Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha - agora, toda sexta!

19:27

A MERDA DA VIDA

Postado por Glauber da Rocha |




Esta minha vida era uma merda, literalmente. Quem hoje me vê assim, levando uma vida boa, rica e farta, não acredita o quê um dia eu fui nesse meu passado fétido e nojento. Tudo começou quando uma fossa lá em casa entupiu. Eu não tinha dinheiro, meu irmão não tinha dinheiro, a minha mãe não tinha dinheiro algum para mandar chamar um desentupidor de fossa. E, como eu era o único desempregado dentro de casa, com tempo e energia suficiente para ao menos tentar resolver o problema, resolvi arriscar.


Quem ficou ao meu lado foi um vizinho, amigo meu. Descendente de japonês, o homem. Ia me ajudar, mas sem meter a mão na merda. A sua ajuda iria ser apenas no incentivo. E lá fui eu... Abri a tampa da fossa, senti o fedor nojento, enfiei o arame cano à dentro, puxei, enfiei novamente, e assim fiquei, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Até que de repente, senti um gosto estranho na boca, e vi que havia engolido merda. Cuspi, quase chorei, resolvi que era melhor parar, deixar tudo como estava, mas Ricardo não deixou: se você é homem mesmo, de verdade, vai até o fim!


Eu já estava cansado de fugir dos desafios, dos outros passarem por cima de minha honra, e por isso, decidi que ia desentupir àquela fossa nem que isto me custasse mil anos! Fiquei furioso, enfiei o arame com raiva, puxei, enfiei novamente, e fiquei assim, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Era um fedor insuportável. De vez em quando, engolia fezes. Cuspia, tentando me livrar do gosto horrível. Mas não havia jeito: uma vez que você acaba comendo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo, e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravado no nosso ser como que para sempre. Agora, imagina conviver com esse gosto por vários dias seguidos, várias semanas, anos. Foi assim comigo.


Depois desse dia, começaram a aparecer serviços deste tipo para mim. Até hoje desconfio que foi o Ricardo quem me indicava. Vinha gente de toda a vizinhança, pedindo-me para desentupir fossa. E eu era formado em Administração de empresa, hein?E você pode dizer: uma pessoa formada em Administração de Empresas jamais iria desentupir fossas para sobreviver. E eu direi: em que país ou mundo você vive, meu amigo? Diploma não é mais garantia de nada, e assim como uma boa parte dos brasileiros que conseguem cursar um nível superior com muito esforço, eu estava encontrando dificuldades para arrumar o meu devido e muito bem merecido emprego.

E, como o emprego pode esperar, mas o dono da casa que cobra o aluguel não, aceitava desentupir fossa até dos meus inimigos e dos que tinham inveja de mim. Eu dei muito desse gostinho para eles. Mas cobrava caro, é certo. Se queria, queria; se não queria, chamassem outro. Então eu ia, metia a mão na merda, na fossa, nos canos sujos de graxa, óleo, comida, em toda aquela gosma feia e asquerosa, e concluía o serviço. Sentia uma satisfação enorme. Um orgulho muito grande.


O único problema é que o cheiro de merda não saia de jeito nenhum de minhas roupas, do meu corpo, do meu nariz.


– Meu filho, por que você não para com isso?, dizia a minha mãe quando me via sofrendo em cima do tanque.


As mães sempre são as primeiras a querer nos tirar do sofrimento merecido. Já os pais de verdade não: ver os filhos pegando no pesado, encarando todo tipo de desafio, é motivo para orgulhar-se mil vezes. Quanto aos amigos e mulheres, sempre saem de perto quando vêem o homem na merda. O único amigo que ficou do meu lado foi o Ricardo, este meu vizinho descendente de japonês. Isto porque ele foi lá para o Japão e no Japão teve que transformar-se em dois, três, quatro, para no fim das contas não voltar rico para o Brasil, como imaginava que iria voltar.

– Voltei é com o nervo ciático todo fodido. De tanto apertar parafuso de roda de carro na indústria onde trabalhava, com o passar dos anos a coluna e o nervo ciático do Ricardo ficaram comprometidas.

Ele não podia inventar de agachar um pouco que, se bobeasse, não conseguia levantar novamente, porque o corpo não obedecia. Então ele ficava agachado por horas seguidas, de cócoras, até conseguir levantar. Era um sofrimento dos diabos, ele dizia.


