Dias depois, a mesma cena. Mais um cheque assinado em branco! Para Orlando. E teve a terceira e a última vez; só que agora, estava grávida de verdade, e o pior: do seu Jaime! Junto com o cheque, o fim do caso amoroso, porque ficou com medo de hora ou outra ela ficar grávida e aborto nenhum derrubar o anjinho.
– Seu cretino! – disse, em lágrimas...
Ganhou as contas, recebeu o acerto bem além do que merecia; foi numa farmácia, ver o que podiam fazer por ela. O farmacêutico lhe aplicou uma injeção. Nada adiantou. Voltou à farmácia, fez o teste de gravidez, deu positivo, e dali para frente não era mais problema do farmacêutico. Relutou, fez escândalo, perguntou por que não era mais problema dele.
– Abortar é crime.
– E o que você fez quando me deu a injeção?
– Quando lhe apliquei a injeção não cometi crime algum. Quando lhe apliquei a injeção foi para matar o espermatozóide, que nem ter alma ainda tem.
– Como não tem alma? Claro que tem alma! Quando um espermatozóide entra no óvulo de uma mulher, no mesmo instante Deus envia lá do céu a alma do infeliz. Tá na Bíblia, não sabia?
– Eu duvido muito – disse ele.
– Dúvida do quê, que está na Bíblia?
– Não. Na Bíblia eu sei que não tem nada disso. Eu já fui um desses crentes que andam com a Bíblia debaixo do sovaco; que tem a bendita de cor na cabeça. Pelo que eu sei, na Bíblia não diz nada disso, de que Deus envia a alma no momento em que o espermatozóide entra no óvulo.
– Então você duvida que quando um espermatozóide entra no óvulo Deus manda uma alma para ele?
– Isso.
– Tá bom, moço. Mas não é isso o que quero saber, se você duvida ou não duvida disso ou daquilo. O que quero saber é como eu vou ficar?
– Não sei; se vira. Procura alguém que aborta. Ou então tenha a criança!
A criança não ia ter. Lembrou-se de um amigo que passou a ser a favor do abordo depois de abandonar a vida religiosa. Ligou para ele.
– Você quer matar a criança, é isso? – disse sério, mas brincando.
– Matar não, abortar.
– Sim, e não é a mesma coisa?
– Não. Abortar é uma coisa, matar é outra.
– Eu não vejo diferença – disse, levando adiante a brincadeira.
– Mas eu vejo. Ah, na verdade, o que importa? Entre matar ou abortar eu prefiro não ter essa criança...
– E por que não?
– Porque não é do Orlando.
– De quem é?
– Do meu chefe maldito.
– Eu conheço um cara, que vende uns comprimidos que derruba.
– Que cara?
– Um sujeito que trabalha no camelódromo.
– Vamos atrás dele.
– Quando?
– Agora.
– Agora?
– Sim, agora.
– Mas eu tenho aula.
– Mata – disse ela.
Ao dizer isso, Pedro falou:
– Você realmente está uma assassina, hein?
Foram.
* * *
No camelódromo, o matador de crianças. Discutiram o preço; era caro de mais, mas no fim concordou. Eram quatro comprimidos, dois via oral e dois via vaginal. Tinha que ser bem dentro, para alcançar o útero. Perguntou se queria que fizesse o serviço: nem morta! Avisou que era difícil; que colocar a mão na massa era o mesmo que estar mexendo com cimento; e abriu o sorriso com os dentes pobres. Nojento, foi a palavra que ouviu de Silvana. Foram embora. Em casa, a tentativa de homicídio. Insucesso. Voltou. O assassino matador sorriu de novo, tinha um dente de ouro no canto, brilhando. Desta vez, usou a palavra feia, aquela parecida com a bolsa em diminutivo, deixa? Ódio, injúria, revolta. Venceu o orgulho; viu o dente de ouro brilhar...
* * *
– O Magaíver não morreu – disse ela por telefone, para o Pedro.
– Quem?
– O Magaíver.
– Quem é esse?
– Quem? O neném, seu idiota.
– Ah, sim...
– Vamos lá comigo de novo.
Foram.
Passou mais uma vez pelo constrangimento. E advinha? O feto não morreu! Daí, viu que era uma vontade de Deus esse menino vir ao mundo. Contou toda a verdade para Orlando.
– Mentira! – disse ele, com os olhos alegres.
– Verdade!
– Mas que neném forte!
– Pois é.
– Vai tê-lo! Por que se não, quando você morrer, Deus te manda diretinho para o inferno!
– Mentira! Deus perdoa.
– Perdoa? Vai nessa... Na verdade, ele manda você retornar, e você nasce de novo aqui na terra, para expiar seu erro, sabia?
– Deus não é tão cruel assim.
– Já pensou? Que bom ter que voltar e viver mais uma vez aqui, ao invés de ir para o paraíso eterno?
– Não.
– Eu mesmo adoraria viver umas cem vezes essa vida.
– Deus me livre.
– Você diz isso porque vive sofrendo. Já eu, não. Vivo uma vida de prazeres.
– Você é um inconseqüente!
– Não, não sou. Olha, mudando de assunto, você vai ter esse filho, e o pai vai ter que pagar pensão! E a pensão tem que ser alta, viu? Alta!
Teve o filho.
O menino, que colocou o nome de Tiago, nasceu cheio de complicações, devido aos abortivos que ingeriu. Mas sobreviveu. Em sua fase de crescimento, sofreu vários acidentes. Teve um que era para ter morrido. Hoje, quase todo o mundo lhe chama de Magaíver. Quer ser policial, quando crescer.
Depois do seu Jaime, teve dois patrões, fora o de agora. Com os três, os mesmos golpes, as mesas sortes. No total: três filhos, uma casa, dois automóveis, poupança gorda, pensões altas para receber...
Assim que terminou de fazer o almoço, as crianças chegaram da escola. Depois veio Silvana. Almoçaram. As crianças, como sempre, ficaram em casa, com ele; e Silvana voltou para o seu serviço como secretária...
A INDENIZAÇÃO
Ritinha, a negra da minha vida, quis saber por que ultimamente eu carregava tanto o Silvinho para lá e para cá, naquela cadeira de rodas. Inventei uma desculpa bem esfarrapada: caridade, minha negra. Desde quando você tem uma alma caridosa, em seu infeliz?, disse ela, brava, do jeito que sempre fica quando alguém quer fazê-la de idiota.
A Ritinha tinha razão: a minha alma não era tão boa assim. Depois que fui dispensado do quartel; depois que perdi meu emprego porque o chefe de cozinha não foi com a minha cara; depois que o Silvinho passou a usar uma cadeira de rodas; eu deixei de ser bonzinho e passei a ser rancoroso. Foi quando conheci a Ritinha, a negra da minha vida. No começo, ela tentou me curar, com seu amor, mas com tempo viu que não tinha jeito e passou então a me vigiar, a querer saber de todos os passos que dava.
– Anda, diga, o que você faz tanto com o Silvinho, Rivaldo?
– Nada de mais.
– Sei.
– Verdade.
Assim que falei verdade o Silvinho apareceu no portão de casa, me chamando.
Fui atendê-lo.
– O homem do revólver está esperando, lá no centro – disse ele.
Eram três horas da tarde.
Voltei para a Ritinha e disse que ia dar uma saída, coisa rápida.
– Se cuida – disse ela, quando eu estava no portão.
Peguei o Silvinho pela cadeira de rodas e fomos para o ponto de ônibus. Não demorou muito e o lotação chegou. Coloquei o Silvinho no elevador automático e ele subiu. Todo mundo parou para olhá-lo. Tive pena do Silvinho: quem até alguns meses atrás esbanjava saúde agora estava ali, enfrentando as vergonhas da invalidez. Deixei-o no canto reservado para os cadeirantes e desci, dando a volta para entrar pela porta da frente. Ao passar a catraca, fui para perto do Silvinho.
– Se eles tivessem me dado uma indenização decente, teria comprado um desses carros para deficientes, sabe qual é? – perguntou-me ele.
– Sei.
– E uma cadeira de roda eletrônica também – disse ainda.
A indenização que pagaram ao Silvinho era de dar risada.
– Mas o que eles me deram? Um salário que não dá nem para comer direito!
– São todos uns putos, sem coração!
O ônibus chegou ao centro da cidade e então saltamos. Na calçada, o Silvinho disse que o sujeito do revólver estava esperando no trilho do trem, perto do Mercadão Municipal. Fomos. Ao chegarmos, um homem magro, cheio de tatuagens no braço, vestindo uma camisa regata veio até nós. A primeira coisa que perguntou para o Silvinho foi se eu era da polícia. Silvinho respondeu que não, que ele podia ficar tranqüilo. Acreditou. Pegou o dinheiro do Silvinho, e passou o revólver, um 38.
– Você nunca me viu – disse o tatuado, para o Silvinho.
– Você também.
Olhei para o homem e depois para o revólver.
– Fique com ele – disse Silvinho.
Peguei o revólver e coloquei na cinta.
– Você sabe como usar isso? – quis saber o sujeito que vendeu o revólver.
– Quem não sabe? – eu falei.
O tatuado não disse nada.
– Qualquer um, ao ser obrigado a usar uma arma, saberá como fazer – disse ainda.
No meu caso, havia aprendido a usar no quartel.
Saímos, de volta para o ponto de ônibus.
O ônibus chegou e então coloquei novamente o Silvinho na plataforma automática para deficientes físicos.
– Só na perna dele – avisou Silvinho, novamente.
– Quantas vezes você vai me lembrar disso? – falei.
– Eu tenho medo que você não faça o que combinamos.
– Por que eu não faria?
– Sangue quente...
– Pode ficar tranqüilo, Silvinho – eu disse.
Silvinho fez silêncio, confiando. Depois, perguntou:
– Que dia?
– Amanhã mesmo, bem cedinho – respondi.
No dia seguinte, iria me vingar do desgraçado que colocou o Silvinho na cadeira de rodas. O que César fez com Silvinho não tinha perdão.
Pouco tempo depois, saltamos do ônibus.
Levei-o até a sua casa, onde ele preferia locomover sem a cadeira de rodas. Era horrível o seu jeito de andar. Tremia todo. Parecia uma máquina velha; ou melhor, um robô velho, que a cada passo parece que vai cair – ver Silvinho andando assim, de um lado para outro, era algo muito revoltante. Fiquei somente um pouco com ele e fui para minha casa. Lá chegando, a Ritinha perguntou mais uma vez o que eu andava tramando.
– Nada.
– Sei.
Mudei de assunto.
Jantamos.
Lá pelas onze da noite, fomos para a cama. Quatro horas da manhã, eu estava de pé.
Peguei a moto e fui até a casa do César, o sacana maldito que não foi com a minha cara e que colocou o Silvinho numa cadeira de rodas. Cheguei uma hora depois. Ele saia as seis, para o trabalho. Desliguei a moto, coloquei o capuz e fiquei esperando. Enquanto isso, lembrava do dia que ele trancou o Silvinho dentro da câmara fria, por brincadeira de mau-gosto. A porta, desgraçadamente, emperrou. Tentaram arrombá-la, sem conseguir. Chamaram a manutenção e eles cerraram a porta de aço. Demorou. Quando conseguiram, o Silvinho estava duro, encolhido, inconsciente. Levaram o Silvinho para o hospital, salvaram a vida dele; mas depois disso nunca mais ele pôde andar direito, nunca mais pôde correr, nunca mais pôde trepar com uma mulher.
Agora, meses depois, ali estava eu, pronto para dar-lhe o troco. Não sabia se ia ter coragem, pois nunca havia atirado em alguém. Cinco horas da manhã, ele apareceu, abrindo o portão. Ainda estava escuro. Não havia ninguém na rua exceto eu. Ao me ver, empalideceu-se. Tentou voltar, fugindo. Não deu tempo: dei três tiros nas pernas dele. César caiu no chão. Desci da moto e o vi rastejar. A vontade que me deu foi a de atirar na cabeça dele, e matá-lo de vez. Mas lembrei do Silvinho, e dei mais quatro tiros no mesmo lugar.
O infeliz gritou de dor. Ficou gemendo, tentando ver quem era que estava atirando em suas pernas. Isso me deu outra vontade: tirar o capuz e mostrar para ele que era eu quem ia colocá-lo numa cadeira de rodas também. Mas; contive-me. Subi na moto. Antes de apertar a ignição, olhei para as mãos, ver se estava tremendo. Estavam. Liguei então a moto e fugi. Ninguém me viu. Dali fui direto para a casa do Silvinho. Quando passei pela marginal, joguei o revólver no rio.
– Fez o serviço? – perguntou Silvinho, ao me ver – ele estava na frente de sua casa, sentado na sua cadeira de rodas.
– Sim.
– Todos na perna do infeliz?
– Todos.
– E o revólver?
– Joguei no rio.
– Quer beber alguma coisa?
– Quero.
– Vamos beber o quê?
– Conhaque.
– Quantos tiros?
– Sete.
– Será que a policia vai vir aqui?
– Vai.
– E o que vamos fazer?
– Agir naturalmente.
– Como?
– Esquecendo do que aconteceu.
– Como eu posso esquecer, se foi aquele sacana que me colocou nessa cadeira de rodas?
– Esquece. Você já se vingou, não se vingou?
– Sim.
– Então?
– Já esqueci. Não sei de nada, não vi nada – disse ele.
– Cadê o conhaque?
– Está lá dentro, vamos entrar.
Entramos. Silvinho empurrou o seu carrinho até a porta, onde ele deixou-o para entrar com as próprias pernas. E foi andando daquele jeito horrível, que me dava uma revolta danada. Na sala, sentei-me num dos sofás. Dali a pouco, ele voltou, com o conhaque e os copos na mão. Ao vê-lo, com o seu jeito horrível de andar, me incomodei e quase pedi para ele sentar na cadeira de rodas dele. Mas não fiz, não queria ofender meu grande amigo. Ele sentou num outro sofá e começamos a beber. Bebemos a garrafa inteira. Numa certa hora, Silvinho, já bêbado e empolgado com uma conversa que tivemos, de repente levantou-se dizendo que ia dançar.
Quase falei que não, que ele não fizesse isso pelo amor de Deus. Sem coragem para repreender meu grande amigo, Silvinho levantou-se e começou a dar uns passos. Foi uma das coisas mais feias que vi na minha vida, ver Silvinho dançar daquele jeito. Senti-me um impotente: se pudesse, devolvia-lhe a capacidade motora. Mas eu não era Deus, não era um santo. Eu era agora um assassino, tinha uma morte nas costas. Portanto, o jeito era deixá-lo dançar, ser feliz; e, para alegrá-lo mais ainda, levantei-me também e dancei com ele, ao lado dele, como grandes amigos. Até que deu a hora do almoço e fomos para casa.
O almoço estava bom. A Ritinha me xingou, porque estava bêbado antes do meio-dia. Quando terminamos, Silvinho foi para casa e eu fui para a cama, dormir. Fui acordar à noite. Liguei a televisão e vi no noticiário a reportagem sobre o César. Estava no hospital, entre a vida e a morte. Dias depois, fiquei sabendo que ele sobreviveu, graças a Deus. E melhor ainda: que ele estava numa cadeira de rodas, e que nunca mais iria poder andar com as próprias pernas. Fiquei feliz, quis dançar, mas me lembrei do Silvinho, me lembrei que ele não podia dançar decentemente: depois deste dia, eu nunca mais dancei em minha vida, nunca mais!...
QUADRO NEGRO
No meio da sala de aula, a colegial com as pernas abertas, sem calcinha, mostrando o risco dourado. Na frente dele, o quadro negro, cheio de linhas do ponto de História. Volta e meia, o grito, clamando o professor. Em cima do caderno, a visão radiante dos seios, novinhos, um bico para lá e outro para cá, espetados: a educação é um sacerdócio...
Soa o sino do recreio. Na sala dos professores, venda de cosméticos, rifas e roupas. Corpos à vontade, corpos apreensivos, tensos. Alguns rindo; outros, reclamando: esses alunos são tudo sem educação...
– Uns diabos...
– Que isso!, diz Evandro.
De vez em quando, dava aulas em escolas particulares. Lá, os alunos, sabiam mais que ele, o professor. A maioria quer ser um médico, um advogado, um doutor. Enquanto que ali, no último bairro da cidade, os alunos tem dificuldades para aprender, e sabem que é uma utopia, uma ilusão querer ser alguém importante na vida.
– Fez a tarefa?
– Fiz não.
Adiantava lutar por alunos assim? Um professor, com longos anos de experiência, disse-lhe certa vez: na minha sala eu só cuido para eles não brigar. A aula? Não dou. Quando dava, vivia no médico. Você acha que aluno gosta do professor? Só se você fizer a vontade deles...
* * *
Ana, o nome da colegial.
Rua, a palavra que ouviria em caso de escândalo.
* * *
Dias depois, Sabrina apareceu. Tinha carro do ano, vestia-se bem, era bonita, morava em bairro nobre, fazia mestrado.
– É preciso abrir os olhos desses alunos para a vida, são muitos conformados!
– O que pode salvá-los? Só a educação...
– Pensam que a educação não é de nada...
– Precisamos mudar isso; formar verdadeiros cidadãos; conscientes, solidários, cooperativos, tolerantes, intelectuais: eis aí a nossa missão!
– Como que é o seu nome?
– Evandro.
– Prazer, Sabrina.
Desde então, profissionais unidos.
Longe dele: bonito este rapaz, não?
– Inteligentíssimo...
– Forte, né?
– Mas pobre...
– Pobreza não é defeito, ao menos para mim. O que vale é o caráter.
– Você diz isso porque é nova... Mas vai em frente, amiga...
De mãos dadas, entravam e saiam da escola.
* * *
Persistente; Ana, a colegial, conseguiu o seu telefone celular. Ligou dizendo que estava no banho, pensando nele.
– Como você conseguiu meu telefone?
– Conseguindo...
– Com quem?
– Não posso dizer.
– Vou desligar.
– Por favor, estou no banheiro...
Imaginou: água do chuveiro caindo, pele ensaboada, marquinhas de biquíni pelo corpo – Cristo, quem agüenta?
– Queria você aqui... Até consigo lhe ver, me beijando...
A boca secou.
– Vem.
Jogou ar para os pulmões, contou até dez.
– Vem...
Diante do raio da tentação subindo, a pergunta:
– Está sozinha?
– Sim, mamãe viajou.
– Ninguém em casa?
– Só eu, peladinha, prof...
– Onde que é a sua casa?
Falou: três quadras do colégio. Foi. Portão aberto, porta da casa aberta, porta do banheiro também aberto – tudo aberto.
Tirou a roupa e entrou.
– Que força.
– É você, menina.
– Já vou.
– Não vá, fique; quero mais!
Teve mais...
* * *
... Dias depois, a chantagem:
– Todo o mundo no colégio vai saber.
– Eu desminto!
– Em quem vão acreditar?
– Não me importo!
– Não seja bobo, que tem de mais?
– Que tem de mais que sou seu professor, menina!
– E daí?
– E daí que tenho uma noiva também...
– Aquela cretina rica?
– Olha como você fala dela!
– Eu falo dela como eu quiser! Só hoje...
A partir de então, sempre cedia.
* * *
Sabrina ficou sabendo:
– Cafajeste descarado! Como você pôde fazer isto comigo? Dizia que me amava; que eu era o seu tudo; que sem eu você não era ninguém, isso e aquilo e me apunhala pelas costas?! Desgraçado!
Ela mesma prontificou-se em entregá-lo ao diretor.
– O que é isso, Evandro?
Onde se ganha o pão não se come a carne...
– Por favor, eu preciso deste emprego!
– Me desculpe, para o seu bem.
Punido, ganhou a rua e uma lição.
* * *
Conseguiu aulas numa outra escola, depois de andar muito por aí. Casou-se com Ana, teve filhos, teve amantes.
– A educação é um negócio...
– Um mau negócio.
Hoje, na sala dos professores, tem a postura relaxada, gargalha, toma café, e exibe a barriga redonda. Quando vê um professor querendo transformar a realidade, sente pena. Quando vê uma professora pessimista, se aproxima.
– Esses alunos são uns demônios...
– Uns demônios nojentos!
– Acabei de ver alguns alunos pulando o muro. O que será que vão fazer, hein professor?
– Se acabar em drogas...
– Triste, não? Tinha umas meninas com eles, será que vão se drogar também?
– No mínimo... Depois, abrem as pernas e está tudo em ordem!
– Tão jovens, né?
– Sim, mas tem um fogo no meio das pernas que ninguém apaga!
– Que coisa...
– Sim – em tom episcopal.
– Eu quero ver quando eles enxergar a realidade...
– Aí vai ser tarde demais...
– Uma pena...
– Uma pena?!
– Não?!
– Claro que não! Cada um tem aquilo que merece!
– Você tem razão.
– Quem semeia vento, colhe furacão.
– Eu não sei por que ainda dou aula.
– Nem eu.
– Estão abrindo vários concursos.
– Vou fazer todos, para ver se saio desta vida...
– Eu também...
– Você bebe cerveja?
– Bebo.
Entre um gole e outro, uma nova amante. Quando estão nas salas dos professores, riem dos colegas empenhados em transformar a realidade. Depois, ficam tristes. Ela porque o demônio não lhe deixa sair dessa vida; e ele porque lembra da Sabrina idealista, da Sabrina apaixonante, educada, bela, sonhadora e de sexualidade discreta: o que seria se tivesse casado com ela?
A CONSPIRAÇÃO DO UNIVERSO
O serviço era na aeronáutica, com um plano de carreira de sete anos, com um salário digno. Eu havia vencido mais de duzentas pessoas, estava desempregado e um tanto desiludido com a existência: a vaga era a minha última tentativa.
Uma pessoa luta, entra numa faculdade, se encontra, e quase não dorme: só sonha, dia e noite, acordado. Da turma de quarenta pessoas, dez delas no máximo logo arrumam um emprego. Outras vinte demora um pouco, mas encontram. Sobram os dez. Alguns, cansados, partem para outra. Outros insistem e morrem.
No último teste havia eu, o Roberto e Cláudio disputando duas vagas apenas. Venceram. Foi quando então decidi assassinar um dos dois. Mas quem? Aquele que tinha menos afinidade? Não gostava nenhum deles. Eu só gostava de mim.
Fosse um assassino, mataria o primeiro que viesse em mente. Mas não era, e para me decidir, resolvi investigar a vida deles. Comecei pelo Cláudio, e vi que ele era pai de família, tinha dois filhos pequenos e uma esposa gorda e feia. Era ele quem levava e trazia os meninos da escola, da natação, do futebol. Tinha amante, uma loirinha de dezessete anos.
Dias depois, comecei a vigiar o Roberto, e logo no primeiro dia confirmei aquilo que suspeitava desde o inicio: era gay. Morava com a mãe, uma velha de cabelos bem brancos. Cuidava bem dela, amava-a. Tinha um namorado, um rapaz de uns vinte anos, que vivia de camiseta regata.
O adultero ou o homossexual?
Pergunta difícil: os dois tinham lá suas redenções: o primeiro, um bom pai, o segundo, um bom filho. Levei dois dias para decidir isto. Laura, que sempre reclamava de minha frieza, protestou. Pedi a ela compreensão, que eu estava triste com a minha derrota no concurso. Ela disse que sim, e desistiu de conversar comigo, fincando aborrecida pelos cantos da casa.
Assim que decidi quem assassinar, planejei tudo. Eu iria abordá-los dizendo é um assalto, e depois atiraria em Roberto. Era um sábado à noite. Os dois saíram, bem vestidos. Desci do carro e fui atrás deles. Duas quadras depois, vi que era a hora. Ao dobrarem o quarteirão, desisti, porque apareceu uma casa noturna, uma boate, com muitas pessoas ali na frente, algumas na fila e outras não.
Recuei.
Eles entraram na fila e eu fiquei pensando se entrava também ou se ficava ali, do lado de fora, esperando. Resolvi entrar e peguei a fila. Ao chegar à portaria, perguntei para o segurança o que era ali.
– Um bistrô.
– Bistrô? Mas bistrô não é restaurante francês?
– Aqui não.
Entrei.
Lá dentro vi homens para todos os lados. Havia também travestis, e mulheres. O som estava altíssimo, e a maioria dançava olhando para os gogos-boy que dançavam em lugares altos, estratégicos. Usavam apenas sunga; e alguns homens, enquanto dançavam, passavam a mão neles.
