Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha - agora, toda sexta!

16:42

MEU FUSCA QUERIDO

Postado por Glauber da Rocha |


Eu não podia de maneira alguma negar o meu fusca querido para a minha filha dar umas voltas bem no dia em que ela tirou a sua carteira de habilitação, podia? Outro pai, mais firme na educação de seus filhos, negaria; deixando-a dirigir sozinha somente depois, quando estivesse dirigindo bem. Mas, como sou um pai que neste tempo havia desaprendido a dizer não, pois passei a ter medo de perder o amor de minha filha – coisa aliás muito difícil de acontecer, embora aconteça – não só dei o meu fusca querido para ela dar umas voltas como ainda lhe dei uns trocados para ela gastar à toa.

Para ser mais exato, em tempos remotos até negaria; se ela, depois dos dezoito anos de idade não começasse a manifestar as suas revoltas contra a sua mãe e eu, o pai Caxias, como ela passou a me chamar. Então, feliz da vida com o seu pai amoroso, pegou o telefone e ligou para a sua amiga, e falou: o meu paizinho querido liberou o fusca para mim hoje; às dez horas eu passo aí para te pegar, viu amiga? Hoje é dia de festa; quero dançar até de manhã...

– Até de manhã, filha?

– Relaxa, pai, sei me cuidar.

Tive vontade de dizer para a minha filhinha do coração que ela não bebesse; mas, veja bem, os nossos filhos geralmente são aquelas eternas crianças que entendem apenas o contrário: se você diz não faça isso, elas vão lá e fazem. E fazem talvez nem porque são teimosas, coitadas, mas é assim que elas entendem: pelo contrário – ou não é? Dissesse não beba, ela, com toda a certeza, entenderia: beba. E encheria a cara, tomando um porre homérico, como o meu vizinho, que é professor de Literatura, costuma dizer sobre os seus excessos.

Mas antes eu tivesse falado, pois a minha filhinha pequena, ingênua e inocente, bebeu tudo quanto é tipo de bebida que esses marmanjos na noite costumam dar para as suas presas, a fim de que elas caiam mais facilmente em suas armadilhas maldosas – por mais inimaginável que pareça, também fui jovem, meu querido leitor, e como quase todos os jovens, caçava desonestamente também, fazendo uma trilha de drinks em direção à armadilha, à santa arapuca.

Lá pelas seis da manhã, ela me ligou, dizendo que entrou com tudo numa camionete 4x4 importada, e que era para correr urgentemente para lá, antes que o rapaz chamasse a polícia: fizesse isto, ela perderia a sua carteira provisória no mesmo dia afinal.

– Você está bem, minha filha? Não aconteceu nada com você? Nenhum arranhão? Deus é Poderoso!

Peguei um táxi e em menos de dez minutos já estava lá, prestando os primeiros socorros. O rapaz, profundamente injuriado, quase me deu na cabeça; mas eu, velho que sou, assumi a posição humilde, de coitado, e só não chorei na frente dele porque não se chora na frente de um homem nem em último caso: eu pago tudo, por favor, não chame a polícia, foi o que falei.

Graças a Deus, a camionete 4x4 importada dele não sofreu muito do acidente, mas, sabe como é, qualquer coisinha que acontece com uma camionete dessas é mais de mil reais para cima. Desembolsei 500 mangos; era o eu que podia, sou um simples aposentado que precisa dar de comer a três filhas, a uma esposa, e cinco netos – até netos eu tive nesta hora... O rapaz, por Nossa Senhora que está no céu, acreditou, e foi embora, com os meus 500 mangos no bolso.

Eu poderia muito bem tirar a cinta e bater na minha filhinha na frente da amiga dela; ou então, dizer um monte de ofensas, algo que a oprimisse mais uns vinte anos, como vinha lhe oprimindo desde que ela se entendia por gente; porém, dei um abraço nela, dizendo: Deus é Pai, minha filha; e bons são os anjos, que lhe protegeram.

– Hã? Como assim? – foi o que ela disse.

O meu fusca querido quase deu perda total. Não que o acidente fosse forte, e sim que um fusca quase não agüenta nada, principalmente o meu, que já tinha quase a mesma idade que a minha. Durante o dia, fiquei pensando se mandava o meu fusca querido direto para o ferro velho ou se para uma oficina mecânica. A minha esposa, sábia e inteligentíssima, aconselhou-me o ferro velho: que eu comprasse um carro novo, com ar condicionado, teto solar, combustível à gás, e air bargs.

Ferro velho nada. O meu fusca querido era o mesmo que um filho meu: desfazendo-me dele iria acabar mais infeliz que um pai rico quando deserda um dos seus. Decidi levá-lo a uma oficina mecânica, e ressuscitá-lo de entre os mortos, tal como Jesus fez com Lázaro, como sempre diz o padre da igreja perto daqui de casa quando responde, ao dono do boteco, se a cachaça está boa ou ruim.

