<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413</id><updated>2011-11-27T15:51:56.470-08:00</updated><category term='ENQUANTO A FAMA NÃO VEM - romance'/><category term='Stand up comics'/><category term='O TEMPLO DOS MALDITOS - romance'/><category term='O LOBO DO CIRCO - novela'/><category term='POBRES DIABOS - contos'/><category term='Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara - contos'/><title type='text'>Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara</title><subtitle type='html'>Blog do escritor Glauber da Rocha                                                                                                   - agora, toda sexta!</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>173</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-2614613216823835501</id><published>2011-04-24T11:03:00.000-07:00</published><updated>2011-04-24T11:05:10.920-07:00</updated><title type='text'>CAIXA DE E-MAIL'S.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ontem resolvi fazer uma faxina na minha caixa de e-mail’s – como, aliás, venho fazendo com tudo em minha vida... Tal tarefa me custou à tarde inteira, visto que faz mais de anos que mantenho este endereço, o &lt;a href="mailto:glauberdarocha@hotmail.com"&gt;glauberdarocha@hotmail.com&lt;/a&gt;. (Se quiser, meus leitores, podem enviar e-mail’s para mim, eu não ligo...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Excluindo tudo o que não me era útil, e lendo alguns, fui recordando os tempos, tal como acontece quando vemos fotos ou quando mexemos nas caixas em que guardamos nossos pertences há algum tempo. Foi muito boa essa experiência, ótima. Lembrei-me de amigos, de tarefas em que estava envolvido, da época da universidade, das minhas tentativas em entrar no Mestrado e publicar meus livros por uma grande editora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas não é sobre isto que quero relatar aqui. O que me faz escrever sobre a minha caixa de e-mail é o fato de me deparar com algumas mensagens verdadeiramente engaçadas, de situações cômicas em minha vida. A primeira delas, talvez a mais hilária, é de uma garota que eu estava ficando há uns seis anos atrás. A encontrei na universidade onde ela estudava, tinha acho que dezessete anos e era virgem. Eu a levava para um dos quiosques do campus, num lugar bem escuro, e lá começava toda a brincadeira que todos nós gostamos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Num dia, ela se entregou de corpo e alma às minhas carícias, e de repente teve um pulo. Fechou as calças, abaixou a blusa e me mandou guardar meu membro querido. Ela voltou para sala de aula e eu voltei para casa. No outro dia, ao abria a minha caixa de e-mail, vi uma mensagem sua:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Olá....td bem???? Só quero saber uma coisa,posso??? É pra me mandar a resposta&lt;br /&gt;viu!!!! É o seguinte....qd vc estava todo empolgado....pq vc sabe q eu não gosto&lt;br /&gt;q seja pra frente entende....eu só queria saber se a gente transou pq eu tenho&lt;br /&gt;certeza q não transamos neh??? Entendeu oq eu quis dizer???? Vc quer algo comigo&lt;br /&gt;mesmo???? Se quiser, vai ter q me respeitar em relação ao que eu falei, de vc&lt;br /&gt;não fazer aquilo q vc fez ontem, blz???? Combinado???? Eu quero mto te ver sim,&lt;br /&gt;mas c/ essas condições....entendeu???? Me mande a resposta no meu e-mail, eu&lt;br /&gt;aguardo a sua&lt;br /&gt;mensagem..... &lt;br /&gt;Bjos da Vanessa&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lembro que tive a vontade de dizer que sim, que transamos, que ela não era mais virgem e que aonde passa um boi passa uma boiada; entretanto, por questões burras, bem burras, resolvi respeitar a integridade física e moral da moça; e não só isto: que ela merecia perder a virgindade em um lugar e circunstâncias mais... mais... românticas!&lt;br /&gt;Eu disse isto, leitores!&lt;br /&gt;E o que eu ganhei? Que só iríamos transar quando casássemos!&lt;br /&gt;Outro e-mail engraçado foi a de uma escritora que conheci na web. Quase todos os dias trocávamos e-mail. Eu mandava meus textos e ela os delas. Discutíamos sobre isto. Falávamos um do outro e estava rolando até um clima bem romântico – veja eu de novo com essa minha doença chamada romantismo! Num dia, ela me pediu um encontro. Disse que sim, mas o problema era que a tal escritora morava em São Paulo, bem longe de mim. Fui adiando o encontro, até ela entrar numa de que eu era FAKE. Veja um de seus últimos e-mail’s:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;(...) Posso te garantir que foi com muita atençao e carinho que fiz meus&lt;br /&gt;comentários aos seus textos, e também é sempre com muito prazer que eu dialogo&lt;br /&gt;sobre literatura. Minhas cronicas jornalísticas nunca chegaram aos pés do que&lt;br /&gt;hoje entendo por literatura, mas de um certo modo sinto que eu sempre respirei&lt;br /&gt;literatura e as personagens sempre fizeram parte da minha vida, desde a minha&lt;br /&gt;adolescencia, quando eu brincava de ser escritora.&lt;br /&gt;Hoje, como crítica&lt;br /&gt;literária que sou, tenho uma postura séria de pesquisadora, estudo todos os&lt;br /&gt;dias, mas no fundo o que me dá mais prazer é brincar com as idéias e redescobrir&lt;br /&gt;o mundo pelo olhar lúdico da literatura. Eu amo literatura e quando encontro uma&lt;br /&gt;pessoa louca, como eu, que tenha essa mesma paixão literária, sinto-me muito à&lt;br /&gt;vontade para conversar. Mas você, inteligente que é, deve entender que nao dá&lt;br /&gt;para ficar batendo papo com um estranho, para sempre, e deixar fluir assim uma&lt;br /&gt;amizade. Talvez para você, que é homem, isso seja normal, mas para mim não é.&lt;br /&gt;Então as minhas razões, regras, como você diz, são essas&lt;br /&gt;mesmo! &lt;br /&gt;Mas saiba que eu também sinto falta de conversar com você,&lt;br /&gt;pois temos afinidade!&lt;br /&gt;Nem sei quem você é, mas eu gosto de você. Só que não&lt;br /&gt;dá para continuar com isso.&lt;br /&gt;Entende? Espero que sim. E quando quiser vir&lt;br /&gt;aqui, será um prazer te conhecer.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tentei reverter a situação, mandei-lhe e-mail’s tentando provar que eu era eu, mandei meu CPF RG e tudo mais; mas, não teve acordo: para ela eu não passava de um golpista ou sei lá o quê! Então, como último golpe de misericórdia, resolvi marcar o nosso encontro. Eu estava com dinheiro para comprar um notbook, mas estava disposto a não perdê-la de maneira alguma. O notbook que esperasse mais um pouco. Entretanto, olhem o que ela me mandou:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Não vai dar, Glauber&lt;br /&gt;Eu não te conheço, mas saiba que seu IP já está&lt;br /&gt;rastreado no meu computador.&lt;br /&gt;Estou ficando fera em "crimes da Internet" e&lt;br /&gt;processos judiciais virtuais.&lt;br /&gt;Não quero conhecer você e não acredito em nada&lt;br /&gt;do que você diz.&lt;br /&gt;Adeus.&lt;br /&gt;Abraçao!&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Que coisa, não? Ainda escrevo com mais calma sobre isto. Quanto a vocês, leitores, podem me mandar e-mail’s. Se acabar com alguns desses, vocês correm a chance de acabarem em livro, ou em blog, como elas acabaram...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-2614613216823835501?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/2614613216823835501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/2614613216823835501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2011/04/caixa-de-e-mails.html' title='CAIXA DE E-MAIL&apos;S.'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-4091098646288770607</id><published>2011-04-02T19:43:00.000-07:00</published><updated>2011-04-02T19:45:41.724-07:00</updated><title type='text'>GOSTO DESTE CONTO!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;REVIRANDO O BLOG, REENCONTREI ESTE CONTO: A MERDA DA VIDA. REPUBLIQUEI COM FOTOS, TAL COMO O FIZ NA PRIMEIRA VEZ, COM TODO ZELO DO MUNDO - NAQUELA ÉPOCA ACREDITAVA QUE O BLOG PODIA MUDAR A MINHA VIDA... &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;LOGO À BAIXO, NA ÍNTEGRA, EI-LO:&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-4091098646288770607?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4091098646288770607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4091098646288770607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2011/04/gosto-deste-conto.html' title='GOSTO DESTE CONTO!'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-4722155698042476830</id><published>2011-04-02T19:27:00.000-07:00</published><updated>2011-04-02T19:42:11.744-07:00</updated><title type='text'>A MERDA DA VIDA</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-nLm4nLpNWec/TZfcWvuXXtI/AAAAAAAAAtI/MX-HkC_BMbs/s1600/a+fossa+lÃ¡+de+casa.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5591179745729928914" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 150px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-nLm4nLpNWec/TZfcWvuXXtI/AAAAAAAAAtI/MX-HkC_BMbs/s400/a%252Bfossa%252Bl%2525C3%2525A1%252Bde%252Bcasa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta minha vida era uma merda, literalmente. Quem hoje me vê assim, levando uma vida boa, rica e farta, não acredita o quê um dia eu fui nesse meu passado fétido e nojento. Tudo começou quando uma fossa lá em casa entupiu. Eu não tinha dinheiro, meu irmão não tinha dinheiro, a minha mãe não tinha dinheiro algum para mandar chamar um desentupidor de fossa. E, como eu era o único desempregado dentro de casa, com tempo e energia suficiente para ao menos tentar resolver o problema, resolvi arriscar. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quem ficou ao meu lado foi um vizinho, amigo meu. Descendente de japonês, o homem. Ia me ajudar, mas sem meter a mão na merda. A sua ajuda iria ser apenas no incentivo. E lá fui eu... Abri a tampa da fossa, senti o fedor nojento, enfiei o arame cano à dentro, puxei, enfiei novamente, e assim fiquei, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Até que de repente, senti um gosto estranho na boca, e vi que havia engolido merda. Cuspi, quase chorei, resolvi que era melhor parar, deixar tudo como estava, mas Ricardo não deixou: se você é homem mesmo, de verdade, vai até o fim! &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu já estava cansado de fugir dos desafios, dos outros passarem por cima de minha honra, e por isso, decidi que ia desentupir àquela fossa nem que isto me custasse mil anos! Fiquei furioso, enfiei o arame com raiva, puxei, enfiei novamente, e fiquei assim, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Era um fedor insuportável. De vez em quando, engolia fezes. Cuspia, tentando me livrar do gosto horrível. Mas não havia jeito: uma vez que você acaba comendo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo, e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravado no nosso ser como que para sempre. Agora, imagina conviver com esse gosto por vários dias seguidos, várias semanas, anos. Foi assim comigo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois desse dia, começaram a aparecer serviços deste tipo para mim. Até hoje desconfio que foi o Ricardo quem me indicava. Vinha gente de toda a vizinhança, pedindo-me para desentupir fossa. E eu era formado em Administração de empresa, hein?E você pode dizer: uma pessoa formada em Administração de Empresas jamais iria desentupir fossas para sobreviver. E eu direi: em que país ou mundo você vive, meu amigo? Diploma não é mais garantia de nada, e assim como uma boa parte dos brasileiros que conseguem cursar um nível superior com muito esforço, eu estava encontrando dificuldades para arrumar o meu devido e muito bem merecido emprego.&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-8wVGtODVB0U/TZfcdvpltfI/AAAAAAAAAtQ/K1-di3ItUcg/s1600/senhor-seu-barriga-chaves-100-4.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5591179865968981490" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 100px; CURSOR: hand; HEIGHT: 100px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-8wVGtODVB0U/TZfcdvpltfI/AAAAAAAAAtQ/K1-di3ItUcg/s400/senhor-seu-barriga-chaves-100-4.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/Sd5wS7XUMHI/AAAAAAAAAe8/aKSVg45_BUk/s1600-h/senhor-seu-barriga-chaves-100-4.JPG"&gt;&lt;/a&gt;E, como o emprego pode esperar, mas o dono da casa que cobra o aluguel não, aceitava desentupir fossa até dos meus inimigos e dos que tinham inveja de mim. Eu dei muito desse gostinho para eles. Mas cobrava caro, é certo. Se queria, queria; se não queria, chamassem outro. Então eu ia, metia a mão na merda, na fossa, nos canos sujos de graxa, óleo, comida, em toda aquela gosma feia e asquerosa, e concluía o serviço. Sentia uma satisfação enorme. Um orgulho muito grande. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O único problema é que o cheiro de merda não saia de jeito nenhum de minhas roupas, do meu corpo, do meu nariz.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Meu filho, por que você não para com isso?, dizia a minha mãe quando me via sofrendo em cima do tanque. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;As mães sempre são as primeiras a querer nos tirar do sofrimento merecido. Já os pais de verdade não: ver os filhos pegando no pesado, encarando todo tipo de desafio, é motivo para orgulhar-se mil vezes. Quanto aos amigos e mulheres, sempre saem de perto quando vêem o homem na merda. O único amigo que ficou do meu lado foi o Ricardo, este meu vizinho descendente de japonês. Isto porque ele foi lá para o Japão e no Japão teve que transformar-se em dois, três, quatro, para no fim das contas não voltar rico para o Brasil, como imaginava que iria voltar. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Voltei é com o nervo ciático todo fodido.&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/Sd5ukjpyYcI/AAAAAAAAAe0/p8KtNTALbXI/s1600-h/japones.jpg"&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-r8ElvXQI1RM/TZfcohlYG7I/AAAAAAAAAtg/gDJgLJR_nHo/s1600/japones.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5591180051171777458" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 150px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-r8ElvXQI1RM/TZfcohlYG7I/AAAAAAAAAtg/gDJgLJR_nHo/s400/japones.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;De tanto apertar parafuso de roda de carro na indústria onde trabalhava, com o passar dos anos a coluna e o nervo ciático do Ricardo ficaram comprometidas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele não podia inventar de agachar um pouco que, se bobeasse, não conseguia levantar novamente, porque o corpo não obedecia. Então ele ficava agachado por horas seguidas, de cócoras, até conseguir levantar. Era um sofrimento dos diabos, ele dizia. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas homem que é homem não foge da luta, e eu, portanto, não podia fugir da merda. E quanto mais fossa desentupia, mais currículo eu deixava nas empresas. Não podia ter um tempinho de folga para andar pela cidade, conversando com os empresários, com os industriais, com toda essa gente. Era sempre a mesma conversa: quando aparecer uma vaga, te chamo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E então eu esperava. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ficava alegre por uns dois dias, crente que desta vez iam me chamar. Mas passava um dia, dois, três, uma semana, um mês e nada! Eu ficava puto da cara com isso. Nas minhas orações, eu blasfemava. Ajoelhado eu dizia: é isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti? &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/Sd5ukY6zZFI/AAAAAAAAAes/blvp8_2TH1c/s1600-h/deus.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-mTpJppqggDM/TZfci4E7ScI/AAAAAAAAAtY/fCfUIRIVkug/s1600/deus.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5591179954130471362" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 162px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-mTpJppqggDM/TZfci4E7ScI/AAAAAAAAAtY/fCfUIRIVkug/s400/deus.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Deus parecia um surdo, um cego, um mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com merda. Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedido, com cigarro do Paraguai na boca, encardido. Eu havia me transformado num pobre diabo, isso sim. As mulheres bonitas, se me viam de um lado da rua, passavam para outro, a fim de me evitar, de passar perto. Só não tinham nojo as feias, as gordas, as desdentadas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;De vez em quando, tomava um banho de uma hora mais ou menos, passava um perfume, vestia uma roupa limpa, e saia para algum lugar, a fim de arrumar uma namorada bonita. Mas era incrível. Parecia que elas sabiam quem eu era. Não podia nem chegar perto para ser repelido! Até hoje eu fico pensando: como elas conseguem saber que um cara está na merda? Intuição feminina?