Procurei relaxar.
Comprei uma cerveja e fiquei dançando, evitando olhar para os dançarinos. Contudo, volta e meia olhava, e quando desviava o olhar, sempre via um monte de homens me olhando. De vez em quando, algum viado pegava em meu braço, piscava, se aproximava. Mas eu dava uma desculpa qualquer e saia de perto, em direção ao bar.
Enquanto bebia, olhava para as mulheres. Algumas delas fechavam a cara, demonstrando indignação. Outras, por outro lado, riam. Uma delas se aproximou.
– Você não é homossexual, é?
Fiz que não.
– É bi?
– Também não.
– Então o que você faz aqui?
– Curiosidade – falei.
– Já experimentou?
– O quê?
– Ficar com homem?
– Não.
– Nunca teve vontade?
– Não.
– Hoje em dia é moda. Todo mundo experimenta. Eu mesmo gosto dos dois, de homem e de mulher. No começo me sentia ruim com isso, hoje me considero uma pessoa feliz. Você tem certeza de que nunca teve vontade?
Disse que não, nunca.
Dali um pouco ela começou a se insinuar para cima de mim. Esquivei-me, porque ela estragaria tudo. Ao deixá-la para trás, ouvi as palavras: veado gazela.
De longe ficava olhando Roberto e seu namorado beijando na boca enquanto dançavam. Era estranho, esquisito. Não suportei. Sai da boate gay e fiquei esperando por eles, num canto escuro, atrás de uma árvore. Uma hora depois, eles saíram. Passaram por mim e eu fui atrás. Segui os dois por três quarteirões, quando resolvi gritar: é um assalto.
Levantaram as mãos.
Dei três tiros no coração de Roberto. Seu namorado, cheio de pavor, saiu correndo. Deixei-o ir, e me certifiquei se ele estava morto. Em seguida, voltei para o meu carro. Dei a partida e voltei para casa. Quando cheguei, a Laura estava com suas malas na mão, dizendo que ia embora.
– Para onde?
– Para casa de minha mãe.
– Por que?
– Porque não posso viver com um homem frio como você!
Aproximei-me dela.
– Se afaste, por favor – pediu, quase em lágrimas.
– Eu juro que mudarei – eu disse.
– Mas você não muda, José!
– Me dê mais uma chance!
– Não posso – falou, indo em direção à porta.
Foi quando comecei a chorar, depois de longos anos que não chorava. Quando ela estava na porta, falei para ela o que havia acabado de fazer. Foi um ato irracional, eu sei.
– O quê?
– Isso mesmo. Eu matei um homem.
– Por quê?
Expliquei-lhe.
Não sei por qual razão, Laura, ao fim me abraçou, e me beijou, desistindo da ideia de me deixar.
Dias depois, assumi o cargo que era do Roberto. O Claudio, não sei por qual motivo, me odiava. De vez em quando, brigávamos lá no quartel. Era quando tinha a absoluta certeza de que fiz a escolha errada, que era ele quem devia ter exterminado. E por sete anos – o nosso tempo de trabalho – foi assim. Quando fomos dispensados, saímos brigados, sem nos falar.
E mais uma vez desempregado, saí à procura de trabalho. Encontrei um, que era também com processo seletivo, e pagava melhor do que na aeronáutica. O Cláudio, por ter a mesma profissão que a minha, estava concorrendo. Dessa vez, era uma vaga apenas; e, novamente, ele me venceu. Assim, era muito arriscado matá-lo, porque no mínimo o principal suspeito seria eu. Mas resolvi fazer. Matei-o a sangue frio, e assumi o cargo.
Nunca fui preso por isso, pois nunca tiveram provas fortes contra mim. A Laura, ao saber do assassinato, perguntou se eu tinha algo a ver com o crime. Falei que não, que era apenas o Universo, o grande Universo conspirando a meu favor...
O BANQUETE
Alice caçava oferendas – era esse o seu serviço, como repórter, na igreja em que fazia parte. Era bem renumerada, e o seu programa chamava-se “Mistérios”, que tinha como objetivo mostrar como que funciona a religião pagã. Era esse o modo que evangelizava: mostrava o mal para as pessoas se conscientizarem e se converterem à fé cristã.
Procurava as oferendas em terrenos baldios, nas encruzilhadas, nos matagais, em beira de rios, cachoeiras, trilhos de trem e assim por diante. Tinha cartão de visita, o qual deixava com os moradores dos bairros por onde passava procurando. Dava recompensa, e por isso o seu telefone não parava de tocar. Num de seus dias, logo pela manhã, uma mulher ligou-lhe dizendo que viu perto de sua casa uma oferenda que a deixou bastante assustada.
– Onde?
A mulher, que se chamava dona Maria, disse o endereço.
– O que te assustou?
– O tamanho da oferenda... É enorme.
– Estou indo aí.
Desligou o telefone e ligou para uma das várias ex-mães-de-santo que lhe ajudavam. Eram mulheres da mesma igreja que a sua, que se converteram. Nesse dia, uma estava disponível, porque era o seu dia de folga do serviço.
– Vou te buscar.
– Estou aguardando.
Foi, junto com o obreiro Flávio, câmera-man.
– Como vai, Orlandina? – disse ela, ao vê-la.
– Vou bem, graças a Deus – respondeu, entrando no carro.
– A mulher me disse que é coisa feia, horrível.
– Não me assusta.
No caminho, foram conversando, e Orlandina lhe contou vários casos do passado, quando era a mãe-de-santo. Falou dos trabalhos que fazia para amarração, para o sucesso financeiro, para isso e para aquilo – Alice e Flávio foram ouvindo.
Por fim, chegaram.
– Nos leva lá? – disse Alice, para dona Maria.
– Levo sim.
No caminho, Alice deu dinheiro para a mulher.
Era num mato, debaixo de uma árvore. Alice pediu para o obreiro Flávio ligar a câmera. Ele ligou e começou a filmar a oferenda. Havia dezesseis galinhas d’ angola, bem grandes e gordas; e dezesseis garrafas de pinga. Alice pegou o microfone e perguntou para Orlandina que tipo de trabalho era aquele.
– Um banquete.
– Um banquete? – repetiu Aline, curiosa.
– Sim.
– E o que isso significa?
– Significa que a pessoa quer muito aquilo pediu às entidades.
– Dá para saber o que essa pessoa deseja?
– Nesse caso, não. A única coisa que sei é que essa oferenda não é a última deste trabalho.
– Não?
– Não. Veja que há duas aberturas, que precisam ser fechadas...
Alice olhou para a oferenda, e Flávio acompanhou com a câmera. As galinhas e as garrafas de pinga estavam colocadas de modo a fechar um oito, se não fosse as duas aberturas.
– Aliás – continuou a dona Orlandina – esse trabalho foi feito pela própria entidade, incorporado num pai ou mãe-de-santo. Então, essa entidade vai pedir outras oferendas, antes de dar a pessoa o que ela pediu...
– E dá certo?
– Geralmente, sim; mas no máximo por três meses. Quando esse prazo vence, e as coisas começam a dar errado, as entidades pedem mais sacrifícios, mais banquetes como esse. A pessoa nem sabe, mas ela está prestando culto ao demônio...
– E se a pessoa se dá conta disso e deixa de oferecer sacrifícios a eles? – perguntou Alice.
– Então eles tiram tudo o que deu à pessoa... E não só isso: o encardido fica tão encapetado, tão furioso, mas tão revoltado com a deslealdade da pessoa que passa a agir contra. Logo a pessoa fica com a vida amarrada, e tudo o que vai fazer dá errado...
– E o que a pessoa deve fazer para reverter essa situação? – perguntou Alice.
O Flávio, ouvindo essa pergunta, focou sua câmera bem no fundo dos olhos de Orlandina.
– Aí, é só o Pai das Luzes para desfazer tudo isso... Para dissipar todas as trevas... Para mandar pro inferno toda a legião que o demônio delegou para acabar com a vida dessa pessoa...
Alice, com essa resposta, disse ao Flávio que já estava bom, que ele podia desligar.
– Obrigada, Orlandina.
– De nada.
– Precisávamos mostrar isso, para as pessoas saberem com quem estão lidando.
– É esse o meu dever, é esse o meu ministério: desmascarar todos àqueles que me enganaram a vida toda...
– E o meu também, Orlandina, o meu também...
A MORTE DE CANTÍDIO
Na parede do casebre de madeira, o Jesus Misericordioso. Antes de morrer, Cantídio tossia a tosse do fim, o incêndio que não sossegou enquanto não acendeu. Recebia visitas, mas rotineira, mais preocupada com a limpeza da casa que com afetos. A velha era quem mais prestava cuidados. As filhas, todas casadas; exceto uma, a caçula. Apareciam pouco. O abandono, a solidão e a morte eram suas companheiras fieis.
– Cuidado o sereno – dizia a velha, despedindo-se.
De vez em quando um vizinho, que era crente, aparecia. Tinha fé no poder curador de Jesus, e num dia lhe chamou para um culto de cura. Entre uma tosse e outra, conseguiu levantar-se e ficar sentado na cama. Pigarreou, cuspiu no chão vermelho, olhou para a lâmpada acesa, depois para o rapaz. Lembrou-se da juventude, de quando dançava com as quengas, o cigarro numa mão e o copo de cachaça noutra.
– Não vou não, meu filho.
– Por quê?
– É tarde.
– Para Deus nada é impossível.
– Ainda que fosse, não quero.
– Velho é cabeça dura mesmo...
– Já acabou?
– Ainda não.
– Então, diga.
– Jesus te ama, arrepende-se.
– Me arrepender do quê?
Era tarde. Prisioneiro do corpo, desejou uma última noite. Na miséria, a morte não tem nome, só reclama. Judite, Catarina, Afrodite. Afrodite? De onde ela tirou este nome? Virgem Santa. Na miséria, a morte nunca clareia. Debaixo do colchão, o maço de cigarros. Fumava um e era o fim da vida aqui nesta terra. Que viesse o fim, logo! Sem a presença do crente idiota, riscou o fósforo. Deu um trago, dois, três, e jogou fora, sem conseguir ir até o fim. Depois; a dor, a imensa dor, o ar agora era uma reminiscência, uma lembrança dos bons tempos. Dor.
Sem ninguém para acudir, foi levado para o hospital somente no dia seguinte, pela manhã. Estou morto? Infelizmente não estava. Morria e seria feliz. Por que ninguém o matava? Por que não acontecia alguma tragédia? Por que ele não conseguia escorregar e quebrar o crânio? Por que não engasgava com um osso de galinha, a garganta entalada e o fim certo? Onde estão as paradas cardíacas neste momento? Os derrames? Os abraços calorosos? A vida? O seu castigo era grande: aqui se faz aqui se paga! Deus, lá no Esplendor, nada fazia, só assistia.
– Não passa de um mês.
A velha levou-o para casa.
– Cantídio...
– Quê?
– Eu te perdôo.
– Perdoa o quê?
– Tudo de ruim que você me fez nesta vida!
Abaixou a cabeça.
– Vou mandar Maria lhe cuidar por alguns dias.
– Obrigado.
E foi embora.
– Por que eu? – disse a caçula.
– Porque sim.
– E as outras filhas?
– Não podem. Tudo tem filho, marido, você não.
– Eu tenho a minha vida!
Foi, mesmo assim.
Cantídio, na cama, olhava para a filha que cresceu, alheia a ele. Mal olhava para o pai. De vez em quando, tinha vontade de abraçá-lo. Chegava perto, sentia o fedor, recuava. Voltava para a vassoura. Pensava. A certeza era unânime: aqui se faz aqui se paga. O velho, com seu câncer e seu enfisema, pensava às vezes em quebrar o orgulho, pedir perdão. Pedir perdão para quê? No que isso ia mudar? Cof, cof, cof; depois um hrum; e cuspe, e mais cuspes, o suor e a fraqueza.
– Não me arrependo de nada nesta vida...
– O quê, pai?
– Falei que não me arrependo de nada que fiz nesta vida.
– Mas devia.
– Por quê?
– Porque sim.
– Eu quero saber o porquê.
– Para a sua alma subir com menos peso.
– Besteira.
Dias antes, as últimas visitas.
– Como vai, pai?
– Do jeito que você está me vendo.
– Eu te perdôo.
– Perdoa do quê?
– De todas as coisas que você fez a gente passar.
– Mas vocês não estão vivas?
– Sim.
– E desejam a morte como desejo?
– Não.
– E por que tem o quê reclamar?
– Não estou reclamando. Só estou dizendo que te perdôo.
– Arre.
Veio à noite. A filha dormia, acendeu um cigarro. Puxou um trago, encheu os dez por cento que ainda tinha do pulmão; tossiu, soltou a fumaça. Depois, voltou para a cama, quase morto, sem a vista. Tosse. Dor. Tosse. Dor. A filha acordou. Levantou-se, e foi ver como o velho estava. Não estava. Tinha ido sabe Deus para onde. Fechou os olhos do pai, traçou o sinal da cruz, ligou para a mãe:
– O velho morreu.
No velório e no enterro, poucas pessoas.
Foi a velha quem puxou o terço....
O ABORTO.
Anita tinha vergonha do Fred. Ele dizia: vamos nos assumir? Ela respondia: não. Então, Fred perguntava: é por que eu sou pobre e você é rica, é isso? Falava que não. É por que não sou uma pessoa interessante, não é? Também não. O que é, então?, perguntava, rispidamente, a fim dela acabar logo com esse mistério.
Anita não respondia. Às vezes, quando fazia essas perguntas, ela iniciava um discurso, argumentando para terminarem. Ele nunca a deixava passar das primeiras premissas. Ou lhe dava um afeto, ou mudava de assunto, ou fazia outra coisa parecida. Ela desistia. Fred ficava feliz. Mas em nada mudava a vergonha que tinha por ele.
E a sua vergonha era tanta que nunca deixou Fred conhecer seus pais, nem mesmo seus amigos e amigas; exceto a Carla, que o conheceu por acaso, num dia em que ela encontrou a Anita bebendo com ele num bar comum. Ao vê-la, pediu para o Fred esconder-se; mas não deu tempo, e Carla viu-o, sendo apresentados depois.
Nesse dia, Anita quase terminou o namoro.
Num outro dia, Carla lhe reconheceu no centro da cidade, dizendo: você estava com a Anita naquele dia num bar, não estava?
– Estava.
– O que você é dela?
– Nada – falou.
– Mentira – disse ela.
– Mentira?
– Mentira. A Anita me falou. Vocês tem um caso.
– Ela te falou?
– Falou sim.
Ao saber disso, viu que a Carla poderia lhe dizer por que a Anita não o assumia.
– Vocês duas são grandes amigas, não são? – disse ele.
A Carla abriu um sorriso, lisonjeada.
– Ela disse?
– Disse.
– Eu não sabia...
– Não?
– Não. Na verdade, sempre pensei que a Anita apenas me tolera... Sabe, não sou tão rica quanto ela, na verdade, nem rica eu sou. Nos conhecemos quando meus pais ainda eram alguma coisa na sociedade, antes dele falir. Acho que ela continuou falando comigo por compaixão...
– Posso te pagar uma cerveja? – falou.
– Nossa! Mas não sou tão pobre assim para não dividir a conta com você...
– Tudo bem – disse ele – afinal de contas, eu também não sou tão rico assim para sair pagando cerveja para os outros.
Foram.
No bar, depois de uma meia hora conversando, perguntou para a Carla se ela sabia por que a Anita tinha vergonha dele. Sabia, mas tinha medo de magoá-lo. Perguntou-lhe se realmente ele queria saber; disse que sim, e com cuidado, falou:
– É porque você é feio, Fred.
Ficou aborrecido, ao ouvir isso.
– Muito?
– Muito...
– Só porque sou vesgo?
– Porque você é vesgo, tem a boca torta e a pele do rosto cheia de espinhas.
– Ela te disse tudo isso?
– Disse.
– Droga!
– Você disse que não ia se magoar.
– Mas me magoei.
– De qualquer forma, Fred, eu te acho uma pessoa simpática, inteligente, e uma pessoa assim pode ter a mulher que quiser...
– Posso?
– É só você querer.
– Obrigado.
– Nada. O que você precisar de mim, é só pedir.
– Está bem.
Trocaram telefones.
Depois, pagaram a conta e ela foi para um lado e ele para outro.
No dia seguinte, viu a Anita. Ao acabarem a primeira transa, num motel, deitou de lado e falou é por que eu sou feio, não é?
– O que você está dizendo, Fred?
– Você não me assume por que sou muito feio.
– Quem te disse isso?
– O espelho – falou, evitando comprometer a sua amiga.
Anita fez silêncio.
– Não é?
Mais silêncio.
– Diga!
– È Fred, é por isso...
Chorou; e, em voz alta, perguntou para Deus por que Ele o fez um sujeito assim, sem beleza exterior.
Ele não respondeu.
– Está tudo acabado entre nós – disse ela.
– Não acredito! – falou, com lágrimas nos olhos.
Depois, disse várias coisas para Anita, a fim de fazê-la mudar de ideia. Não teve acordo. Acabou ali mesmo e disse para ele nunca mais ligar. Chorou de novo, e ela deixou-o no motel sozinho, abandonado. Contudo, não foi isso o que a Anita lhe fez de pior. Pois, terminar com ele até que era perdoável, mas o que ela fez semanas depois, não tem perdão. Quem lhe avisou antes dela fazer o que fez foi a sua amiga Carla.
– Alô? – disse ela, no telefone: – É você, Fred?
– Sim, sou eu.
– Você precisa correr. A Anita está grávida de você e vai abortar.
– O quê?!
– Isso. Ela vai abortar. Nessa hora ela já deve estar na clínica.
– Que clínica?
A Carla lhe disse a clinica.
Fred desligou o telefone e saiu correndo. Na rua, pegou o primeiro moto-taxi que viu pela frente e foi. Na clinica, falou para as recepcionistas que se elas não dissessem onde estava acontecendo o aborto que ele ia denunciá-los para policia imediatamente. Ao ameaçá-las, elas chamaram a dona da clínica. Uma mulher de seus quarenta anos de idade apareceu.
– Onde a Anita está?
– Calma, rapaz – disse ela.
– Calma uma pinóia! Onde?
– De repouso. Ela passou mal, perdeu o bebê.
– Mentira! Ela abortou. Criminosos!
– Ninguém fez aborto nenhum, menino. Ela passou mal, perdeu o bebê, foi isso.
– Vou denunciá-los!
– Fique à vontade.
Não adiantava ofender uma mulher cínica como aquela.
Foi para as questões práticas.
– Cadê ela?
– Está de repouso.
– Aonde?
– Lá em cima.
– Me leve até ela!
Levou.
Enquanto iam para o seu leito, rezava para ela estar mentindo, sobre o aborto já ter sido realizado.
A Anita estava deitada, vestindo as roupas do hospital. Ao lhe ver, pediu desculpas.
– Por que; Anita, você fez isso comigo?
Não respondeu.
Ficou olhando para ela por um minuto mais ou menos, até dar vontade de sair.
Foi o que fez.
Saiu; e na rua, chorava, chorava pelo filho que nem chegou a conhecer...
POBRES DIABOS
Magrinha:
Você me pergunta quem é o Cido e quer que eu fale dele de uma maneira justa, com todo o cuidado do mundo. Mas eu digo a você que para dizer quem é o Cido não precisa de muitas palavras, de muitos rodeios, pois uma só palavra diz tudo o que ele é, e sabe qual palavra é essa? A palavra é tonto! O Cido é um tonto, coitado... Desde o primeiro dia em que eu o conheci, lá na casa onde eu trabalhava, logo percebi que ele era um tonto. Eu cheguei à mesa dele e disse: paga uma cerveja para mim? Ele pagou, sem dizer uma palavra contrária. Fiquei com dó. Sentei em seu colo e comecei a fazer carinho nele. Enquanto fazia carinho nele, olhava para o seu rosto. Que homem mais feio! Eu nunca havia visto alguém mais feio que ele. Feio de dá dó...
Depois de tomarmos umas sete cervejas, fomos para um dos quartos. Me comeu, e gostou. Passou a ser cliente, e se apaixonou por mim. Me pediu para abandonar a minha vida de mulher sem futuro e morarmos juntos, no meu barraco. Aceitei, sem avisar para ele sobre o Tião, meu marido, que na época estava no presídio. Ele foi para a minha casa e ficou morando eu, ele, e a minha filha, a Jana. A Jana não gostou nada, nada dele. Mas filho da gente não pode decidir nossa vida, não mesmo. Coloquei o Cido dentro de casa e ele passou a me ajudar, porque era para isso que deixei ele vir morar comigo. Colocou piso na casa, carpiu o matagal, e não deixou faltar comida. Nem comida nem a nossa cervejinha no final de semana. Até aparecer o Tião, e ele teve que sair do barraco.
Cido:
A Magrinha é atraso de vida; ela só quer o meu dinheiro, aquela bandida. Um dia ela me pediu dinheiro para a filha dela viajar, visitar a avó. Dei, pensando que ela estava falando a verdade. Era mentira. Passei na casa dela e vi a filha dela lá, brincando na rua com as amiguinhas. Cadê sua mãe?, perguntei para ela. No bar, respondeu. Fui no bar. Peguei ela no flagra, bebendo cerveja com o meu dinheiro. Perguntei da filha e ela disse viajou. Viajou nada, eu falei. Você está me chamando de mentirosa, Cido? Eu disse mentirosa e sem vergonha. Você só quer saber do meu dinheiro, não está nem aí para mim, sua pilantra. Briguei com ela mas logo em seguida perdoei, sentei ao seu lado e bebemos cerveja o dia todo. Meses depois apareceu esse marido dela, um tal de Tião.
Estava na penitenciária máxima; é bandidão, o cara. Eu tive que sair da casa dela e voltar para a minha família. Eu odeio a minha esposa, aquela feiosa sem coração. Meus filhos estão grandes. Eu falo para eles: parem de se preocupar com a minha vida, já criei tudo vocês, me deixam em paz! Mas não tem jeito. Todo o mundo foi contra eu ficar com a Magrinha. Meus conhecidos falaram: larga mão dessa biscate, Cido, isso não é futuro para você não. E quando eu abandonei a minha família para ir morar com a Magrinha, eles disseram pare com isso Cido, você tem a sua casa, a sua esposa, a sua família, pare com isso!
Mas quem disse? Ela tem um negócio na chana que pega o nosso pau assim e puxa pra dentro. Uma coisa doida, doida mesmo. Você já pegou uma mulher assim? Já? E não perdeu a cabeça por causa disso? Não? Meu Deus, que tipo de homem você é? Normal? Você é engraçado... Então, como eu estava dizendo, apareceu esse marido dela que estava preso na cadeia. Bandido, o cara. Saí perguntando para algumas pessoas se matar um ex-presidiário dá problema. Alguns falaram que sim e outro falaram que não. Os que falaram que não disse que matar um ex-presidiário a polícia não vai nem querer saber quem foi o assassino. Eu acreditei nisso. Comprei um revólver e fui matar o bandido. Chegando na casa dela, ele estava lá. Não tive coragem. Voltei. Os dias passaram e então eu resolvi pagar alguém para matar ele. Não encontrei. Fui largando de mão. Até o dia em que dei de frente com ele na rua. Ele veio para o meu lado, estudando onde me bater. Eu estava com revólver na cinta. Ele veio rápido, me bateu no peito e me derrubou no chão. Quando vi, estava com o pescoço debaixo do pé dele. Ele me sufocou, dizendo que ia me matar ali, naquele instante. Tentei sacar a arma, mas não consegui. Depois, falei para ele que não queria mais saber da Magrinha; nem para beber cerveja do lado de vitrola. Acreditou. Tirou o pé do meu pescoço e eu levantei. De pé, pensei em pegar o revólver da cinta para matar ele mas não tive coragem. Nunca tive coragem de matar alguém. Ele virou as costas. Foi embora.
