Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha - agora, toda sexta!

06:34

A REALIZAÇÃO DE UM SONHO.

Postado por Glauber da Rocha |



É um homem perverso, um iníquo
Aquele que caminha com falsidade na boca:
Pisca com os olhos, bate com o pé,
Faz sinais com os dedos...
– Provérbios, VI, 12-13.


De vez em quando, sempre aparece um pescoçudo que até então nem pescoço tinha. Ele começa timidamente, ganha a confiança de um, de outro, e quando consegue doze fiéis à sua volta, logo se torna um mestre com mil discípulos na rabieira, dispostos a fazer tudo o que ele manda. Foi assim com Otávio Nunes, um cidadão daqui da cidade onde moro, chamada Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.
Naquele tempo eu era um dos muitos vereadores que queria ser prefeito. O Otávio Nunes nem existia ainda, era apenas um entre milhares de cabeçudos que andam à pé pela cidade, ou de ônibus. Está certo que eu andava à pé e tomava ônibus também, mas não era um cabeçudo, e sim um vereador, de terno e gravata, ciente das organizações sociais, de leis, de principados e potestades. De repente, o Otávio Nunes.
Havia mil discípulos junto com ele na Praça Ari Coelho, dizendo: estamos convocando os candidatos a prefeito para uma maratona de provas onde o povo poderá saber quem realmente é capaz de fazer de tudo por nossa cidade, de amá-la. O jornalista perguntou: que tipo de provas? São várias. A primeira delas, por exemplo, é ver qual dos candidatos fica mais tempo limpando o banheiro aqui da praça mesmo, que é um fedor insuportável.
– E as outras?
– Ver quem fica mais tempo morando na vila Canguru, sem direito à carro, ficando dependente só do ônibus.
– Tem mais?
– Tem sim. Tem a prova para ver quem trabalha mais tempo para esses sujeitos ricos em troca de um salário mínimo, e se ele consegue sobreviver com ele.
– Hum, interessante. E como será a pontuação?
– Ao vencedor de cada prova, três pontos; dois para o segundo colocado e um para o terceiro. Aquele que tiver mais pontos, a população votará em peso.
– E quem não quiser votar tendo em vista esta competição? Ou melhor: e para quem não aprova este método?
– Quem não aprova este método só pode ser um apátrida. E assim será chamado por nós, que vai ser a maioria. Todo mundo concorda e acha boa a idéia, pois somente aquele que passa pelos nossos sofrimentos poderá fazer algo justo por nós depois. Quem gosta da injustiça, não se una a nós!
– Mais alguma coisa, Otávio Nunes?
– Não, só isso. Fica aqui o convite aos candidatos. Em breve estaremos fazendo o convite pessoalmente. Por enquanto, é isso.
– Obrigado. É com você, Ricardo Freitas!
Depois desta reportagem ser exibida pela TV MORENA, houve um alvoroço no Parque dos Poderes. Primeiro, é claro, nós rimos, debochamos; mas depois que ele apareceu aqui com umas cem pessoas atrás dele, tratamos de colocar as cabeças para maquinar...

* * *

No meu partido, o candidato oficial a prefeito era o senhor Barbosa, um homem com a saúde boa, mas não apta para enfrentar os testes colocados por este Otávio Nunes. Os maiorais do partido, algum tempo depois, chegaram a pensar em não fazer parte desta maratona de imbecis, mas viram que corriam o risco de perder as eleições fatalmente. Descartaram então o Barbosa, e perguntaram se o seu Frederico encarava: eu? Limpar banheiro público? Me sujeitar à vontade do povo? São eles que têm de se adequar a nós!
Pensaram num outro, e lembraram-se do Ojeda, japonês que comia o pão que o filho, o pai e o avô do diabo amassavam com o rabo lá no Japão: japonês que é japonês gosta de desafios, da dificuldade. Ojeda, ao ouvir a proposta, não pensou duas vezes para responder: não! Por que, japonês?, interpelaram. Porque não, oras. Mas, japonês, disseram os maiorais do meu partido: tudo tem uma explicação. Ojeda então explicou: se eu fizer a vontade desses malucos, ficarei maluco que nem eles. Portanto: a minha resposta é não!
Tiveram que aceitar. Pensaram em um, em outro, até lembrarem-se do vereador mais insignificante de todos: eu. Pois, o Rosa, é um homenzinho que nem carro tem ainda; acho que nem casa, se duvidar; e ele vai tirar essa de letra, que nem atacante da seleção brasileira de futebol. Chamaram o Rosa, e eu fui, mais feliz que um ganhador de um reality show. Rodearam daqui, rodearam dali, e finalmente perguntaram: você quer; Rosa, ser candidato a prefeito?
O homem tem que aproveitar as oportunidades na vida, que geralmente, vem de uma em uma no intervalo de dez em dez anos. Então eu disse:
– Ôpa.
– Quer mesmo?
– Mas é claro que quero.