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O jeito era apelar para as feias. Essas, me aceitavam na mesma hora, me chamavam para dançar, me apresentava para as amigas. Depois, elas mesmas faziam questão de me levar para debaixo de uma árvore escura, em alguma rua deserta. Ou então, quando por um milagre tinha dinheiro sobrando no bolso, para um motel. Agora, eu te pergunto: não era motivo para desistir da vida? Eu não era feio, nem burro. Eu era apenas um azarado, um desgraçado, um excluído, um Zé Ninguém que não pode ter uma oportunidade para subir na vida, mesmo com um diploma na mão. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu era um rapaz bonito, inteligente, mas que por ironia do destino, estava na merda, desentupindo fossa. Todos no bairro sabiam disso. Alguns até que aprovavam: é isso mesmo, José, temos que trabalhar, não importa no quê; mas, a maioria dizia, eu sei que dizia: olha, um rapaz tão novo, com dentes brancos, rosto bonito, formado, e desentupindo fossa... O que será desse nosso Brasil? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;– É, ter diploma não mão hoje em dia não quer dizer mais nada... &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Do que adiantou ele ter estudado tanto? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O pior de tudo era os finais de semana, na casa de meus avôs, onde me encontrava com os parentes todos. Meu avô era o primeiro a me humilhar na frente de todo mundo, dizendo que eu não tinha fé, que eu era burro, e que um burro tem que acabar mesmo desentupindo fossa, na merda. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;As minhas tias, junto com a minha mãe, me protegiam, falavam por mim, porque eu não queria magoar o meu avô, não queria dizer para ele eu posso até estar desentupindo fossa agora, mas não estou pedindo nenhum dinheiro para você, nem um centavo. E mais: o dia que eu ficar bem, vou continuar te amando do mesmo jeito, tanto você quanto todo mundo presente aqui – era o que eu tinha vontade de dizer. Isto porque meus tios, meus primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Certa vez, um deles, que mal sabia falar, que nem pescoço ainda tinha, falou-me: você é um derrotado. Eu perguntei: o quê?! Um derrotado. Quem disse isso para você?, perguntei, perplexo. Meu pai, respondeu, o menino. Guardei isso para mim. Por vários dias, enquanto desentupia fossa e engolia merda para sobreviver, lembrava dessas palavras vinda de um sobrinho. Foi quando decidi sair da merda sem esperar por um emprego como administrador. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Passei a guardar dinheiro, a cobrar um pouco mais caro pelos meus serviços, e pensar num negócio para abrir.Um restaurante? Uma pizzaria? Uma loja de sapatos? Uma sorveteria? Pensei, pensei e veio a idéia de montar uma auto-fossa&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Wxxhj3ocQtQ/TZfdbRHMiUI/AAAAAAAAAto/bC41GsyzZKA/s1600/3F1BBB_2+auto-fossa.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5591180922923551042" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 150px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-Wxxhj3ocQtQ/TZfdbRHMiUI/AAAAAAAAAto/bC41GsyzZKA/s400/3F1BBB_2%2Bauto-fossa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;, já que eu estava no ramo e entendia muito bem como tudo funcionava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos, prosperei, comprei casa, carro, casei, tive dois filhos.&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/Sd5ukAZrZyI/AAAAAAAAAec/qHXw0ru1hvw/s1600-h/3F1BBB_2+auto-fossa.jpg"&gt;&lt;/a&gt;Não facilito nem um pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas dou oportunidades. Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha campainha; depois, as boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham. E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo é esse. Encarar de frente a merda da vida, pegar o que ela nos oferece, e fazer dela uma grandiosa obra de arte. O resto, é choro e ranger de dentes. É migalhas. É viver sozinho. É passar fome, é ter sede. É querer ser gente mas não ser. Glauber da Rocha &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-4722155698042476830?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4722155698042476830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4722155698042476830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2011/04/merda-da-vida.html' title='A MERDA DA VIDA'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-nLm4nLpNWec/TZfcWvuXXtI/AAAAAAAAAtI/MX-HkC_BMbs/s72-c/a%252Bfossa%252Bl%2525C3%2525A1%252Bde%252Bcasa.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-1097841364273992565</id><published>2011-03-29T19:40:00.000-07:00</published><updated>2011-03-29T19:41:22.652-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>achei minha senha! estou de volta! té mais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-1097841364273992565?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/1097841364273992565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/1097841364273992565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2011/03/achei-minha-senha-estou-de-volta-te.html' title=''/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-8636124015643150543</id><published>2010-08-27T10:31:00.000-07:00</published><updated>2010-08-27T10:56:45.988-07:00</updated><title type='text'>SOU UM HOMEM ROMÂNTICO, EU JURO!</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/THf8R-s6BCI/AAAAAAAAAs0/HlVnu2XYR9o/s1600/LGIM0139.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/THf8R-s6BCI/AAAAAAAAAs0/HlVnu2XYR9o/s400/LGIM0139.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5510150054930416674" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;PODE não parecer, mas sou um homem romântico. Tudo o que faço, faço visando o final feliz. Está certo que a maioria delas não entendem – as que entendem vivem mil vezes mais felizes, porque compreenderam o mistério dos homens... De todo modo, entendendo ou não, faço o que deve ser feito, de acordo como a vida é. Então, quando começam reclamar que não dou flores, logo falo para elas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quer flores? Por que não planta? Olha o tamanho do quintal... É só ir lá na floricultura, comprar sementes, e plantar... Fácil, não? Se quiser o dinheiro, toma aqui...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Grosso – dizem as que não entendem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou grosso, sou romântico. Faço tudo pelo final feliz. Até faço questão de comprar as sementes, se elas ficam muito aborrecidas. E ainda as rego diariamente, se for o caso! Mas o que não faço é comprar um buquê para elas enfiarem o nariz na vaidade! Não compro, não compro, não compro – exceto no aniversário delas e no dia dos namorados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço quase o mesmo quando elas começam a pedir elogios em excessos. Digo em excesso porque é assim mesmo, literalmente. Tem dias que não basta dizer que elas estão lindas: tem que jurar de pé junto! Eu vou me cansando, não me sujeito, não me subordino. Pode ser a mulher que for! Eu vou ficando com raiva, ando de um lado para outro, respondo mal, grito – e quando vejo que ainda não foi o necessário, digo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quer que eu compro um cachorro para ficar lambendo teus pés? Eu compro! Compro até dois. E da raça que você quiser... Você quer um Poodle? Eu te dou um Poodle... Você quer um Yorkshire Terrier, eu te dou um Yorkshire Terrier... Até um Briard eu te dou, se for o caso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Seu bruto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não sou bruto: sou romântico! Não vou passar a minha língua no desinteresse dela... Deixo que os cães façam isto por mim. E até adestro os amiguinhos! Ensino-lhes: cãozinho, quando fulana ficar carente, precisando de elogios, vai até o pezinho da madame e lambe! Lambe-o devagarzinho, para ela sentir-se importante! Mas, cãozinho querido, não se ilude: você nunca passará disto, de cãozinho! E não se espante se um dia ela te trocar por um outro, por um outro que não lhe lambe o lindo pézinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-8636124015643150543?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8636124015643150543'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8636124015643150543'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/08/sou-um-homem-romantico-eu-juro_27.html' title='SOU UM HOMEM ROMÂNTICO, EU JURO!'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/THf8R-s6BCI/AAAAAAAAAs0/HlVnu2XYR9o/s72-c/LGIM0139.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-378092185230099406</id><published>2010-08-25T12:53:00.000-07:00</published><updated>2010-08-25T12:54:51.894-07:00</updated><title type='text'>Prontinha, prontinha, mas só sexta!</title><content type='html'>Prontinha a crônica para sexta-feira!&lt;br /&gt;Aguardem!&lt;br /&gt;Não é porque escrevi não - eu já escrevi um monte de coisas que simplesmente detestei - mas é que ela ficou bacaninha mesmo, quase educativa...&lt;br /&gt;háhá&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-378092185230099406?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/378092185230099406'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/378092185230099406'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/08/prontinha-prontinha-mas-so-sexta.html' title='Prontinha, prontinha, mas só sexta!'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-5550311676853536837</id><published>2010-08-20T19:45:00.000-07:00</published><updated>2010-08-20T19:47:59.400-07:00</updated><title type='text'>Agora toda sexta!</title><content type='html'>Bom, à partir de hoje, toda sexta estarei aqui.&lt;br /&gt;Os textos serão mais pessoais, mais diferentes.&lt;br /&gt;A literatura que fique no papel...&lt;br /&gt;E para começar, logo à baixo já tem um inédito!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-5550311676853536837?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/5550311676853536837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/5550311676853536837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/08/agora-toda-sexta.html' title='Agora toda sexta!'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-4204174187658543630</id><published>2010-08-20T19:35:00.000-07:00</published><updated>2010-08-20T19:42:21.518-07:00</updated><title type='text'>NO SITE DE RELACIONAMENTOS.</title><content type='html'>Meses atrás, entrei num site de relacionamentos. Após responder às perguntas, meu perfil apareceu da seguinte maneira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Glauber da Rocha, 28 anos, Campo Grande, Brasil.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A meu respeito: sou ninfomaníaco, imoral, anarquista e mentiroso. A minha posição predileta é o 69; seguida daquela que a gostosa fica de quatro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Relacionamento: sou solteiro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sexualidade: Sou heterossexual&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Aparência: 1,70 cm; 80 kg; tenho um físico médio, meus cabelos são negros e o meu pau vive sempre duro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Vivendo: sozinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Filhos: não, nunca.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Cigarro: fumo um atrás do outro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Bebida: sim, por favor....&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao rever meu perfil, quero dizer, ao ser tomado pelo super-ego (super-ego: censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao id, impedido o ser humano de satisfazer seus desejos – inclusive os menos secretos. É a repressão, e principalmente a repressão sexual...) deletei meu perfil e fiz outro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Glauber da Rocha, 28 anos, Campo Grande, Brasil.&lt;br /&gt;A meu respeito: sou extrovertido, de bem com a vida; gosto de fazer amizades, rir, levar as pessoas à sério, a fazer o bem.&lt;br /&gt;Relacionamento: sou solteiro.&lt;br /&gt;Sexualidade: Sou heterossexual&lt;br /&gt;Aparência: 1,70 cm; 80 kg; tenho um físico médio, meus cabelos são negros e meus olhos castanhos.&lt;br /&gt;Vivendo: sozinho.&lt;br /&gt;Filhos: sim.&lt;br /&gt;Cigarro: odeio quem fuma.&lt;br /&gt;Bebida: sou contra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Ao deixar meu perfil politicamente correto, fui atrás dos corpos. A primeira que encontrei foi uma Daiane, muito bonita, nova, branca, cabelos negros cacheados, ar comportado.&lt;br /&gt;Perfil:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A meu respeito: ... sou evangélica, alegre, meiga, sincera, simpática, mto paciente. Amo o q tenho e o q faço. Gosto de conhecer pessoas e lugares, amo sorrir, brincar, estudar... e o principal, louvar e adorar ao meu Rei Jesus!!!... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Relacionamento: Sou solteira &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sexualidade: Sou heterossexual &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Aparência: 165 cm (5'5''), 68 kg (150 libras), tenho um físico médio, meus cabelos são negros e olhos marrons. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Vivendo: Com meus pais &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Filhos: Talvez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Cigarro: Não fumo &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Álcool: Não &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Clickei:&lt;span style="color: rgb(51, 204, 0);"&gt; iniciar conversa&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Glauber: oi, Daiane, vi que você é religiosa, eu também sou, será que somos da mesma igreja e não sabemos? De qual igreja você é?&lt;br /&gt;Daiane: da... (não vou colocar o nome da igreja aqui, mas é uma aonde o pastor aterroriza todo mundo com o medo do Inferno)&lt;br /&gt;Glauber: sou de lá; quero dizer, comecei a freqüentá-la estes dias, sou de outra cidade.&lt;br /&gt;Daiane: hum, e está gostando?&lt;br /&gt;Glauber: do que? Da cidade ou da igreja?&lt;br /&gt;Daiane: ah, dos dois...&lt;br /&gt;Glauber: ah sim, estou gostando da cidade, mas estou gostando mais ainda da igreja, muito bom lá, né?&lt;br /&gt;Daiane: sim, uma benção...&lt;br /&gt;Glauber: pena que ainda não te vi na igreja...&lt;br /&gt;Daiane: não? Mas eu canto lá, em cima do altar... Sou do coral.&lt;br /&gt;Glauber: é mesmo!... Você é a moça que canta no altar!... Me desculpe, mas é que sou míope...&lt;br /&gt;Daiane: rsss...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos por meia hora, aproximadamente. No fim da conversa, combinamos de nos ver na igreja. No dia em que fui, um encosto que me acompanhava se manifestou, quebrei toda igreja – mentira, isto não aconteceu...&lt;br /&gt;Lá eu fui conquistando a sua confiança – tanto a dela quanto a da mãe e do pai dela.&lt;br /&gt;Dias depois, eu já era o namoradinho da garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vai Daiane, só a cabecinha...&lt;br /&gt;– Não, é pecado.&lt;br /&gt;– Mas eu te amo.&lt;br /&gt;– Eu sei que você me ama.&lt;br /&gt;– Eu me caso com você.&lt;br /&gt;– Então casamos, e só depois fazemos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu sei que esta cena se repetiu umas dezenas de vezes, até a bocetinha dela escorregar na envergadura do escorregador. Fodi a Daiane um monte de vezes, marquei casamento, e depois desapareci...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*a Daiane virou depressão e joelhos no chão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-4204174187658543630?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4204174187658543630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4204174187658543630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/08/no-site-de-relacionamentos_20.html' title='NO SITE DE RELACIONAMENTOS.'