Depois desse dia, jurei que ia no terreiro, pagar para o pai-de-santo para colocar no rabo dele sete exus. Juntei dinheiro e fui. Já que não tinha coragem de acabar com a vida dele de um jeito, resolvi fazer de outro. No terreiro, falei para o capa-preta: eu quero que você coloca sete exus no rabo dele. Eu quero ver esse homem em ponta de boteco, bebendo e caçando briga com os outros. Eu quero que ele fique falando sozinho na rua, com a voz alta, para todo o mundo ver que ele está doido, que nem o Sabiá daqui da vila. Eu quero que ele fique assim e a polícia leve ele de volta lá para a gaiola de urubu onde ele estava. A Magrinha tem que ser minha, não dele.
Estou esperando isso acontecer. Já fiquei sabendo que ele anda bebendo e caçando briga em ponta de boteco. Estou aguardando ele falar alto na rua, que nem o Sabiá. E quando ele voltar lá para a penitenciária – e eu sei que os exus vão fazer isso – vou morar com a Magrinha, a mulher que esse pobre diabo aqui ama.
Tião:
Eu fico pensando o quê um homem como o Cido têm na cabeça. Só pode ser minhoca, de certo. Eu já vi muitos homens desmiolados; eu mesmo sou um deles, mas um homem como o Cido nunca vi. Porque quando uma mulher é muito vagabunda, como a Magrinha é, qualquer otário cai o fora. Eu só não caio o fora porque não tenho pra onde ir: a casa é dela; os móveis são dela; e a comida que eu como é ela quem ganha do governo por obrigar a filha dela ir para a escola. Em vez em quando ela saí por aí atrás de alguns homens que pagam para comer ela. Eu não sei como eles tem coragem de pagar. Deve ser por causa da buceta dela, que puxa o nosso pau pra dentro, como se tivesse uma mão lá dentro – que puxa e volta, puxa e volta, parecendo uma punheta. Você já viu uma coisa dessa? É muito difícil encontrar, e por isso que quando um homem encontra uma mulher dessa fica louco, como esse Cido aí. Eu; por exemplo, quando estava lá em Serra Pelada, no garimpo, tinha um monte de mulher desse jeito, que puxava o nosso pau para dentro com a buceta. Eram tudo umas vadias. E vadia, para mim, não vale nem a nossa moeda mais barata no bolso.
Fora isso, que valor tem essa mulher? Feia; tem os dentes podres; é magricela, os peitos são caídos; enfim, é de amargar, é de jogar fora. Agora esse Cido aí, que é apaixonado por ela, devia colocar na cabeça que não existe só uma Magrinha no mundo; que tem dentro da buceta uma mão que pega o pau da gente e faz a gente ficar louco, não. Tem um monte de mulher por aí assim... Na zona tá cheio delas... Na verdade, ele devia fazer que nem eu: não dar o mínimo de atenção para uma vadia dessa, porque ela não merece. Como eu já disse, eu só fico com ela porque não tenho para onde ir. E se eu não dou uma de homem bravo, esse Cido aí me pega e me joga no olho da rua. E quem quer ficar dormindo à céu aberto, no relento, só com as estrelas para contar? Eu não quero! Por isso que não dou mole. Se ele vir aqui, eu puxo a minha peixeira e vou em cima, sem dó. E; se for o caso, furo o desgraçado, nem que eu volte para a cadeia de novo...
Magrinha:
O Cido devia entender que eu amo o Tião; que ele é só quando eu quero tomar a minha cerveja e não tenho dinheiro. Eu não gosto do Cido, eu gosto do dinheiro dele, só isso. No dia em que o Tião saiu lá da gaiola de urubu, eu disse para o Cido: Cido, eu amo ele. Eu gosto de ficar com você, de tomar cerveja com você, só isso. Volte para a sua família, ela que te ama de verdade. Já eu, como posso dar amor a você quando nessa vida o meu amor é o Tião, hein? E ele, o Cido? Você pensa que ele voltou para a família? Ficou uns dias lá e assim que dei conta ele estava morando perto do meu barraco, num quartinho, que alugou para ficar perto de mim.
Num dia, ele me levou lá no quartinho dele. Eu antes pedi um dinheiro, falando que estava com vontade de tomar cerveja fazia mais de uma semana. Ele disse e aquele seu marido bandidão? Não te dá dinheiro para a sua cerveja, sua sem vergonha? Eu falei: o Tião não dá dinheiro nem para pagar a luz; o máximo que ele pode fazer é armar uma gambiarra quando cortam a nossa energia e um gato quando nos corta a água; só isso. Agora dar dinheiro, coitado, ela não consegue nem para pagar as pingas que toma. Mas mesmo assim eu amo o Tião; ele é o primeiro, o resto é resto, homem que para mim vale somente o dinheiro que tem...
Agora, se o Cido quiser ficar comigo, eu fico com ele, sem problema algum, conquanto ele não queira que eu largue meu marido. Basta ela pagar uma cerveja atrás da outra, até eu ficar bêbada, porque não tem coisa melhor neste mundo que tomar cerveja, têm? Se tem eu não sabia. Sexo? Sexo com o tempo enjoa, se torna algo como cagar, mijar, você não acha? Não? Você é novo, quando ficar mais velho vai concordar comigo. Por enquanto, tudo é novo, tudo é novidade. Eu também pensava como você... Ah... Falando nisso, eu até agora não entendo por que você quer saber tanto sobre o Cido; afinal você é um desses desocupados, que não fazem nada na vida? Um escritor? E você vai escrever sobre nós? Pra quê? Pra botar dentro de um livro? Deixe disso, rapaz! Perda de tempo. Por que você não escreve sobre pessoas interessantes? Nós somos tudo uns pobres diabos; não passamos disso! De pobres diabos e nada mais...
Eu:...
Glauber da Rocha
Dona Isaura gostava de reclamar. Era mais do que um vício. Sabia que as palavras têm poder, mas sempre que lhe vinha o sofrimento; quando as coisas começavam a dar errado; quando a dor era maior que o prazer, ela desatava a falar com negatividade, dizendo palavras que provocavam em seu filho duas reações apenas: revolta ou desânimo.
A cantiga de sua lamúria era a mesma, eterna e imutável: que eu trabalho feito uma escrava; que patrão não dá valor; que tudo cai sobre as minhas costas; que eu não tenho sossego; que ninguém me ajuda; que antes eu fosse uma desnaturada; que eu não tenho vida; que...
O filho, por mais que lutava, não saía do lugar. De emprego em emprego, nenhum era bom, tudo quase a mesma coisa: quando não era o patrão que não assinava a carteira, era o patrão que atrasava o pagamento; quando não atrasava o pagamento, exigia muito; quando não exigia muito, não promovia; e quando não promovia, mandava-o embora.
Desempregado, o aluguel atrasava, as contas acumulavam e dona Isaura dizia: vamos ficar no escuro, vamos ser despejados, vai faltar o que comer, por que tudo dá errado?
E assim se fazia: o dono da casa pedia a casa; a luz cortava; a água cortava; a comida acabava. Com todos no escuro, restava a alternativa da violação:
– Vai lá, para ser eletrocutado.
O filho pegava a escada, subia lá no poste do padrão, tomava choque, os fios davam curto circuito, um fogaréu acendia, e ele pulava lá do alto da escada, se jogando no chão, dizendo: aí, meu Deus, não quero morrer agora não!
– Viu, não falei? – dizia ela.
– Também? Rogando praga – falava ele, mais pálido que um palmito.
Ele chamava algum eletricista, para fazer uma ligação clandestina, ilegal. Ela dizia: vão descobrir! Não dava outra: dias depois, a campainha elétrica aparecia, via o engano, dava multa, processava.
– Como foi que você falou? Que iam descobrir?
Outra briga. Dali a pouco, chorava; porque ela, a mãe, não queria o mal para ninguém; que ela, a mãe, coitada. De fato, não queria o mal. Queria o bem, isso sim. Mas na hora da dor, do sofrimento, comparando o que podia ser com o que era, falava: droga, não sei o que faço dessa vida, dia e noite, noite e dia, tudo a mesma coisa, tudo eu, tudo eu, tudo eu, até quando, oh meu Deus? Até quando? Não tem ninguém! Não tem um filho de Deus!
O nome de Deus não saia da boca dela, mas perdia para a frase: ai que ódio! O filho, hora ou outra, sentia a necessidade de se colocar a favor dela; pois, só podia ser isto o que ela queria, que o filho ficasse a seu favor. Deixava de pensar em si e ouvia os pedidos da mãe. Arregaçava as mangas; mas, logo ela dizia alguma coisa que lhe fazia sair de perto, depois de uma boa briga. Ela, em seu canto, vitimada, derramava-se em lágrimas, que não era isso o que queria em sua vida...
Tinha mil planos, o filho. Na hora da raiva, tirava a mãe deles. Na hora da calma, colocava-a de volta. Depois, ia para a realidade, já prevenido. Fazia o teste, colocava-a à prova: sempre o mesmo! Nunca muda? As namoradas: deixe sua mãe, vamos viver a nossa vida. Ele esperançava: ela muda.
Seu João.
Seu João é outro que não tem freios na língua. A única diferença entre ele e a dona Isaura é que, se numa tempestade esta profetiza que o barco vai afundar, pelo menos o João diz que não; nem que para isso jogue alguns tripulantes no mar. Bruto e estúpido, com a boca porca e cheia de maldições, não mede palavras para falar com os filhos e empregados, de tal forma que até hoje não se encontra um funcionário que fale bem dele – e vice-versa.
O filho mais velho ouvia as duas versões, e ficava do lado deles: quem agüenta o seu pai?! Vive nervoso, quebrando tudo! Ele chega aqui, joga a ferramenta, fala merda, não aceita uma falha! Por isso que ele não vai para frente! Por isso que ele vive de aluguel, aquele homenzinho infeliz e amargurado!
Não assinava carteira, não respeitava quem trabalhava para ele, não tinha paciência e se achava melhor do que os empregados. Os filhos, todos vagabundos. Nenhum prestava. Na idade dele, já tinha carro, casa, moto, mulheres. E eles têm o que nesta vida? Não tem nada! São inúteis, umas imundices!
Os filhos, mariposas em volta da luz, pássaros de asas quebradas, vivendo sob o teto da maldição.
Ainda assim, o filho mais velho tentava mudar o pensamento do pai. O irmão mais novo olhava para ele com desprezo: só mesmo sendo um burro para perder tempo com outro burro! O irmão mais novo desistira há tempos, quando brigava, brigava, e nada de bom acontecia; onde nessas brigas o mais prejudicado era ele mesmo no final, que acabava num bar, bebendo até cair.
O mais velho, acreditava. Cego ou visionário, acreditava.
Num dia, perguntou a um psicólogo: as pessoas mudam?
– Não. Só melhoram. E olha lá...
Cego ou visionário, mesmo assim ainda acredita na mudança do pai, coitado...
Seu Gilmar.
Se numa tempestade a dona Isaura profetiza o naufrágio; e o João joga para fora os outros tripulantes se preciso for para firmar o barco; o seu Abílio aproveita a situação e se joga logo no mar... Assim que acorda, não vê sentido em levantar, e só levanta porque não tem muito sentido também ficar dormindo. No elas por elas, é melhor sair da cama, porque o corpo fica dolorido e nada pior do que a dor.
A mulher com quem casou separou-se, cansada de ouvir a palavra “difícil”. Os filhos, quase não o visita, para não ouvir palavras de desânimo. De vez em quando, seu Abílio toma remédio para anemia. Reclama da falta de uma mulher em sua vida mas não procura, quase não sai de casa. O filho mais velho é imensamente gordo; e a filha mais nova, apesar de bonita, vive em depressão.
Um funcionário dele, com a cabeça cheia de tanto ouvir as lamentações, disse-lhe certa vez:
– Gilmar?
– Diga.
– Você já experimentou agradecer a Deus hoje, por todas as graças que ele te deu?
– Que graças, se na minha vida só vejo desgraça?
– A graça de você ter saúde, ter a vida, um teto para cobrir a cabeça, esse restaurante que pode sempre te desenvolver moral e intelectualmente... Tanta gente que não pode andar, não pode ver. Já agradeceu a Ele por isto, por poder andar e enxergar bem, filho de Deus?
Dias depois, esse funcionário ganhou as contas.
Gilberto.
Gilberto casou com uma mulher que francamente! Se a dona Isaura, na tempestade, diz que o barco vai afundar; e seu João diz que não; e o seu Abílio se atira no mar antes do resultado final; sua esposa fala: será? Será que vai afundar ou não? Gilberto, em alto mar, muda as velas e coloca os marinheiros para ajudar. Enquanto isto, conversa com a tempestade, a fim de convencê-la a dar trégua. Tem fé, e sempre vence.
Acredita que as palavras possuem poder. Se a pessoa diz a, mesmo querendo b, acontece a. E depois Deus criou o mundo através das palavras: e faça-se luz, e a luz se fez. Por isto, quando vê algo que quer, diz: eu vou comprar. Quando quer vender, diz: eu vou vender. Quando deseja ser, fala: eu vou ser. Quando traça uma meta, afirma: eu vou alcançar, e vencerei! No fim, sempre compra, vende, e vence – Gilberto, porque sabe separar a semente boa da má, sempre sai vitorioso.
A sua mulher; entretanto, nunca evolui. Casada de ser repreendida pelo marido, ainda não aprendeu a plantar. Não sabe esperar amadurecer e na colheita é um desastre: reclama do pouco e chora pelo muito. A mulher do Gilberto, coitada, ainda não aprendeu a dizer eu vou conseguir; tudo vai dar certo; no final sairei vencedora, com fé em Deus e confiando em mim. A mulher de Gilberto, francamente, deixa muito a desejar...
O filho de dona Isaura.
As pessoas mudam, acreditava. Precisava ensinar a mãe a soletrar o bem, repreendê-la nas maldições.
Necessário era cortar o mal pela raiz.
No entanto, sempre que usava da correção, o orgulho falava mais alto, e dava em briga. Tinha fé que um dia ela parasse com as maldições e murmúrios e passasse para as benções e agradecimentos. Um pastor, ao ouvir pacientemente o seu drama, lhe disse: já passei por isto.
– Já passou? – repetiu, iluminado de alegria.
– Já. Mas no meu caso era com a minha esposa.
– Ah é? E o que você fez?
– O que fiz foi o seguinte. Eu estava na frente da televisão, a minha esposa para lá e para cá. Eu já estava farto, não agüentava mais. Lembrei das palavras do meu pastor daquela época, levantei-me, falei para minha esposa: daqui a sua mão. Ela deu, e eu disse: espírito da lamúria, da miséria, da maldição; eu, em nome de Jesus, te dou uma ordem, que você pegue todas as suas coisas e vá embora, pro diabo que te carregue infeliz!
– O espírito foi?
– Demorou, mais foi. Você precisava de ter visto a briga. Lutei com ele uns dez minutos, mais ou menos. Mas no final, Jesus venceu. Jesus sempre vence, meu filho.
Não ia fazer isto, nem com a sua mãe nem com demônio: era melhor doutriná-los. Passou a dizer: você já agradeceu a Deus hoje, pela vida? Por ter onde morar? Por ter duas pernas, e não ser uma paralítica, uma paraplégica? Já agradeceu por ter visão, e não ser uma cega? Não tem medo do Senhor castigar?
A partir de então, criou vergonha, e cessou com as reclamações e com os murmúrios. E a vida, ah, a vida ficou bem melhor, tanto para ela quanto para o filho e para o demônio, que também aprendeu o bê-á-bá...
A FARSA
Tinha que ser uma mulher mais bonita que a Valéria, e mais alta, para ela sentir-se inferior. Que tivesse o corpo bonito, sexy, os seios um pouco menor que os da Valéria e as pernas mais grossas, porque eram esses dois lugares que ela sentia-se menos satisfeita. Tinha que ser, também, uma mulher inteligente, que sabe se comportar, mostrar espírito, saga, cultura, pois a Valéria não possuía nada disso.
– Aí fica difícil –, disse Carlos.
– Por que? –, falou Nelson, da boca para fora.
– Mulher assim não se encontra em qualquer lugar.
– Você acha que não é capaz de encontrar uma assim?
– Sexy, bonita, e inteligente sim.
– E espirituosa, culta?
– Não.
– Quer desistir?
– Só se não me chamasse Carlos.
Carlos era capaz, desconfiar disto era uma ofensa. Tinha uma hombridade a honrar. Não era fracassado. Vivia rodeado de mulheres bonitas, comemorando vitórias. Por isso Nelson pediu a ele, e não para outra pessoa. E tinha que ser logo, porque queria ir embora o quanto antes.
Nelson queria ir embora porque não tinha mais nada que fazer na cidade. A Valéria acabou com ele. Ia ser padre, estava no seminário há cinco anos, e faltavam apenas dois para ser ordenado. E ela, por diversão de adolescente, o desviou. Apaixonado, Nelson pediu dispensa do seminário. O reitor avisou-lhe que estava se transviando. Não deu ouvido. Saiu. Alugou um apartamento perto da casa da Valéria e prosseguiram o namoro por dois meses apenas. Assim que começou a falar em casamento, ela terminou o romance e foi rir com as amigas.
A notícia espalhou-se e Nelson sentiu-se envergonhado, derrotado; pois, todos da congregação, da igreja e do bairro ficaram sabendo que foi ela quem terminou. Para a maioria essa notícia foi a melhor do ano, principalmente para seus ex-superiores, que viram nisso uma esperança para tê-lo de volta para a ordem. Convidaram-lhe para voltar, recusou. Quis dar a volta por cima, e tentou reconquistá-la. Tentou diversos romantismos; mas nada adiantou: por mais que fazia, ele só conseguia afastá-la cada vez mais.
Não obstante, quanto mais fracassava na tentativa de tê-la de volta, mais frágil ficava. Quando foi ver, já estava se preocupando excessivamente com o que os outros pensavam sobre ele e sua vida. Só de pensar, ficava aflito. Calculava consigo: se eu voltar para a casa de meus pais, esse povo daqui vão me ter como um derrotado; se eu ficar, e sem a Valéria, eles me verão como um derrotado também; se eu sair de bermuda, vão ver as minhas pernas; se eu não fizer a barba, dirão que estou desiludido; se eu não fizer festa, dirão que estou de luto; se não sair de casa, falarão que eu morri; e assim por diante, no caminho exato da neurose e da loucura...
E os meses foram passando e ele não conseguia de maneira alguma a Valéria de volta: a moça era mais cruel que uma modelo no topo das mais bonitas. Com isso, não era a melhor opção continuar vivendo na mesma cidade em que ela, onde todas as pessoas que o conhecia sabiam de sua derrota, de seu fracasso, de sua decepção amorosa e desilusão sobre a vida. Era demais para ele. Por causa disto, resolveu que ia embora, para nunca mais voltar, nunca.
Antes de ir, teve uma idéia, a de encontrar uma mulher melhor que a Valéria, para todos saberem que ele deu a volta por cima: era a sua honra que estava em jogo. Porém, não era sedutor. Procurou aqui, ali, e nada. Nenhuma mulher queria saber de um homem desiludido como ele. Até que teve outra idéia: a de pedir para o Carlos que lhe arranjasse uma acompanhante, e pagava bem para isso...
– Mas isso não é uma farsa? –, perguntou Carlos.
– Não tem problema. Para quê uma farsa maior que a de passar por santo sem ser?
– Quem faz isso?
– A maioria daqueles padres pecadores, raça de víboras!
Carlos, apesar de achar um absurdo à idéia de arrumar uma suposta namorada para o colega, ao mesmo tempo achou excitante. Ficou pensando com qual mulher falar: alguma de suas amantes? Alguma de suas amigas? Quem? Qual? Ficou pensando e logo veio vários nomes em sua mente. De todas elas, era só escolher, porque todas se submetiam prazerosamente à suas vontades. Mas quem? Ficou pensando, sem contudo decidir. Em casa, como não conseguia decidir qual mulher que iria escolher para a farsa, resolveu dar uma volta de carro, para relaxar.
E eis que andando nas ruas, ao passar por uma esquina viu uma prostituta muito bonita, fazendo ponto. Era uma das mulheres mais lindas que seus olhos exigentes já viram. Era bem mais bonita que a Valéria. Se duvidasse, era mais bonita que a sua própria namorada! Tinha os olhos verdes, a pele bronzeada, o cabelo fio reto, castanhos; os braços pequenos, a cintura fina; e principalmente: ao contrário da Valéria, tinha os seios médios e as pernas grossas...
Parou o carro.
Perguntou quanto que era o programa. A prostituta aproximou-se do carro, abaixou-se e disse que cinqüenta.
– Cinqüenta? –, repetiu ele.
– Cinqüenta –, disse ela mais uma vez; e, olhando dentro de seus olhos, falou: – Mas já vou logo avisando que não sou mulher, tá benzinho? –, disse, num tom de voz sensual.
– O quê?! – exclamou ele.
– Isto mesmo que você ouviu. Por que o espanto? Parece mesmo que eu sou mulher de verdade? –, perguntou o travesti.
Ficou perplexo.
Desligou o carro e saltou, indo para perto dela; ou melhor, dele. Ao lado dele, viu que eram da mesma altura. De perto, pôde constatar que o travesti era mais bonita ainda. Ninguém, na face da terra, diria que ela era ele.
– Minha nossa... –, falou, embasbacado.
– Que foi?
– Eu conheço um travesti a quilômetros de distância; mas posso jurar por Deus que pensei que você fosse uma mulher –, disse.
– Mas não sou –, falou, rindo.
Carlos ficou olhando para ele. O travesti não era um travesti: era sim uma linda mulher, perfeita, delicada, charmosa, sexy. Por isso, duvidou que algum homem no mundo pudesse saber que fosse um travesti sem que ele falasse. Foi nesse momento que, a fim de colocar à prova a sua crença, lembrou-se do Nelson: era tudo o que ele queria... Ao lembrar-se do amigo, falou a história para o travesti, perguntando no final se ela, ops!; ele, topava fazer o serviço.
Topava.
Carlos colocou o travesti dentro do carro e o levou até a casa do Nelson. Este, ao vê-lo, ficou encantado.
– Serve? –, perguntou para o Nelson.
– Serve sim, como se não?
– Mas só tem um probleminha... – disse ele.
Nelson arregalou os olhos, olhando para o travesti; que por sua vez olhou para Carlos, para ver o que ele ia falar.
– Ela tem tudo o que você quer... É bonita, sexy, inteligente e esperta. Só não sei se ela é culta. Tem algum problema?
O travesti, assim que ouviu o Carlos dizer que ela talvez pudesse não ser culta, sentiu-se um pouco ofendida, quero dizer, ofendido. Mas com a resposta de Nelson, não levou à sério essa pequena afronta.
– Mas é claro que não... – respondeu Nelson, rindo.
No domingo, Nelson foi com ela; ou melhor, com ele, à missa. O travesti parecia uma mulher de seus vinte anos de idade, no máximo. Estava vestida com roupas comuns, que o próprio Nelson comprou, de acordo com seu plano. Na missa, todo o mundo ficou olhando para eles dois. No final da celebração, Nelson fez questão de apresentá-la; isto é, apresentá-lo, como namorada. As pessoas ficavam encantadas com ela: tinha a voz suave, feminina, o comportamento decente, com ar de moça de família, e falava com facilidade, sem timidez ou receio. Todos que conheciam o Nelson, até mesmo os padres, rodearam a moça, ops!, o moço.
– Que moça linda! –, diziam.
– Sou mil vezes ela que a Valéria –, falaram também.
– Ela parece ser mais inteligente, mais cuidadosa, mais bela –, disse um.
– E mais madura –, disse o outro.
– É assim que tem de ser, Nelson –, alguém falou também.
E comentários daí para adiante.
Nelson, enquanto ouvia esses elogios, ficava todo risonho e beijava o travesti na boca, sem saber o que de fato estava beijando. Carlos, quando via os dois se beijando, ria prazerosamente. Nelson, pelo fato de não suspeitar o que estava acontecendo, acabou até mesmo ficando apaixonado por ela, quero dizer, por ele. Pediu a moça; ou melhor, o moço, em namoro. Disse que já havia esquecido a Valéria, que ela foi à responsável por isso. A moça sentiu-se lisonjeada, mas falou que tinha namorado. Nelson ficou mais uma vez arrasado; e, ao invés de voltar para a sua cidade com o coração machucado pela Valéria, voltou com o coração apaixonado pelo Ricardo...