Mas homem que é homem não foge da luta, e eu, portanto, não podia fugir da merda. E quanto mais fossa desentupia, mais currículo eu deixava nas empresas. Não podia ter um tempinho de folga para andar pela cidade, conversando com os empresários, com os industriais, com toda essa gente. Era sempre a mesma conversa: quando aparecer uma vaga, te chamo.


E então eu esperava.


Ficava alegre por uns dois dias, crente que desta vez iam me chamar. Mas passava um dia, dois, três, uma semana, um mês e nada! Eu ficava puto da cara com isso. Nas minhas orações, eu blasfemava. Ajoelhado eu dizia: é isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti?


Deus parecia um surdo, um cego, um mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com merda. Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedido, com cigarro do Paraguai na boca, encardido. Eu havia me transformado num pobre diabo, isso sim. As mulheres bonitas, se me viam de um lado da rua, passavam para outro, a fim de me evitar, de passar perto. Só não tinham nojo as feias, as gordas, as desdentadas.


De vez em quando, tomava um banho de uma hora mais ou menos, passava um perfume, vestia uma roupa limpa, e saia para algum lugar, a fim de arrumar uma namorada bonita. Mas era incrível. Parecia que elas sabiam quem eu era. Não podia nem chegar perto para ser repelido! Até hoje eu fico pensando: como elas conseguem saber que um cara está na merda? Intuição feminina?


O jeito era apelar para as feias. Essas, me aceitavam na mesma hora, me chamavam para dançar, me apresentava para as amigas. Depois, elas mesmas faziam questão de me levar para debaixo de uma árvore escura, em alguma rua deserta. Ou então, quando por um milagre tinha dinheiro sobrando no bolso, para um motel. Agora, eu te pergunto: não era motivo para desistir da vida? Eu não era feio, nem burro. Eu era apenas um azarado, um desgraçado, um excluído, um Zé Ninguém que não pode ter uma oportunidade para subir na vida, mesmo com um diploma na mão.


Eu era um rapaz bonito, inteligente, mas que por ironia do destino, estava na merda, desentupindo fossa. Todos no bairro sabiam disso. Alguns até que aprovavam: é isso mesmo, José, temos que trabalhar, não importa no quê; mas, a maioria dizia, eu sei que dizia: olha, um rapaz tão novo, com dentes brancos, rosto bonito, formado, e desentupindo fossa... O que será desse nosso Brasil?


– É, ter diploma não mão hoje em dia não quer dizer mais nada...


– Do que adiantou ele ter estudado tanto?


O pior de tudo era os finais de semana, na casa de meus avôs, onde me encontrava com os parentes todos. Meu avô era o primeiro a me humilhar na frente de todo mundo, dizendo que eu não tinha fé, que eu era burro, e que um burro tem que acabar mesmo desentupindo fossa, na merda.


As minhas tias, junto com a minha mãe, me protegiam, falavam por mim, porque eu não queria magoar o meu avô, não queria dizer para ele eu posso até estar desentupindo fossa agora, mas não estou pedindo nenhum dinheiro para você, nem um centavo. E mais: o dia que eu ficar bem, vou continuar te amando do mesmo jeito, tanto você quanto todo mundo presente aqui – era o que eu tinha vontade de dizer. Isto porque meus tios, meus primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim.

Certa vez, um deles, que mal sabia falar, que nem pescoço ainda tinha, falou-me: você é um derrotado. Eu perguntei: o quê?! Um derrotado. Quem disse isso para você?, perguntei, perplexo. Meu pai, respondeu, o menino. Guardei isso para mim. Por vários dias, enquanto desentupia fossa e engolia merda para sobreviver, lembrava dessas palavras vinda de um sobrinho. Foi quando decidi sair da merda sem esperar por um emprego como administrador.


Passei a guardar dinheiro, a cobrar um pouco mais caro pelos meus serviços, e pensar num negócio para abrir.Um restaurante? Uma pizzaria? Uma loja de sapatos? Uma sorveteria? Pensei, pensei e veio a idéia de montar uma auto-fossa, já que eu estava no ramo e entendia muito bem como tudo funcionava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos, prosperei, comprei casa, carro, casei, tive dois filhos.Não facilito nem um pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas dou oportunidades. Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha campainha; depois, as boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham. E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo é esse. Encarar de frente a merda da vida, pegar o que ela nos oferece, e fazer dela uma grandiosa obra de arte. O resto, é choro e ranger de dentes. É migalhas. É viver sozinho. É passar fome, é ter sede. É querer ser gente mas não ser. Glauber da Rocha

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