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-3294374487972609302</id><published>2010-08-13T16:42:00.000-07:00</published><updated>2010-08-13T16:46:16.947-07:00</updated><title type='text'>MEU FUSCA QUERIDO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Eu não podia de maneira alguma negar o meu fusca querido para a minha filha dar umas voltas bem no dia em que ela tirou a sua carteira de habilitação, podia? Outro pai, mais firme na educação de seus filhos, negaria; deixando-a dirigir sozinha somente depois, quando estivesse dirigindo bem. Mas, como sou um pai que neste tempo havia desaprendido a dizer não, pois passei a ter medo de perder o amor de minha filha – coisa aliás muito difícil de acontecer, embora aconteça – não só dei o meu fusca querido para ela dar umas voltas como ainda lhe dei uns trocados para ela gastar à toa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ser mais exato, em tempos remotos até negaria; se ela, depois dos dezoito anos de idade não começasse a manifestar as suas revoltas contra a sua mãe e eu, o pai Caxias, como ela passou a me chamar. Então, feliz da vida com o seu pai amoroso, pegou o telefone e ligou para a sua amiga, e falou: o meu paizinho querido liberou o fusca para mim hoje; às dez horas eu passo aí para te pegar, viu amiga? Hoje é dia de festa; quero dançar até de manhã...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Até de manhã, filha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Relaxa, pai, sei me cuidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive vontade de dizer para a minha filhinha do coração que ela não bebesse; mas, veja bem, os nossos filhos geralmente são aquelas eternas crianças que entendem apenas o contrário: se você diz não faça isso, elas vão lá e fazem. E fazem talvez nem porque são teimosas, coitadas, mas é assim que elas entendem: pelo contrário – ou não é? Dissesse não beba, ela, com toda a certeza, entenderia: beba. E encheria a cara, tomando um porre homérico, como o meu vizinho, que é professor de Literatura, costuma dizer sobre os seus excessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes eu tivesse falado, pois a minha filhinha pequena, ingênua e inocente, bebeu tudo quanto é tipo de bebida que esses marmanjos na noite costumam dar para as suas presas, a fim de que elas caiam mais facilmente em suas armadilhas maldosas – por mais inimaginável que pareça, também fui jovem, meu querido leitor, e como quase todos os jovens, caçava desonestamente também, fazendo uma trilha de drinks em direção à armadilha, à santa arapuca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá pelas seis da manhã, ela me ligou, dizendo que entrou com tudo numa camionete 4x4 importada, e que era para correr urgentemente para lá, antes que o rapaz chamasse a polícia: fizesse isto, ela perderia a sua carteira provisória no mesmo dia afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você está bem, minha filha? Não aconteceu nada com você? Nenhum arranhão? Deus é Poderoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei um táxi e em menos de dez minutos já estava lá, prestando os primeiros socorros. O rapaz, profundamente injuriado, quase me deu na cabeça; mas eu, velho que sou, assumi a posição humilde, de coitado, e só não chorei na frente dele porque não se chora na frente de um homem nem em último caso: eu pago tudo, por favor, não chame a polícia, foi o que falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus, a camionete 4x4 importada dele não sofreu muito do acidente, mas, sabe como é, qualquer coisinha que acontece com uma camionete dessas é mais de mil reais para cima. Desembolsei 500 mangos; era o eu que podia, sou um simples aposentado que precisa dar de comer a três filhas, a uma esposa, e cinco netos – até netos eu tive nesta hora... O rapaz, por Nossa Senhora que está no céu, acreditou, e foi embora, com os meus 500 mangos no bolso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia muito bem tirar a cinta e bater na minha filhinha na frente da amiga dela; ou então, dizer um monte de ofensas, algo que a oprimisse mais uns vinte anos, como vinha lhe oprimindo desde que ela se entendia por gente; porém, dei um abraço nela, dizendo: Deus é Pai, minha filha; e bons são os anjos, que lhe protegeram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hã? Como assim? – foi o que ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu fusca querido quase deu perda total. Não que o acidente fosse forte, e sim que um fusca quase não agüenta nada, principalmente o meu, que já tinha quase a mesma idade que a minha. Durante o dia, fiquei pensando se mandava o meu fusca querido direto para o ferro velho ou se para uma oficina mecânica. A minha esposa, sábia e inteligentíssima, aconselhou-me o ferro velho: que eu comprasse um carro novo, com ar condicionado, teto solar, combustível à gás, e air bargs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferro velho nada. O meu fusca querido era o mesmo que um filho meu: desfazendo-me dele iria acabar mais infeliz que um pai rico quando deserda um dos seus. Decidi levá-lo a uma oficina mecânica, e ressuscitá-lo de entre os mortos, tal como Jesus fez com Lázaro, como sempre diz o padre da igreja perto daqui de casa quando responde, ao dono do boteco, se a cachaça está boa ou ruim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de entregá-lo na mão de qualquer um, fui a várias oficinas mecânicas, e decidi entre uma delas utilizando-me de um critério perfeitamente desastroso: deixei-o na mecânica onde tinha mais carros, pensando que por isso, logo, todavia, portanto, que o mecânico deveria ser bom...&lt;br /&gt;Puro engano: a sua oficina só era lotada de carros porque ele demorava entregar o serviço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mecânico era uma porcaria que só vendo. Ele pegava 50% de adiantamento, gastava não sei aonde, pondo a desculpa que no aluguel e na energia elétrica do galpão. Para mim, tenho a absoluta certeza de que ele pegava esses 50% e enfiava bem no meio do rabo cheio de graxa dele: não havia outra explicação, com certeza não havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engoli cargas de ódio por causa de mecânico porcaria. Ele me mandava ir tal dia e tal dia o serviço não havia nem começado. Ia no outro; no outro, e sempre assim: ele mandando voltar daqui quinze dias, daqui dez dia, daqui cinco dias, daqui três, dois, um. Foi quando comecei a desejar o mal para ele. Na sua frente, passava mil tipos de palavrões na minha cachola, que queimavam a minha garganta, a minha língua, louca para falar aquilo que considerava vir do próprio Espírito Santo. Mas, me calava, dizendo à tarde eu volto. E de tarde voltava. De noite eu volto, e de noite voltava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a observar a vida dele: no mínimo aquele porco não devia ter nem mesmo lavagem para comer dentro de casa. Alguém que tinha tudo para enriquecer, e que preferia enganar os outros, viver essa vida de sujeito desonesto. Quando chegava lá, e falava e aí?; ele logo mandava um funcionário seu pegar no maçarico e trabalhar no meu fusca. Mas, era pura enganação daquele filho da mãe de uma jararaca, porque era isso o que ele era, uma JARARACA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem querer, falei: a vontade que tenho é de te esmagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem, sabido que era, ligou para a polícia, me acusando de ameaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A polícia apareceu em minha casa, a fim de fazer o confere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, não confere seu policial; sou um homem de bem, a única coisa que quero é o meu querido fusca de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo em seguida, contei toda a história, tirando, é claro, a minha filha para bem longe dela.&lt;br /&gt;Os policiais tomaram nota, e foram embora. A minha esposa, assim que viu eles saírem, me disse: amor, por que você não toca fogo naquela merda? Compra um carro novo, vai ser melhor para você; olha o tanto que você está gastando: saúde é mais cara do que o dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Néscio, não dei ouvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria por toda a sorte ou azar o meu querido fusca de volta. Às vezes, até sonhava com ele, algo que me dava uma felicidade infinitamente indizível: acho que nem sonhar com um carro novo seria tão prazeroso assim. Mas logo que acordava, e não via o meu querido fusca na garagem, recebia uma pontada forte no peito, que atenuava com a imagem daquela porcaria de mecânico se fazendo na minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que não morre uma praga desta? – era o que eu me perguntava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deu outra: o homem morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei extremamente furioso com isto. Queria saber como que o meu querido fusca ia ficar na história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não fica, disse o seu empregado; e se eu fosse você, o levaria embora o antes possível, para o seu bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava levando o fusca embora quando de repente a polícia apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi ele, seu policial, que bateu a chave de braço na cabeça de meu patrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hã? Como assim? – foi o que eu falei, para usar a expressão que a minha filha tanto gosta de usar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E ainda por cima é cínico – disse esse discípulo da JARARÁCA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os policiais acreditaram. Me levaram em cana; mas eu disse e repito: Deus é Pai, e me tirou dessa fria. Logo depois, me soltaram, pedindo mil desculpas; que a polícia, por ser feita de homens, erra; que não existe um ser humano que não comete erros; que somos limitados, finitos; que não adianta estufar o peito e dizer eu sou, eu posso, eu faço, que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ok, ok, ok, estou dispensado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque no fim das contas nós, homens, sempre acabamos fazendo o que a mulher deseja, toquei fogo no meu fusca querido, e comprei um carro do ano. A marca? Se eu disser talvez vocês não vão acreditar. Sim, o novo fusca. Comprei o novo fusca, esses que lançaram acho que no ano 2000 para cá. E a minha filha, por mais que pede com os olhos para dar uma volta nele, não o faz com palavras – se fizer, ela sabe o que o pai vai falar, que é NÃO!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-3294374487972609302?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/3294374487972609302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/3294374487972609302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/08/meu-fusca-querido_13.html' title='MEU FUSCA QUERIDO'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-8270361520289602574</id><published>2010-08-06T18:05:00.001-07:00</published><updated>2010-08-06T18:05:59.220-07:00</updated><title type='text'>MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;a Hugo Carvana&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro a idéia aparece, sempre de maneira alegre, que me faz ficar rindo por alguns instantes, dias, semanas. Depois, como que naturalmente, ela vai crescendo, aumentando, ganhando proporções, se encaixando. As personagens vão surgindo, e eu penso num ator, em outro. Quando vejo, tanto o filme quanto o elenco estão prontos aqui, na minha cabeça.&lt;br /&gt;Fico vivenciando tudo isto por dois, três, até quatro anos, que é um processo de amadurecimento. Ninguém pode ter uma idéia hoje e realizá-la amanhã. Muitas delas são falsas. Para as que persistem e perseguem, e ficam conosco por muito tempo, a realização é quase certa. Depois, escrevo o roteiro, desenho os quadros, elaboro o projeto e vou atrás das pessoas. É um trabalho chato, pedir?! É! Porém, vale à pena.&lt;br /&gt;Mas tudo flui facilmente, ainda mais quando o projeto é para um filme de comédia. Não que fazer comédia seja algo fácil, como pensam muitos. Pelo contrário: fazer rir é mais difícil que fazer chorar, principalmente nos dias de hoje, com tantas injustiças. É mais fácil no sentido de levantar a grana, de conseguir o patrocínio.&lt;br /&gt;Se vai fazer aquela aula de filosofia, de história, de sociologia para o empresário ocupado, demonstrando como que as pessoas sofrem por causa de uma coisa ou outra, ele vai dormir em cima da mesa, entediado. Mas se conta a história do malandro, do golpe, do dinheiro em jogo, das mulheres gostosas, o homem se levanta, aperta a mão, já agradecido, e desembolsa.&lt;br /&gt;Com o dinheiro no bolso, vou atrás da formação da equipe. Na escolha, fico apenas com os profissionais de alto nível. Não gosto de amadores, de amadorismos. Nem de gente que está aprendendo. Há muitos lugares para os aprendizes. Então, começa a filmagem. O filme, por ser uma comédia, tem que ser feito num clima divertido. O responsável por este clima, querendo ou não, é o diretor. Se ele é um intelectual, ou um revolucionário, ou seja lá o doido que for, a coisa não flui.&lt;br /&gt;Aliás, não suporto homem que toma bonde, que vive bondeado, que faz o estilo sofredor, daqueles que sofrem, e que pensam, e se não der, e se... Com esse tipo de diretor, como é que pode sair um filme divertido? A coisa tem de vir de fora para dentro. O responsável por este fora é o diretor. Eu faço isto. Quando não estou brincando com tudo e com todos, ou eu canto ou eu danço. O nome disto é molecagem. Quando um homem deixa morrer o moleque dentro de si, é porque já morreu a alegria, o entusiasmo e a beleza.&lt;br /&gt;Fico sério apenas na gravação das cenas, que é a hora em que por mais engraçada que seja a encenação, o ator tem que manter a linha. Numa palavra: em todo o processo de um filme, desde a filmagem à sua estréia nas telas dos cinemas, eu me ocupo, e não me pré-ocupo. Para cada dia, as ocupações do seu dia. O depois; é depois. Se der certo, deu. Se não der certo, fazer o que? Lamentar?&lt;br /&gt;Eu não posso lamentar. Sou um comediante, e não um trágico. O cinema, a meu ver, não pode viver de tragédias. Não acredito que o cinema ou a literatura possam transformar o mundo. Não há santidade na arte, há vaidade, isto sim. Satisfação do ego. Por mais que queiram camuflar a vaidade, ela aparece. Na vitória ou na derrota, ela aparece, inevitavelmente. Então, para que se enganar?&lt;br /&gt;Mas se tantos diretores, principalmente os jovens, querem sofrer, que sofram – só não me chamem para sofrer junto. Não é a minha praia. Nela não tem os malandros, não tem os vagabundos, não existem os sem-vergonhas na cara. Ninguém fuma, ninguém bebe, ninguém dança. Eu gosto da dança. Da ironia, do entusiasmo. Eu gosto principalmente da personagem tipicamente brasileira, do homem que quando deve se esconde, do sujeito safado, da mulher dissimulada, em cima dos sapatos, dando seus ataques de histerias.&lt;br /&gt;É banal? É. Mas os meus cabelos estão brancos sem precisar de muito sofrimento. Não sou um homem de pretensões, porque não adianta. Todos no Brasil e no mundo sabem o que é certo e o que é errado. Onde se vai, escuta-se a palavra amor, honestidade, justiça. E te pergunto: o mundo é paz e amor? Estamos sendo honestos e justos o tanto quanto falamos sobre isto? Se filmes transformassem realidades, tal como esses jovens acreditam, no Brasil não haveria tanta corrupção, haveria?&lt;br /&gt;Eu já fui um sujeito piedoso, cheio de pudores, preocupado com a existência ou não de Deus, com valores morais, querendo por toda lei fazer um mundo melhor. E o que eu ganhava com isto? Hã? Só depressão. Não que a religião seja algo ruim. Para falar a verdade, graças a ela a vida ainda é possível. Não sou contra. Mas, em cada um ela age de um modo. No meu caso, ela me fazia um negador de suas paixões, e vivia deprimido.&lt;br /&gt;Naquele tempo não era essa palavra que usávamos. A palavra era melancolia. E o homem melancólico, chamávamos de bondeado. O individuo das crises existenciais, sem amores, sem amantes, sem vida. Não gosto disto, nunca gostei. E lamento que tantos jovens queiram passar por este sofrimento, com os seus filmes densos, cheios de pausa, onde cada cena existe uma reflexão para a vida inteira. Não é comigo. Gosto do ritmo rápido, das piadas curtas mas inteligentes, uma atrás da outra. Gosto dos musicais.&lt;br /&gt;Também não sou chegado em violência, na estética do sangue, da crueldade. Os meus heróis nada têm a ver com Sylvester Stallone, com o capitão Nascimento. Os meus heróis olham uma boazuda cruzar a rua e vão atrás. Tem gingado, estilo; falta-lhes a vergonha na cara. Geralmente, não trabalham, e quando trabalham, não são importantes. Não trabalhar, para muitos deles, é uma questão de princípios. Há toda uma reflexão filosófica por detrás de um vagabundo. &lt;br /&gt;Já outros, são charlatães. Mas não o charlatão como muitos por aí, pós-modernos, gananciosos, que querem enganar a muitos de uma vez só. Os meus charlatões enganam de um a um. Para eles, é uma forma de sustento e de diversão. Não são de olhar para cima querendo ocupar o lugar mais alto, nem de olhar para baixo com orgulho, considerando melhor que os outros.