VILAS
Olá, minha irmã, estou mandando este e-mail para te contar como estão as coisas por aqui. Mudamos da vila Planalto para o bairro Aero Rancho, porque finalmente saímos do aluguel. Agora, não sei se estou feliz ou triste. Falo assim porque se por um lado não precisamos mais desembolsar uma grana preta para morar num bairro central, por outro lado estamos morando bem longe do centro; e o pior: numa casa pequena, sem reboque, feia, um moquifo.
Está certo que o Adão vai reformá-la mais para frente, e está pensando inclusive em fazer um puxadinho; mas nada comparado com a casa em que morávamos, com dois quartos grandes, sala grande, banheiro grande, que nem desses de hotéis. Estou sentindo a diferença, irmã, tanto que às vezes me pego chorando, com vontade de separar do Adão, que está adorando viver aqui no Aero Rancho, por causa dos amigos que fez e que são muitos, e que ele considera como gente verdadeira.
Quando ele fala isto, Ana, ele leva em conta os nossos vizinhos da vila Planalto. Lá ninguém é amigo de ninguém, e o sorriso falso forçado na cara na hora de cumprimentar é indisfarçável. Ninguém dizia: oi vizinho. Diziam oi, mas o vizinho nunca era usado. Ao contrário daqui, que é vizinho para lá e para cá. Aquele povo, Ana, lá da vila Planalto, são todos metidos, e só ficaram amigos da gente quando viram o caminhão de mudança com os nossos móveis dentro. Foi quando falaram com a gente, dizendo: vão mudar, é?
Adão ficava revoltado com esses descasos. Dos dois anos em que moramos lá, não fizemos um amigo sequer! Agora, agora Adão acha que está no paraíso, com tanto vizinho para lá e vizinho para cá, sempre dispostos a tudo. Até aí tudo bem, Ana, acho até normal ser feliz com a humildade dos outros. O problema é que ele incorporou, do dia para noite, todos os costumes daqui. Se lá ele andava sempre bem vestido, e muitas vezes até de terno e gravata, aqui ele anda de qualquer jeito, com chinela havaiana no pé, a camiseta sobre o ombro, um short do São Paulo e a barriga à mostra.
Ele, Ana, entrou para a turma dos barrigudos, que são os homens que ficam na frente do bar bebendo cerveja e exibindo a barriga lustrada e redonda: se antes de chegar aqui ele tinha uma barriga esbelta, agora ele se parece com uma mulher grávida de nove meses, minha irmã. Eles têm até um time de futebol, que se chama: “O Time Do Seu Barriga”. De quinze a quinze dias, eles jogam bola no campinho daqui, que numa parte tem grama e noutra não tem, apostando sempre uma, duas e até três caixas de cerveja. Já pensou?
O que me chateia mesmo, Ana, é que ele começou a me tratar como os amigos dele tratam suas mulheres. Quando eles assam uma carninha aqui em casa – é assim que eles falam, Ana, “carninha”, e não “churrasco” – ele começa com as piadinhas de mau gosto, dando tapas na minha bunda na frente de todos eles, dizendo anda patroa, vai lá pegar cerveja que o copo secou. Eu fico puta da vida com isso, mas a raiva logo passa; ela sempre passa como sempre passou.
Olha, Ana, como são as coisas. Até de religião ele mudou. Se antes Adão gostava de ir à missa, agora ele vive em centro de macumba, em terreiros de Umbanda e Candomblé. É um tal de Exu para lá e Exu para cá que eu não compreendo. Para falar a verdade, Ana, eu tenho medo. Ele fala que Exu nada tem a ver com o demônio, que ele é confundido com o coisa ruim por ser brincalhão, por falar como falamos, usando gírias e às vezes até palavrão.
Adão diz que ele é o Orixá que está mais próximo do ser humano, e fala deste jeito para ganhar a nossa simpatia, que quando lhe chamam de demônio ele concorda, porque não gosta de perder tempo com gente ignorante. Que o Exu é, na verdade, uma espécie de anjo, que ajuda as pessoas em seus negócios, no amor e etc. Eu não sei não, Ana, se isso é verdade, mas sei que o pastor lá da esquina vive gritando contra esse tal de Exu. É por isso que eu fico com raiva de ser tão ignorante e preguiçosa. Se não fosse isso, Ana, iria estudar, ah se iria.
No mais, Ana, está tudo bem. Ou melhor, penso que está tudo bem, fora tudo isso que te contei. Para falar a verdade, Ana, está bem sim, se visto que muita gente não tem nem onde morar, nem o que comer; que não tem saúde, e sofre por falta de tudo. Ainda assim, Ana, vou ver se aperto o Adão para ver se ele reforma logo essa casa; e também, se ele para um pouco de beber cerveja, e diminui a barriga, que já está de fazer vergonha, Ana...
NA PELE DO NEGRO
“A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!”
Jorge de Lima.
Jorge de Lima.
– Eu seria feliz se fosse surdo – disse-me o Zulu, à mesa do bar. – Mas como não sou, tenho que engolir: se não é o meu pai me aporrinhando é o meu irmão; se não é o meu irmão é a minha mulher; se não é a minha mulher, com seu nervosismo de botar qualquer um doido, é a minha sogra; se não é a minha sogra, aquela velha que só sabe falar mal dos outros, são as piadas de mau gosto, como por exemplo, a de que se o preto não caga na entrada ele caga na saída... Ah, se eu fosse surdo...
– Não fale isto –, disse eu; – Tem tanta gente surda neste mundo que daria tudo para poder ouvir, Zulu –, falei-lhe.
– Ah, é?! Problema é deles! Porque no meu caso, se eu fosse surdo tudo seria melhor –, prosseguiu dizendo. – Com certeza jamais pegaria ódio daquele filho duma cadela do careca e jamais teria saído do seu lava-jato, aonde além de trabalhar feito um negro antes da abolição ainda por cima era humilhado; pois, o filho duma cadela me chamava do que bem entendesse na frente de todo mundo: ô lona de barraco de sem-terra; ô picolé de piche; ô frango de macumba; ô pau de fumo; e, quando eu fazia uma cagada ( e preto não pode fazer cagada alguma que os filhos duma cadela já montam em cima) o desgraçado dizia: eu tenho raiva é de quem cortou o rabo deste macaco e ensinou ele a falar! Não, se eu fosse surdo, jamais pegaria ódio da cara dele e não faria as cagadas que fiz, e ninguém iria me tratar como me tratam agora, sem respeito algum, já que para todos eles eu não tenho juízo algum na cabeça e nunca vou ter...
Tive que interromper o Zulu, depois dele dizer tudo isso; afinal, o pai dele e o irmão tinham um escritório de contabilidade, ganhavam bem: era inconcebível ele trabalhar num lava-jato, ainda mais do careca. Perguntei:
– Por que diabos você foi trabalhar lá no lava-jato do careca?
– Na época que entrei no lava-jato do careca – disse ele – foi quando fugi de casa, porque lá não dava mais para viver. Eu queria fazer as minhas coisas de rapaz e meu pai e meu irmão me repreendiam que nem pastor repreende demônios, como se eles nunca foram rapazes na vida. E além do mais, quando queria dinheiro para sair, eles não davam. Eles tinham um mundo de dinheiro e não davam um centavo para o negro aqui gastar com as suas negras, nenhum centavo! Meu pai e meu irmão tinham fregueses para tudo quanto é lado na cidade, dinheiro não fazia falta. Mas... Ia eu pedir dinheiro para ver uma coisa... Não davam! O que me davam era serviço para fazer... Me mandavam atravessar a cidade, e de bicicleta ainda, para levar um documento à algum de seus clientes. E; quando voltava, ansioso para receber uma grana, cansado de tanto pedalar como se tivesse sempre uma voz atrás de mim dizendo: pedala, infeliz!; o quê ganhava era um vai tomar banho Zulu, você está fedendo...
– Nossa, disse eu.
– Não era motivo para se revoltar? De fumar tudo quanto é tipo de coisa; de beber tudo quanto é tipo de bebida; de injetar na veia tudo quanto é tipo de droga; de se tatuar com as imagens do demônio; de sair com travestis e virar bicha só de pirraça? Se fizesse, estava absolutamente no meu direito! Mas não fiz, porque nunca gostei de fumar, de beber, de drogas, tatuagens, bichas e piorou travestis. O que gostava era de fazer as minhas molecagens, de levar as minhas negras para um motel; não por mim, mas por elas, que sempre diziam Zulu meu amor, me leva num motel, já estou cansada de amar você nesses matos cheio de formigas para picar a bunda da gente! Ou então: Zulu, eu nunca fui ao cinema, como vão as minhas amigas, você me leva? Ou: Zulu, eu nunca levei dinheiro que se preze quando o pastor pede no ofertório; você me dá um dinheiro decente, não moedas que se joga em fontes, dinheiro mesmo, tipo dez reais? Mas eles não davam dinheiro para mim. Por isso eu saí de casa e fui me virar sozinho, a fim de ter o meu próprio dinheiro.
– Está certo.
– Fora de casa, procurei emprego. Consegui esse, com o careca filho duma cadela. Já no primeiro dia ele começou a me xingar. No começo, até que tolerava. Mas depois os outros começaram a fazer o mesmo que ele. Quero dizer, os funcionários orelhas secas que nem eu. Daí teve um dia que não agüentei e estourei, partindo para cima de um deles quando disse que preto é uma bosta. Bosta é o que saí do seu cú, seu merda!, eu falei. O quê?, perguntou o sujeito, que era o dobro de mim. Isso mesmo que você ouviu, ou quer que eu repita?, perguntei, provocando uma briga. Repete, se for homem, disse ele. Bosta é a que saí do seu cú, seu merda!, eu falei, alto, cuspindo na cara dele. A pancadaria rolou solta... Uns dizem que não pode sair briga num lava-jato, por causa das ferramentas, que podem servir como armas. Mas, nem pensei nisso. Nem eu, nem ele. De mão limpa mesmo, bati, não sei como, no sujeito até ele cair no chão. Isto é para você não se meter à besta comigo, eu falei, por cima dele. Você é um idiota, disse-me. Idiota é quem mexe comigo. Não levo desaforo para casa! Idiota!, falou ele, ainda. Repete! Idiota!, exclamou, o desgraçado. Dei mais uns chutes nele e parei, indo lá para frente do lava-jato. Tremia que nem uma taquara, de nervoso. Para me acalmar, acendi, com dificuldade, um cigarro. Dali um pouco o careca filho duma cadela apareceu.
– E?
– Ele disse, sem querer me ouvir: saia fora daqui, seu preto desgraçado. Como que é?, eu perguntei. Eu tô falando para você sair fora daqui, seu preto filho de uma puta!, disse. Não acredito... Foi ele quem me provocou!, eu protestei. Não interessa. Você está errado, preto. Suma, vai!, disse ele. Não consegui acreditar nisso. Peguei e saí de seu lava-jato jurando vingança. De lá, fui para o quarto que eu pagava aluguel, onde tinha apenas uma cama, uma cadeira, uma geladeira, um fogão e um pequeno armário para deixar os alimentos. No outro dia, fui atrás de emprego. Não encontrei em lugar algum, porque para quase todo o mundo um preto ou é ladrão, ou é safado, ou se ainda não é um dia ou outro vai ser...
– Que isso!
– Para você ver. Assim, dessa forma, como ninguém me dava emprego, resolvi fazer um empréstimo com um agiota e comprar uma moto. Isso porque quem tem uma moto dificilmente fica desempregado, inclusive um negro, porque sempre tem alguém precisando de quem tem moto para trabalhar ou de entregador ou de cobrador, independentemente da cor, do sexo e religião. Essa, enfim, foi a maior cagada que fiz na minha vida. Por causa dos juros que me cobrava, tinha que trabalhar dia e noite para quitar a divida com esse agiota filho duma prostituta – este é o único nome que encontro para chamar esse agiota: filho duma prostituta... E você vai logo entender o porquê... Contudo quando estava quase terminando de pagar a minha divida, acabei sofrendo um acidente escandaloso, que quase tirou a minha vida, mas que graças a Deus me tirou somente a moto. Sim, a moto deu perda total, e eu fui parar, inconsciente, na UTI. Fiquei em coma por um mês. Quando saí de coma, fiquei em observação por uma semana. Ao receber alta, com um monte de pinos na perna, fui para casa. Lá eu tive que me virar sozinho, afinal, nem meu pai, nem meu irmão, nem ninguém tinha o meu endereço, exceto as negras desse tempo – essas, que só me procuravam para andar de moto, desapareceram. Meus amigos também. A única pessoa que me procurou quando eu estava todo fodido em casa foi esse agiota filho duma prostituta, querendo saber como ia pagar ele.
– Que tragédia!, exclamei.
– Que tragédia? Tragédia é pouco! É que desgraça! Isso sim. Eu estava deitado quando ele me chamou. Não consegui levantar, como fazia para preparar algo para comer, e disse para ele ir entrando. Ele entrou e me pegou deitado, sem forças para levantar. Pode ficar deitado, negro, disse ele, assim que me viu. Depois sentou numa cadeira que estava perto da minha cama e foi logo me perguntando como ia fazer para pagar o que devia. Falei para ele: assim que começar a trabalhar eu pago tudo o que devo a você, tim-tim-por-tim-tim. E se você não conseguir arrumar um emprego?, perguntou ele. Aí eu não sei o que posso fazer, respondi. Não tem ninguém que pode lhe emprestar a grana? Não, eu disse. Mas todo mundo tem alguém que pode emprestar uma grana... Eu não tenho, falei. Faz uma força aí na cabeça, para lembrar. Não tenho, eu disse. Quem sabe um chute nessa sua perna cheio de pinos faz você lembrar, hein?, ameaçou ele. Não tenho ninguém que pode me emprestar, eu falei. Então: toma!, disse ele batendo na minha perna cheia de pinos. Ora, como eu estava na cama sem forças para levantar, a única coisa que me restou a fazer foi gemer de dor. Lembrou? Não, eu respondi. Toma outro, disse ele, me batendo novamente. Ai; tá doendo, eu falei. Lembrou? Não. E se eu queimar a sua perna com a brasa do meu cigarro?, perguntou, acendendo um. Aí eu tô perdido, falei. Ele deu uma boa tragada e a brasa ficou vermelhinha, queimando como fogo vivo. Toma, disse enfiando a brasa de seu cigarro na minha perna cheia de pinos. Ai, ai, ai, ai, eu falei. Lembrou? Não. Vou dar um mês, sentenciou. E se eu não arrumar a grana?, falei, preocupado. Aí você vai ver como eu sou ruim, disse o filho duma prostituta.
– Desgraçado! , eu falei, indignado.
– De fato, ele era muito ruim –, continuou dizendo o Zulu. Depois de um mês, ele retornou. Como não arrumei a grana que devia para ele, ganhei uns tapas, uns chutes, algumas queimadas da brasa de cigarros na perna, no rosto, no sovaco – lugar que dói pra caramba. Levei também chutes no saco, na barriga, na bunda, em tudo quanto é lugar. Até enfiar um pau no meu buraco negro ele quis. Mas não enfiou, porque quando ele estava para enfiar, eu falei está bem; não queria, mas vou pedir para o meu pai pagar a minha dívida. Ele parou logo em seguida. Cansado de tanto me bater, sentou-se numa cadeira perto da minha cama e ficou olhando para mim. Respirava ofegante. Aos poucos, a sua respiração foi voltando ao normal, e ele começou a falar. Ou melhor: a contar uma história. A história de seu avô, que era negro. Ele disse que seu avô foi o único da família que conseguiu levar uma vida honestamente; que nem seus pais, nem seus tios e nem ninguém conseguiu tal proeza. Em seguida, para concluir a história; isto é, para dizer a moral da história, ele falou, com a maior cara de pau: sabe por que meu avô... mesmo sendo negro... viveu uma vida honesta? Porque ele era um negro branco, entendeu? Era negro por fora, mas branco por dentro. Isto! Ele era negro mas um negro branco, mais branco que muitos brancos por aí...
– Meu Deus...!, – exclamei.
– Depois que ele falou isso, liguei para o meu pai pelo celular – sim, celular, porque hoje em dia até mesmo um miserável como eu por ter um. Contei para ele tudo o que havia acontecido e ele perguntou onde eu estava. Falei o endereço para ele e ele, junto com o meu irmão, apareceram quase no mesmo instante. O agiota filho duma prostituta esperou por eles mas lá do outro lado da rua, com medo de meu pai e meu irmão aparecerem com a polícia. Quando chegaram, sem a polícia, ele atravessou a rua e entrou no meu quarto, aonde meu pai e meu irmão me olhavam, com um ar de revolta e piedade – com certeza, não deve ter sido fácil para eles me verem assim, naquela situação, deitado na cama e cheio de pinos na perna e marcas de queimadura e hematomas pelo corpo inteiro. O agiota, a sua vez, entrou com uma arma apontada para o meu pai e para o meu irmão, a fim de intimidá-los; afinal, quem não se revoltaria e partiria a cara do agressor de seu filho e de seu irmão?
– Só se for um pai e um irmão bem indiferentes! –, eu disse.
– Era essa a vontade deles. Mas, com a arma apontada para eles, não puderam fazer nada. Iam fazer o quê? Tiveram que conter o sangue quente e ficar quietos. Enquanto isso, o agiota olhava para nós três com um sorriso malvado no rosto. Pediu para o meu pai passar a grana e ele passou. O agiota pegou o dinheiro, colocou no bolso e antes de sair, fez uma cara de que havia algo estranho. Vendo que meu pai era branco, e meu irmão também, perguntou se eu era filho dele de verdade ou não.
– Ele teve essa coragem?, perguntei.
– Teve. Quando ele perguntou isso eu me lembrei de uma certa conversa que tive com uma amiga. Alguém havia falado para ela que meu pai era branco. Daí ela veio e perguntou: por que você nasceu negro então? Ah!.., eu resmunguei. Boa pergunta! Eu realmente não sei. Talvez nasci negro para expiar com mais sofrimento os meus pecados. Ou então, nasci negro por causa de uma aberração genética do meu pai e da minha mãe. Difícil resposta, não? Aliás, agora quem ficou curioso em saber por que nasci negro sou eu. Por que será que eu nasci negro, hein?, perguntei para ela.
– Ela respondeu?
– Não. Nem ela respondeu para mim nem meu pai respondeu para o agiota. Ao invés disso, pediu para o agiota ir, pelo o amor de Deus, embora. Com o dinheiro no bolso, o filho duma prostituta do agiota foi. Ao ir, meu pai e meu irmão me colocaram no braço e me levaram para o carro deles. De lá, voltei para a casa do meu pai. Meses depois, eu estava melhor. Novamente, voltei a fazer as minhas molecagens. Minhas não: das minhas negras. Porque são elas que precisam de dinheiro ou para isso ou para aquilo. Até uma dessas negras ficar grávida e eu ser obrigado a me casar com ela. Casei. Mas ainda continuo o mesmo moleque de sempre. E quando não é o meu pai me aporrinhando por causa disso, é o meu irmão. E quando não é o meu irmão, é a minha mulher; e quando não é a minha mulher é a sogra, a vizinha, a avó, ou o avô...
– E o careca filho duma cadela?, eu perguntei.
– O careca filho duma cadela que me aguarde! O dele está guardado... Na hora certa, no dia certo, no momento certo ele vai aprender a respeitar um negro: vou dar uma lição de cidadania nele. Não acha que estou certo?
OS DEMÔNIOS DA DONA OTÍLIA.
Todos os dias, assim que a dona Otília chegava em casa, às sete horas da noite a sua vizinha começava a oração de exorcismo. Otília ficava ouvindo, achando graça nas palavras da evangélica: ó Senhor, o demônio chegou; o demônio e a sua legião de capetas chegaram; queima eles, Jesus, queima! Era engraçado, e Otília divertia-se muito, enquanto colocava lenha no fogão para fazer o jantar.
A casa da dona Otília era a única de madeira naquela rua; tinha pouca iluminação e o chão era puro barro. Ainda não havia asfalto nessa rua, mas a maioria das casas era grande e boa. Hoje, dez anos depois, o asfalto já chegou; e o bairro, enfim, ficou bem mais valorizado. Até a casa da dona Otília, que era um casebre feio de madeira, agora se encontra feita de material, tal como as outras, ainda que não tão grandes nem tão belas.
Mas o fato é que naquela época a casa da dona Otília era feiíssima; e ela, por ser boliviana, trazendo na face o aspecto indígena, era discriminada por algumas vizinhas – não muitas; aliás, talvez cinco ou seis, pois o resto lhe via com bons olhos: nem todo mundo tem pré-conceito e ódio dos pobres.
Nem mesmo a sua vizinha crente tinha, antes de converter-se. Não obstante, assim que o pastor começou a colocar na cabeça dela toda uma demonologia, explicando a partir daí a origem e a razão da miséria, ela passou a ter ódio dos pobres. Ou medo, não sei. O que sei é que para essa crente – vale lembrar que nem todos os crentes são assim; e a minha intenção não é ofender religião alguma, nem ninguém – a dona Otília, sua vizinha, era a representação mais cabal do deus da miséria: Satanás e Otília eram pai e filha.
Mas Satanás tem muitos filhos, e Otília tinha, portanto, muitos irmãos, tais como: o seu Tranca-Rua, demônio da morte e da miséria, que impedia o progresso da dona Otília; o seu Zé-Pilintra, demônio da bebida que pegava o marido dela e fazia dele um bêbado; a Pomba-Gira, demônio da sexualidade que botava desejos insaciáveis em sua filha assanhada; e assim por diante, uma legião interminável de encostos que acompanhava a dona Otília...
E não só isso: dona Otília era macumbeira e fazia feitiços todos os dias – se a vizinha fosse uma dessas que ganham coragem para espiar em cima do muro, iria ver que o único feitiço que a dona Otília fazia era o jantar para a sua família afinal, nada além disto. Portanto, ela não acendia incensos para ninguém: ela acendia a lenha para o seu fogão, oras bolas. E enquanto cozinhava, divertia-se com os gritos da vizinha crente, sem saber, na sua grande inocência, que tais gritos eram dirigidos para ela e a sua legião de encostos.
Mas um dia, graças a Deus, uma outra vizinha veio falar com ela, dizendo que o que a vizinha crente fazia era algo abominável; que coisas assim não se faz com ninguém, nem mesmo com as piores pessoas do mundo, que é chamar o outro de Satanás, de demônio.
– Como é que é?!, disse a dona Otília.
– Isso mesmo que a senhora ouviu. Quando ela diz ó Jesus, o demônio chegou, é a você que ela se refere...
Dona Otília ficou triste com isso. Pensou em guardar para si. Mas, sem querer, acabou contando para o marido, na hora em que estavam jantando, na frente da televisão. O marido, ouvindo esta ofensa, disse: deixa a ela comigo, Otília, vou mostrar para essa vizinha dos infernos quem é o demônio aqui... Dito e feito... No outro dia, quando a vizinha crente estava saindo de casa para ir à igreja com uma outra irmã, ele sacou o revólver e mandou bala para o ar, só para assustá-las. Saíram correndo, as duas; e ele, ali mesmo, gritou:
– Isto é para você nunca mais chamar a minha esposa de demônio, sua crente maldita!
Apavoradas, conseguiram chegar à igreja. Falaram com o pastor:
– É pastor, o demônio quase matou nós duas hoje...
O pastor perguntou como. Elas relataram o caso. O pastor diagnosticou: livramento. E rendeu glórias, porque no fim Jesus venceu. Na hora dos testemunhos, lhe chamou para o altar. E lá ela falou que há tempos vem lutando contra o demônio; que o encardido, de tão furioso, quase matou ela e sua amiga e irmã em Cristo naquela noite; mas que para a honra e a glória de Jesus, elas não morreram, e sim foram livres de todo mal.
– Aleluia!, gritou um.
– Glória a Deus –, gritou o outro.
O certo é que lá na igreja delas Jesus venceu; mas, depois deste dia, ela nunca mais ousou fazer uma oração de exorcismo dentro de casa...
A TRAMA
Vou começar esta trama contando como conheci a Valéria. Eu estava nos testes para uma vaga de emprego como auxiliar administrativo de uma grande empresa, e ela também. Neste dia, havia umas cinqüenta pessoas disputando duas vagas apenas. Quem aplicava os testes era uma psicóloga, acompanhada por Evair, gerente de nossa repartição.