* * *

Candidataram-me a prefeito. Semanas depois, lá estava eu na maratona, concorrendo com os outros vereadores. Havia mais ou menos umas trezentas pessoas nesse dia ali em volta do banheiro da Praça Ari Coelho. É claro que eles não desceram aquelas escadas, mas ficaram ali perto, olhando quem ia ser o primeiro a encarar o fedor. Graças a Deus, não fui eu quem deu inicio.
O primeiro foi um candidato do PMDB, que não ficou ali por mais de cinco minutos, devido ao fedor, que era fortíssimo. Na frente da câmera, ele disse: realmente, temos que rever isso aí... Depois dele, um candidato do PT; que, também, não passou dos cinco minutos, dizendo para as câmeras que de fato o fedor é grande, que quase desmaiou. Em seguida, um candidato do PL, um liberal que era capaz de fazer tudo por dinheiro. O homem, para a surpresa de todos, ficou o dia inteiro e no outro dia voltou.
Ficou limpando o banheiro como se fosse da sua casa, e as pessoas já estavam gritando o nome dele. Mas daí, de repente entrou um bêbado, e urinou fora do buraco; depois vomitou, e fez uma sujeira digna de um mendigo miserável repleto de doenças físicas e mentais. O candidato liberal na mesma hora deu um tapa na cabeça do bêbado; chamou-lhe de porco, e lá na frente das câmeras da tevê, disse: o Brasil não vai para frente por causa duns desgraçados destes! Em um segundo, perdeu quase dois dias de trabalho.
Restava eu; pois, os candidatos do PPSD; quero dizer, do Partido Pobre Sem Dinheiro, sempre fica por último em tudo. Entrei, e assim que senti o fedor apertando as narinas, quase desmaiei. Joguei vômito para todos os lados, tive nojo do ser humano, e raiva. Depois, limpei o vômito, e comecei a limpar o banheiro também. O zelador deste banheiro deveria receber uns dez salários mínimos, por esse serviço. Pois, parecia que ali só entrava homem porco, doente, com infecção em tudo quanto é saída do corpo.
Eu fui tomando ódio pela Humanidade. Dava vontade de gritar, de explodir. Tive raiva de Deus, do pescoçudo do Otávio Nunes, da minha mãe que me colocou no mundo. E assim fiquei o dia inteiro. No dia seguinte, naquele fedor desgraçado, quase sai por umas três vezes. Mas, quando vi, estavam gritando o meu nome lá no lado de fora: eu havia ultrapassado o tempo do candidato do PL! Gostei do som, do povo me aplaudindo, e resolvi ficar uma meia hora a mais.
Fiquei. E ao sair, fui aclamado. Me pegaram pelas pernas e me levantaram, e saíram andando pelas ruas do centro da cidade comigo em cima, como se eu fosse um rei, um deus, um campeão. Com certeza, essa vitória me fez vencer todas as outras. Em todas elas eu era ajudado. Morei lá no Canguru, está certo, mas foi talvez o melhor mês da minha vida. Todo dia tinha festa, e tinha mulher nova para mim. No ônibus, quando não havia assento, todos levantavam, dizendo: deixe o prefeito sentar.
Já os outros candidatos, sempre reclamavam:
– Realmente, o sistema de transporte urbano em nossa cidade não é só o mais caro como o mais péssimo de todos!
– Eu não sei como o prefeito não dá assistência para essa merda de bairro. Aqui é o retrato fiel da miséria. Estão vendo aquela criança ali, com a barriga d’água? Olhando para gente com aquela cara de tristeza? A frauda suja pendurada na chupeta podre? É o mais comum aqui...
– Trombadinha e ladrão é o que não falta por essas bandas. Se eu for prefeito, algo que está quase que impossível no momento, eu darei um jeito nesta joça.
O mesmo aconteceu com os meus serviços em casa de ricos, ganhando a miséria do salário mínimo. Eles mal me deixavam pegar na vassoura, ou fazer algum esforço. Ficavam conversando comigo o dia inteiro, me dando suco, uísque, charuto. Conversas sobre política, religião e moral passavam longe de nossas bocas e ouvidos. Enquanto os outros; os outros falavam na televisão:
– Precisamos rever o salário dos trabalhadores. Agüentar um patrão arrogante e estúpido a troco de uma mixaria não é vida para ninguém...
– Eu não entendo esses patrões: só porque pagam uma miséria acham que podem tudo, inclusive montar em cima do funcionário.
– Precisamos rever os sindicatos, montar uma equipe de vigilância trabalhista, porque são muitos os exploradores e explorados.
– O sofrimento do povo é grande. Somos um faraó no Egito. Precisamos libertar o povo. Dar uma vida mais digna. Conheci muitos pais tristes, por não poderem dar o melhor para seus filhos. A tristeza deste povo é grande. E nós todos somos os culpados por isso, quando pensamos em nós mesmo, em nossas viagens, roupas caras e etc.
– A vida como ela é nos desafora, nos bate na face e chuta o nosso estômago.
Ora, eu não fiquei com medo dessas frases, dessas declarações humanitárias; pois, nunca vi alguém ganhar dinheiro com palavras, exceto um escritor ou outro, e mesmo assim quase velho já. Por isto, fiquei tranqüilo: a vitória era certa. Não havia nada de mais pior do que aquele banheiro fétido da praça Ari Coelho, e todos os homens sabiam disto – se agüentei ficar dois dias ali, eu era capaz dos maiores sacrifícios pela cidade.
E assim se sucedeu. Graças ao pescoçudo do Otávio Nunes, que me olhava com a cara feia, eu havia saído do cargo de vereador e conseguido ganhar a eleição para prefeito num partido que era o último, que tinha menos dinheiro. No discurso da posse, em cima do palanque repeti, com muita vibração, várias vezes essa frase: os últimos serão os primeiros, minha gente! – e o palanque quase caiu.
Mas ainda o meu sonho não estava realizado. E nem no primeiro ano se realizou, porque este período foi o de aprendizado. Mas no segundo, quando já estava malandro, na malandragem braba dos senadores e deputados, o meu sonho se realizou. E eu fui metendo a mão no dinheiro do povo; e comprei uma casona; e comprei um carrão; e abri uma empresa no nome de um sobrinho; e fiz viagens para o exterior; e tomei champanhe e vinho caro no navio; e conheci a praia de Fernando de Noronha, junto de umas três putas de luxo...

Glauber da Rocha

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