&lt;br /&gt;Já as minhas mulheres, essas são nervosas, neuróticas, fazem espetáculos. Mas amam, acima de tudo. Elas estão em todos os lugares: em bares baratos, em bares caros, ao lado de um magnata, de um bandido, ou até mesmo de um trabalhador. Eu acho que meus filmes ajudam as pessoas a enxergar melhor à sua volta. O Brasil é igual em todos os lugares, tanto em São Paulo como no Rio. As diferenças são muito poucas.&lt;br /&gt;Uma palavra para o sujeito ser feliz, nos dias de hoje? Eu esqueci seu nome. Qual é mesmo? Ana? Ana Andrade? Você tem quantos anos, Ana? Vinte e seis? E linda deste jeito? Não se acanhe. Em linhas gerais, Ana, só há uma maneira de ser feliz no Brasil hoje, e essa maneira é ter muita ironia e pouca, mas muito pouca vergonha na cara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-8270361520289602574?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8270361520289602574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8270361520289602574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/08/muita-ironia-e-pouca-vergonha-na-cara_06.html' title='MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-7642941341888964834</id><published>2010-07-26T15:16:00.000-07:00</published><updated>2010-07-26T15:19:14.256-07:00</updated><title type='text'>publicando de novo</title><content type='html'>Revisei o conto "A Tração Manual".&lt;br /&gt;Acho que ficou melhor que o outro, mais verossímil...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-7642941341888964834?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/7642941341888964834'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/7642941341888964834'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/07/publicando-de-novo.html' title='publicando de novo'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-5470291837964205512</id><published>2010-07-26T15:14:00.000-07:00</published><updated>2010-07-26T15:16:28.313-07:00</updated><title type='text'>A TRAÇÃO MANUAL.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu tinha um pênis minúsculo, menor que o celular de última geração do sr. Johnson. Desde pequeno tive vergonha dele, principalmente depois da observação que uma amiga de minha mãe fez ao vê-la me dar banho: ei Neuza, o pingolinho de seu filho não vai crescer não? Não é melhor levar ele num médico, para ver isso?&lt;br /&gt;Eu tinha dez anos de idade quando isto aconteceu. O efeito desta pergunta foi tão traumático que à partir de então nunca mais fiquei pelado na frente de alguém até conhecer a Patrícia e a dona Suzana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na adolescência, meu pênis continuava quase do mesmo tamanho quando deste triste episódio, apesar de passar uma boa parte do meu tempo esticando-o, para ver se o bendito crescia. Fazia isto enquanto estudava, trancado no meu quarto. Mas, de nada resolvia, e então parei.&lt;br /&gt;Depois, conheci a Patrícia. Durante um ano de namoro não deixei ela nem encostar-se ao meu membro: sempre que ela ia com a mão, eu esquivava, pois tinha medo dela acabar o namoro por causa do tamanho. Até que finalmente, resolvi deixar. Patrícia pegou, riu, disse olha que bonitinho, e quando vi, já estava com ele dentro da boca.   &lt;br /&gt;Foi neste dia que perdi a minha virgindade. Ela gostou, e a partir de então, passamos a transar quase todos os dias. Contudo, era somente na frente dela que eu tinha coragem de me despir, e quando aparecia uma oportunidade de transar com outra garota, eu fugia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus, apareceu a dona Suzana em minha vida, para reverter de uma vez por todas essa minha situação. Estávamos, eu e a Patrícia, na frente de casa, namorando. De repente, um carro importado parou e uma mulher loira, de olhos azuis, aparentando ter uns trinta anos, nos chamou, pedindo informação de uma rua ali no bairro.&lt;br /&gt;Pedi para a Patrícia dizer mas ela se recusou.&lt;br /&gt;Falei então:&lt;br /&gt;– Você segue em frente duas quadras e vire à direita; depois, à esquerda, é ela.&lt;br /&gt;– Ai moço... será que vou saber?&lt;br /&gt;– Vai sim – eu falei, porque só se fosse uma burra para não saber.&lt;br /&gt;– Você não quer me levar até lá? Eu trago você de volta. É rapidinho...&lt;br /&gt;Olhei para a Patrícia e ela disse vai, Alfredo.&lt;br /&gt;Fui.&lt;br /&gt;Na volta, a dona começou a dizer que eu era muito bonito, e me deu o seu telefone. Coloquei-o no bolso, por educação, e disse: qualquer coisa eu ligo. Na frente de casa, saltei do carro rapidamente, quase me esquecendo de despedir-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite, na cama, antes de dormir, comecei a pensar na dona Suzana. Imaginei-a nua, fiquei excitado, peguei no meu pinto e comecei a mexer nele. Logo depois, fui me masturbando. Enquanto me masturbava, sofria com este conflito existencial: estou me masturbando por alguém que posso ter de carne e osso... E tudo isto por vergonha!&lt;br /&gt;Assim que me dei conta disto, broxei. Revoltado, falei para mim mesmo: vira homem, Alfredo, e come essa dona!&lt;br /&gt;Noutro dia liguei para a dona Suzana, e marcamos um encontro, na casa dela.&lt;br /&gt;Fui.&lt;br /&gt;Chegando, dei de encontro com uma mansão.&lt;br /&gt;– A dona Suzana está? – perguntei, na portaria.&lt;br /&gt;– Você é o Alfredo?&lt;br /&gt;– Sim, sou eu.&lt;br /&gt;– Entre. Ela está lhe esperando – disse o porteiro.&lt;br /&gt;Entrei.&lt;br /&gt;Vi um grande jardim, uma pequena rua que dava de frente à porta de entrada da casa dela; e, na frente dessa porta, ela, vestida com um roupão.&lt;br /&gt;– Alfredo?&lt;br /&gt;Me abraçou, pegou na minha mão e me levou direto para a sua suíte. Lá ela tirou o roupão e ficou nua. Olhei para o seu corpo e vi que estava tudo em ordem. Mesmo assim, não consegui ficar excitado, pois estava nervoso, a minha mão suava e meu coração batia mais forte do que quando jogava futebol de salão na escola.&lt;br /&gt;– Não tenho o corpo de uma jovem? Peque aqui, nos meus seios, para você ver como eles são duros...&lt;br /&gt;Peguei.&lt;br /&gt;– Pegue na minha bunda, agora.&lt;br /&gt;Obedeci.&lt;br /&gt;Enquanto pegava em sua bunda, em seus seios e em sua coxa, ela falava: sou filha de italiana com francês; mas, a mãe de meu pai e a mãe de minha mãe eram negras; eu tenho sangue de negro; a minha pele jamais poderá ser esticada, tente esticá-las.&lt;br /&gt;Tentei.&lt;br /&gt;A pele dela escorria, escorregava.&lt;br /&gt;– Não falei?&lt;br /&gt;Quando vi, estava abraçado com a dona Suzana, lhe beijando. E, ainda assim, sentindo o seu calor, a sua segurança, o meu pinto não subia de maneira alguma. A dona Suzana percebeu, e para me deixar excitado, tirou a minha roupa.&lt;br /&gt;Ao me ver nu, com um pinto do tamanho do pinto de uma criança de cinco anos de idade, ficou desanimada. Afastou-se, sentando na beira da cama, e me perguntou: por que você não me falou antes?&lt;br /&gt;– Falou o que? – perguntei, já sabendo da resposta.&lt;br /&gt;– Que ele é pequeno...&lt;br /&gt;Nesse momento, tive vontade de sair dali correndo, mas nem isso consegui. Chorei, apenas. A dona Susana se apiedou e me chamou para o seu colo, tal como a minha mãe fazia quando eu era criança.&lt;br /&gt;Fui, e com o calor de seu corpo, me dando um aconchego maternal, comecei a desabafar.&lt;br /&gt;Falei para ela que nunca ficava pelado na frente dos outros, nem de garotas e piorou de garotos; que eu ficava pelado somente na frente da Patrícia, minha namorada.&lt;br /&gt;Disse para ela que por causa do tamanho do meu pênis eu não freqüentava clubes de lazer, não ia à praia e odiava o inverno, pois no frio o meu pinto desaparecia. Contei-lhe também da vez que um colega abaixou as minhas calças no recreio da escola, e que todo mundo viu, principalmente as meninas, e que, a partir desse dia ganhei uma porrada de apelidos: piquinês, japa, minhoca, e etc.&lt;br /&gt;Ao dizer isso, a dona Suzana riu.&lt;br /&gt;Fiquei com raiva. Saí de seu colo, reclamando puxa vida, eu aqui abrindo o meu coração para você e você ri? Que mundo cruel!&lt;br /&gt;Ela, no entanto, disse não estou rindo de você, seu bobo: estou rindo porque eu tenho a solução para o seu problema!&lt;br /&gt;– Tem?&lt;br /&gt;– Eu não. O sr. Jhonson, meu marido.&lt;br /&gt;– Marido? – indaguei, apavorado.&lt;br /&gt;– Não se preocupe, somos um casal aberto.&lt;br /&gt;Fiquei mais apavorado ainda.&lt;br /&gt;– Por que seu marido?&lt;br /&gt;– Porque foi ele quem descobriu essa técnica, a de aumentar o pênis e dá-lo mais vigor, a fim de que o homem não goze em menos de uma hora – disse ela.&lt;br /&gt;Fiquei ressabiado, e lembrei-me daquelas bombinhas em revistas pornográficas – não sei aonde, li ou ouvi dizer que aquilo causava uma impotência sexual desgraçada nos homens, irreversíveis.&lt;br /&gt;– Não é bombinha, é?&lt;br /&gt;– Nada! Melhor que isso. É uma técnica natural, chamada de a tração manual!&lt;br /&gt;E me explicou.&lt;br /&gt;Disse que quando o homem tem ereção, o sangue segue para três partes do pênis. Quem segura esse sangue é o corpo cavernoso, os quais só podem encher de acordo com o tamanho do pênis. Aumentando portanto esse corpo cavernoso, aumenta-se também o membro masculino. Para isso, basta aplicar a tração manual nele, e logo o pinto do cara se transforma num cacete de dar inveja.&lt;br /&gt;– E sobre o cara ficar mais de uma hora sem gozar? – perguntei.&lt;br /&gt;Disse ela: ao redor do ânus existe um músculo chamado púbeo-coccígeno. Quando o homem tem um orgasmo, ele se contrai repetidas vezes. São essas contrações que joga o esperma para fora, através do canal uretral. A maioria dos homens tem esse músculo pouco desenvolvido, e o resultado disso são ereções medíocres, ejaculações precoces, baixo vigor sexual. Assim, se exercitá-lo, ele ficará mais forte, facilitando a ereção e o controle ejaculatório.&lt;br /&gt;– Posso-lhe mostrar esse músculo? – disse a dona Suzana, após essa explicação.&lt;br /&gt;– No meu cú ninguém toca! – falei.&lt;br /&gt;– Deixa de ser machista, Alfredo. E não é no seu cú, é ao redor de seu ânus...&lt;br /&gt;– E não é a mesma coisa?&lt;br /&gt;– Não. Deite aí. Vou mostrá-lo.&lt;br /&gt;Deitei, de barriga para cima, é claro. Ela então colocou a mão em meu músculo púbeo-coccígeno, e meu pinto endureceu. Tive medo de ser um veado gazela, com isso.&lt;br /&gt;– Se fosse um homem passando a mão aqui tudo bem, até concordo que você poderia ser um veado, Alfredo – disse ela, me aliviando – e; apertando o meu músculo púbeo-coccígeno, falou: sentiu?&lt;br /&gt;– Senti – eu disse.&lt;br /&gt;– Tente apertá-lo.&lt;br /&gt;Apertei.&lt;br /&gt;– Agora aperte trinta vezes.&lt;br /&gt;Apertei trinta vezes.&lt;br /&gt;– Gostou do exercício?&lt;br /&gt;– Gostei.&lt;br /&gt;– Vou ter dar o livro que meu esposo publicou. Nele contém vários exercícios para o aumento peniano e para o controle ejaculatório. Te dou seis meses no máximo para você ficar com um cacete enorme e com um vigor sexual de deixar qualquer mulher louca por você – disse ela, indo de encontro ao livro, que estava dentro da suíte deles.&lt;br /&gt;– Toma, é teu, Alfredo.&lt;br /&gt;Peguei o livro e fiquei olhando para ela com aquele olhar de quem pergunta: e agora? Mas a dona Suzana, em sua sabedoria, fingiu não me compreender. Vendo que por ela tudo estava acabado, mendiguei por outro encontro.&lt;br /&gt;– Só se o seu pinto se transformar num enorme cacete.&lt;br /&gt;Me imaginei com um pênis enorme, quando ela disse isto. E perguntei:&lt;br /&gt;– De quantos centímetros?&lt;br /&gt;– No mínimo dezoito.&lt;br /&gt;– Dezoito?! – eu chiei.&lt;br /&gt;– Sim, Alfredo, no mínimo dezoito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei lendo o livro dentro do ônibus. Os exercícios eram da seguinte maneira: primeiro, o alongamento; em seguida, a compressa quente; depois, a lubrificação e finalmente a aplicação manual, que deve ser finalizada com outro alongamento e com outra compressa quente. Em casa, a primeira coisa que fiz foi ferver um pouco de água e me trancar no banheiro. Com o livro em cima da pia, comecei o alongamento, esticando o pênis por dez segundos e soltando-o.&lt;br /&gt;Fiz isto dez vezes, para depois pegar o pênis e rodá-lo dez vezes para direita e dez vezes para a esquerda. Quando acabei, meu pênis estava flácido, semi-ereto. Peguei uma toalha de rosto, embebi-a na água fervendo e a envolvi sobre o pênis e o escroto. Senti queimar a minha pele mas não recuei, seguindo as instruções do livro. Só vi a minha careta na frente do espelho, gemendo de dor.&lt;br /&gt;Levei dez minutos nesta compressa. Depois, peguei um lubrificante que tinha ali e passei em todo meu membro. Agora estava pronto para aplicar a tração manual! Sentei-me no vaso sanitário, e enquanto apertava com uma mão a base do pênis, fazendo um sinal de ok, com a outra eu ia ordenhando. Fiz umas trezentas ordenhadas, o pênis ficou grande, trabalhado, e então fiz as poderosas esticadas, o extensor de cumprimento, os aperto e flexões e etc., e etc...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A Patrícia morava numa edícula no fundo da casa que ficava bem de frente à minha. Pagava aluguel, ou melhor, eram os pais que arcavam com as suas despesas, visto que ela veio para a capital porque na sua cidade não havia curso de psicologia. Só estudava, nada mais.&lt;br /&gt;Nessa época, eu não fazia curso algum, nem estudava, porque trabalhava para ajudar em casa. Quando nos vimos, logo começamos a conversar, e fiquei apaixonado por ela, namoramos e fomos para cama, como o leitor já sabe.&lt;br /&gt;Apesar dela dizer que gostou de transar comigo, ainda assim tinha lá as minhas dúvidas. Inseguro, sempre perguntava para ela entre uma foda e outra: você gostou? De tanto fazer esta pergunta, um dia a Patrícia se aporrinhou e disse: porra, Alfredo, você acha que estaria transando contigo se não gostasse? É claro que eu gosto! Na verdade, eu amo! Você é gostoso, sabia?&lt;br /&gt;– Mesmo com o pinto pequeno?&lt;br /&gt;– Mesmo.&lt;br /&gt;Para a Patrícia, graças a Deus, tamanho não era documento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a aplicar a tração manual todos os dias da semana, exceto no domingo, que tirei para o descanso. No começo, qualquer coisinha dava vontade de gozar, eu forçava o músculo púbeo-coccígeno, mas a porra saia que nem água da mangueira do corpo de bombeiro. O pênis, para ajudar, não crescia um centímetro se quer, e fui desanimando. Mas, um desejo enorme de comer a dona Suzana foi crescendo, e eu fui me motivando, fazendo com esforço os exercícios, e logo, logo aprendi a segurar o gozo, meu pau foi aumentando, ganhou força e vigor.&lt;br /&gt;A Patrícia, com estes meu ganhos, acabou não gostando. É claro que no começo ela nem notava diferença; entretanto, depois que passei a controlar mais as minhas ejaculações, ficando às vezes duas horas em cima dela, a Patricia passou a reclamar. Havia vezes que ela, cansada de tanto ser fodida, parava no meio da foda e reclamava, dizendo que havia algo de errado comigo. Eu dizia que não, que se ela dissesse isto antes, há uns dois meses atrás, até que concordaria: não, não há nada de errado comigo, eu disse. Patrícia acreditou, mesmo desconfiada; contudo, semanas depois, não teve mais como enganá-la: num dia, quando no começo de uma foda a Patrícia estava com pênis nas mãos antes de levá-lo à boca, ela disse:&lt;br /&gt;– Alfredo?&lt;br /&gt;– Que é?&lt;br /&gt;– O seu pinto está maior?&lt;br /&gt;– Impressão sua – falei.&lt;br /&gt;– Ele está ficando maior sim! O que você anda fazendo, Alfredo?&lt;br /&gt;– Nada.&lt;br /&gt;– Como nada? Deite aí na cama, para eu ver.&lt;br /&gt;Deitei, de barriga para cima.&lt;br /&gt;– Está vendo? Antes ele não alcançava o seu umbigo, agora, ele ultrapassa...&lt;br /&gt;– Sempre alcançou. Você que nunca viu...&lt;br /&gt;Por um instante, quase consegui fazer a Patrícia acreditar. Mas, como quem tem intuição, ela protestou:&lt;br /&gt;– Você vai me dizer o que anda fazendo, porque se não eu termino o nosso namoro agora!&lt;br /&gt;– Não ando fazendo nada!&lt;br /&gt;– Como nada? Antes não doía, agora a dor está insuportável! Se você não parar já com o que anda fazendo, nunca mais transo contigo! – disse ela.&lt;br /&gt;Ouvindo isso, entrei em desespero. Passei por um dia inteiro pensando sobre essa ameaça, e decidi continuar os exercícios, porque queria por toda lei comer a dona Suzana – esta minha vontade, caro leitor, já havia virado uma grande obsessão! Enquanto isto não acontecia, fugia da Patrícia, a fim dela não saber que eu estava continuando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       &lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que alcancei os dezoito centímetros eu fui à casa da dona Suzana. Ela, traindo a sua promessa, disse que só iria para cama comigo se meu pau ficasse pelo menos um centímetro maior que o de seu marido, o Sr. Johnson. Protestei, mas não teve acordo: era pegar ou largar. Peguei; contudo, com uma única condição: que eu pudesse visitá-la quando quisesse, mesmo não tendo os vinte e um centímetros que ela queria.