No primeiro teste, ela passou com uma sacolinha com um monte de papeizinhos dentro, onde em cada um estava escrito o nome de um animal com o seu parceiro ou parceira. A regra era simples: assim que ela desse o sinal, era para todos representar, por meio de mímicas apenas, o seu bicho, a fim de se formar os casais. Não valia fazer ruídos, nem emitir uma palavra antes de encontrar o seu bicho correspondente: quem fizesse, estava fora.
Assim que ele deu o sinal, eu comecei a imitar um galo. Pulava e batia as minhas asas, com uma vontade imensa de gritar cocorocó. Enquanto isto, procurava a minha galinha. Olhando para os lados, finalmente encontrei uma linda mulher loira, dos olhos azuis e os lábios bem grossos, da cintura fina e os quadris largos, imitando uma galinha. Não pensei duas vezes: corri em sua direção e me grudei nela.
– Você que é o galo? – perguntou a loira.
– Sim, sou eu – disse me levantando e levantando ela também.
Fomos o primeiro casal a encontrar o seu par. Ali de pé, ficamos observando os outros. Aquelas pessoas, de terno e gravata no chão, se passando por animal, se sujeitando, assim como eu e ela para conseguir um emprego, era realmente muito engraçado. Aliás, o mundo inteiro está engraçado. Para onde se vai, é preciso se sujeitar, dizer que faz tudo pelo emprego, desde imitar galinha à rebolar de bambolê com um pirulito na boca.
Perguntei o nome dela:
– Valéria.
– O meu é Aldair.
– Prazer, Aldair.
Os outros testes foram feitos visando avaliar nos candidatos a capacidade de concentração, a memória, a criatividade e como cada um lida com as pressões. Tanto eu quanto a Valéria nos saímos bem nestes testes, ocupando as únicas vagas que tinham. Eu me senti um verdadeiro espermatozóide dentro de um óvulo, um grande vencedor, embora o fato da sujeição me deixava um tanto impotente. Dias depois, estávamos trabalhando junto.
Ainda que fosse proibido o relacionamento amoroso entre dois funcionários desta empresa, passamos a namorar – escondidos, é claro. Na realidade, éramos praticamente como casados, pois ela vivia mais na minha casa do que na dela. Tanto é que suas coisas estavam quase todas em casa, ocupando o meu quarto, a minha sala, o meu banheiro.
Para não levantarmos nenhuma suspeita, cada qual ia com o seu carro, e durante o serviço evitávamos afetos calorosos. E assim ficamos por uns dois anos, e muito provavelmente ficaríamos uns cem, se não tivesse acontecido o que aconteceu. Tudo começou quando passei a desconfiar da Valéria com o Evair. O jeito que os dois conversavam não era algo normal. Eu ficava de olho, cuidando, esperando eles se denunciarem de uma maneira ou de outra. Até que num dia, aconteceu algo inesperado, que me colocou numa situação limite.
Eu estava entrando na sala do Evair quando vi, do lado da mesa dele, os sapatos da Valéria aparecendo, dando-me a interpretar que ela estava ali, escondida atrás da mesa, de joelhos, praticando sexo oral no horário de serviço. Quase perdi o juízo! A vontade que me dei foi a de sair na porrada, de quebrar tudo, de colocar o emprego em jogo, de dizer que Deus ia castigar os dois.
Mas, esperei para me certificar, até ela levantar-se e me ver, empalidecendo-se. Já Evair, vendo a minha reação, sentiu a necessidade de explicar-se, de mostrar que não era nada daquilo que eu estava pensando, perguntando para Valéria se ela conseguiu encontrar a lente de contato que havia caído no chão.
– Não, não encontrei – disse a Valéria, olhando para ele.
– Que lente de contato? – quis saber, já que a Valéria não usava lentes de contato.
– A minha –, disse Evair.
– Por que não procura você mesmo a sua lente de contato? – questionei, bravo, sem conseguir disfarçar meu ciúme.
– Como, se não enxergo nada? – argumentou.
Nisto ele tinha razão. Mas não me convenceu. Queria provas que me dessem certeza, de que não havia nada errado entre eles. Por isso, aproximou-me da mesa, dei a volta dizendo que ia procurar a lente de contato no chão e aproveitei para dar uma olhada em sua braguilha, para ver se ela estava fechada ou não: estava. Logo, só me restava procurar uma outra evidência: a lente. Não achei.
– Ela é muito, mas muito fina...–, disse Evair.
O que era verdade. Por outro lado, não dava mais para ficar ali. Saí da sala de Evair e fui para o pátio da empresa, tomar um ar. Não demorou muito e a Valéria apareceu para falar sobre o que havia acontecido. Ao me ver, me falou baixinho, para ninguém ouvir, que não havia acontecido nada do que eu estava pensando. Depois, me mostrou a lente de contato de Evair, ao que eu disse que aquilo não provava nada.
– Então vai ser preciso que você acredite em mim, Aldair.
– Você jura que está me dizendo a verdade?
– Juro por Deus – disse ela.
– Então acredito – falei, num ato irracional de fé.
– Acredita? – perguntou, alegre.
Falei que sim, e para me testar, a Valéria, olhando para os lados a fim de ver se havia alguém perto, pediu-me um beijo. Beijei-a, com um medo terrível de encontrar um gosto estranho em sua boca...
* * *
A Valéria era a mulher da minha vida, e não seria por uma besteira dessas que iria perdê-la. E se algo realmente tivesse acontecido, e daí? Eu teria casado com ela inclusive, se não fosse um fato muito estranho que aconteceu. Estávamos num bar, bebendo cerveja e se beijando, quando de repente, durante o beijo eu resolvi abrir os olhos, vendo Evair numa outra mesa. Interrompi o beijo no mesmo instante, e a Valéria perguntou o que foi.
– Não olhe agora, mas o Evair está por aqui.
Minutos depois, ela olhou.
– Deus do Céu, será que ele nos viu?
– Não sei, mas ele está vindo para cá.
– Tudo bem com vocês? – disse Evair, ao se aproximar.
– Tudo. Você chegou agora? – fui logo perguntando, para ver se ele havia nos visto enquanto beijávamo-nos.
– Eu estava aí. Vi vocês na mesa.
No mínimo, havia visto sim.
– Sente-se conosco – falei.
O filho da mãe sentou.
– Convidei a Valéria para um happy hour –, falei-lhe.
– Ah, sim.
– Mas, eu já estava de saída – disse para ele, em seguida.
– Já?! Está cedo!
– Está nada. Tenho algumas coisas para fazer em casa.
– Ah, então está certo.
Levantei-me, puxando um dinheiro na carteira.
– A minha parte da conta.
– Tudo bem – disse ela, pegando o dinheiro.
E sai, deixando os dois sozinhos, fazendo sabe Deus o quê.
Fui direto para casa, esperar por ela. E quanto mais pensava no ocorrido, mais ansioso ficava. Uma hora depois, ela apareceu.
– Demorou, hein? – falou, ao abrir a porta de casa para ela.
– Tive que despistar o homem – falou-me, indo direto para o banheiro, tomar um banho.
– Sei.
– Lá vem você, com a sua desconfiança... –, disse ela, entrando no banheiro.
Enquanto esperava a Valéria sair do banho, me perguntava: viu ou não viu? E fazer o quê, caso ele tenha visto? E agora, Deus meu?
Quando a Valéria saiu do banho, conversamos sobre isto, com ela dizendo relaxa, Aldair, acho que ele nem viu. Tranqüilizado com as suas palavras, fui para cima dela, querendo sexo, o qual ela negou, alegando cansaço e dor de cabeça, por causa do chope. Não insisti, e deitou-me ao lado dela, que logo em seguida dormiu. Passei a noite em claro, pensando sobre tudo o que aconteceu.
– Você não dormiu, Aldair? – perguntou ela, pela manhã, ao acordar.
Respondi que não; que passei a madrugada toda pensando no que aconteceu – não somente nisso como também na possibilidade de ficar mais uma vez desempregado e ter que voltar a trabalhar num serviço qualquer, como se fosse um joão-ninguém na vida, que não estudou.
– Você sofre por antecipação – disse a Valéria.
* * *
No dia seguinte, Evair me chamou em seu escritório, dizendo que havia visto tudo. Explicou-me que regras são regras, que nós dois podíamos ter cargos de confiança futuramente, e um poder privilegiar o outro, em função do romance. Entretanto, entre eu e ela, preferia me conservar na empresa.
– E você quem decide, Aldair.
– Não tem um jeito? No Brasil para tudo se arruma uma maneira.
– Desta vez não.
– Eu a amo.
– ?
– Está bem. Pode me demitir – falei.
Ao passar na sala da Valéria, dei o comunicado.
– Ele vai me mandar embora também?
– Não. Apenas eu. Estou indo. Te espero em casa.
* * *
A Valéria nunca mais apareceu em casa, nem mesmo para pegar as coisas dela. Trama dos dois? Medo de enfrentar o meu desemprego? Fui atrás dela, semanas depois, lá na empresa. A Valéria estava largando o expediente quando apareci.
– Por que você sumiu? – fui logo dizendo.
Não me respondeu.
– Cadê seu carro?
– Na oficina.
– Vai embora do quê?
– De ônibus.
– Quer que eu te leve?
– Não, obrigado.
– Posso ao menos acompanhá-la até o ponto? – falei, então.
– Pode.
Começamos a andar. Andávamos na calçada. Ela do lado mais próximo da rua e eu do lado mais distante. Ela estava linda, radiante. Usava sapatos de salto alto, que eu tanto gostava. E usava o perfume que era o meu predileto, também. E usava a blusa azul que tanto admirava nela e usava a sua saia preta, de couro. Num dos pulsos, o seu lindo relógio, que com muito custo e economia dei de presente.
– Por que você sumiu? –, perguntei novamente.
– Não sei, Aldair. Mas acho que não vai dar mais certo, entende?
O pior era que não dava para entender. Por causa disso, silenciou-me, enquanto andávamos em direção ao ponto de ônibus. E no silêncio, coloquei-me a observar o rosto da Valéria. Ela era linda. As pessoas que passavam por nós olhavam para ela com admiração. Isto me deixava bastante ciumento. Teve até mesmo um momento em que quase estourei quando ouvi de dois homens a frase: “Benza Deus!”, olhando para ela como se eu não estivesse ao seu lado. E foi assim até chegar ao ponto.
– Meu Deus, como uma mulher tão linda assim pode entrar num ônibus coletivo?, pensei consigo mesmo, em silêncio.
Longe, vi um moto-taxi. Pensei: nem que eu pague a corrida para ela, mas num ônibus coletivo não a deixo entrar! Olhou então para o moto- taxista e fiz sinal para ele parar. A Valéria perguntou por que ele fez isso. Falei para ela que era melhor ir de moto que de ônibus, que eu pagava. Ela balançou a cabeça, reprovando a idéia. Não me importei: ela ia de moto!
O motoqueiro parou. Olhei para ele e vi na minha frente um homem com uma cara de safado, usando óculos escuros, cavanhaque, e roupas bem baratas. Imaginei a Valéria subindo na moto desse sujeito, pegando em sua cintura para apoiar-se. Depois imaginei o moto-taxista acelerando; e o corpo dela indo para trás e para frente, esfregando seus seios contra as costas do safado. E imaginei-a ficando excitada, pedindo para o motoqueiro que transassem.
– Vai aonde? – perguntou ele.
– Lugar nenhum. Me desculpe, mudei de idéia –, respondi.
– Mudou de idéia? – disse ele, sem entender.
– É.
– Quer dizer que desistiu da corrida?
– Sim, desisti da corrida.
– Então, tá bom – disse ele, seguindo a diante, sem entender.
E foi.
A Valéria me olhou e perguntou por que havia dispensado o moto-taxista. Falou para ela que tive um pressentimento ruim. Ela repetiu: um pressentimento ruim? Falei: isto mesmo! Valéria então disse: você sempre tem pressentimentos ruins, Aldair, quando é que vai começar a ter pressentimentos bons?
Não respondi.
Em silêncio, fiquei ao seu lado, aguardando o ônibus chegar. Olhava para ela e lembrava de quando estávamos juntos. Até que o ônibus da Valéria apareceu e eu voltei para o momento presente. Quando o ônibus parou e abriu a porta para ela entrar, Valéria me olhou e disse, antes de subir:
– Um dia a gente se vê por aí, Aldair.
Fez que sim e fiquei ali, olhando ela desaparecer dentro do ônibus. Depois, triste como nunca antes, voltei para o meu carro. Em casa, fiquei olhando para as coisas da Valéria. Pensou no que fazer com elas. Eu podia muito bem fazer o que as pessoas geralmente fazem quanto terminam, repentinamente, com alguém, como por exemplo: queimar tudo, jogar fora ou algo parecido; entretanto, resolvi guardar tudo o que era dela, no seu devido lugar...
INFELIZ NATAL
Vinte e uma horas de dez anos atrás: chegam os primeiros convidados. Vinte e duas horas: quase todos estão presentes: irmãos, irmãs, cunhados, noras, genros, netos e netas. Vinte e três horas: a ceia está pronta, servida à mesa, em volta de alegria, abraços, risos e palavras bonitas. Vinte e quatro horas: é natal! É festa! É hora de trocar presentes!
Vinte e uma horas de dez anos depois: ninguém na casa a não ser o dono. As luzes estão apagadas. A única coisa que reluz é a televisão. Vinte e duas horas: o dono, pai de muitos filhos e muitas filhas; avô de muitos netos e muitas netas; bisavô de bisnetos e de bisnetas vai até o portão da frente, espia, nada vê. Vinte e três horas: uma das filhas aparece, acompanhado do filho mais velho, um jovem de vinte e oito anos.
– Benção, pai.
– Deus te abençoe.
– Benção, vô.
– Deus te abençoe.
– Ninguém, pai?
– Ninguém.
Dois velhos, conhecidos do dono e também abandonados, se aproximam. Mãe e filho adentram na casa. A mãe pega o telefone, e começa a ligar, a querer saber onde está a família. O filho, sentado lá no fundo, tem vinte e oito anos de idade...
– Ele só está colhendo o que plantou – diz a voz do outro lado da linha.
– Mas ele é seu pai.
– Ele quis assim.
– Então vocês não vão vir?
– Não. Se quiserem vir, venham.
– Não, não vou. Não vou deixar meu pai sozinho.
E desligou.
O filho, vindo lá do fundo, diz:
– Não deu nem o feliz natal?
– Não.
– E o que vamos fazer?
– Vamos passar o natal aqui.
Que solidão!
A mãe vai para a cozinha, ver o que tem para comer: arroz, feijão, carne. O dono da casa se despede dos velhos abandonados e entra. O neto diz:
– Vamos beber?
Os olhos do avô brilham.
– Se você pagar, qual o problema?
O filho busca as garrafas de cerveja. Os três bebem. Meia noite dizem feliz natal e o filho busca mais cerveja. Depois destas, filha e neto dizem: chega! E vão dormir. O velho, não muito bêbado ainda, faz que vai fechar o portão e sai para a rua. O velho, viúvo, avô e bisavô, abandonado na pobreza, aprisionado na amargura, entra no bar do Ari. Bebe uma, bebe duas, bebe seis.
Volta.
– Eu vou matar o Ari, eu vou matar o Ari!
Filha e neto levantam assustados: o velho tem uma arma debaixo da cama.
– Que foi que o Ari fez, meu pai?
– Eu vou matar o Ari, já disse, e saia da minha frente.
O neto se põe no meio, impedido a passagem para o quarto do velho. O avô pede para o neto sair do meio, o neto não sai. Tenta a força, mas o neto é mais forte. O velho começa a gritar e a lutar contra o neto, dizendo: saia da frente que eu vou matar aquele filho da puta do Ari! O neto, escutando a mãe chorar, derruba o velho no chão e diz: pegue uma corda, mãe, rápido!
A filha-mãe, chorando, encontra uma corda lá no quintal e volta, para entregá-la ao filho. O velho grita: eu vou matar o filho da puta do Ari, aquele desgraçado infeliz. O filho-neto fala: esquece o Ari, vô; e o amarra. Amarrado, o velho dorme, rangendo os dentes...
A METÁFORA
Depois que João Guerra ganhou a eleição não faltou mais serviço para a empresa de construção civil onde Olavo trabalhava. É claro que no seu primeiro ano de mandato as coisas não estavam assim, uma maravilha. Foi preciso primeiro repor o dinheiro gasto na campanha eleitoral. Mas assim que ele repôs, as obras começaram nos quatros cantos da cidade.
Aonde se ia, ouvia as pessoas falarem dele, louvando o prefeito João Guerra. Olavo ria, diante da ingenuidade dos moradores de sua cidade; e só não dizia o que o homem era de verdade porque tinha o rabo preso e as pontas dos chifres cortados.
A última vez que Olavo viu o prefeito ele ficou com uma raiva danada. Isso foi num sábado antes do almoço, lá na casa dele. Estava bêbado, o homem. Perguntou o que Olavo queria e ele disse que estava ali a mando do seu chefe, o Rosa.
– Ah, o Rosa?
– Sim, o Rosa.
– E o que ele quer? – perguntou.
– Quer que você assine o contrato – disse Olavo.
– É o contrato da rodoviária?
– Sim, da rodoviária.
– Deixe-me ver esses papéis.
João Guerra pegou o contrato e começou a ler. No fim da leitura, assinou o seu nome e entregou-o de volta.
– Bebe cerveja?
Por educação, Olavo aceitou.
Mas antes não tivesse aceitado, porque teve de ouvir a conversa sempre provocadora do prefeito. O homem falava usando um tom de superioridade que dava nos nervos. Olavo foi se aporrinhando, e para suportar tantas provocações, resolveu beber no mesmo ritmo do prefeito.
Beberam uma, duas, três, seis cervejas. Quando viu, estava falando que nem o prefeito. A partir de então, a conversa se tornou um verdadeiro desafio de monólogos; com João Guerra contando as histórias dele e Olavo, as suas. Digo desafio porque a mensagem que transmitiam era uma apenas: eu sou melhor do que você; eu sou melhor do que você; eu sou melhor do que você.
Olavo, entretanto, foi se cansando desta disputa imbecil. Ainda mais porque o prefeito, na hora de contar suas histórias, tinha uma mania feia de fazer perguntas para o seu ouvinte adivinhar o que ele havia feito numa determinada situação. Sem conseguir se conter; Olavo, já cansado de bancar o adivinho e sapientíssimo sábio guru, resolveu dizer:
– Não, seu prefeito, eu não sei o que você fez. Diga aí: o que você fez?
João Guerra, com esta afronta, ficou bravo, irritado, e chamou Olavo de ingênuo.
– Eu? Ingênuo?
– Ingênuo sim!
– Não, não sou um ingênuo, e você sabe muito bem disto! – falou Olavo.
– O que eu sei é que você é ingênuo sim senhor! Do contrário, não estaria trabalhando ainda como funcionário!
Ficou calado, olhando para os lados, rindo sem graça, querendo desdenhá-lo. O prefeito, por sua vez, não se deixou vencer pelo desdenho, porque sabia que se Olavo estava ali era porque ele não valia nada também.
Não valia nada também porque Olavo era um engenheiro que prestava serviços para a prefeitura; e um engenheiro que faz algum serviço para o prefeito, ao menos na sua cidade, geralmente se deixa corromper, porque a tentação é grande e o roubo parece mais que normal.
Porque sabia disso, o prefeito continuou o seu discurso, fazendo com que Olavo ficasse quieto, só lhe escutando. No fim desse discurso; ele, com a sua mania feia de querer que os outros adivinhem o que quer dizer, perguntou-lhe: você sabe o que eu sei? A única coisa que sei?
– Não, não sei; seu prefeito – respondeu-lhe Olavo, secamente.
– A única coisa que sei é que a prefeitura comeu todas as putas! – falou, virando o copo.
Olavo sentiu-se definitivamente ofendido. Levantou-se e saiu bruscamente, sem despedir-se. Na camionete, colocou no guarda-volume o contrato assinado pelo prefeito; ligou o carro e bateu a porta com força. Depois, acelerou forte, arrancando, queimando pneu. Lá na frente, repetiu o que o prefeito disse, desdenhando-o: a única coisa que sei é que a prefeitura comeu todas as putas... Hum...
SANSÃO
O seu Cláudio tinha os cabelos brancos, era grande e forte. Até hoje não conheço uma pessoa que tenha mais força e saúde como ele. Veio para fazer a experiência da força. Mas não só isso. Dela, extraiu toda a sabedoria. Era um homem inteligente, sábio; e, além disto, forte como Sansão.
A primeira vez que me dei conta disto eu estava indo ao mercado com um vizinho quando de repente ele me falou: quer ver como esse seu Cláudio é forte? E logo em seguida pegou-o pelo braço, puxando-o, medindo a sua força. Levou um baile do homem, que brincava com ele como se brinca com uma criança: está bom seu Cláudio, chega, está doendo.
Como eu era um sujeitinho que estava mais preocupado com os livros de filosofia, teologia, sociologia, psicologia, ciências políticas e direito, deixei passar despercebido este fato, para um ano depois, retornar a assistir a sua força em movimento, junto com a sua alta capacidade de raciocínio. Na ocasião, ele estava fazendo frete para a nossa mudança.
Ficou em cima do caminhão, e de lá não saiu. Olhava para os móveis, perguntando o que tinha e o que não tinha. E mandava pegar isso, e mandava pegar aquilo, tudo meticulosamente planejado em sua cabeça branca de velho. Numa certa hora, eu falei para ele: eu quero é ver onde você vai colocar esse sofá. O Sansão só respondeu: deixe comigo que esses meus cabelos brancos não são de hoje.
Entre uma brincadeira e outra, fui desejando um filho assim. Que Deus me desse um que não viesse fazer a experiência da reflexão filosófica que for; nem da descoberta de um grande bem para a humanidade, mas que viesse simples, forte, que usasse a cabeça apenas em serviço da força. Era isso o que eu queria: a completa negação minha; pois, o que eu sofria pensando não desejava para ninguém.
Tanto é que escolhi uma mulher forte, não muito gorda, mas alta e larga, e com ela me casei. O sofá? O sofá coube direitinho na mudança, num lugar pensado milimetricamente. O meu filho nasceu. Um negro forte, cheio de saúde: Deus ouviu as minhas preces! Acompanhei cada passo de seu crescimento, preocupando-me mais com a sua alimentação do que com qualquer outra coisa. Quando eu brincava com ele, era sempre medindo a sua força. O meu filho, que coloquei o nome de Sansão, lutava contra, resistia, chorava e voltava à luta.
Fui exercendo este papel até não poder mais, quando ele finalmente ficou bem maior do que eu e a minha força não passava de cócegas em seus braços e músculos. Entretanto, só foi parar com essas minhas brincadeiras que ele começou a levar a vida mais a sério. Eu interferia: relaxa, meu filho; não se preocupe com isso, tem um monte de gente que já está preocupada com esta questão, não precisam de você para isso.
– Mas pai, eu preciso saber.
– Não, não precisa não. A vida é muito mais bonita que as teorias de Einstein.
– Mas pai, e esse tal de Nietzsche? Todos falam dele. Eu quero ler.
– Não, não, larga de mão, não compensa. Os filósofos são todos chatos. Não vale à pena.
– Mais pai! A professora falou de um Max Weber. Fique fascinado. Quero ler!
– Não precisa, meu filho. Só quem precisa de Max Weber são os veados, e você não é veado que eu sei, é?
– Pai, você sabe que não. E não tem nada a ver com isso que você falou; que Max Weber são para os homossexuais.
– Olha aí, já está até falando termo científico. Pare com isso. Você é um rapaz bonito, cheio de saúde, vá ser um lutador, um atleta, sei lá.
– Não quero, pai.
– Mas Sansão... Você não acredita em Deus? Quando eu pedi um filho a ele, pedi para que fosse um que quisesse fazer a experiência da força. Então veio você. É dá experiência da força que você vai extrair a sua sabedoria. Vai por mim. Os livros vão te estragar.
– Não quero saber.
Os filhos são uma rebeldia que entristece todos os pais. Se há um pai que é perfeitamente feliz com o seu filho, esse homem é cego e não quis aprender a ler em braile. Fui ver, meu filho já estava me copiando, me imitando. Enquanto isto, sem poder fazer nada, fui vendo ele desperdiçar a vida em cima dos livros. Fui ficando amargurado, triste, talvez mais triste que Fernando Pessoa, poeta que gosto tanto. Por muito pouco não entrei em depressão.