Antes de entregá-lo na mão de qualquer um, fui a várias oficinas mecânicas, e decidi entre uma delas utilizando-me de um critério perfeitamente desastroso: deixei-o na mecânica onde tinha mais carros, pensando que por isso, logo, todavia, portanto, que o mecânico deveria ser bom...
Puro engano: a sua oficina só era lotada de carros porque ele demorava entregar o serviço...

O mecânico era uma porcaria que só vendo. Ele pegava 50% de adiantamento, gastava não sei aonde, pondo a desculpa que no aluguel e na energia elétrica do galpão. Para mim, tenho a absoluta certeza de que ele pegava esses 50% e enfiava bem no meio do rabo cheio de graxa dele: não havia outra explicação, com certeza não havia.

Engoli cargas de ódio por causa de mecânico porcaria. Ele me mandava ir tal dia e tal dia o serviço não havia nem começado. Ia no outro; no outro, e sempre assim: ele mandando voltar daqui quinze dias, daqui dez dia, daqui cinco dias, daqui três, dois, um. Foi quando comecei a desejar o mal para ele. Na sua frente, passava mil tipos de palavrões na minha cachola, que queimavam a minha garganta, a minha língua, louca para falar aquilo que considerava vir do próprio Espírito Santo. Mas, me calava, dizendo à tarde eu volto. E de tarde voltava. De noite eu volto, e de noite voltava.

Passei a observar a vida dele: no mínimo aquele porco não devia ter nem mesmo lavagem para comer dentro de casa. Alguém que tinha tudo para enriquecer, e que preferia enganar os outros, viver essa vida de sujeito desonesto. Quando chegava lá, e falava e aí?; ele logo mandava um funcionário seu pegar no maçarico e trabalhar no meu fusca. Mas, era pura enganação daquele filho da mãe de uma jararaca, porque era isso o que ele era, uma JARARACA.

Sem querer, falei: a vontade que tenho é de te esmagar.

O homem, sabido que era, ligou para a polícia, me acusando de ameaça.

A polícia apareceu em minha casa, a fim de fazer o confere.

– Não, não confere seu policial; sou um homem de bem, a única coisa que quero é o meu querido fusca de volta.

E logo em seguida, contei toda a história, tirando, é claro, a minha filha para bem longe dela.
Os policiais tomaram nota, e foram embora. A minha esposa, assim que viu eles saírem, me disse: amor, por que você não toca fogo naquela merda? Compra um carro novo, vai ser melhor para você; olha o tanto que você está gastando: saúde é mais cara do que o dinheiro.

Néscio, não dei ouvidos.

Eu queria por toda a sorte ou azar o meu querido fusca de volta. Às vezes, até sonhava com ele, algo que me dava uma felicidade infinitamente indizível: acho que nem sonhar com um carro novo seria tão prazeroso assim. Mas logo que acordava, e não via o meu querido fusca na garagem, recebia uma pontada forte no peito, que atenuava com a imagem daquela porcaria de mecânico se fazendo na minha cabeça.

– Por que não morre uma praga desta? – era o que eu me perguntava.

Não deu outra: o homem morreu.

Fiquei extremamente furioso com isto. Queria saber como que o meu querido fusca ia ficar na história.

– Não fica, disse o seu empregado; e se eu fosse você, o levaria embora o antes possível, para o seu bem.

Já estava levando o fusca embora quando de repente a polícia apareceu.

– Foi ele, seu policial, que bateu a chave de braço na cabeça de meu patrão.

– Hã? Como assim? – foi o que eu falei, para usar a expressão que a minha filha tanto gosta de usar.

– E ainda por cima é cínico – disse esse discípulo da JARARÁCA.

Os policiais acreditaram. Me levaram em cana; mas eu disse e repito: Deus é Pai, e me tirou dessa fria. Logo depois, me soltaram, pedindo mil desculpas; que a polícia, por ser feita de homens, erra; que não existe um ser humano que não comete erros; que somos limitados, finitos; que não adianta estufar o peito e dizer eu sou, eu posso, eu faço, que...

– Ok, ok, ok, estou dispensado?

– Sim senhor.

Porque no fim das contas nós, homens, sempre acabamos fazendo o que a mulher deseja, toquei fogo no meu fusca querido, e comprei um carro do ano. A marca? Se eu disser talvez vocês não vão acreditar. Sim, o novo fusca. Comprei o novo fusca, esses que lançaram acho que no ano 2000 para cá. E a minha filha, por mais que pede com os olhos para dar uma volta nele, não o faz com palavras – se fizer, ela sabe o que o pai vai falar, que é NÃO!

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