&lt;br /&gt;Ela me pediu uma boa razão para aceitar a minha proposta e eu disse: preciso vê-la, para não perder a motivação. Dona Suzana aceitou, e eu passei a freqüentar sua casa quase todos os dias. Foi quando acabei conhecendo o sr. Johnson. Ele estava de viagem este tempo todo, a trabalho, divulgando o seu livro: a tração manual. Não foi com a minha cara, e logo vi que o papo de casal aberto era furado, coisa que só funciona na Internet.&lt;br /&gt;Nos primeiros dias depois de me conhecer, ele me tolerou. Mas com o tempo, ele começou a pegar pesado. Primeiro, foi desqualificando a minha posição social e cultural; depois, chegou a falar em crueldades de maridos ciumentos; e finalmente, perguntou meu preço. Eu falei que não tinha preço e ele me ofereceu dez mil para cair o fora. Porque ainda não havia comido a dona Suzana, neguei.&lt;br /&gt;– Você já não está com o pau grande? – disse ele.&lt;br /&gt;– Estou, mas a obra ainda não está pronta.&lt;br /&gt;O sr. Johnson, ao ouvir isto, balançou vagarosamente a cabeça, e vendo que eu estava convicto, começou a discursar:&lt;br /&gt;– Eu sei por que você diz isso... A Suzana me contou. Falou que só vai transar com você depois que você tiver um centímetro a mais que o meu. Mas sabe de uma coisa? Eu havia parado de fazer meus exercícios, mas só porque a Suzana te pediu para ter o pau maior que o meu eu voltei. Agora, se você tiver vinte e um eu terei vinte e dois. Se você tiver vinte e dois eu terei vinte e três. Se você tiver trinta, terei trinta e um, trinta e dois, setenta centímetros se for o caso, mas não deixarei você me deitar com ela!&lt;br /&gt;Eu senti o peso da ameaça, me vi com um pinto maior que o do Kid Bengala, por pouco me deixei ser convencido, entretanto, eu queria comer a dona Suzana a todo custo, devido a minha obsessão que naquele momento não devia ter mais cura.&lt;br /&gt;– Quer saber? – disse para ele: – foda-se você!&lt;br /&gt;Ficou com raiva, mas se conteve. Depois, num tom de voz mais calmo, apelou para a sua descoberta.&lt;br /&gt;– Sabe, Alfredo....Você pode até ser um cuíudo... mas jamais será um homem como eu.... E sabe por que? Porque eu fiz um grande bem à humanidade.... Você sabe o que é isso, humanidade?&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– Pois então... Que grande bem você pode fazer à humanidade, hã? Nenhum! Nem estudar você estuda... Então... eu serei melhor do que você sempre... entendeu? Sempre...&lt;br /&gt;– Entendi – falei, dando de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha obsessão pela dona Suzana foi colocada à prova. Foi a Patrícia a responsável por isso. Depois de um mês fugindo dela, ela conseguiu me pegar. Fomos para cama; e ela, ao reclamar mais uma vez que estava doendo, me obrigou a contar tudo.&lt;br /&gt;Não sei por qual motivo, se porque estava decepcionado ou louco, resolvi falar tudo o que estava acontecendo comigo.&lt;br /&gt;– Aquela dona do carrão? – disse ela, pasma.&lt;br /&gt;– Sim, ela mesma.&lt;br /&gt;– E vocês já transaram?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Que pergunta idiota a minha... É claro que transaram!&lt;br /&gt;Expliquei à Patrícia porque ainda não havíamos transado, mas ela não acreditou, achando esta minha estória inverossímil de mais.&lt;br /&gt;– É a mais pura verdade! Ela me disse: Alfredo, só quando você tiver um pau com um centímetro a mais que o de meu marido que vamos transar!&lt;br /&gt;– Não acredito Alfredo. Não tenho vocação para burra, nem muito menos para corna...&lt;br /&gt;Fiz silêncio, pensando sobre toda essa situação. Por fim, quebrei o silencio e perguntei para ela:&lt;br /&gt;– Você me ama, Patrícia?&lt;br /&gt;– Te amo.&lt;br /&gt;– Então se você me ama, deixe-me transar com ela só uma vez! Eu lhe imploro. Não a amo, mas não conseguirei viver sem fazer isto!&lt;br /&gt;– Nunca! – disse ela – E fique sabendo: se você for mais uma vez lá, está tudo acabado!&lt;br /&gt;Ao ouvir isso, vi que tinha que me decidir. Para não enganá-la, falei:&lt;br /&gt;– Está bem, então está tudo acabado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você conseguiu, Alfredo, está com um centímetro a mais que o meu marido – disse a dona Suzana, dias depois.&lt;br /&gt;– Então agora podemos ir para cama – falei.&lt;br /&gt;–E se eu não quiser? – falou ela.&lt;br /&gt;Esperando pelo pior, eu disse comigo mesmo: se você disser que não quer, eu te como à força, mas não fico na vontade.&lt;br /&gt;– Mas eu transo! – falou-me.&lt;br /&gt;Isto me deu uma alegria dos diabos: Sr. Johnson? Você perdeu...&lt;br /&gt;– Vem, me coma, me foda com esse pau grande, seu pausudo! – disse ela.&lt;br /&gt;Tive uma ereção fodida. Mas, ao ir para cima dela, lembrei da Patrícia: enquanto esta me amava de verdade, a dona Suzana só queria sexo, e estava tudo consumado.&lt;br /&gt;Peguei as minhas roupas e comecei a me vestir.&lt;br /&gt;– Onde você vai?&lt;br /&gt;– Embora.&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;– Porque não sou uma máquina de fazer sexo. Não sou um produto de laboratório. Eu sou o Alfredo, que ama a Patrícia, entendeu bem?&lt;br /&gt;– Não, não entendi. Você não pode fazer isto. Volte aqui, seu mal agradecido!&lt;br /&gt;– Vai a merda – falei, saindo do seu quarto.&lt;br /&gt;Ela veio atrás. Desceu as escadas e desistiu de mim assim que saiu pela porta da frente de sua casa. O Sr. Johnsons estava ali parado, me olhando. Lá fora, ao passar pelo portão, ainda pude ouvir ele dizer:&lt;br /&gt;– Viu o que dá, Suzana, fazer o bem para os outros?...&lt;br /&gt;Na rua, só pensava na Patrícia. Peguei o ônibus e voltei para casa. Estava quase de noite. Quando cheguei, fui direto para a edícula da Patrícia. Um rapaz abriu a porta. Entrei, perguntando por ela.&lt;br /&gt;– No banheiro.&lt;br /&gt;– E o que você está fazendo aqui?&lt;br /&gt;– Estou ficando com ela – disse-me.&lt;br /&gt;Olhei em volta, e vi um litro de vinho em cima da mesinha que ficava na frente da televisão. Vi duas taças cheias.&lt;br /&gt;– Estão tomando vinho, é?&lt;br /&gt;– Vamos começar, se você cair o fora – falou ele.&lt;br /&gt;Ao ouvir isso, dei um soco na parede.&lt;br /&gt;– Ir embora?! Você sabe com quem está falando?!&lt;br /&gt;– Não, não sei.&lt;br /&gt;– Você está falando com o homem que paga o aluguel desta edícula, entendeu?&lt;br /&gt;– Você é o pai dela?&lt;br /&gt;– Que pai porra nenhuma!&lt;br /&gt;– Ela disse que é o pai dela quem paga!&lt;br /&gt;– E você acreditou? Que ingênuo você... É isso o que dá acreditar nas mulheres... Quantos anos você tem, garoto?&lt;br /&gt;– Dezoito.&lt;br /&gt;– Quer passar disto?&lt;br /&gt;– Quero.&lt;br /&gt;– Então vaza, moleque! Porque se não te dou um tiro! – falei, blefando.&lt;br /&gt;O cara assustou, e apavorado, saiu correndo. Sentei-me no sofá, e peguei uma das taças de vinho. Bebi um gole. Depois, falei que nem o sr. Johnson:&lt;br /&gt;– Esses moleques pensam que são alguma coisa... Que bem eles podem fazer à humanidade? Que bem?&lt;br /&gt;A patrícia apareceu.&lt;br /&gt;– Cadê o Ricardo?&lt;br /&gt;– Que Ricardo?&lt;br /&gt;– O cara que estou ficando.&lt;br /&gt;– O cara que você está ficando sou eu, seu namorado – falei me levantando, para pegá-la à força.&lt;br /&gt;Patrícia tentou resistir, mas logo cedeu. Quando vi, estava me beijando como antes.&lt;br /&gt;– Não transei com ela – falei.&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Isso mesmo, não transei. Na hora h, lembrei-me de você, do seu amor por mim. E daí eu disse para a dona Suzana: dona Suzana, vai à merda!&lt;br /&gt;– Você fez isso?&lt;br /&gt;– Fiz!&lt;br /&gt;– Então diz que me ama.&lt;br /&gt;– Eu te amo.&lt;br /&gt;– Me dá um beijo.&lt;br /&gt;Beijei-a, e senti as lágrimas da Patrícia em meu rosto. Depois, fomos para cama, amarmo-nos como antes, e felizes como no princípio...  &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-5470291837964205512?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/5470291837964205512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/5470291837964205512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/07/tracao-manual_26.html' title='A TRAÇÃO MANUAL.'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-7700954662875947688</id><published>2010-07-24T06:34:00.000-07:00</published><updated>2010-07-24T06:36:56.263-07:00</updated><title type='text'>A REALIZAÇÃO DE UM SONHO.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;É um homem perverso, um iníquo&lt;br /&gt;Aquele que caminha com falsidade na boca:&lt;br /&gt;Pisca com os olhos, bate com o pé,&lt;br /&gt;Faz sinais com os dedos...&lt;br /&gt;– Provérbios, VI, 12-13.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, sempre aparece um pescoçudo que até então nem pescoço tinha. Ele começa timidamente, ganha a confiança de um, de outro, e quando consegue doze fiéis à sua volta, logo se torna um mestre com mil discípulos na rabieira, dispostos a fazer tudo o que ele manda. Foi assim com Otávio Nunes, um cidadão daqui da cidade onde moro, chamada Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.&lt;br /&gt;Naquele tempo eu era um dos muitos vereadores que queria ser prefeito. O Otávio Nunes nem existia ainda, era apenas um entre milhares de cabeçudos que andam à pé pela cidade, ou de ônibus. Está certo que eu andava à pé e tomava ônibus também, mas não era um cabeçudo, e sim um vereador, de terno e gravata, ciente das organizações sociais, de leis, de principados e potestades. De repente, o Otávio Nunes.&lt;br /&gt;Havia mil discípulos junto com ele na Praça Ari Coelho, dizendo: estamos convocando os candidatos a prefeito para uma maratona de provas onde o povo poderá saber quem realmente é capaz de fazer de tudo por nossa cidade, de amá-la. O jornalista perguntou: que tipo de provas? São várias. A primeira delas, por exemplo, é ver qual dos candidatos fica mais tempo limpando o banheiro aqui da praça mesmo, que é um fedor insuportável.&lt;br /&gt;– E as outras?&lt;br /&gt;– Ver quem fica mais tempo morando na vila Canguru, sem direito à carro, ficando dependente só do ônibus.&lt;br /&gt;– Tem mais?&lt;br /&gt;– Tem sim. Tem a prova para ver quem trabalha mais tempo para esses sujeitos ricos em troca de um salário mínimo, e se ele consegue sobreviver com ele.&lt;br /&gt;– Hum, interessante. E como será a pontuação?&lt;br /&gt;– Ao vencedor de cada prova, três pontos; dois para o segundo colocado e um para o terceiro. Aquele que tiver mais pontos, a população votará em peso.&lt;br /&gt;– E quem não quiser votar tendo em vista esta competição? Ou melhor: e para quem não aprova este método?&lt;br /&gt;– Quem não aprova este método só pode ser um apátrida. E assim será chamado por nós, que vai ser a maioria. Todo mundo concorda e acha boa a idéia, pois somente aquele que passa pelos nossos sofrimentos poderá fazer algo justo por nós depois. Quem gosta da injustiça, não se una a nós!&lt;br /&gt;– Mais alguma coisa, Otávio Nunes?&lt;br /&gt;– Não, só isso. Fica aqui o convite aos candidatos. Em breve estaremos fazendo o convite pessoalmente. Por enquanto, é isso.&lt;br /&gt;– Obrigado. É com você, Ricardo Freitas!&lt;br /&gt;Depois desta reportagem ser exibida pela TV MORENA, houve um alvoroço no Parque dos Poderes. Primeiro, é claro, nós rimos, debochamos; mas depois que ele apareceu aqui com umas cem pessoas atrás dele, tratamos de colocar as cabeças para maquinar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu partido, o candidato oficial a prefeito era o senhor Barbosa, um homem com a saúde boa, mas não apta para enfrentar os testes colocados por este Otávio Nunes. Os maiorais do partido, algum tempo depois, chegaram a pensar em não fazer parte desta maratona de imbecis, mas viram que corriam o risco de perder as eleições fatalmente. Descartaram então o Barbosa, e perguntaram se o seu Frederico encarava: eu? Limpar banheiro público? Me sujeitar à vontade do povo? São eles que têm de se adequar a nós!&lt;br /&gt;Pensaram num outro, e lembraram-se do Ojeda, japonês que comia o pão que o filho, o pai e o avô do diabo amassavam com o rabo lá no Japão: japonês que é japonês gosta de desafios, da dificuldade. Ojeda, ao ouvir a proposta, não pensou duas vezes para responder: não! Por que, japonês?, interpelaram. Porque não, oras. Mas, japonês, disseram os maiorais do meu partido: tudo tem uma explicação. Ojeda então explicou: se eu fizer a vontade desses malucos, ficarei maluco que nem eles. Portanto: a minha resposta é não!&lt;br /&gt;Tiveram que aceitar. Pensaram em um, em outro, até lembrarem-se do vereador mais insignificante de todos: eu. Pois, o Rosa, é um homenzinho que nem carro tem ainda; acho que nem casa, se duvidar; e ele vai tirar essa de letra, que nem atacante da seleção brasileira de futebol. Chamaram o Rosa, e eu fui, mais feliz que um ganhador de um reality show. Rodearam daqui, rodearam dali, e finalmente perguntaram: você quer; Rosa, ser candidato a prefeito?&lt;br /&gt;O homem tem que aproveitar as oportunidades na vida, que geralmente, vem de uma em uma no intervalo de dez em dez anos. Então eu disse:&lt;br /&gt;– Ôpa.&lt;br /&gt;– Quer mesmo?&lt;br /&gt;– Mas é claro que quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Candidataram-me a prefeito. Semanas depois, lá estava eu na maratona, concorrendo com os outros vereadores. Havia mais ou menos umas trezentas pessoas nesse dia ali em volta do banheiro da Praça Ari Coelho. É claro que eles não desceram aquelas escadas, mas ficaram ali perto, olhando quem ia ser o primeiro a encarar o fedor. Graças a Deus, não fui eu quem deu inicio.&lt;br /&gt;O primeiro foi um candidato do PMDB, que não ficou ali por mais de cinco minutos, devido ao fedor, que era fortíssimo. Na frente da câmera, ele disse: realmente, temos que rever isso aí... Depois dele, um candidato do PT; que, também, não passou dos cinco minutos, dizendo para as câmeras que de fato o fedor é grande, que quase desmaiou. Em seguida, um candidato do PL, um liberal que era capaz de fazer tudo por dinheiro. O homem, para a surpresa de todos, ficou o dia inteiro e no outro dia voltou.&lt;br /&gt;Ficou limpando o banheiro como se fosse da sua casa, e as pessoas já estavam gritando o nome dele. Mas daí, de repente entrou um bêbado, e urinou fora do buraco; depois vomitou, e fez uma sujeira digna de um mendigo miserável repleto de doenças físicas e mentais. O candidato liberal na mesma hora deu um tapa na cabeça do bêbado; chamou-lhe de porco, e lá na frente das câmeras da tevê, disse: o Brasil não vai para frente por causa duns desgraçados destes! Em um segundo, perdeu quase dois dias de trabalho.&lt;br /&gt;Restava eu; pois, os candidatos do PPSD; quero dizer, do Partido Pobre Sem Dinheiro, sempre fica por último em tudo. Entrei, e assim que senti o fedor apertando as narinas, quase desmaiei. Joguei vômito para todos os lados, tive nojo do ser humano, e raiva. Depois, limpei o vômito, e comecei a limpar o banheiro também. O zelador deste banheiro deveria receber uns dez salários mínimos, por esse serviço. Pois, parecia que ali só entrava homem porco, doente, com infecção em tudo quanto é saída do corpo.&lt;br /&gt;Eu fui tomando ódio pela Humanidade. Dava vontade de gritar, de explodir. Tive raiva de Deus, do pescoçudo do Otávio Nunes, da minha mãe que me colocou no mundo. E assim fiquei o dia inteiro. No dia seguinte, naquele fedor desgraçado, quase sai por umas três vezes. Mas, quando vi, estavam gritando o meu nome lá no lado de fora: eu havia ultrapassado o tempo do candidato do PL! Gostei do som, do povo me aplaudindo, e resolvi ficar uma meia hora a mais.&lt;br /&gt;Fiquei. E ao sair, fui aclamado. Me pegaram pelas pernas e me levantaram, e saíram andando pelas ruas do centro da cidade comigo em cima, como se eu fosse um rei, um deus, um campeão. Com certeza, essa vitória me fez vencer todas as outras. Em todas elas eu era ajudado. Morei lá no Canguru, está certo, mas foi talvez o melhor mês da minha vida. Todo dia tinha festa, e tinha mulher nova para mim. No ônibus, quando não havia assento, todos levantavam, dizendo: deixe o prefeito sentar.&lt;br /&gt;Já os outros candidatos, sempre reclamavam:&lt;br /&gt;– Realmente, o sistema de transporte urbano em nossa cidade não é só o mais caro como o mais péssimo de todos!&lt;br /&gt;– Eu não sei como o prefeito não dá assistência para essa merda de bairro. Aqui é o retrato fiel da miséria. Estão vendo aquela criança ali, com a barriga d’água? Olhando para gente com aquela cara de tristeza? A frauda suja pendurada na chupeta podre? É o mais comum aqui...&lt;br /&gt;– Trombadinha e ladrão é o que não falta por essas bandas. Se eu for prefeito, algo que está quase que impossível no momento, eu darei um jeito nesta joça.