Fiquei torcendo para isto ser algo passageiro; mas, quanto mais meu filho lia, mais ele queria ler mais. E não só isto. Queria aprender outras línguas, conhecer outras culturas, ler todos os filósofos que existem. E então, com ele se afundando cada vez mais nos estudos, não tive outra alternativa a não ser aceitar, a aceitar.
CAIXA DOIS
Dias atrás, antes de o Marcos ter certeza, a dona da loja, assim que chegou deu uma bronca na Priscila, que lhe doeu os tímpanos, a cabeça e a alma. Pensou em pedir as contas, ir para nunca mais voltar, e dizer umas verdades engasgadas há muito à dona Liana. Depois, desistiu, foi para trás do caixa, balançou as pernas, ansiosa, e disse para si mesmo: do primeiro cliente que comprar, dez por cento da venda é minha; ah, se é!
Logo após, a dona Liana saiu e ela ficou sozinha com o Marcos; que, com a cara alegre, devia estar feliz pela bronca que a colega de trabalho levou logo cedo. Olhou para ele, riu, e disse: ri das desgraças dos outros, ri... Minutos depois, um cliente entrou. O Marcos foi lhe atender, mostrou umas roupas e fechou negócio. O cliente foi ao caixa, pagar, e saiu de sacolas nas mãos.
– Ele pediu desconto? – perguntou Marcos, chegando de lado.
– Pediu.
– E você deu?
– Dei.
Perguntou: quantos?
– Dez por cento.
– Dez por cento?
– Por que o espanto?
– Por nada... – falou, saindo de perto.
Na porta da loja, balançou as pernas, ansioso, e acendeu um cigarro, já que a patroa não estava. Dez por cento... Dez por cento uma mentira! Pensa que sou burro? Deixa ela... Deixa ela pensar que sou isso, um burro.... Apagou o cigarro e voltou. Foi até o banheiro, tirar o cheiro da nicotina da mão e dos dedos. Olhou no espelho, e mais uma vez disse: pensa que sou burro, não? Voltou para o trabalho. Na hora do almoço, no lugar de almoçar ali perto, num restaurante, como sempre fazia, almoçou em casa. Falou com irmão mais novo:
– Vai lá na loja; mas finja que você não é meu irmão, que nem me conhece.... Compra duas camisas, pede desconto, e me fala quanto ela deu. Toma o dinheiro. A Priscila vai comer aqui, na minha mão!
O irmão foi, escolheu duas camisas, e se dirigiu ao caixa.
– Faz desconto?
– Faço.
– De quantos você pode fazer?
– De quantos você quer?
– Dez por cento?
– Dez por cento não posso fazer, moço. Pode ser de cinco?
– Está bem.
Pagou e saiu.
Logo em seguida, Marcos sondou:
– Pediu desconto, o cara?
– Aquele idiota?
Teve vontade de dizer: idiota é o seu noivo, aquele playboyzinho metido; mas disse: isso, o idiota... Não, idiota não, o laranja; isso, o laranja...
– Pediu.
– Você fez? – perguntou ele.
– Fiz.
– Ah?! Não acredito... De quanto?
– Dez por cento.
– Dez por cento?! – indagou, e saindo de perto, disse: pensa que sou um idiota.
– O que você disse?
– O dia está bonito lá fora, não?
Foi para frente da loja. Pegou o celular e ligou para o irmão.
– De quanto foi o desconto?
– Cinco.
– Ladra... Falou que de dez...
– Gostou das camisas? – quis saber, o irmão.
– Só da branca.
– E da verde?
– Não, pegue ela para você.
– Valeu!
– Falou.
E desligou.
Voltou para a loja.
– Priscila?
– Diga.
– Aquele idiota é o meu irmão.
Ficou surpresa, empalideceu.
– Sério?
– Sério. Liguei para ele e ele disse que você fez cinco por cento de desconto, e não dez!
– Eu fiz, é? Acho que me enganei quando lhe falei dez – disse ela.
Marcos enfureceu-se, e numa raiva de inconformado, disse: escuta aqui; menina, já faz tempo que estou lhe cuidando, sondando os seus passos, o seu coração: fui eu que planejei de meu irmão vir aqui, confirmar como você aplica o golpe, sua golpista!
Priscila ficou quieta, sem reação.
– E agora?
– E agora o quê? – perguntou ela.
– O que vamos fazer? Falar com a dona Liana?
– Não, com ela não, por favor.
– O que vamos fazer, então?
– O que você quer que eu faça?
Teve vontade de falar: sexo comigo, porque gostava muito do corpo dela, do rosto dela, dos seios, das pernas, da bunda e dos cabelos. Entretanto, uma coisa não tinha nada a ver com a outra: o pecado dela era de ordem financeira, e não sexual.
– Meio a meio – falou.
– Meio a meio?
– Meio a meio e não se fala mais nisso!
– Fazer o quê?...
Depois, combinou com ela como que iria pegar a sua parte: só no fim do mês, para evitar o risco de serem pegos.
– No final do mês quero tudo o que é meu, tudo!
– Está bem.
– E se você for pega por ela, não me entrega!
– Por que não?
– Porque se não eu te mato; eu te mato, Priscila!
– Você não é capaz disso – falou ela.
Era?
Não, não era...
Mesmo assim, fez questão de responder: você não me conhece, Priscila, não me conhece...
ANTI-DEPRESSIVOS
Eu ando fumando um cigarrinho após o outro; veja meus dedos, bem amarelos, mas antes não fumava tanto assim não, e sabe?... Por trás deste bichinho aqui se esconde uma depressão, uma ansiedade dos diabos... Mas a gente escolhe: ou toma remédio, ou fuma e bebe à vontade... No meu caso, prefiro beber a minha cervejinha e fumar o meu cigarrinho até morrer, se é que vou morrer por causa de fumar e de beber... Então... Antes não fumava assim, mas depois que o homem da minha vida me traiu, passei a fumar um atrás do outro. Isso já faz três anos.
Quando ele me traiu, fiquei ruim por um ano mais ou menos. Até dar alergia em meu corpo deu. Começou com uma coceira no pé, depois foi para as minhas pernas, e de repente atacou a minha barriga. Mas não coçava com as unhas não, para não machucar o meu corpo. Eu pegava uma fralda e passava em cima da coceira. Num dia, a alergia estava demais e então fui num médico conhecido meu. Ele me perguntou: Néia; faz quanto tempo que você não se deita com homem? Eu disse que fazia um ano, mais ou menos; que depois que o homem da minha vida me traiu comecei a pensar que todos os homens por quem me apaixonar vão fazer o mesmo.
O médico conhecido meu disse besteira, você não pode pensar que homem é tudo igual; arruma aí algum e se deita com ele que essa alergia vai passar no mesmo dia. Sabe? Eu pensei comigo: esse doutor está coberto de razão, eu vou ficar aqui?!... Me acabando por causa de um homem que me traiu?!... E que agora deve estar lá com a outra fazendo um amor bem gostoso?!... Que deve estar tomando a sua cervejinha e dançando os bailes com a outra?! Curtindo a vida? Eu não! Peguei o meu carro, me emperiquitei toda e fui para o baile...
Lá eu arrumei um rapazinho que sabe dançar que é uma delícia. Mas não me deitei com ele na primeira noite em que nos conhecemos. Nem na outra. Na verdade, ele nunca me cantava... Os outros homens lá do baile viviam me dando aquelas cantadas horríveis e ele nada! Os homens diziam: e aí, vamos dormir essa noite num motel? Eu falava o que é isso, motel?... É de comer?... É de vestir?... Eu não sei o que é isso não!... E fingia de boba, sem dar a resposta. Os homens se levantavam da mesa e iam atrás de outras...
Até que um dia, no baile, depois de tantas e tantas vezes a gente conversar, esse rapaz finalmente me cantou. E me cantou de uma maneira bem bonitinha. Na hora de me deixar na minha mesa, assim que terminamos uma rodada de dança, ele me disse: Néia, eu não sei se você percebeu, mas estou querendo te conhecer melhor... Fomos para um motel. Gostei dele. Fizemos um amor bem gostoso e daí para frente começamos a namorar. E sabe? O doutor amigo meu tinha razão: depois de transar com ele, alguns dias depois a minha alergia sumiu completamente.
Mas, voltando ao cigarro, ao motivo que ando fumando tanto assim, que é por isso que estou falando com você. Esse homem, que pensava ser o homem da minha vida, eu conheci num baile, há uns seis anos atrás. Ele era um homem muito bom, tratava bem os meus filhos, e por isso fiquei apaixonada. Era presidiário, ou melhor, um fugitivo. Nessa época ele já havia cumprido três anos de prisão, e estava sob a condicional. Eu nem sabia disso, e só fui saber quando a polícia o prendeu na rodoviária. Na delegacia, perguntaram por que ele fugiu assim, quando estava prestes a cumprir de vez a pena. Disse que só fez isso porque não queria matar a esposa, que aproveitava a sua ausência de noite para traí-lo...
Para não matá-la, resolveu sumir da cidade onde morava e começou a viajar para tudo quanto é lado, até me conhecer e decidir morar comigo e meus filhos. O juiz nem se comoveu com a história e mandou o Antônio para o presídio daqui mesmo, cumprir mais um ano, só para ele aprender a respeitar as leis. Enquanto cumpriu a pena aqui, durante um ano eu fui fiel, ia de quinze em quinze dias visitar ele no presídio, levava cigarro, me deitei somente com ele e com nenhum outro homem, mostrei que era mulher. Mas ele..., ele me apunhalou pelas costas, aquele covarde! Depois que cumpriu a pena e veio morar comigo, ele passou a viajar novamente, à trabalho. Um ano depois, a ex-mulher dele, a que ele teve vontade de matar daquela vez, me ligou dizendo: “olha Néia, o Antônio tá com amante aqui. Estou falando porque eu gosto de você. E se você quiser provar que eu não estou mentindo, vem para cá que eu levo você para ver com seus próprios olhos. Você tem como vir aqui?”
Podia ser mentira dela, para destruir a minha união com o seu ex-marido. Mesmo assim, resolvi pagar pra ver. Falei para ela que tinha sim como eu ir até a cidade dela, mas que não conhecia nada lá. Ela falou vem que eu te pego na rodoviária. Você paga uma pernoite em alguma pensão e a gente vai na casa onde ele está vivendo com a outra. Eu disse estou indo agora mesmo. Peguei e fui para a rodoviária. Eram oito horas da noite. Cheguei de manhã. A ex-mulher dele estava lá, me esperando. Era uma mulher simpática, até. Me pegou de carro e me levou. Ao chegar, ela disse: é aquela casa ali. Mas não posso ir lá, levar você. E você não diz que fui eu quem disse para você, tá bom? Eu falei tá bom, eu não falo. Agora eu vou embora. Eu falei obrigado e ela foi. Depois, eu bati lá na porta da casa que ela me disse que era.
Uma mulher bem feia, horrível, apareceu na porta perguntando o que eu queria. Eu disse: quero falar com o homem que MANDA aí nessa casa... De repente o Antônio apareceu. Néia?..., perguntou ele, surpreso. Era verdade... Ele estava me traindo mesmo! Enquanto a besta aqui acreditava que ele estava viajando a trabalho somente, ele estava é morando também com outra mulher! Respondi para ele: sou eu mesma, a Néia, sua mulher... Vim aqui para saber o que você anda fazendo comigo, e também, para agradecer: obrigado por me trair! Mas... À partir de hoje, eu morri para você!
A mulher feia e horrível dele quis me agredir com palavras mas o Antônio falou para ela: cala a boca, entra pra dentro, vai caçar o que fazer que ela é a primeira, você que é a segunda e sabe muito bem disso!
– Onde você está hospedada? – perguntou ele, virando para mim.
– Lá perto da rodoviária – falei para ele.
– Eu vou te levar lá, a gente vai conversando...
Eu disse tudo bem, vamos lá, porque eu precisava mesmo falar com ele, dizer tudo o que sentia. Acabamos indo para um bar. Bebemos todas. Eu fiquei bêbada e ele também.
Daí, os dois pôde dizer tudo o que estava sentindo. Desabafei. Eu chorei e ele chorou. Falei para ele: você quebrou o meu coração; deixou ele em pedaços, estraçalhado. Antônio pediu desculpas, implorou para eu dar uma chance, que se eu o perdoasse ele nunca mais na vida nem iria olhar para a mulher com quem estava morando... Quase voltamos... Quase falei para ele tudo bem, eu esqueço tudo. Mas não podia! Eu tinha que me respeitar! Falei não, não, e não! Ele, ainda assim, perguntou se não podíamos ir para um motel, porque na cama era o lugar onde a gente sempre se entendia. Eu falei: depois do que você fez comigo, Antônio, este CORPO aqui não deita mais no seu; deita no corpo de um cachorro vira-lata da rua... Mas no seu não se deita mais não!...E não me deitei... Voltei para casa e fiquei triste por um ano mais ou menos, sem sair, sem ir nos meus bailes, sem tomar a minha cerveja. Só fumava, um cigarro atrás do outro, até deixar os dedos amarelos. Até que veio a coceira dos infernos e o doutor pedir para eu fazer amor que a coceira passava.
Fui para os bailes. Eu amo dançar, beber, fumar, me divertir. Mas não gosto de qualquer homem não, principalmente esses que saem falando das outras mulheres. A coisa que eu acho mais terrível no mundo é um homem falar de outra mulher, que essa é larga... Que aquela é uma vadia... Que a outra é fedida... E essas coisas... Eu falo para os meus filhos. Tenho três. Um de vinte e sete anos; outro de vinte e seis, e o mais novo de vinte e um. Eu falo: não fale mal das mulheres que vocês saem, porque se não servem para vocês, servem para outros...
Daí, eu conheci esse rapaz... Ele tem a idade do meu filho mais velho. Eu tenho quarenta e cinco anos de idade... Mas sou bonita. No baile aonde sempre vou só vai pessoas da mais idade. Vão homens com menos de trinta, mas são poucos. Lá eles me chamam de Barbie, de boneca... Eu?..., penso comigo, Barbie?... Aos quarenta anos de idade?...
Graças a Deus, nenhum me falta com respeito, porque eles sabem que o rapaz que fica comigo tem muito ciúmes de mim. Ele me ama. Vai fazer um ano que estamos juntos. Mas não vamos casar não. Ele tem uma filha. É separado. Já pediu para me casar com ele. Eu falei que não; que já estava velha para isso; que tinha filhos adultos e que não ia saber viver com um homem dentro de casa me mandando. Eu sou muito independente. Mas, não impeço dele conhecer outra mulher que queira casar com ele, não quero fazer ninguém infeliz, não é? Enquanto isso, vamos vivendo a nossa vidinha..., dançando..., bebendo..., fumando..., fazendo amor bem gostoso..., afinal, o amanhã só a Deus pertence, não acha?
A GALINHA DOS OVOS DE OURO
Da casa n° 369, na rua Bartolomeu de Gusmão, aquela pintada de branco e de azul, com o telhado tradicional, gramado bem verde na frente, varanda, muro e portão, sai todos os dias da semana, bem cedinho, a Silvana. E se manda para o serviço, no seu automóvel popular, um pálio de dez anos atrás. Sempre bonita, de saia próxima aos joelhos, camisa curta, cinto, bolsa, o cabelo volumoso, óculos de sol, ela entra no carro e vai embora, sempre de um bom humor contagiante.
Logo depois dela, saem os três filhos pequenos, indo para o colégio. Às onze horas da manhã, surge Orlando, o marido. Na varanda, ele levanta os braços, se espreguiça, senta na cadeira, acende um cigarro e fica fumando. Depois, joga o cigarro, volta para dentro de casa, liga o aparelho de som num volume alto, abre um sorriso, e vai para a cozinha, fazer o almoço. Enquanto isto, acompanha:
Ô vida boa; oô vida boa...
Sapo caiu na Lagoa...
Sou eu a caminho do meu sertão...
Nunca foi de trabalhar. Tudo o que possui, foi a mulher quem deu. Importa-se com isso? Jamais. A casa onde vivem; o carro da mulher; o seu; tudo veio graças à Silvana. Mas nem por isso algum dia deixou-se submeter. Quando vê as asas da Silvana crescer, poda, como sempre podou e continuará podando. Se preciso; lhe pega pelos braços, agride, chacoalha, mostra quem é que dá a última palavra. Silvana, com isso, se derrete: homem de verdade é como Orlando; o resto, cópia...
Tem dó e nojo de homens que não se impõe; que aparecem com o rabo balançando e o focinho molhado só num estalar de dedos. Homens assim não merecem respeito. Quando arrumam uma mulher, ela é cheia de não pode isso não pode aquilo, a flor-do-não-me-toque. Quando arrumam uma que é fogo por todo corpo, entregam tudo o que tem. Que nem o seu primeiro chefe, seu Jaime. Morto de ciúme; deu-lhe um carro, só para ela parar de ficar conversando com os funcionários da empresa.
– Sabe dirigir, Silvaninha?
– Não sei mas aprendo.
Entrou na auto-escola, três meses depois tirou a carteira, ganhou o pálio, jurou eterno amor. Orlando, neste tempo, que era somente namorado, pediu para fazer um test driver. Silvana disse que sim, que ia adorar dar uma volta de carro com ele. Mas Orlando entrou no pálio, pegou no volante, ligou a ignição, deu umas aceleradas e disse:
– Espere aí; já volto, vou dar uma volta no quarteirão sem você, porque quero ir em alta velocidade e é perigoso.
E foi; sem lhe dar tempo de falar que não tinha problema algum correr risco de vida estando ao lado dele. Dessa volta ele sumiu no mundo. Silvana passou a noite inteira chorando, de ódio. Pela manhã o distinto apareceu, para lhe entregar o carro. Estava bêbado e com a roupa cheia de marcas de batom:
– Olha o que você ganhou, para deixar de ser imbecil – disse para si mesma.
Sem querer, descobriu um modo de arrancar dinheiro de seu Jaime sem este desconfiar de qualquer maldade por parte dela, quando pensou estar grávida dele. Pediu a ela para tomar injeção, tomou, e no outro dia, a menstruação desceu. Assim que seu Jaime lhe viu, apurou. Por brincadeira, resolveu mentir. Seu Jaime, sem rodeios, perguntou se ela conhecia alguém que fazia aborto. Falou que sim, apenas por falar. Então seu Jaime sacou o talão de cheque, assinou uma folha em branco, e deu para ela:
– Aborta.
Olhou para a folha de cheque em branco e decidiu levar adiante a mentira. Contou para Orlando. Ele disse: você é uma bandida; uma pistoleira; menina, e tomou dela o cheque. Meses depois, Orlando pediu para ela aplicar mais uma vez o golpe do aborto. Fez resistência; e ele, chantagem. Dias depois, a mesma cena. Mais um cheque assinado em branco! Para Orlando. E teve a terceira e a última vez; só que agora, estava grávida de verdade, e o pior: do seu Jaime! Junto com o cheque, o fim do caso amoroso, porque ficou com medo de hora ou outra ela ficar grávida e aborto nenhum derrubar o anjinho.
– Seu cretino! – disse, em lágrimas...
Ganhou as contas, recebeu o acerto bem além do que merecia; foi numa farmácia, ver o que podiam fazer por ela. O farmacêutico lhe aplicou uma injeção. Nada adiantou. Voltou à farmácia, fez o teste de gravidez, deu positivo, e dali para frente não era mais problema do farmacêutico. Relutou, fez escândalo, perguntou por que não era mais problema dele.
– Abortar é crime.
– E o que você fez quando me deu a injeção?
– Quando lhe apliquei a injeção não cometi crime algum. Quando lhe apliquei a injeção foi para matar o espermatozóide, que nem ter alma ainda tem.
– Como não tem alma? Claro que tem alma! Quando um espermatozóide entra no óvulo de uma mulher, no mesmo instante Deus envia lá do céu a alma do infeliz. Tá na Bíblia, não sabia?
– Eu duvido muito – disse ele.
– Dúvida do quê, que está na Bíblia?
– Não. Na Bíblia eu sei que não tem nada disso. Eu já fui um desses crentes que andam com a Bíblia debaixo do sovaco; que tem a bendita de cor na cabeça. Pelo que eu sei, na Bíblia não diz nada disso, de que Deus envia a alma no momento em que o espermatozóide entra no óvulo.
– Então você duvida que quando um espermatozóide entra no óvulo Deus manda uma alma para ele?
– Isso.
– Tá bom, moço. Mas não é isso o que quero saber, se você duvida ou não duvida disso ou daquilo. O que quero saber é como eu vou ficar?
– Não sei; se vira. Procura alguém que aborta. Ou então tenha a criança!
A criança não ia ter. Lembrou-se de um amigo que passou a ser a favor do abordo depois de abandonar a vida religiosa. Ligou para ele.
– Você quer matar a criança, é isso? – disse sério, mas brincando.
– Matar não, abortar.
– Sim, e não é a mesma coisa?
– Não. Abortar é uma coisa, matar é outra.
– Eu não vejo diferença – disse, levando adiante a brincadeira.
– Mas eu vejo. Ah, na verdade, o que importa? Entre matar ou abortar eu prefiro não ter essa criança...
– E por que não?
– Porque não é do Orlando.
– De quem é?
– Do meu chefe maldito.
– Eu conheço um cara, que vende uns comprimidos que derruba.
– Que cara?
– Um sujeito que trabalha no camelódromo.
– Vamos atrás dele.
– Quando?
– Agora.
– Agora?
– Sim, agora.
– Mas eu tenho aula.
– Mata – disse ela.
Ao dizer isso, Pedro falou:
– Você realmente está uma assassina, hein?
Foram.
* * *
No camelódromo, o matador de crianças. Discutiram o preço; era caro de mais, mas no fim concordou. Eram quatro comprimidos, dois via oral e dois via vaginal. Tinha que ser bem dentro, para alcançar o útero. Perguntou se queria que fizesse o serviço: nem morta! Avisou que era difícil; que colocar a mão na massa era o mesmo que estar mexendo com cimento; e abriu o sorriso com os dentes pobres. Nojento, foi a palavra que ouviu de Silvana. Foram embora. Em casa, a tentativa de homicídio. Insucesso. Voltou. O assassino matador sorriu de novo, tinha um dente de ouro no canto, brilhando. Desta vez, usou a palavra feia, aquela parecida com a bolsa em diminutivo, deixa? Ódio, injúria, revolta. Venceu o orgulho; viu o dente de ouro brilhar...
* * *
– O Magaíver não morreu – disse ela por telefone, para o Pedro.
– Quem?
– O Magaíver.
– Quem é esse?
– Quem? O neném, seu idiota.
– Ah, sim...
– Vamos lá comigo de novo.
Foram.
Passou mais uma vez pelo constrangimento. E advinha? O feto não morreu! Daí, viu que era uma vontade de Deus esse menino vir ao mundo. Contou toda a verdade para Orlando.
– Mentira! – disse ele, com os olhos alegres.
– Verdade!
– Mas que neném forte!
– Pois é.
– Vai tê-lo! Por que se não, quando você morrer, Deus te manda diretinho para o inferno!
– Mentira! Deus perdoa.
– Perdoa? Vai nessa... Na verdade, ele manda você retornar, e você nasce de novo aqui na terra, para expiar seu erro, sabia?
– Deus não é tão cruel assim.
– Já pensou? Que bom ter que voltar e viver mais uma vez aqui, ao invés de ir para o paraíso eterno?
– Não.
– Eu mesmo adoraria viver umas cem vezes essa vida.
– Deus me livre.
– Você diz isso porque vive sofrendo. Já eu, não. Vivo uma vida de prazeres.
– Você é um inconseqüente!
– Não, não sou. Olha, mudando de assunto, você vai ter esse filho, e o pai vai ter que pagar pensão! E a pensão tem que ser alta, viu? Alta!
Teve o filho.
O menino, que colocou o nome de Tiago, nasceu cheio de complicações, devido aos abortivos que ingeriu. Mas sobreviveu. Em sua fase de crescimento, sofreu vários acidentes. Teve um que era para ter morrido. Hoje, quase todo o mundo lhe chama de Magaíver. Quer ser policial, quando crescer.
