Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha - agora, toda sexta!

18:05

MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA

Postado por Glauber da Rocha |

a Hugo Carvana


Primeiro a idéia aparece, sempre de maneira alegre, que me faz ficar rindo por alguns instantes, dias, semanas. Depois, como que naturalmente, ela vai crescendo, aumentando, ganhando proporções, se encaixando. As personagens vão surgindo, e eu penso num ator, em outro. Quando vejo, tanto o filme quanto o elenco estão prontos aqui, na minha cabeça.
Fico vivenciando tudo isto por dois, três, até quatro anos, que é um processo de amadurecimento. Ninguém pode ter uma idéia hoje e realizá-la amanhã. Muitas delas são falsas. Para as que persistem e perseguem, e ficam conosco por muito tempo, a realização é quase certa. Depois, escrevo o roteiro, desenho os quadros, elaboro o projeto e vou atrás das pessoas. É um trabalho chato, pedir?! É! Porém, vale à pena.
Mas tudo flui facilmente, ainda mais quando o projeto é para um filme de comédia. Não que fazer comédia seja algo fácil, como pensam muitos. Pelo contrário: fazer rir é mais difícil que fazer chorar, principalmente nos dias de hoje, com tantas injustiças. É mais fácil no sentido de levantar a grana, de conseguir o patrocínio.
Se vai fazer aquela aula de filosofia, de história, de sociologia para o empresário ocupado, demonstrando como que as pessoas sofrem por causa de uma coisa ou outra, ele vai dormir em cima da mesa, entediado. Mas se conta a história do malandro, do golpe, do dinheiro em jogo, das mulheres gostosas, o homem se levanta, aperta a mão, já agradecido, e desembolsa.
Com o dinheiro no bolso, vou atrás da formação da equipe. Na escolha, fico apenas com os profissionais de alto nível. Não gosto de amadores, de amadorismos. Nem de gente que está aprendendo. Há muitos lugares para os aprendizes. Então, começa a filmagem. O filme, por ser uma comédia, tem que ser feito num clima divertido. O responsável por este clima, querendo ou não, é o diretor. Se ele é um intelectual, ou um revolucionário, ou seja lá o doido que for, a coisa não flui.
Aliás, não suporto homem que toma bonde, que vive bondeado, que faz o estilo sofredor, daqueles que sofrem, e que pensam, e se não der, e se... Com esse tipo de diretor, como é que pode sair um filme divertido? A coisa tem de vir de fora para dentro. O responsável por este fora é o diretor. Eu faço isto. Quando não estou brincando com tudo e com todos, ou eu canto ou eu danço. O nome disto é molecagem. Quando um homem deixa morrer o moleque dentro de si, é porque já morreu a alegria, o entusiasmo e a beleza.
Fico sério apenas na gravação das cenas, que é a hora em que por mais engraçada que seja a encenação, o ator tem que manter a linha. Numa palavra: em todo o processo de um filme, desde a filmagem à sua estréia nas telas dos cinemas, eu me ocupo, e não me pré-ocupo. Para cada dia, as ocupações do seu dia. O depois; é depois. Se der certo, deu. Se não der certo, fazer o que? Lamentar?
Eu não posso lamentar. Sou um comediante, e não um trágico. O cinema, a meu ver, não pode viver de tragédias. Não acredito que o cinema ou a literatura possam transformar o mundo. Não há santidade na arte, há vaidade, isto sim. Satisfação do ego. Por mais que queiram camuflar a vaidade, ela aparece. Na vitória ou na derrota, ela aparece, inevitavelmente. Então, para que se enganar?
Mas se tantos diretores, principalmente os jovens, querem sofrer, que sofram – só não me chamem para sofrer junto. Não é a minha praia. Nela não tem os malandros, não tem os vagabundos, não existem os sem-vergonhas na cara. Ninguém fuma, ninguém bebe, ninguém dança. Eu gosto da dança. Da ironia, do entusiasmo. Eu gosto principalmente da personagem tipicamente brasileira, do homem que quando deve se esconde, do sujeito safado, da mulher dissimulada, em cima dos sapatos, dando seus ataques de histerias.
É banal? É. Mas os meus cabelos estão brancos sem precisar de muito sofrimento. Não sou um homem de pretensões, porque não adianta. Todos no Brasil e no mundo sabem o que é certo e o que é errado. Onde se vai, escuta-se a palavra amor, honestidade, justiça. E te pergunto: o mundo é paz e amor? Estamos sendo honestos e justos o tanto quanto falamos sobre isto? Se filmes transformassem realidades, tal como esses jovens acreditam, no Brasil não haveria tanta corrupção, haveria?
Eu já fui um sujeito piedoso, cheio de pudores, preocupado com a existência ou não de Deus, com valores morais, querendo por toda lei fazer um mundo melhor. E o que eu ganhava com isto? Hã? Só depressão. Não que a religião seja algo ruim. Para falar a verdade, graças a ela a vida ainda é possível. Não sou contra. Mas, em cada um ela age de um modo. No meu caso, ela me fazia um negador de suas paixões, e vivia deprimido.
Naquele tempo não era essa palavra que usávamos. A palavra era melancolia. E o homem melancólico, chamávamos de bondeado. O individuo das crises existenciais, sem amores, sem amantes, sem vida. Não gosto disto, nunca gostei. E lamento que tantos jovens queiram passar por este sofrimento, com os seus filmes densos, cheios de pausa, onde cada cena existe uma reflexão para a vida inteira. Não é comigo. Gosto do ritmo rápido, das piadas curtas mas inteligentes, uma atrás da outra. Gosto dos musicais.
Também não sou chegado em violência, na estética do sangue, da crueldade. Os meus heróis nada têm a ver com Sylvester Stallone, com o capitão Nascimento. Os meus heróis olham uma boazuda cruzar a rua e vão atrás. Tem gingado, estilo; falta-lhes a vergonha na cara. Geralmente, não trabalham, e quando trabalham, não são importantes. Não trabalhar, para muitos deles, é uma questão de princípios. Há toda uma reflexão filosófica por detrás de um vagabundo.
Já outros, são charlatães. Mas não o charlatão como muitos por aí, pós-modernos, gananciosos, que querem enganar a muitos de uma vez só. Os meus charlatões enganam de um a um. Para eles, é uma forma de sustento e de diversão. Não são de olhar para cima querendo ocupar o lugar mais alto, nem de olhar para baixo com orgulho, considerando melhor que os outros.
Já as minhas mulheres, essas são nervosas, neuróticas, fazem espetáculos. Mas amam, acima de tudo. Elas estão em todos os lugares: em bares baratos, em bares caros, ao lado de um magnata, de um bandido, ou até mesmo de um trabalhador. Eu acho que meus filmes ajudam as pessoas a enxergar melhor à sua volta. O Brasil é igual em todos os lugares, tanto em São Paulo como no Rio. As diferenças são muito poucas.
Uma palavra para o sujeito ser feliz, nos dias de hoje? Eu esqueci seu nome. Qual é mesmo? Ana? Ana Andrade? Você tem quantos anos, Ana? Vinte e seis? E linda deste jeito? Não se acanhe. Em linhas gerais, Ana, só há uma maneira de ser feliz no Brasil hoje, e essa maneira é ter muita ironia e pouca, mas muito pouca vergonha na cara...

Glauber da Rocha

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