&lt;br /&gt;O mesmo aconteceu com os meus serviços em casa de ricos, ganhando a miséria do salário mínimo. Eles mal me deixavam pegar na vassoura, ou fazer algum esforço. Ficavam conversando comigo o dia inteiro, me dando suco, uísque, charuto. Conversas sobre política, religião e moral passavam longe de nossas bocas e ouvidos. Enquanto os outros; os outros falavam na televisão:&lt;br /&gt;– Precisamos rever o salário dos trabalhadores. Agüentar um patrão arrogante e estúpido a troco de uma mixaria não é vida para ninguém...&lt;br /&gt;– Eu não entendo esses patrões: só porque pagam uma miséria acham que podem tudo, inclusive montar em cima do funcionário.&lt;br /&gt;– Precisamos rever os sindicatos, montar uma equipe de vigilância trabalhista, porque são muitos os exploradores e explorados.&lt;br /&gt;– O sofrimento do povo é grande. Somos um faraó no Egito. Precisamos libertar o povo. Dar uma vida mais digna. Conheci muitos pais tristes, por não poderem dar o melhor para seus filhos. A tristeza deste povo é grande. E nós todos somos os culpados por isso, quando pensamos em nós mesmo, em nossas viagens, roupas caras e etc.&lt;br /&gt;– A vida como ela é nos desafora, nos bate na face e chuta o nosso estômago.&lt;br /&gt;Ora, eu não fiquei com medo dessas frases, dessas declarações humanitárias; pois, nunca vi alguém ganhar dinheiro com palavras, exceto um escritor ou outro, e mesmo assim quase velho já. Por isto, fiquei tranqüilo: a vitória era certa. Não havia nada de mais pior do que aquele banheiro fétido da praça Ari Coelho, e todos os homens sabiam disto – se agüentei ficar dois dias ali, eu era capaz dos maiores sacrifícios pela cidade.&lt;br /&gt;E assim se sucedeu. Graças ao pescoçudo do Otávio Nunes, que me olhava com a cara feia, eu havia saído do cargo de vereador e conseguido ganhar a eleição para prefeito num partido que era o último, que tinha menos dinheiro. No discurso da posse, em cima do palanque repeti, com muita vibração, várias vezes essa frase: os últimos serão os primeiros, minha gente! – e o palanque quase caiu.&lt;br /&gt;Mas ainda o meu sonho não estava realizado. E nem no primeiro ano se realizou, porque este período foi o de aprendizado. Mas no segundo, quando já estava malandro, na malandragem braba dos senadores e deputados, o meu sonho se realizou. E eu fui metendo a mão no dinheiro do povo; e comprei uma casona; e comprei um carrão; e abri uma empresa no nome de um sobrinho; e fiz viagens para o exterior; e tomei champanhe e vinho caro no navio; e conheci a praia de Fernando de Noronha, junto de umas três putas de luxo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-7700954662875947688?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/7700954662875947688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/7700954662875947688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/07/realizacao-de-um-sonho_24.html' title='A REALIZAÇÃO DE UM SONHO.'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-104630687727149342</id><published>2010-07-18T10:22:00.000-07:00</published><updated>2010-07-18T10:25:47.295-07:00</updated><title type='text'>O Rato</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não sabia que tinha um segundo animal dentro de casa: o primeiro era o Rex, um pincher bem engraçado, domesticado; o segundo, um camundongo enorme, feio, desses que conhecem as profundezas dos esgotos, de por medo até em homens marmanjos como eu. Não, não sou medroso. Já fui. Hoje, encaro de frente as aranhas caranguejeiras, as lacraias, os escorpiões, as cobras e os morcegos. É certo que quando os vejo, sinto medo, mas, é tudo momentâneo: logo vem àquele dever de homem da casa, o dever de não ter medo.&lt;br /&gt;Vi o animal. Passou correndo no vão da parede de minha varanda, em direção à rua. Ao me ver, voltou, apavorado, e se escondeu sabe lá onde. Não tive outra vontade senão caçá-lo! Me coloquei então num estado de caçador, que nem esses que saem em safáris. Andando lentamente pela casa, pelo quintal, pisando leve para não assustá-lo com barulho, procurei-o em tudo quanto é buraco. Logo a curiosidade da minha família manifestou-se, perguntando o que eu estava procurando. Falei que um camundongo. A minha mãe riu, com a minha ofensa.&lt;br /&gt;Procurei aqui, procurei ali, procurei acolá, e, até que enfim, achei o bicho cabeludo, feio e horroroso. Havia um cabo de vassoura perto e eu peguei e matei o bandido. Foi um golpe mortal. O bicho soltou um grito, depois foi gemendo, perdendo as forças e morreu numa solenidade que nem certos humanos conseguem no ponto mais alto da vida: morreu sim, mas com dignidade.&lt;br /&gt;Peguei no rabo do bicho monstruoso e saí exibindo o meu troféu. Minha irmãzinha saiu correndo de medo, apavorada, chorando, e eu disse comigo mesmo: preciso dar um jeito nessa menina, anda muito exagerada. Meu irmão sorriu, dizendo com seu sorriso: o que será que ele está sentindo nesse momento? Minha mãe, coitada, ficou morena de vergonha: aonde já se viu, limpo essa casa de noite e de dia, e de madrugada e nos feriados, no calor e no frio para no fim das contas aparecer um camundongo desse tamanho? Eu quero o divórcio!&lt;br /&gt;Divórcio de quem?&lt;br /&gt;Ao colocar o bicho no seu caixão merecido, isto é, numa sacola de lixo, e ver o sexo do animal, vi que não verdade não era um camundongo, e sim uma ratazana. Mesmo assim, não tive remorso algum. Lá na frente, deixando a sacola na lixeira, bati uma mão na outra, dizendo: na casa de minha mãe não tem ratos!&lt;br /&gt;Engano.&lt;br /&gt;Dias depois, encontrei um filhotinho – que devia ser dela – sem conseguir sair da sacola de plástico dentro do lixo da cozinha, ao lado da pia.&lt;br /&gt;O lixo estava praticamente vazio, e ele segurava com as duas mãos no plástico para não cair. Peguei o cesto de lixo e balancei-o. O rato ficou bem assustado, arregalou os olhos e me olhou pedindo pelo amor de Deus, tio, pare com isso...&lt;br /&gt;– Eu, tio? Tio uma ova!&lt;br /&gt;Você vai morrer, rato safado, porque eu sou um assassino, um ateu, um transgressor da moral e dos bons costumes; e você, rato, é um roedor mais maldito do que eu, todo mundo fala mal de você, portanto, te matar vai ser um benefício para o Mundo, para a Humanidade. Mas eis que indo para cima dele, resolvi não matá-lo: era novinho de mais, uma criança, e órfão, o rato...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-104630687727149342?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/104630687727149342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/104630687727149342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/07/o-rato_18.html' title='O Rato'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-4428231684803761388</id><published>2010-07-03T11:31:00.000-07:00</published><updated>2010-07-03T11:34:03.172-07:00</updated><title type='text'>João Ubaldo Ribeiro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já faz algum tempo que tenho vontade de postar aqui um texto de João Ulbado Ribeiro que li no ano passado e me fez rir bastante. Não sei se isto poderá me trazer problemas, mas postei logo à baixo o conto Alandelão de La Patrie, que, sem dúvida alguma, tem tudo a ver com o nome deste blog. Espero que gostem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-4428231684803761388?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4428231684803761388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4428231684803761388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/07/joao-ubaldo-ribeiro_8970.html' title='João Ubaldo Ribeiro'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-3150792791978457687</id><published>2010-07-03T11:27:00.000-07:00</published><updated>2010-07-03T11:31:45.028-07:00</updated><title type='text'>Alandelão de La Patrie</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TC-CAvxVoAI/AAAAAAAAAr8/AXUJj5Zk5vM/s1600/124BE_1.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 200px; height: 150px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TC-CAvxVoAI/AAAAAAAAAr8/AXUJj5Zk5vM/s200/124BE_1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489749420122939394" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico.  Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia.  De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo.   Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é  até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo -- visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.&lt;br /&gt;Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo "dá nela, Nonô!", mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.&lt;br /&gt;Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela.   Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.&lt;br /&gt;Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês retado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.&lt;br /&gt;Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina?  E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.&lt;br /&gt;Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.&lt;br /&gt;Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho  americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.&lt;br /&gt;-- Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar -- disse eu. -- Deve ser uma coisa de muita competência.&lt;br /&gt;-- Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma -- respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.&lt;br /&gt;-- Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?&lt;br /&gt;-- Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.&lt;br /&gt;Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.&lt;br /&gt;-- Como é essa manipulação?&lt;br /&gt;-- Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nos vamos coletar.&lt;br /&gt;-- O boi não se aporrinha, não, doutor?&lt;br /&gt;-- Que nada, ele está acostumado.&lt;br /&gt;E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação -- ainda mais um francês?&lt;br /&gt;E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos -- cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo --, que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.&lt;br /&gt;Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha -- o que é que estamos escondendo --, que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral.  Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas a vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.&lt;br /&gt;Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.&lt;br /&gt;--  Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? -- perguntou Emanuel.&lt;br /&gt;-- Que nada, que nada! -- disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda.  -- Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!&lt;br /&gt; Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só "vai, Alandelão", "vai, Alandelão" e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito.  Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.&lt;br /&gt;--  Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!&lt;br /&gt;Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.&lt;br /&gt; --  Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! -- disse Emanuel. -- Vamos levar esse boi lá para dentro!&lt;br /&gt;E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante.  E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: "Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão". E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:&lt;br /&gt;-- Alandelão de la Patri-i-i-i-e!&lt;br /&gt;Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer "Alandelão de nossa terra". Lá deles.&lt;br /&gt;Autor: João Ubaldo Ribeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto extraído do livro "Livro de Histórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1981, pág. 11.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-3150792791978457687?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/3150792791978457687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/3150792791978457687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/07/alandelao-de-la-patrie.html' title='Alandelão de La Patrie'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TC-CAvxVoAI/AAAAAAAAAr8/AXUJj5Zk5vM/s72-c/124BE_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-8062832506189747646</id><published>2010-06-23T07:10:00.000-07:00</published><updated>2010-07-13T17:04:42.463-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara - contos'/><title type='text'>MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;E Acabe passou a dizer a Elias: “achaste-me,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; inimigo meu?”A que ele disse: “achei-te.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; Visto que te vendeste para fazer o que é mau &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;aos olhos de Jeová,  eis que trago sobre ti &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;calamidade; e ei de fazer uma varredura &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;depois de ti e decepar de Acabe&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; todo aquele que urina contra o muro... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;– 1 Reis 21-20.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;a Hugo Carvana&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Primeiro a idéia aparece, sempre de maneira alegre, que me faz ficar rindo por alguns instantes, dias, semanas. Depois, como que naturalmente, ela vai crescendo, aumentando, ganhando proporções, se encaixando. As personagens vão surgindo, e eu penso num ator, em outro. Quando vejo, tanto o filme quanto o elenco estão prontos aqui, na minha cabeça.&lt;br /&gt;Fico vivenciando tudo isto por dois, três, até quatro anos, que é um processo de amadurecimento. Ninguém pode ter uma idéia hoje e realizá-la amanhã. Muitas delas são falsas. Para as que persistem e perseguem, e ficam conosco por muito tempo, a realização é quase certa. Depois, escrevo o roteiro, desenho os quadros, elaboro o projeto e vou atrás das pessoas. É um trabalho chato, pedir?! É! Porém, vale à pena.&lt;br /&gt;Mas tudo flui facilmente, ainda mais quando o projeto é para um filme de comédia. Não que fazer comédia seja algo fácil, como pensam muitos. Pelo contrário: fazer rir é mais difícil que fazer chorar, principalmente nos dias de hoje, com tantas injustiças. É mais fácil no sentido de levantar a grana, de conseguir o patrocínio.&lt;br /&gt;Se vai fazer aquela aula de filosofia, de história, de sociologia para o empresário ocupado, demonstrando como que as pessoas sofrem por causa de uma coisa ou outra, ele vai dormir em cima da mesa, entediado. Mas se conta a história do malandro, do golpe, do dinheiro em jogo, das mulheres gostosas, o homem se levanta, aperta a mão, já agradecido, e desembolsa.&lt;br /&gt;Com o dinheiro no bolso, vou atrás da formação da equipe. Na escolha, fico apenas com os profissionais de alto nível. Não gosto de amadores, de amadorismos. Nem de gente que está aprendendo. Há muitos lugares para os aprendizes. Então, começa a filmagem. O filme, por ser uma comédia, tem que ser feito num clima divertido. O responsável por este clima, querendo ou não, é o diretor. Se ele é um intelectual, ou um revolucionário, ou seja lá o doido que for, a coisa não flui.&lt;br /&gt;Aliás, não suporto homem que toma bonde, que vive bondeado, que faz o estilo sofredor, daqueles que sofrem, e que pensam, e se não der, e se... Com esse tipo de diretor, como é que pode sair um filme divertido? A coisa tem de vir de fora para dentro. O responsável por este fora é o diretor. Eu faço isto. Quando não estou brincando com tudo e com todos, ou eu canto ou eu danço. O nome disto é molecagem. Quando um homem deixa morrer o moleque dentro de si, é porque já morreu a alegria, o entusiasmo e a beleza.&lt;br /&gt;Fico sério apenas na gravação das cenas, que é a hora em que por mais engraçada que seja a encenação, o ator tem que manter a linha. Numa palavra: em todo o processo de um filme, desde a filmagem à sua estréia nas telas dos cinemas, eu me ocupo, e não me pré-ocupo. Para cada dia, as ocupações do seu dia. O depois; é depois. Se der certo, deu. Se não der certo, fazer o que? Lamentar?&lt;br /&gt;Eu não posso lamentar. Sou um comediante, e não um trágico. O cinema, a meu ver, não pode viver de tragédias. Não acredito que o cinema ou a literatura possam transformar o mundo. Não há santidade na arte, há vaidade, isto sim. Satisfação do ego. Por mais que queiram camuflar a vaidade, ela aparece. Na vitória ou na derrota, ela aparece, inevitavelmente. Então, para que se enganar?&lt;br /&gt;Mas se tantos diretores, principalmente os jovens, querem sofrer, que sofram – só não me chamem para sofrer junto. Não é a minha praia. Nela não tem os malandros, não tem os vagabundos, não existem os sem-vergonhas na cara. Ninguém fuma, ninguém bebe, ninguém dança. Eu gosto da dança. Da ironia, do entusiasmo. Eu gosto principalmente da personagem tipicamente brasileira, do homem que quando deve se esconde, do sujeito safado, da mulher dissimulada, em cima dos sapatos, dando seus ataques de histerias.