Depois do seu Jaime, teve dois patrões, fora o de agora. Com os três, os mesmos golpes, as mesas sortes. No total: três filhos, uma casa, dois automóveis, poupança gorda, pensões altas para receber...
Assim que terminou de fazer o almoço, as crianças chegaram da escola. Depois veio Silvana. Almoçaram. As crianças, como sempre, ficaram em casa, com ele; e Silvana voltou para o seu serviço como secretária...
A INDENIZAÇÃO
Ritinha, a negra da minha vida, quis saber por que ultimamente eu carregava tanto o Silvinho para lá e para cá, naquela cadeira de rodas. Inventei uma desculpa bem esfarrapada: caridade, minha negra. Desde quando você tem uma alma caridosa, em seu infeliz?, disse ela, brava, do jeito que sempre fica quando alguém quer fazê-la de idiota.
A Ritinha tinha razão: a minha alma não era tão boa assim. Depois que fui dispensado do quartel; depois que perdi meu emprego porque o chefe de cozinha não foi com a minha cara; depois que o Silvinho passou a usar uma cadeira de rodas; eu deixei de ser bonzinho e passei a ser rancoroso. Foi quando conheci a Ritinha, a negra da minha vida. No começo, ela tentou me curar, com seu amor, mas com tempo viu que não tinha jeito e passou então a me vigiar, a querer saber de todos os passos que dava.
– Anda, diga, o que você faz tanto com o Silvinho, Rivaldo?
– Nada de mais.
– Sei.
– Verdade.
Assim que falei verdade o Silvinho apareceu no portão de casa, me chamando.
Fui atendê-lo.
– O homem do revólver está esperando, lá no centro – disse ele.
Eram três horas da tarde.
Voltei para a Ritinha e disse que ia dar uma saída, coisa rápida.
– Se cuida – disse ela, quando eu estava no portão.
Peguei o Silvinho pela cadeira de rodas e fomos para o ponto de ônibus. Não demorou muito e o lotação chegou. Coloquei o Silvinho no elevador automático e ele subiu. Todo mundo parou para olhá-lo. Tive pena do Silvinho: quem até alguns meses atrás esbanjava saúde agora estava ali, enfrentando as vergonhas da invalidez. Deixei-o no canto reservado para os cadeirantes e desci, dando a volta para entrar pela porta da frente. Ao passar a catraca, fui para perto do Silvinho.
– Se eles tivessem me dado uma indenização decente, teria comprado um desses carros para deficientes, sabe qual é? – perguntou-me ele.
– Sei.
– E uma cadeira de roda eletrônica também – disse ainda.
A indenização que pagaram ao Silvinho era de dar risada.
– Mas o que eles me deram? Um salário que não dá nem para comer direito!
– São todos uns putos, sem coração!
O ônibus chegou ao centro da cidade e então saltamos. Na calçada, o Silvinho disse que o sujeito do revólver estava esperando no trilho do trem, perto do Mercadão Municipal. Fomos. Ao chegarmos, um homem magro, cheio de tatuagens no braço, vestindo uma camisa regata veio até nós. A primeira coisa que perguntou para o Silvinho foi se eu era da polícia. Silvinho respondeu que não, que ele podia ficar tranqüilo. Acreditou. Pegou o dinheiro do Silvinho, e passou o revólver, um 38.
– Você nunca me viu – disse o tatuado, para o Silvinho.
– Você também.
Olhei para o homem e depois para o revólver.
– Fique com ele – disse Silvinho.
Peguei o revólver e coloquei na cinta.
– Você sabe como usar isso? – quis saber o sujeito que vendeu o revólver.
– Quem não sabe? – eu falei.
O tatuado não disse nada.
– Qualquer um, ao ser obrigado a usar uma arma, saberá como fazer – disse ainda.
No meu caso, havia aprendido a usar no quartel.
Saímos, de volta para o ponto de ônibus.
O ônibus chegou e então coloquei novamente o Silvinho na plataforma automática para deficientes físicos.
– Só na perna dele – avisou Silvinho, novamente.
– Quantas vezes você vai me lembrar disso? – falei.
– Eu tenho medo que você não faça o que combinamos.
– Por que eu não faria?
– Sangue quente...
– Pode ficar tranqüilo, Silvinho – eu disse.
Silvinho fez silêncio, confiando. Depois, perguntou:
– Que dia?
– Amanhã mesmo, bem cedinho – respondi.
No dia seguinte, iria me vingar do desgraçado que colocou o Silvinho na cadeira de rodas. O que César fez com Silvinho não tinha perdão.
Pouco tempo depois, saltamos do ônibus.
Levei-o até a sua casa, onde ele preferia locomover sem a cadeira de rodas. Era horrível o seu jeito de andar. Tremia todo. Parecia uma máquina velha; ou melhor, um robô velho, que a cada passo parece que vai cair – ver Silvinho andando assim, de um lado para outro, era algo muito revoltante. Fiquei somente um pouco com ele e fui para minha casa. Lá chegando, a Ritinha perguntou mais uma vez o que eu andava tramando.
– Nada.
– Sei.
Mudei de assunto.
Jantamos.
Lá pelas onze da noite, fomos para a cama. Quatro horas da manhã, eu estava de pé.
Peguei a moto e fui até a casa do César, o sacana maldito que não foi com a minha cara e que colocou o Silvinho numa cadeira de rodas. Cheguei uma hora depois. Ele saia as seis, para o trabalho. Desliguei a moto, coloquei o capuz e fiquei esperando. Enquanto isso, lembrava do dia que ele trancou o Silvinho dentro da câmara fria, por brincadeira de mau-gosto. A porta, desgraçadamente, emperrou. Tentaram arrombá-la, sem conseguir. Chamaram a manutenção e eles cerraram a porta de aço. Demorou. Quando conseguiram, o Silvinho estava duro, encolhido, inconsciente. Levaram o Silvinho para o hospital, salvaram a vida dele; mas depois disso nunca mais ele pôde andar direito, nunca mais pôde correr, nunca mais pôde trepar com uma mulher.
Agora, meses depois, ali estava eu, pronto para dar-lhe o troco. Não sabia se ia ter coragem, pois nunca havia atirado em alguém. Cinco horas da manhã, ele apareceu, abrindo o portão. Ainda estava escuro. Não havia ninguém na rua exceto eu. Ao me ver, empalideceu-se. Tentou voltar, fugindo. Não deu tempo: dei três tiros nas pernas dele. César caiu no chão. Desci da moto e o vi rastejar. A vontade que me deu foi a de atirar na cabeça dele, e matá-lo de vez. Mas lembrei do Silvinho, e dei mais quatro tiros no mesmo lugar.
O infeliz gritou de dor. Ficou gemendo, tentando ver quem era que estava atirando em suas pernas. Isso me deu outra vontade: tirar o capuz e mostrar para ele que era eu quem ia colocá-lo numa cadeira de rodas também. Mas; contive-me. Subi na moto. Antes de apertar a ignição, olhei para as mãos, ver se estava tremendo. Estavam. Liguei então a moto e fugi. Ninguém me viu. Dali fui direto para a casa do Silvinho. Quando passei pela marginal, joguei o revólver no rio.
– Fez o serviço? – perguntou Silvinho, ao me ver – ele estava na frente de sua casa, sentado na sua cadeira de rodas.
– Sim.
– Todos na perna do infeliz?
– Todos.
– E o revólver?
– Joguei no rio.
– Quer beber alguma coisa?
– Quero.
– Vamos beber o quê?
– Conhaque.
– Quantos tiros?
– Sete.
– Será que a policia vai vir aqui?
– Vai.
– E o que vamos fazer?
– Agir naturalmente.
– Como?
– Esquecendo do que aconteceu.
– Como eu posso esquecer, se foi aquele sacana que me colocou nessa cadeira de rodas?
– Esquece. Você já se vingou, não se vingou?
– Sim.
– Então?
– Já esqueci. Não sei de nada, não vi nada – disse ele.
– Cadê o conhaque?
– Está lá dentro, vamos entrar.
Entramos. Silvinho empurrou o seu carrinho até a porta, onde ele deixou-o para entrar com as próprias pernas. E foi andando daquele jeito horrível, que me dava uma revolta danada. Na sala, sentei-me num dos sofás. Dali a pouco, ele voltou, com o conhaque e os copos na mão. Ao vê-lo, com o seu jeito horrível de andar, me incomodei e quase pedi para ele sentar na cadeira de rodas dele. Mas não fiz, não queria ofender meu grande amigo. Ele sentou num outro sofá e começamos a beber. Bebemos a garrafa inteira. Numa certa hora, Silvinho, já bêbado e empolgado com uma conversa que tivemos, de repente levantou-se dizendo que ia dançar.
Quase falei que não, que ele não fizesse isso pelo amor de Deus. Sem coragem para repreender meu grande amigo, Silvinho levantou-se e começou a dar uns passos. Foi uma das coisas mais feias que vi na minha vida, ver Silvinho dançar daquele jeito. Senti-me um impotente: se pudesse, devolvia-lhe a capacidade motora. Mas eu não era Deus, não era um santo. Eu era agora um assassino, tinha uma morte nas costas. Portanto, o jeito era deixá-lo dançar, ser feliz; e, para alegrá-lo mais ainda, levantei-me também e dancei com ele, ao lado dele, como grandes amigos. Até que deu a hora do almoço e fomos para casa.
O almoço estava bom. A Ritinha me xingou, porque estava bêbado antes do meio-dia. Quando terminamos, Silvinho foi para casa e eu fui para a cama, dormir. Fui acordar à noite. Liguei a televisão e vi no noticiário a reportagem sobre o César. Estava no hospital, entre a vida e a morte. Dias depois, fiquei sabendo que ele sobreviveu, graças a Deus. E melhor ainda: que ele estava numa cadeira de rodas, e que nunca mais iria poder andar com as próprias pernas. Fiquei feliz, quis dançar, mas me lembrei do Silvinho, me lembrei que ele não podia dançar decentemente: depois deste dia, eu nunca mais dancei em minha vida, nunca mais!...
QUADRO NEGRO
No meio da sala de aula, a colegial com as pernas abertas, sem calcinha, mostrando o risco dourado. Na frente dele, o quadro negro, cheio de linhas do ponto de História. Volta e meia, o grito, clamando o professor. Em cima do caderno, a visão radiante dos seios, novinhos, um bico para lá e outro para cá, espetados: a educação é um sacerdócio...
Soa o sino do recreio. Na sala dos professores, venda de cosméticos, rifas e roupas. Corpos à vontade, corpos apreensivos, tensos. Alguns rindo; outros, reclamando: esses alunos são tudo sem educação...
– Uns diabos...
– Que isso!, diz Evandro.
De vez em quando, dava aulas em escolas particulares. Lá, os alunos, sabiam mais que ele, o professor. A maioria quer ser um médico, um advogado, um doutor. Enquanto que ali, no último bairro da cidade, os alunos tem dificuldades para aprender, e sabem que é uma utopia, uma ilusão querer ser alguém importante na vida.
– Fez a tarefa?
– Fiz não.
Adiantava lutar por alunos assim? Um professor, com longos anos de experiência, disse-lhe certa vez: na minha sala eu só cuido para eles não brigar. A aula? Não dou. Quando dava, vivia no médico. Você acha que aluno gosta do professor? Só se você fizer a vontade deles...
* * *
Ana, o nome da colegial.
Rua, a palavra que ouviria em caso de escândalo.
* * *
Dias depois, Sabrina apareceu. Tinha carro do ano, vestia-se bem, era bonita, morava em bairro nobre, fazia mestrado.
– É preciso abrir os olhos desses alunos para a vida, são muitos conformados!
– O que pode salvá-los? Só a educação...
– Pensam que a educação não é de nada...
– Precisamos mudar isso; formar verdadeiros cidadãos; conscientes, solidários, cooperativos, tolerantes, intelectuais: eis aí a nossa missão!
– Como que é o seu nome?
– Evandro.
– Prazer, Sabrina.
Desde então, profissionais unidos.
Longe dele: bonito este rapaz, não?
– Inteligentíssimo...
– Forte, né?
– Mas pobre...
– Pobreza não é defeito, ao menos para mim. O que vale é o caráter.
– Você diz isso porque é nova... Mas vai em frente, amiga...
De mãos dadas, entravam e saiam da escola.
* * *
Persistente; Ana, a colegial, conseguiu o seu telefone celular. Ligou dizendo que estava no banho, pensando nele.
– Como você conseguiu meu telefone?
– Conseguindo...
– Com quem?
– Não posso dizer.
– Vou desligar.
– Por favor, estou no banheiro...
Imaginou: água do chuveiro caindo, pele ensaboada, marquinhas de biquíni pelo corpo – Cristo, quem agüenta?
– Queria você aqui... Até consigo lhe ver, me beijando...
A boca secou.
– Vem.
Jogou ar para os pulmões, contou até dez.
– Vem...
Diante do raio da tentação subindo, a pergunta:
– Está sozinha?
– Sim, mamãe viajou.
– Ninguém em casa?
– Só eu, peladinha, prof...
– Onde que é a sua casa?
Falou: três quadras do colégio. Foi. Portão aberto, porta da casa aberta, porta do banheiro também aberto – tudo aberto.
Tirou a roupa e entrou.
– Que força.
– É você, menina.
– Já vou.
– Não vá, fique; quero mais!
Teve mais...
* * *
... Dias depois, a chantagem:
– Todo o mundo no colégio vai saber.
– Eu desminto!
– Em quem vão acreditar?
– Não me importo!
– Não seja bobo, que tem de mais?
– Que tem de mais que sou seu professor, menina!
– E daí?
– E daí que tenho uma noiva também...
– Aquela cretina rica?
– Olha como você fala dela!
– Eu falo dela como eu quiser! Só hoje...
A partir de então, sempre cedia.
* * *
Sabrina ficou sabendo:
– Cafajeste descarado! Como você pôde fazer isto comigo? Dizia que me amava; que eu era o seu tudo; que sem eu você não era ninguém, isso e aquilo e me apunhala pelas costas?! Desgraçado!
Ela mesma prontificou-se em entregá-lo ao diretor.
– O que é isso, Evandro?
Onde se ganha o pão não se come a carne...
– Por favor, eu preciso deste emprego!
– Me desculpe, para o seu bem.
Punido, ganhou a rua e uma lição.
* * *
Conseguiu aulas numa outra escola, depois de andar muito por aí. Casou-se com Ana, teve filhos, teve amantes.
– A educação é um negócio...
– Um mau negócio.
Hoje, na sala dos professores, tem a postura relaxada, gargalha, toma café, e exibe a barriga redonda. Quando vê um professor querendo transformar a realidade, sente pena. Quando vê uma professora pessimista, se aproxima.
– Esses alunos são uns demônios...
– Uns demônios nojentos!
– Acabei de ver alguns alunos pulando o muro. O que será que vão fazer, hein professor?
– Se acabar em drogas...
– Triste, não? Tinha umas meninas com eles, será que vão se drogar também?
– No mínimo... Depois, abrem as pernas e está tudo em ordem!
– Tão jovens, né?
– Sim, mas tem um fogo no meio das pernas que ninguém apaga!
– Que coisa...
– Sim – em tom episcopal.
– Eu quero ver quando eles enxergar a realidade...
– Aí vai ser tarde demais...
– Uma pena...
– Uma pena?!
– Não?!
– Claro que não! Cada um tem aquilo que merece!
– Você tem razão.
– Quem semeia vento, colhe furacão.
– Eu não sei por que ainda dou aula.
– Nem eu.
– Estão abrindo vários concursos.
– Vou fazer todos, para ver se saio desta vida...
– Eu também...
– Você bebe cerveja?
– Bebo.
Entre um gole e outro, uma nova amante. Quando estão nas salas dos professores, riem dos colegas empenhados em transformar a realidade. Depois, ficam tristes. Ela porque o demônio não lhe deixa sair dessa vida; e ele porque lembra da Sabrina idealista, da Sabrina apaixonante, educada, bela, sonhadora e de sexualidade discreta: o que seria se tivesse casado com ela?
A CONSPIRAÇÃO DO UNIVERSO
O serviço era na aeronáutica, com um plano de carreira de sete anos, com um salário digno. Eu havia vencido mais de duzentas pessoas, estava desempregado e um tanto desiludido com a existência: a vaga era a minha última tentativa.
Uma pessoa luta, entra numa faculdade, se encontra, e quase não dorme: só sonha, dia e noite, acordado. Da turma de quarenta pessoas, dez delas no máximo logo arrumam um emprego. Outras vinte demora um pouco, mas encontram. Sobram os dez. Alguns, cansados, partem para outra. Outros insistem e morrem.
No último teste havia eu, o Roberto e Cláudio disputando duas vagas apenas. Venceram. Foi quando então decidi assassinar um dos dois. Mas quem? Aquele que tinha menos afinidade? Não gostava nenhum deles. Eu só gostava de mim.
Fosse um assassino, mataria o primeiro que viesse em mente. Mas não era, e para me decidir, resolvi investigar a vida deles. Comecei pelo Cláudio, e vi que ele era pai de família, tinha dois filhos pequenos e uma esposa gorda e feia. Era ele quem levava e trazia os meninos da escola, da natação, do futebol. Tinha amante, uma loirinha de dezessete anos.
Dias depois, comecei a vigiar o Roberto, e logo no primeiro dia confirmei aquilo que suspeitava desde o inicio: era gay. Morava com a mãe, uma velha de cabelos bem brancos. Cuidava bem dela, amava-a. Tinha um namorado, um rapaz de uns vinte anos, que vivia de camiseta regata.
O adultero ou o homossexual?
Pergunta difícil: os dois tinham lá suas redenções: o primeiro, um bom pai, o segundo, um bom filho. Levei dois dias para decidir isto. Laura, que sempre reclamava de minha frieza, protestou. Pedi a ela compreensão, que eu estava triste com a minha derrota no concurso. Ela disse que sim, e desistiu de conversar comigo, fincando aborrecida pelos cantos da casa.
Assim que decidi quem assassinar, planejei tudo. Eu iria abordá-los dizendo é um assalto, e depois atiraria em Roberto. Era um sábado à noite. Os dois saíram, bem vestidos. Desci do carro e fui atrás deles. Duas quadras depois, vi que era a hora. Ao dobrarem o quarteirão, desisti, porque apareceu uma casa noturna, uma boate, com muitas pessoas ali na frente, algumas na fila e outras não.
Recuei.
Eles entraram na fila e eu fiquei pensando se entrava também ou se ficava ali, do lado de fora, esperando. Resolvi entrar e peguei a fila. Ao chegar à portaria, perguntei para o segurança o que era ali.
– Um bistrô.
– Bistrô? Mas bistrô não é restaurante francês?
– Aqui não.
Entrei.
Lá dentro vi homens para todos os lados. Havia também travestis, e mulheres. O som estava altíssimo, e a maioria dançava olhando para os gogos-boy que dançavam em lugares altos, estratégicos. Usavam apenas sunga; e alguns homens, enquanto dançavam, passavam a mão neles.
Procurei relaxar.
Comprei uma cerveja e fiquei dançando, evitando olhar para os dançarinos. Contudo, volta e meia olhava, e quando desviava o olhar, sempre via um monte de homens me olhando. De vez em quando, algum viado pegava em meu braço, piscava, se aproximava. Mas eu dava uma desculpa qualquer e saia de perto, em direção ao bar.
Enquanto bebia, olhava para as mulheres. Algumas delas fechavam a cara, demonstrando indignação. Outras, por outro lado, riam. Uma delas se aproximou.
– Você não é homossexual, é?
Fiz que não.
– É bi?
– Também não.
– Então o que você faz aqui?
– Curiosidade – falei.
– Já experimentou?
– O quê?
– Ficar com homem?
– Não.
– Nunca teve vontade?
– Não.
– Hoje em dia é moda. Todo mundo experimenta. Eu mesmo gosto dos dois, de homem e de mulher. No começo me sentia ruim com isso, hoje me considero uma pessoa feliz. Você tem certeza de que nunca teve vontade?
Disse que não, nunca.
Dali um pouco ela começou a se insinuar para cima de mim. Esquivei-me, porque ela estragaria tudo. Ao deixá-la para trás, ouvi as palavras: veado gazela.
De longe ficava olhando Roberto e seu namorado beijando na boca enquanto dançavam. Era estranho, esquisito. Não suportei. Sai da boate gay e fiquei esperando por eles, num canto escuro, atrás de uma árvore. Uma hora depois, eles saíram. Passaram por mim e eu fui atrás. Segui os dois por três quarteirões, quando resolvi gritar: é um assalto.
Levantaram as mãos.
Dei três tiros no coração de Roberto. Seu namorado, cheio de pavor, saiu correndo. Deixei-o ir, e me certifiquei se ele estava morto. Em seguida, voltei para o meu carro. Dei a partida e voltei para casa. Quando cheguei, a Laura estava com suas malas na mão, dizendo que ia embora.
– Para onde?
– Para casa de minha mãe.
– Por que?
– Porque não posso viver com um homem frio como você!
Aproximei-me dela.
– Se afaste, por favor – pediu, quase em lágrimas.
– Eu juro que mudarei – eu disse.
– Mas você não muda, José!
– Me dê mais uma chance!
– Não posso – falou, indo em direção à porta.
Foi quando comecei a chorar, depois de longos anos que não chorava. Quando ela estava na porta, falei para ela o que havia acabado de fazer. Foi um ato irracional, eu sei.
– O quê?
– Isso mesmo. Eu matei um homem.
– Por quê?
Expliquei-lhe.
Não sei por qual razão, Laura, ao fim me abraçou, e me beijou, desistindo da ideia de me deixar.
Dias depois, assumi o cargo que era do Roberto. O Claudio, não sei por qual motivo, me odiava. De vez em quando, brigávamos lá no quartel. Era quando tinha a absoluta certeza de que fiz a escolha errada, que era ele quem devia ter exterminado. E por sete anos – o nosso tempo de trabalho – foi assim. Quando fomos dispensados, saímos brigados, sem nos falar.
E mais uma vez desempregado, saí à procura de trabalho. Encontrei um, que era também com processo seletivo, e pagava melhor do que na aeronáutica. O Cláudio, por ter a mesma profissão que a minha, estava concorrendo. Dessa vez, era uma vaga apenas; e, novamente, ele me venceu. Assim, era muito arriscado matá-lo, porque no mínimo o principal suspeito seria eu. Mas resolvi fazer. Matei-o a sangue frio, e assumi o cargo.
Nunca fui preso por isso, pois nunca tiveram provas fortes contra mim. A Laura, ao saber do assassinato, perguntou se eu tinha algo a ver com o crime. Falei que não, que era apenas o Universo, o grande Universo conspirando a meu favor...
O BANQUETE
Alice caçava oferendas – era esse o seu serviço, como repórter, na igreja em que fazia parte. Era bem renumerada, e o seu programa chamava-se “Mistérios”, que tinha como objetivo mostrar como que funciona a religião pagã. Era esse o modo que evangelizava: mostrava o mal para as pessoas se conscientizarem e se converterem à fé cristã.
Procurava as oferendas em terrenos baldios, nas encruzilhadas, nos matagais, em beira de rios, cachoeiras, trilhos de trem e assim por diante. Tinha cartão de visita, o qual deixava com os moradores dos bairros por onde passava procurando. Dava recompensa, e por isso o seu telefone não parava de tocar. Num de seus dias, logo pela manhã, uma mulher ligou-lhe dizendo que viu perto de sua casa uma oferenda que a deixou bastante assustada.
– Onde?
A mulher, que se chamava dona Maria, disse o endereço.
– O que te assustou?
– O tamanho da oferenda... É enorme.
– Estou indo aí.
Desligou o telefone e ligou para uma das várias ex-mães-de-santo que lhe ajudavam. Eram mulheres da mesma igreja que a sua, que se converteram. Nesse dia, uma estava disponível, porque era o seu dia de folga do serviço.
– Vou te buscar.
– Estou aguardando.
Foi, junto com o obreiro Flávio, câmera-man.
– Como vai, Orlandina? – disse ela, ao vê-la.
– Vou bem, graças a Deus – respondeu, entrando no carro.
– A mulher me disse que é coisa feia, horrível.
– Não me assusta.