&lt;br /&gt;É banal? É. Mas os meus cabelos estão brancos sem precisar de muito sofrimento. Não sou um homem de pretensões, porque não adianta. Todos no Brasil e no mundo sabem o que é certo e o que é errado. Onde se vai, escuta-se a palavra amor, honestidade, justiça. E te pergunto: o mundo é paz e amor? Estamos sendo honestos e justos o tanto quanto falamos sobre isto? Se filmes transformassem realidades, tal como esses jovens acreditam, no Brasil não haveria tanta corrupção, haveria?&lt;br /&gt;Eu já fui um sujeito piedoso, cheio de pudores, preocupado com a existência ou não de Deus, com valores morais, querendo por toda lei fazer um mundo melhor. E o que eu ganhava com isto? Hã? Só depressão. Não que a religião seja algo ruim. Para falar a verdade, graças a ela a vida ainda é possível. Não sou contra. Mas, em cada um ela age de um modo. No meu caso, ela me fazia um negador de suas paixões, e vivia deprimido.&lt;br /&gt;Naquele tempo não era essa palavra que usávamos. A palavra era melancolia. E o homem melancólico, chamávamos de bondeado. O individuo das crises existenciais, sem amores, sem amantes, sem vida. Não gosto disto, nunca gostei. E lamento que tantos jovens queiram passar por este sofrimento, com os seus filmes densos, cheios de pausa, onde cada cena existe uma reflexão para a vida inteira. Não é comigo. Gosto do ritmo rápido, das piadas curtas mas inteligentes, uma atrás da outra. Gosto dos musicais.&lt;br /&gt;Também não sou chegado em violência, na estética do sangue, da crueldade. Os meus heróis nada têm a ver com Sylvester Stallone, com o capitão Nascimento. Os meus heróis olham uma boazuda cruzar a rua e vão atrás. Tem gingado, estilo; falta-lhes a vergonha na cara. Geralmente, não trabalham, e quando trabalham, não são importantes. Não trabalhar, para muitos deles, é uma questão de princípios. Há toda uma reflexão filosófica por detrás de um vagabundo.&lt;br /&gt;Já outros, são charlatães. Mas não o charlatão como muitos por aí, pós-modernos, gananciosos, que querem enganar a muitos de uma vez só. Os meus charlatões enganam de um a um. Para eles, é uma forma de sustento e de diversão. Não são de olhar para cima querendo ocupar o lugar mais alto, nem de olhar para baixo com orgulho, considerando melhor que os outros.&lt;br /&gt;Já as minhas mulheres, essas são nervosas, neuróticas, fazem espetáculos. Mas amam, acima de tudo. Elas estão em todos os lugares: em bares baratos, em bares caros, ao lado de um magnata, de um bandido, ou até mesmo de um trabalhador. Eu acho que meus filmes ajudam as pessoas a enxergar melhor à sua volta. O Brasil é igual em todos os lugares, tanto em São Paulo como no Rio. As diferenças são muito poucas.&lt;br /&gt;Uma palavra para o sujeito ser feliz, nos dias de hoje? Eu esqueci seu nome. Qual é mesmo? Ana? Ana Andrade? Você tem quantos anos, Ana? Vinte e seis? E linda deste jeito? Não se acanhe. Em linhas gerais, Ana, só há uma maneira de ser feliz no Brasil hoje, e essa maneira é ter muita ironia e pouca, mas muito pouca vergonha na cara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;LÍDIA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem eu, nem o Alaor, nem a Lídia, e muito menos a minha esposa gostávamos de trabalhar no serviço em que trabalhávamos. Não que fossemos vagabundos, mas é que não éramos felizes nas atividades que exercíamos: tanto eu quanto todos eles, além de ganhar muito pouco, uma miséria quase, trabalhávamos feitos escravos do faraó, para no fim das contas gozar da ingratidão de nossos esforços.&lt;br /&gt;Não passava outra coisa em nossas cabeças e em nossos corações se não a idéia e a vontade de mudar de vida; sei lá, fazer outra coisa, algo que desse dinheiro, que não precisasse trabalhar tanto, que nos libertasse das restrições financeiras, e que nos realizasse, permitindo ser aquilo que realmente éramos no mais profundo de nossos seres.&lt;br /&gt;Foi quando eu, que vivia enfiado em igreja, escutando tudo quanto é tipo de pastor pregar a Palavra de Deus, decidi afinal fundar uma também. Pensei até no nome, e veio: Jesus Cristo é a Nossa Riqueza. Falei com o Alaor, que repugnou a idéia. Mas não me deixei desanimar com a sua resistência, e fui perguntando o porquê não; o onde; o quando; o que é o que é? Que faz o homem ficar rico e o outro ficar pobre?&lt;br /&gt;Me chamou de doido.&lt;br /&gt;Mas daí veio a sua esposa, a Lídia, que sempre se metia na frente de tudo, mudava a cabeça dele, e dava a última palavra. E foi perguntando o porquê não; dizendo que ninguém merece viver uma vida como a que vivíamos; que hoje em dia todo mundo faz isto; que o salário do pastor, pelo tanto que ele fala, nunca é de fato o merecido; que o pastor, por dar tanto ânimo, tanta luz, merece mesmo ser rico, milionário, comprar emissoras de tevê e viajar de férias umas dez vez por ano.&lt;br /&gt;– Viu, Alaor? Tem que pensar assim, que nem ela. Por isto que não saímos da miséria. Porque pensamos que tudo é injusto.&lt;br /&gt;– Está bem, está bem, mas eu não vou ser pastor nenhum! O máximo que posso fazer é passar com a sacolinha na hora da oferta.&lt;br /&gt;– O Santos que vai ser o pastor, porque conhece mais a Palavra de Deus – disse a Lídia se referindo a mim.&lt;br /&gt;– E você? – perguntou Alaor para ela.&lt;br /&gt;– Eu? Eu fico administrando...&lt;br /&gt;– Administrando?&lt;br /&gt;– Por quê, não confia mais em mim?&lt;br /&gt;– Ok, ok, confio sim, minha administradora fiel.&lt;br /&gt;– E a sua mulher, o que ela vai fazer? – perguntou-me a Lídia.&lt;br /&gt;– A minha mulher – disse eu – pode ficar na porta da igreja, porque é simpática e inocente: sorri até para ladrão.&lt;br /&gt;– E quando vamos começar?&lt;br /&gt;– Agora.&lt;br /&gt;E começamos.&lt;br /&gt;A primeira coisa que fizemos foi ver quanto que cada um ia dar; onde íamos abrir a igreja; que ninguém iria mandar em ninguém; que tudo seria decidido em conselho. Depois de tudo combinado, colocamos as mãos em obra. Achamos um salão para alugar e começamos dias depois. Cada um foi chamando seus amigos, que foram chamando seus amigos e os amigos de seus amigos, até dar uma média de cem pessoas.&lt;br /&gt;A bonança e a fartura vieram rápidas, com o meu argumento de que “quem dá mais, recebe mais”; que se o crente SACRIFICA todo o seu salário, ou as suas jóias, ou o carro, ou a sua casa, o Senhor se sente honrado e lhe dá cem vezes mais, infinitamente.&lt;br /&gt;As pessoas acreditavam.&lt;br /&gt;Mas não vou dizer que acreditavam apenas por causa deste argumento, e sim porque eu pregava com aquela voz de choro, de desespero, dizendo: oh meu Deus, não posso continuar sonhando com uma vida de realizações e vivendo uma vida de fracassos; que eu não posso acreditar num Deus Grande e as pessoas rirem de mim pelas coisas que eu tenho; oh Senhor, manifesta!, vira a mesa, meu Pai!; aceita o meu salário como oferta, as minhas jóias, o meu carro, a minha casa; renove a minha vida, Senhor!&lt;br /&gt;Porque tudo dava certo, quase não havia briga entre a gente. Mas isto foi assim até a Lídia, a mandona da Lídia, começar a ser o que ela realmente é; e eu e o Alaor a sermos aquilo que realmente somos, junto com a minha esposa. A Lídia, que já vinha manifestando a sua vontade de poder, a sua mania de querer controlar toda a situação, começou a tomar a frente de tudo, a decidir tudo, a querer fazer tudo sozinha. Quando vi, ela queria ser, além de tudo o que já era na igreja, pastora também, no meu lugar.&lt;br /&gt;Eu podia muito bem protestar – era isto o que mais fazia em cima do altar afinal – mas, já que eu não ia ganhar nem mais nem menos com isto, dei o meu cargo para ela e deixei o altar. Antes de passar o Ministério para ela, eu falei, ainda no altar, para os meus fiéis: o Espírito Santo me revelou que a Lídia tem um poder muito maior que o meu para pregar, curar e libertar; a partir de hoje, ela é a nossa pastora, amém?!&lt;br /&gt;O amém foi um tanto triste; mas, assim que ela, animada com as minhas palavras, começou a pregar, maravilhas aconteceram em nossa igreja: havia ofertas de cem, duzentos, trezentos e até quinhentos reais numa só pregação! No fim das contas, acabei passando por humilde, como aquele cantor famoso que deixou apenas a voz do irmão aparecer, e meu nome deixou de ser pastor Santos para transformar-se em: santo homem.&lt;br /&gt;Com a Lídia querendo mandar em tudo e fazer tudo, desde as decorações de cada dia à idéia de arrancar mais dinheiro dos fiéis, eu e o Alaor fomos ficando de fora, e íamos beber cerveja e uísque lá na casa dele. A minha mulher, nesta altura, já era uma espécie de escrava da Lídia; algo aliás que nem me incomodou, porque já estava pouco me fodendo para tudo: tinha dinheiro sobrando, não tinha? Eu trabalhava pouco, não trabalhava? Então? Para quê esquentar o chifre pontudo com rixas que não levam a nada?&lt;br /&gt;Eu e o Alaor, depois de alcoolizados, íamos para casas de luxo, comer as prostitutas que fazem faculdade e abrem as pernas para pagar seus cursos. Não havia diferença alguma entre elas e nós, e por isto nos dávamos muito bem. E assim ficou por vários anos, até a Lídia, cada vez mais poderosa, além de mandar em nós como se manda em cachorrinhos, passou a jogar em nossas caras as nossas “sem vegonhices”.&lt;br /&gt;Foi quando vi que dinheiro não é tudo nesta vida para muitas pessoas, principalmente para gente como ela, que além de ser rica quer ser melhor do que os outros. Com raiva dela, resolvi fazer um curso de Teologia – ao que o leitor já deve de estar perguntando: mas o que tem a ver Teologia com tudo isto? Não era só matar a imundície?&lt;br /&gt;Eu vou mostrar que violência física e verbal são coisas do passado. Hoje em dia, a força tem de ser intelectual: tenho mais medo de um hacker do que dum assassino sangre frio...&lt;br /&gt;Depois de formado, subi no altar com o título de testemunho por ter conseguido me formar, mas com o intuito de me proclamar bispo. Lá em cima, todo poderoso, falei: além de tudo, minhas irmãs e meus irmãos em Cristo; preciso anunciar a vocês que a partir de hoje sou o bispo desta igreja!&lt;br /&gt;A Lídia ficou vermelha de raiva. Vi na cara dela a nítida vontade de sair do púlpito e quebrar o pau, me pegar pelos cabelos e bater como se bate nos filhos. Na hora de descer, ao passar por ela, ouvi: você me paga, filho duma mãe, por tudo isto que você me fez...&lt;br /&gt;Ao ouvir a sua ameaça, retruquei baixinho, para só ela ouvir:&lt;br /&gt;– Como, sendo Papa?&lt;br /&gt;Eu devia ter falado tudo, menos isto. Mas também, como que ia imaginar que ela me levasse à sério? Meses depois, no meio do culto, ela falou que o Senhor havia lhe revelado algo muito maravilhoso dias atrás; e que só não tinha comunicado ainda porque precisava da confirmação, que lhe veio minutos antes.&lt;br /&gt;Disse que tal revelação aconteceu em sonho.&lt;br /&gt;Ela sonhou que estava junto comigo, com o Alaor e a minha esposa quando de repente Jesus olhou para ela e disse: Pedro, tu és pedra; e sobre ti edificarei a minha igreja; tudo que ligardes na terra, será ligado ao céu, e tudo o que desligares na terra, será também desligado no céu.&lt;br /&gt;E depois disto, lhe entregou a chave.&lt;br /&gt;A multidão aplaudiu; e ela, não só se contentou em auto-proclamar Papa como me desligou da minha função de bispo publicamente, colocando o marido dela em meu lugar. Eu fiquei mais descrente do que São Tomé quando ela disse isso, e fui até o seu ouvido, dizer: ah, é?, bruaca; você quer que eu conte tudo para eles, é isto? Quer?&lt;br /&gt;Ela falou faça isso se você é homem.&lt;br /&gt;E então eu contei: esta igreja, senhoras e senhores, é uma farsa; aqui não é uma casa de Deus, de Jesus Cristo, como falamos, e sim a casa de Satanás, este amigo intimo de Lúcifer, o Pai da Mentira. O nosso padroeiro, meus irmãos e minhas irmãs, não é Paulo Apostolo, como dizemos, e sim o Diabo! E os nossos santos, são os demônios malignos... E nós, porque pregamos a falsidade, a mentira, somos filhos legítimos do Inferno! Mas, a partir de hoje, eu renuncio a esta igreja, a esta farsa, a esta prática de arrancar o dinheiro de vocês, dizendo que é dando que se recebe, e vou-me embora, antes que este teto desabe sobre as nossas cabeças!&lt;br /&gt;Peguei a minha esposa e saímos. Em casa até pensei em levar adiante a minha vingança, denunciando todos os nossos roubos para a polícia. Entretanto, eu tinha o rabo e o chifre presos também; e deixei de lado a Lídia com a sua igreja; que, por mais ilógico que posso parecer, aumentou umas dez vezes o número de fiéis depois do escândalo. Dias depois, como tinha de ser quando sempre ocorre com um cisma, eu fundei outra igreja; mas, desta vez, sem sócios, é claro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;MEU FUSCA QUERIDO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não podia de maneira alguma negar o meu fusca querido para a minha filha dar umas voltas bem no dia em que ela tirou a sua carteira de habilitação, podia? Outro pai, mais firme na educação de seus filhos, negaria; deixando-a dirigir sozinha somente depois, quando estivesse dirigindo bem. Mas, como sou um pai que neste tempo havia desaprendido a dizer não, pois passei a ter medo de perder o amor de minha filha – coisa aliás muito difícil de acontecer, embora aconteça – não só dei o meu fusca querido para ela dar umas voltas como ainda lhe dei uns trocados para ela gastar à toa.&lt;br /&gt;Para ser mais exato, em tempos remotos até negaria; se ela, depois dos dezoito anos de idade não começasse a manifestar as suas revoltas contra a sua mãe e eu, o pai Caxias, como ela passou a me chamar. Então, feliz da vida com o seu pai amoroso, pegou o telefone e ligou para a sua amiga, e falou: o meu paizinho querido liberou o fusca para mim hoje; às dez horas eu passo aí para te pegar, viu amiga? Hoje é dia de festa; quero dançar até de manhã...&lt;br /&gt;– Até de manhã, filha?&lt;br /&gt;– Relaxa, pai, sei me cuidar.&lt;br /&gt;Tive vontade de dizer para a minha filhinha do coração que ela não bebesse; mas, veja bem, os nossos filhos geralmente são aquelas eternas crianças que entendem apenas o contrário: se você diz não faça isso, elas vão lá e fazem. E fazem talvez nem porque são teimosas, coitadas, mas é assim que elas entendem: pelo contrário – ou não é? Dissesse não beba, ela, com toda a certeza, entenderia: beba. E encheria a cara, tomando um porre homérico, como o meu vizinho, que é professor de Literatura, costuma dizer sobre os seus excessos.&lt;br /&gt;Mas antes eu tivesse falado, pois a minha filhinha pequena, ingênua e inocente, bebeu tudo quanto é tipo de bebida que esses marmanjos na noite costumam dar para as suas presas, a fim de que elas caiam mais facilmente em suas armadilhas maldosas – por mais inimaginável que pareça, também fui jovem, meu querido leitor, e como quase todos os jovens, caçava desonestamente também, fazendo uma trilha de drinks em direção à armadilha, à santa arapuca.&lt;br /&gt;Lá pelas seis da manhã, ela me ligou, dizendo que entrou com tudo numa camionete 4x4 importada, e que era para correr urgentemente para lá, antes que o rapaz chamasse a polícia: fizesse isto, ela perderia a sua carteira provisória no mesmo dia afinal.&lt;br /&gt;– Você está bem, minha filha? Não aconteceu nada com você? Nenhum arranhão? Deus é Poderoso!&lt;br /&gt;Peguei um táxi e em menos de dez minutos já estava lá, prestando os primeiros socorros. O rapaz, profundamente injuriado, quase me deu na cabeça; mas eu, velho que sou, assumi a posição humilde, de coitado, e só não chorei na frente dele porque não se chora na frente de um homem nem em último caso: eu pago tudo, por favor, não chame a polícia, foi o que falei.&lt;br /&gt;Graças a Deus, a camionete 4x4 importada dele não sofreu muito do acidente, mas, sabe como é, qualquer coisinha que acontece com uma camionete dessas é mais de mil reais para cima. Desembolsei 500 mangos; era o eu que podia, sou um simples aposentado que precisa dar de comer a três filhas, a uma esposa, e cinco netos – até netos eu tive nesta hora... O rapaz, por Nossa Senhora que está no céu, acreditou, e foi embora, com os meus 500 mangos no bolso.&lt;br /&gt;Eu poderia muito bem tirar a cinta e bater na minha filhinha na frente da amiga dela; ou então, dizer um monte de ofensas, algo que a oprimisse mais uns vinte anos, como vinha lhe oprimindo desde que ela se entendia por gente; porém, dei um abraço nela, dizendo: Deus é Pai, minha filha; e bons são os anjos, que lhe protegeram.&lt;br /&gt;– Hã? Como assim? – foi o que ela disse.