No caminho, foram conversando, e Orlandina lhe contou vários casos do passado, quando era a mãe-de-santo. Falou dos trabalhos que fazia para amarração, para o sucesso financeiro, para isso e para aquilo – Alice e Flávio foram ouvindo.
Por fim, chegaram.
– Nos leva lá? – disse Alice, para dona Maria.
– Levo sim.
No caminho, Alice deu dinheiro para a mulher.
Era num mato, debaixo de uma árvore. Alice pediu para o obreiro Flávio ligar a câmera. Ele ligou e começou a filmar a oferenda. Havia dezesseis galinhas d’ angola, bem grandes e gordas; e dezesseis garrafas de pinga. Alice pegou o microfone e perguntou para Orlandina que tipo de trabalho era aquele.
– Um banquete.
– Um banquete? – repetiu Aline, curiosa.
– Sim.
– E o que isso significa?
– Significa que a pessoa quer muito aquilo pediu às entidades.
– Dá para saber o que essa pessoa deseja?
– Nesse caso, não. A única coisa que sei é que essa oferenda não é a última deste trabalho.
– Não?
– Não. Veja que há duas aberturas, que precisam ser fechadas...
Alice olhou para a oferenda, e Flávio acompanhou com a câmera. As galinhas e as garrafas de pinga estavam colocadas de modo a fechar um oito, se não fosse as duas aberturas.
– Aliás – continuou a dona Orlandina – esse trabalho foi feito pela própria entidade, incorporado num pai ou mãe-de-santo. Então, essa entidade vai pedir outras oferendas, antes de dar a pessoa o que ela pediu...
– E dá certo?
– Geralmente, sim; mas no máximo por três meses. Quando esse prazo vence, e as coisas começam a dar errado, as entidades pedem mais sacrifícios, mais banquetes como esse. A pessoa nem sabe, mas ela está prestando culto ao demônio...
– E se a pessoa se dá conta disso e deixa de oferecer sacrifícios a eles? – perguntou Alice.
– Então eles tiram tudo o que deu à pessoa... E não só isso: o encardido fica tão encapetado, tão furioso, mas tão revoltado com a deslealdade da pessoa que passa a agir contra. Logo a pessoa fica com a vida amarrada, e tudo o que vai fazer dá errado...
– E o que a pessoa deve fazer para reverter essa situação? – perguntou Alice.
O Flávio, ouvindo essa pergunta, focou sua câmera bem no fundo dos olhos de Orlandina.
– Aí, é só o Pai das Luzes para desfazer tudo isso... Para dissipar todas as trevas... Para mandar pro inferno toda a legião que o demônio delegou para acabar com a vida dessa pessoa...
Alice, com essa resposta, disse ao Flávio que já estava bom, que ele podia desligar.
– Obrigada, Orlandina.
– De nada.
– Precisávamos mostrar isso, para as pessoas saberem com quem estão lidando.
– É esse o meu dever, é esse o meu ministério: desmascarar todos àqueles que me enganaram a vida toda...
– E o meu também, Orlandina, o meu também...
A MORTE DE CANTÍDIO
Na parede do casebre de madeira, o Jesus Misericordioso. Antes de morrer, Cantídio tossia a tosse do fim, o incêndio que não sossegou enquanto não acendeu. Recebia visitas, mas rotineira, mais preocupada com a limpeza da casa que com afetos. A velha era quem mais prestava cuidados. As filhas, todas casadas; exceto uma, a caçula. Apareciam pouco. O abandono, a solidão e a morte eram suas companheiras fieis.
– Cuidado o sereno – dizia a velha, despedindo-se.
De vez em quando um vizinho, que era crente, aparecia. Tinha fé no poder curador de Jesus, e num dia lhe chamou para um culto de cura. Entre uma tosse e outra, conseguiu levantar-se e ficar sentado na cama. Pigarreou, cuspiu no chão vermelho, olhou para a lâmpada acesa, depois para o rapaz. Lembrou-se da juventude, de quando dançava com as quengas, o cigarro numa mão e o copo de cachaça noutra.
– Não vou não, meu filho.
– Por quê?
– É tarde.
– Para Deus nada é impossível.
– Ainda que fosse, não quero.
– Velho é cabeça dura mesmo...
– Já acabou?
– Ainda não.
– Então, diga.
– Jesus te ama, arrepende-se.
– Me arrepender do quê?
Era tarde. Prisioneiro do corpo, desejou uma última noite. Na miséria, a morte não tem nome, só reclama. Judite, Catarina, Afrodite. Afrodite? De onde ela tirou este nome? Virgem Santa. Na miséria, a morte nunca clareia. Debaixo do colchão, o maço de cigarros. Fumava um e era o fim da vida aqui nesta terra. Que viesse o fim, logo! Sem a presença do crente idiota, riscou o fósforo. Deu um trago, dois, três, e jogou fora, sem conseguir ir até o fim. Depois; a dor, a imensa dor, o ar agora era uma reminiscência, uma lembrança dos bons tempos. Dor.
Sem ninguém para acudir, foi levado para o hospital somente no dia seguinte, pela manhã. Estou morto? Infelizmente não estava. Morria e seria feliz. Por que ninguém o matava? Por que não acontecia alguma tragédia? Por que ele não conseguia escorregar e quebrar o crânio? Por que não engasgava com um osso de galinha, a garganta entalada e o fim certo? Onde estão as paradas cardíacas neste momento? Os derrames? Os abraços calorosos? A vida? O seu castigo era grande: aqui se faz aqui se paga! Deus, lá no Esplendor, nada fazia, só assistia.
– Não passa de um mês.
A velha levou-o para casa.
– Cantídio...
– Quê?
– Eu te perdôo.
– Perdoa o quê?
– Tudo de ruim que você me fez nesta vida!
Abaixou a cabeça.
– Vou mandar Maria lhe cuidar por alguns dias.
– Obrigado.
E foi embora.
– Por que eu? – disse a caçula.
– Porque sim.
– E as outras filhas?
– Não podem. Tudo tem filho, marido, você não.
– Eu tenho a minha vida!
Foi, mesmo assim.
Cantídio, na cama, olhava para a filha que cresceu, alheia a ele. Mal olhava para o pai. De vez em quando, tinha vontade de abraçá-lo. Chegava perto, sentia o fedor, recuava. Voltava para a vassoura. Pensava. A certeza era unânime: aqui se faz aqui se paga. O velho, com seu câncer e seu enfisema, pensava às vezes em quebrar o orgulho, pedir perdão. Pedir perdão para quê? No que isso ia mudar? Cof, cof, cof; depois um hrum; e cuspe, e mais cuspes, o suor e a fraqueza.
– Não me arrependo de nada nesta vida...
– O quê, pai?
– Falei que não me arrependo de nada que fiz nesta vida.
– Mas devia.
– Por quê?
– Porque sim.
– Eu quero saber o porquê.
– Para a sua alma subir com menos peso.
– Besteira.
Dias antes, as últimas visitas.
– Como vai, pai?
– Do jeito que você está me vendo.
– Eu te perdôo.
– Perdoa do quê?
– De todas as coisas que você fez a gente passar.
– Mas vocês não estão vivas?
– Sim.
– E desejam a morte como desejo?
– Não.
– E por que tem o quê reclamar?
– Não estou reclamando. Só estou dizendo que te perdôo.
– Arre.
Veio à noite. A filha dormia, acendeu um cigarro. Puxou um trago, encheu os dez por cento que ainda tinha do pulmão; tossiu, soltou a fumaça. Depois, voltou para a cama, quase morto, sem a vista. Tosse. Dor. Tosse. Dor. A filha acordou. Levantou-se, e foi ver como o velho estava. Não estava. Tinha ido sabe Deus para onde. Fechou os olhos do pai, traçou o sinal da cruz, ligou para a mãe:
– O velho morreu.
No velório e no enterro, poucas pessoas.
Foi a velha quem puxou o terço....
O ABORTO.
Anita tinha vergonha do Fred. Ele dizia: vamos nos assumir? Ela respondia: não. Então, Fred perguntava: é por que eu sou pobre e você é rica, é isso? Falava que não. É por que não sou uma pessoa interessante, não é? Também não. O que é, então?, perguntava, rispidamente, a fim dela acabar logo com esse mistério.
Anita não respondia. Às vezes, quando fazia essas perguntas, ela iniciava um discurso, argumentando para terminarem. Ele nunca a deixava passar das primeiras premissas. Ou lhe dava um afeto, ou mudava de assunto, ou fazia outra coisa parecida. Ela desistia. Fred ficava feliz. Mas em nada mudava a vergonha que tinha por ele.
E a sua vergonha era tanta que nunca deixou Fred conhecer seus pais, nem mesmo seus amigos e amigas; exceto a Carla, que o conheceu por acaso, num dia em que ela encontrou a Anita bebendo com ele num bar comum. Ao vê-la, pediu para o Fred esconder-se; mas não deu tempo, e Carla viu-o, sendo apresentados depois.
Nesse dia, Anita quase terminou o namoro.
Num outro dia, Carla lhe reconheceu no centro da cidade, dizendo: você estava com a Anita naquele dia num bar, não estava?
– Estava.
– O que você é dela?
– Nada – falou.
– Mentira – disse ela.
– Mentira?
– Mentira. A Anita me falou. Vocês tem um caso.
– Ela te falou?
– Falou sim.
Ao saber disso, viu que a Carla poderia lhe dizer por que a Anita não o assumia.
– Vocês duas são grandes amigas, não são? – disse ele.
A Carla abriu um sorriso, lisonjeada.
– Ela disse?
– Disse.
– Eu não sabia...
– Não?
– Não. Na verdade, sempre pensei que a Anita apenas me tolera... Sabe, não sou tão rica quanto ela, na verdade, nem rica eu sou. Nos conhecemos quando meus pais ainda eram alguma coisa na sociedade, antes dele falir. Acho que ela continuou falando comigo por compaixão...
– Posso te pagar uma cerveja? – falou.
– Nossa! Mas não sou tão pobre assim para não dividir a conta com você...
– Tudo bem – disse ele – afinal de contas, eu também não sou tão rico assim para sair pagando cerveja para os outros.
Foram.
No bar, depois de uma meia hora conversando, perguntou para a Carla se ela sabia por que a Anita tinha vergonha dele. Sabia, mas tinha medo de magoá-lo. Perguntou-lhe se realmente ele queria saber; disse que sim, e com cuidado, falou:
– É porque você é feio, Fred.
Ficou aborrecido, ao ouvir isso.
– Muito?
– Muito...
– Só porque sou vesgo?
– Porque você é vesgo, tem a boca torta e a pele do rosto cheia de espinhas.
– Ela te disse tudo isso?
– Disse.
– Droga!
– Você disse que não ia se magoar.
– Mas me magoei.
– De qualquer forma, Fred, eu te acho uma pessoa simpática, inteligente, e uma pessoa assim pode ter a mulher que quiser...
– Posso?
– É só você querer.
– Obrigado.
– Nada. O que você precisar de mim, é só pedir.
– Está bem.
Trocaram telefones.
Depois, pagaram a conta e ela foi para um lado e ele para outro.
No dia seguinte, viu a Anita. Ao acabarem a primeira transa, num motel, deitou de lado e falou é por que eu sou feio, não é?
– O que você está dizendo, Fred?
– Você não me assume por que sou muito feio.
– Quem te disse isso?
– O espelho – falou, evitando comprometer a sua amiga.
Anita fez silêncio.
– Não é?
Mais silêncio.
– Diga!
– È Fred, é por isso...
Chorou; e, em voz alta, perguntou para Deus por que Ele o fez um sujeito assim, sem beleza exterior.
Ele não respondeu.
– Está tudo acabado entre nós – disse ela.
– Não acredito! – falou, com lágrimas nos olhos.
Depois, disse várias coisas para Anita, a fim de fazê-la mudar de ideia. Não teve acordo. Acabou ali mesmo e disse para ele nunca mais ligar. Chorou de novo, e ela deixou-o no motel sozinho, abandonado. Contudo, não foi isso o que a Anita lhe fez de pior. Pois, terminar com ele até que era perdoável, mas o que ela fez semanas depois, não tem perdão. Quem lhe avisou antes dela fazer o que fez foi a sua amiga Carla.
– Alô? – disse ela, no telefone: – É você, Fred?
– Sim, sou eu.
– Você precisa correr. A Anita está grávida de você e vai abortar.
– O quê?!
– Isso. Ela vai abortar. Nessa hora ela já deve estar na clínica.
– Que clínica?
A Carla lhe disse a clinica.
Fred desligou o telefone e saiu correndo. Na rua, pegou o primeiro moto-taxi que viu pela frente e foi. Na clinica, falou para as recepcionistas que se elas não dissessem onde estava acontecendo o aborto que ele ia denunciá-los para policia imediatamente. Ao ameaçá-las, elas chamaram a dona da clínica. Uma mulher de seus quarenta anos de idade apareceu.
– Onde a Anita está?
– Calma, rapaz – disse ela.
– Calma uma pinóia! Onde?
– De repouso. Ela passou mal, perdeu o bebê.
– Mentira! Ela abortou. Criminosos!
– Ninguém fez aborto nenhum, menino. Ela passou mal, perdeu o bebê, foi isso.
– Vou denunciá-los!
– Fique à vontade.
Não adiantava ofender uma mulher cínica como aquela.
Foi para as questões práticas.
– Cadê ela?
– Está de repouso.
– Aonde?
– Lá em cima.
– Me leve até ela!
Levou.
Enquanto iam para o seu leito, rezava para ela estar mentindo, sobre o aborto já ter sido realizado.
A Anita estava deitada, vestindo as roupas do hospital. Ao lhe ver, pediu desculpas.
– Por que; Anita, você fez isso comigo?
Não respondeu.
Ficou olhando para ela por um minuto mais ou menos, até dar vontade de sair.
Foi o que fez.
Saiu; e na rua, chorava, chorava pelo filho que nem chegou a conhecer...
POBRES DIABOS
Magrinha:
Você me pergunta quem é o Cido e quer que eu fale dele de uma maneira justa, com todo o cuidado do mundo. Mas eu digo a você que para dizer quem é o Cido não precisa de muitas palavras, de muitos rodeios, pois uma só palavra diz tudo o que ele é, e sabe qual palavra é essa? A palavra é tonto! O Cido é um tonto, coitado... Desde o primeiro dia em que eu o conheci, lá na casa onde eu trabalhava, logo percebi que ele era um tonto. Eu cheguei à mesa dele e disse: paga uma cerveja para mim? Ele pagou, sem dizer uma palavra contrária. Fiquei com dó. Sentei em seu colo e comecei a fazer carinho nele. Enquanto fazia carinho nele, olhava para o seu rosto. Que homem mais feio! Eu nunca havia visto alguém mais feio que ele. Feio de dá dó...
Depois de tomarmos umas sete cervejas, fomos para um dos quartos. Me comeu, e gostou. Passou a ser cliente, e se apaixonou por mim. Me pediu para abandonar a minha vida de mulher sem futuro e morarmos juntos, no meu barraco. Aceitei, sem avisar para ele sobre o Tião, meu marido, que na época estava no presídio. Ele foi para a minha casa e ficou morando eu, ele, e a minha filha, a Jana. A Jana não gostou nada, nada dele. Mas filho da gente não pode decidir nossa vida, não mesmo. Coloquei o Cido dentro de casa e ele passou a me ajudar, porque era para isso que deixei ele vir morar comigo. Colocou piso na casa, carpiu o matagal, e não deixou faltar comida. Nem comida nem a nossa cervejinha no final de semana. Até aparecer o Tião, e ele teve que sair do barraco.
Cido:
A Magrinha é atraso de vida; ela só quer o meu dinheiro, aquela bandida. Um dia ela me pediu dinheiro para a filha dela viajar, visitar a avó. Dei, pensando que ela estava falando a verdade. Era mentira. Passei na casa dela e vi a filha dela lá, brincando na rua com as amiguinhas. Cadê sua mãe?, perguntei para ela. No bar, respondeu. Fui no bar. Peguei ela no flagra, bebendo cerveja com o meu dinheiro. Perguntei da filha e ela disse viajou. Viajou nada, eu falei. Você está me chamando de mentirosa, Cido? Eu disse mentirosa e sem vergonha. Você só quer saber do meu dinheiro, não está nem aí para mim, sua pilantra. Briguei com ela mas logo em seguida perdoei, sentei ao seu lado e bebemos cerveja o dia todo. Meses depois apareceu esse marido dela, um tal de Tião.
Estava na penitenciária máxima; é bandidão, o cara. Eu tive que sair da casa dela e voltar para a minha família. Eu odeio a minha esposa, aquela feiosa sem coração. Meus filhos estão grandes. Eu falo para eles: parem de se preocupar com a minha vida, já criei tudo vocês, me deixam em paz! Mas não tem jeito. Todo o mundo foi contra eu ficar com a Magrinha. Meus conhecidos falaram: larga mão dessa biscate, Cido, isso não é futuro para você não. E quando eu abandonei a minha família para ir morar com a Magrinha, eles disseram pare com isso Cido, você tem a sua casa, a sua esposa, a sua família, pare com isso!
Mas quem disse? Ela tem um negócio na chana que pega o nosso pau assim e puxa pra dentro. Uma coisa doida, doida mesmo. Você já pegou uma mulher assim? Já? E não perdeu a cabeça por causa disso? Não? Meu Deus, que tipo de homem você é? Normal? Você é engraçado... Então, como eu estava dizendo, apareceu esse marido dela que estava preso na cadeia. Bandido, o cara. Saí perguntando para algumas pessoas se matar um ex-presidiário dá problema. Alguns falaram que sim e outro falaram que não. Os que falaram que não disse que matar um ex-presidiário a polícia não vai nem querer saber quem foi o assassino. Eu acreditei nisso. Comprei um revólver e fui matar o bandido. Chegando na casa dela, ele estava lá. Não tive coragem. Voltei. Os dias passaram e então eu resolvi pagar alguém para matar ele. Não encontrei. Fui largando de mão. Até o dia em que dei de frente com ele na rua. Ele veio para o meu lado, estudando onde me bater. Eu estava com revólver na cinta. Ele veio rápido, me bateu no peito e me derrubou no chão. Quando vi, estava com o pescoço debaixo do pé dele. Ele me sufocou, dizendo que ia me matar ali, naquele instante. Tentei sacar a arma, mas não consegui. Depois, falei para ele que não queria mais saber da Magrinha; nem para beber cerveja do lado de vitrola. Acreditou. Tirou o pé do meu pescoço e eu levantei. De pé, pensei em pegar o revólver da cinta para matar ele mas não tive coragem. Nunca tive coragem de matar alguém. Ele virou as costas. Foi embora.
Depois desse dia, jurei que ia no terreiro, pagar para o pai-de-santo para colocar no rabo dele sete exus. Juntei dinheiro e fui. Já que não tinha coragem de acabar com a vida dele de um jeito, resolvi fazer de outro. No terreiro, falei para o capa-preta: eu quero que você coloca sete exus no rabo dele. Eu quero ver esse homem em ponta de boteco, bebendo e caçando briga com os outros. Eu quero que ele fique falando sozinho na rua, com a voz alta, para todo o mundo ver que ele está doido, que nem o Sabiá daqui da vila. Eu quero que ele fique assim e a polícia leve ele de volta lá para a gaiola de urubu onde ele estava. A Magrinha tem que ser minha, não dele.
Estou esperando isso acontecer. Já fiquei sabendo que ele anda bebendo e caçando briga em ponta de boteco. Estou aguardando ele falar alto na rua, que nem o Sabiá. E quando ele voltar lá para a penitenciária – e eu sei que os exus vão fazer isso – vou morar com a Magrinha, a mulher que esse pobre diabo aqui ama.
Tião:
Eu fico pensando o quê um homem como o Cido têm na cabeça. Só pode ser minhoca, de certo. Eu já vi muitos homens desmiolados; eu mesmo sou um deles, mas um homem como o Cido nunca vi. Porque quando uma mulher é muito vagabunda, como a Magrinha é, qualquer otário cai o fora. Eu só não caio o fora porque não tenho pra onde ir: a casa é dela; os móveis são dela; e a comida que eu como é ela quem ganha do governo por obrigar a filha dela ir para a escola. Em vez em quando ela saí por aí atrás de alguns homens que pagam para comer ela. Eu não sei como eles tem coragem de pagar. Deve ser por causa da buceta dela, que puxa o nosso pau pra dentro, como se tivesse uma mão lá dentro – que puxa e volta, puxa e volta, parecendo uma punheta. Você já viu uma coisa dessa? É muito difícil encontrar, e por isso que quando um homem encontra uma mulher dessa fica louco, como esse Cido aí. Eu; por exemplo, quando estava lá em Serra Pelada, no garimpo, tinha um monte de mulher desse jeito, que puxava o nosso pau para dentro com a buceta. Eram tudo umas vadias. E vadia, para mim, não vale nem a nossa moeda mais barata no bolso.
Fora isso, que valor tem essa mulher? Feia; tem os dentes podres; é magricela, os peitos são caídos; enfim, é de amargar, é de jogar fora. Agora esse Cido aí, que é apaixonado por ela, devia colocar na cabeça que não existe só uma Magrinha no mundo; que tem dentro da buceta uma mão que pega o pau da gente e faz a gente ficar louco, não. Tem um monte de mulher por aí assim... Na zona tá cheio delas... Na verdade, ele devia fazer que nem eu: não dar o mínimo de atenção para uma vadia dessa, porque ela não merece. Como eu já disse, eu só fico com ela porque não tenho para onde ir. E se eu não dou uma de homem bravo, esse Cido aí me pega e me joga no olho da rua. E quem quer ficar dormindo à céu aberto, no relento, só com as estrelas para contar? Eu não quero! Por isso que não dou mole. Se ele vir aqui, eu puxo a minha peixeira e vou em cima, sem dó. E; se for o caso, furo o desgraçado, nem que eu volte para a cadeia de novo...
Magrinha:
O Cido devia entender que eu amo o Tião; que ele é só quando eu quero tomar a minha cerveja e não tenho dinheiro. Eu não gosto do Cido, eu gosto do dinheiro dele, só isso. No dia em que o Tião saiu lá da gaiola de urubu, eu disse para o Cido: Cido, eu amo ele. Eu gosto de ficar com você, de tomar cerveja com você, só isso. Volte para a sua família, ela que te ama de verdade. Já eu, como posso dar amor a você quando nessa vida o meu amor é o Tião, hein? E ele, o Cido? Você pensa que ele voltou para a família? Ficou uns dias lá e assim que dei conta ele estava morando perto do meu barraco, num quartinho, que alugou para ficar perto de mim.
Num dia, ele me levou lá no quartinho dele. Eu antes pedi um dinheiro, falando que estava com vontade de tomar cerveja fazia mais de uma semana. Ele disse e aquele seu marido bandidão? Não te dá dinheiro para a sua cerveja, sua sem vergonha? Eu falei: o Tião não dá dinheiro nem para pagar a luz; o máximo que ele pode fazer é armar uma gambiarra quando cortam a nossa energia e um gato quando nos corta a água; só isso. Agora dar dinheiro, coitado, ela não consegue nem para pagar as pingas que toma. Mas mesmo assim eu amo o Tião; ele é o primeiro, o resto é resto, homem que para mim vale somente o dinheiro que tem...
Agora, se o Cido quiser ficar comigo, eu fico com ele, sem problema algum, conquanto ele não queira que eu largue meu marido. Basta ela pagar uma cerveja atrás da outra, até eu ficar bêbada, porque não tem coisa melhor neste mundo que tomar cerveja, têm? Se tem eu não sabia. Sexo? Sexo com o tempo enjoa, se torna algo como cagar, mijar, você não acha? Não? Você é novo, quando ficar mais velho vai concordar comigo. Por enquanto, tudo é novo, tudo é novidade. Eu também pensava como você... Ah... Falando nisso, eu até agora não entendo por que você quer saber tanto sobre o Cido; afinal você é um desses desocupados, que não fazem nada na vida? Um escritor? E você vai escrever sobre nós? Pra quê? Pra botar dentro de um livro? Deixe disso, rapaz! Perda de tempo. Por que você não escreve sobre pessoas interessantes? Nós somos tudo uns pobres diabos; não passamos disso! De pobres diabos e nada mais...
Eu:...
Glauber da Rocha