&lt;br /&gt;O meu fusca querido quase deu perda total. Não que o acidente fosse forte, e sim que um fusca quase não agüenta nada, principalmente o meu, que já tinha quase a mesma idade que a minha. Durante o dia, fiquei pensando se mandava o meu fusca querido direto para o ferro velho ou se para uma oficina mecânica. A minha esposa, sábia e inteligentíssima, aconselhou-me o ferro velho: que eu comprasse um carro novo, com ar condicionado, teto solar, combustível à gás, e air bargs.&lt;br /&gt;Ferro velho nada. O meu fusca querido era o mesmo que um filho meu: desfazendo-me dele iria acabar mais infeliz que um pai rico quando deserda um dos seus. Decidi levá-lo a uma oficina mecânica, e ressuscitá-lo de entre os mortos, tal como Jesus fez com Lázaro, como sempre diz o padre da igreja perto daqui de casa quando responde, ao dono do boteco, se a cachaça está boa ou ruim.&lt;br /&gt;Antes de entregá-lo na mão de qualquer um, fui a várias oficinas mecânicas, e decidi entre uma delas utilizando-me de um critério perfeitamente desastroso: deixei-o na mecânica onde tinha mais carros, pensando que por isso, logo, todavia, portanto, que o mecânico deveria ser bom...&lt;br /&gt;Puro engano: a sua oficina só era lotada de carros porque ele demorava entregar o serviço...&lt;br /&gt;O mecânico era uma porcaria que só vendo. Ele pegava 50% de adiantamento, gastava não sei aonde, pondo a desculpa que no aluguel e na energia elétrica do galpão. Para mim, tenho a absoluta certeza de que ele pegava esses 50% e enfiava bem no meio do rabo cheio de graxa dele: não havia outra explicação, com certeza não havia.&lt;br /&gt;Engoli cargas de ódio por causa de mecânico porcaria. Ele me mandava ir tal dia e tal dia o serviço não havia nem começado. Ia no outro; no outro, e sempre assim: ele mandando voltar daqui quinze dias, daqui dez dia, daqui cinco dias, daqui três, dois, um. Foi quando comecei a desejar o mal para ele. Na sua frente, passava mil tipos de palavrões na minha cachola, que queimavam a minha garganta, a minha língua, louca para falar aquilo que considerava vir do próprio Espírito Santo. Mas, me calava, dizendo à tarde eu volto. E de tarde voltava. De noite eu volto, e de noite voltava.&lt;br /&gt;Passei a observar a vida dele: no mínimo aquele porco não devia ter nem mesmo lavagem para comer dentro de casa. Alguém que tinha tudo para enriquecer, e que preferia enganar os outros, viver essa vida de sujeito desonesto. Quando chegava lá, e falava e aí?; ele logo mandava um funcionário seu pegar no maçarico e trabalhar no meu fusca. Mas, era pura enganação daquele filho da mãe de uma jararaca, porque era isso o que ele era, uma JARARACA.&lt;br /&gt;Sem querer, falei: a vontade que tenho é de te esmagar.&lt;br /&gt;O homem, sabido que era, ligou para a polícia, me acusando de ameaça.&lt;br /&gt;A polícia apareceu em minha casa, a fim de fazer o confere.&lt;br /&gt;– Não, não confere seu policial; sou um homem de bem, a única coisa que quero é o meu querido fusca de volta.&lt;br /&gt;E logo em seguida, contei toda a história, tirando, é claro, a minha filha para bem longe dela.&lt;br /&gt;Os policiais tomaram nota, e foram embora. A minha esposa, assim que viu eles saírem, me disse: amor, por que você não toca fogo naquela merda? Compra um carro novo, vai ser melhor para você; olha o tanto que você está gastando: saúde é mais cara do que o dinheiro.&lt;br /&gt;Néscio, não dei ouvidos.&lt;br /&gt;Eu queria por toda a sorte ou azar o meu querido fusca de volta. Às vezes, até sonhava com ele, algo que me dava uma felicidade infinitamente indizível: acho que nem sonhar com um carro novo seria tão prazeroso assim. Mas logo que acordava, e não via o meu querido fusca na garagem, recebia uma pontada forte no peito, que atenuava com a imagem daquela porcaria de mecânico se fazendo na minha cabeça.&lt;br /&gt;– Por que não morre uma praga desta? – era o que eu me perguntava.&lt;br /&gt;Não deu outra: o homem morreu.&lt;br /&gt;Fiquei extremamente furioso com isto. Queria saber como que o meu querido fusca ia ficar na história.&lt;br /&gt;– Não fica, disse o seu empregado; e se eu fosse você, o levaria embora o antes possível, para o seu bem.&lt;br /&gt;Já estava levando o fusca embora quando de repente a polícia apareceu.&lt;br /&gt;– Foi ele, seu policial, que bateu a chave de braço na cabeça de meu patrão.&lt;br /&gt;– Hã? Como assim? – foi o que eu falei, para usar a expressão que a minha filha tanto gosta de usar.&lt;br /&gt;– E ainda por cima é cínico – disse esse discípulo da JARARÁCA.&lt;br /&gt;Os policiais acreditaram. Me levaram em cana; mas eu disse e repito: Deus é Pai, e me tirou dessa fria. Logo depois, me soltaram, pedindo mil desculpas; que a polícia, por ser feita de homens, erra; que não existe um ser humano que não comete erros; que somos limitados, finitos; que não adianta estufar o peito e dizer eu sou, eu posso, eu faço, que...&lt;br /&gt;– Ok, ok, ok, estou dispensado?&lt;br /&gt;– Sim senhor.&lt;br /&gt;Porque no fim das contas nós, homens, sempre acabamos fazendo o que a mulher deseja, toquei fogo no meu fusca querido, e comprei um carro do ano. A marca? Se eu disser talvez vocês não vão acreditar. Sim, o novo fusca. Comprei o novo fusca, esses que lançaram acho que no ano 2000 para cá. E a minha filha, por mais que pede com os olhos para dar uma volta nele, não o faz com palavras – se fizer, ela sabe o que o pai vai falar, que é NÃO!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;AMOR VERDADEIRO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, não. Você não quer casar comigo porque me ama. Você quer casar comigo para não dizer que não conseguiu alguém, para você poder mostrar para as suas amigas que tem um homem, nada mais que isso.&lt;br /&gt;– Eu juro, amor, que quero casar com você porque eu te amo.&lt;br /&gt;– Mas logo eu, Priscila? Tem tantos caras bons por aí. Gente que não fuma, não bebe, não faz besteiras. Você é uma mulher bonita, morena, tem os olhos verdes, pode conseguir o homem que quiser. Por que eu?&lt;br /&gt;– Não sei por que você. O que eu sei é que te amo, Guilherme, e quero você, quero ser sua mulher, sua esposa, a mãe de seus filhos.&lt;br /&gt;– Agora você disse tudo. Você quer ser mãe, é isso e só isso. Você quer ter um homem para te levar nos finais de semana para a casa do seu pai e mostrar para todos os seus parentes que você conseguiu casar, que você não é como a maioria das suas irmãs, primas e tias, é isso.&lt;br /&gt;– Não, não é isso, Guilherme. Eu quero casar com você porque eu te amo.&lt;br /&gt;– Me ama?&lt;br /&gt;– Muito.&lt;br /&gt;– E se eu não puder te dar filhos? Você sabe, eu tenho problema, o médico me disse que posso não ter filhos, e se eu não puder de dar uma criança, hein? Você vai querer ficar comigo mesmo assim?&lt;br /&gt;– Por toda lei, eu vou.&lt;br /&gt;– Olha, Priscila, eu fumo, e fumo um cigarro atrás do outro, e mesmo assim você ama um homem que fede à nicotina a metros de distância?&lt;br /&gt;– Sim.             &lt;br /&gt;– Meu Cristo! Priscila, eu sou um sujeito nervoso. E se eu chegar um dia em casa, com raiva de todo mundo, do meu chefe, das pessoas que me olham feio na rua, das ofensas que me dizem por aí, e eu chegar em casa e quebrar tudo, bater em você? Você vai continuar comigo?&lt;br /&gt;– Eu te amo.&lt;br /&gt;– Me ama, me ama! Meu Deus do céu, como você pode amar um sujeito como eu? De vez em quando eu me injurio, abandono o emprego, deixo o chefe na mão, e fico meses em casa, sem fazer porra nenhuma, só na frente da televisão, tomando conhaque e fumando... Tem vez que estou tão revoltado que até pasta base eu fumo. Você sabe o que é isto, pasta base?&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– Sabe mas não deve saber tudo. A pasta base é o lixo da cocaína. É uma droga dos Infernos. Foi o próprio demônio que a fez. Quem fuma, fica endemoninhado, feio mesmo; e se eu fumar pasta base e quiser dar uma surra em você, quebrar a casa inteira, mesmo assim você vai continuar casada comigo?&lt;br /&gt;– Vou.&lt;br /&gt;– Meu Deus. Eu não presto... Eu bebo, eu fumo, sou um porcaria. E se um dia der cirrose em mim e eu acabar doente, em cima da cama, sem poder trabalhar, sustentar a casa, você vai ficar comigo mesmo assim?&lt;br /&gt;– Eu cuido de você.&lt;br /&gt;– E a casa?&lt;br /&gt;– Eu cuido da casa.&lt;br /&gt;– Você é capaz de trabalhar fora?&lt;br /&gt;– Sou capaz até de mendigar por você, amor.&lt;br /&gt;– Meu Cristo. Eu fumo. Você vê o tanto que eu fumo. E sabe o que o cigarro dá? Dá câncer, Priscila. Vamos supor que eu tenha um câncer, uma enfisema pulmonar, e o meu pulmão estoura de repente, manchando o lençol da cama com sangue, você vai ficar ao meu lado? Não vai pular o fora?&lt;br /&gt;– Jamais.&lt;br /&gt;– Jamais?&lt;br /&gt;– Nunca.&lt;br /&gt;– Olha, eu bebo e fumo. E quem bebe e fuma pode ficar impotente, pode virar brocha. Você é capaz de ficar com um homem brocha dentro de casa? Você vai me amar mesmo se eu não der no couro?&lt;br /&gt;– Eu quero casar com você, Guilherme.&lt;br /&gt;– E se eu te botar chifres, hã? Mulher nenhuma gosta disto. Principalmente se o homem não consegue cumprir às obrigações dentro de casa. E se um dia eu estiver desempregado a um ano e ainda por cima botar um par de chifres bem grandes em sua cabeça, mesmo assim você vai continuar comigo? Vai?&lt;br /&gt;– Vou, eu já disse que vou, Guilherme!&lt;br /&gt;– Mesmo se de repente eu for atropelado e ficar paraplégico?&lt;br /&gt;– Mesmo.&lt;br /&gt;– Mesmo se eu ficar em cima de uma cadeira de rodas?&lt;br /&gt;– Mesmo.&lt;br /&gt;– Mesmo se eu for preso, e você ter que ir me visitar lá na Penitenciária Máxima?&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Mesmo se eu resolver apostar tudo o que tivermos numa mesa de baralho?&lt;br /&gt;– Mesmo.&lt;br /&gt;– Você só pode ser uma louca!&lt;br /&gt;– Sou louca sim, e por você, amor.&lt;br /&gt;– E se eu me matar, hã? E se um dia eu quiser pegar uma faca bem afiada, como essa aqui, e cortar meus pulsos, hein? Você vai me respeitar se eu morrer? Vai ficar viúva para sempre, sem se casar de novo?&lt;br /&gt;– Guarda essa faca, meu amor. Eu já te disse que te amo.&lt;br /&gt;– Você me daria a sua orelha?&lt;br /&gt;– Como assim?&lt;br /&gt;– Certa vez ouvi a história de um homem que era pintor e amava uma mulher. Certa vez ele cortou a orelha, colocou numa caixa e deu de presente para a amada dele. Você seria capaz de fazer isso por mim?&lt;br /&gt;– Seria.&lt;br /&gt;– Toma aqui a faca. Corta ela e me dá. Vai; anda, eu estou mandando.&lt;br /&gt;– Mas, amor, eu vou ficar feia, sem uma orelha.&lt;br /&gt;– Não me importa a beleza. Vai, quero ver se você é capaz de provar que me ama. Corta a orelha.&lt;br /&gt;– Certeza, amor?&lt;br /&gt;– Toda.&lt;br /&gt;– Então está bem. Vou cortá-la. Aí, dói, mas eu vou cortá-la. Eu corto a minha orelha e te dou. Aqui, mas está doendo...&lt;br /&gt;– Coragem!&lt;br /&gt;– Ai!&lt;br /&gt;– Para, para, está bom, Priscila. Você já provou que me ama. Daqui essa faca. Vou guardá-la. Vou me casar com você. Você é a mulher da minha vida. Não me recusaste a tua orelha. Você é minha. Não vou te dizer que te amo, porque estaria mentindo, o amor não existe. O quê existe é apego. Vou me deixar apegar a você, e vou me casar. E sabe esta carteira de cigarro? Vou jogá-la no lixo! Não coloco um maldito deste na boca, muito menos pasta-base. Não quero. Nem conhaque. Cadê a garrafa? Vou jogá-la fora. Pronto, joguei. Estou limpo. Cigarro nenhum vai estourar o meu pulmão, cachaça nenhuma vai desgraçar o meu fígado. Também não quero mais saber de jogo. Daqui para frente serei um homem de bem, bonzinho. Você vai me querer mesmo assim, Priscila? Um homem bonzinho?&lt;br /&gt;– Já te disse, meu amor. Eu quero você do jeito que for...    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A REALIZAÇÃO DE UM SONHO.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;É um homem perverso, um iníquo&lt;br /&gt;Aquele que caminha com falsidade na boca:&lt;br /&gt;Pisca com os olhos, bate com o pé,&lt;br /&gt;Faz sinais com os dedos...&lt;br /&gt;– Provérbios, VI, 12-13.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, sempre aparece um pescoçudo que até então nem pescoço tinha. Ele começa timidamente, ganha a confiança de um, de outro, e quando consegue doze fiéis à sua volta, logo se torna um mestre com mil discípulos na rabieira, dispostos a fazer tudo o que ele manda. Foi assim com Otávio Nunes, um cidadão daqui da cidade onde moro, chamada Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.&lt;br /&gt;Naquele tempo eu era um dos muitos vereadores que queria ser prefeito. O Otávio Nunes nem existia ainda, era apenas um entre milhares de cabeçudos que andam à pé pela cidade, ou de ônibus. Está certo que eu andava à pé e tomava ônibus também, mas não era um cabeçudo, e sim um vereador, de terno e gravata, ciente das organizações sociais, de leis, de principados e potestades. De repente, o Otávio Nunes.&lt;br /&gt;Havia mil discípulos junto com ele na Praça Ari Coelho, dizendo: estamos convocando os candidatos a prefeito para uma maratona de provas onde o povo poderá saber quem realmente é capaz de fazer de tudo por nossa cidade, de amá-la. O jornalista perguntou: que tipo de provas? São várias. A primeira delas, por exemplo, é ver qual dos candidatos fica mais tempo limpando o banheiro aqui da praça mesmo, que é um fedor insuportável.&lt;br /&gt;– E as outras?&lt;br /&gt;– Ver quem fica mais tempo morando na vila Canguru, sem direito à carro, ficando dependente só do ônibus.&lt;br /&gt;– Tem mais?&lt;br /&gt;– Tem sim. Tem a prova para ver quem trabalha mais tempo para esses sujeitos ricos em troca de um salário mínimo, e se ele consegue sobreviver com ele.&lt;br /&gt;– Hum, interessante. E como será a pontuação?&lt;br /&gt;– Ao vencedor de cada prova, três pontos; dois para o segundo colocado e um para o terceiro. Aquele que tiver mais pontos, a população votará em peso.&lt;br /&gt;– E quem não quiser votar tendo em vista esta competição? Ou melhor: e para quem não aprova este método?&lt;br /&gt;– Quem não aprova este método só pode ser um apátrida. E assim será chamado por nós, que vai ser a maioria. Todo mundo concorda e acha boa a idéia, pois somente aquele que passa pelos nossos sofrimentos poderá fazer algo justo por nós depois. Quem gosta da injustiça, não se una a nós!&lt;br /&gt;– Mais alguma coisa, Otávio Nunes?&lt;br /&gt;– Não, só isso. Fica aqui o convite aos candidatos. Em breve estaremos fazendo o convite pessoalmente. Por enquanto, é isso.&lt;br /&gt;– Obrigado. É com você, Ricardo Freitas!&lt;br /&gt;Depois desta reportagem ser exibida pela TV MORENA, houve um alvoroço no Parque dos Poderes. Primeiro, é claro, nós rimos, debochamos; mas depois que ele apareceu aqui com umas cem pessoas atrás dele, tratamos de colocar as cabeças para maquinar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu partido, o candidato oficial a prefeito era o senhor Barbosa, um homem com a saúde boa, mas não apta para enfrentar os testes colocados por este Otávio Nunes. Os maiorais do partido, algum tempo depois, chegaram a pensar em não fazer parte desta maratona de imbecis, mas viram que corriam o risco de perder as eleições fatalmente. Descartaram então o Barbosa, e perguntaram se o seu Frederico encarava: eu? Limpar banheiro público? Me sujeitar à vontade do povo? São eles que têm de se adequar a nós!&lt;br /&gt;Pensaram num outro, e lembraram-se do Ojeda, japonês que comia o pão que o filho, o pai e o avô do diabo amassavam com o rabo lá no Japão: japonês que é japonês gosta de desafios, da dificuldade. Ojeda, ao ouvir a proposta, não pensou duas vezes para responder: não! Por que, japonês?, interpelaram. Porque não, oras. Mas, japonês, disseram os maiorais do meu partido: tudo tem uma explicação. Ojeda então explicou: se eu fizer a vontade desses malucos, ficarei maluco que nem eles. Portanto: a minha resposta é não!&lt;br /&gt;Tiveram que aceitar. Pensaram em um, em outro, até lembrarem-se do vereador mais insignificante de todos: eu. Pois, o Rosa, é um homenzinho que nem carro tem ainda; acho que nem casa, se duvidar; e ele vai tirar essa de letra, que nem atacante da seleção brasileira de futebol. Chamaram o Rosa, e eu fui, mais feliz que um ganhador de um reality show. Rodearam daqui, rodearam dali, e finalmente perguntaram: você quer; Rosa, ser candidato a prefeito?&lt;br /&gt;O homem tem que aproveitar as oportunidades na vida, que geralmente, vem de uma em uma no intervalo de dez em dez anos. Então eu disse:&lt;br /&gt;– Ôpa.&lt;br /&gt;– Quer mesmo?&lt;br /&gt;– Mas é claro que quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Candidataram-me a prefeito. Semanas depois, lá estava eu na maratona, concorrendo com os outros vereadores. Havia mais ou menos umas trezentas pessoas nesse dia ali em volta do banheiro da Praça Ari Coelho. É claro que eles não desceram aquelas escadas, mas ficaram ali perto, olhando quem ia ser o primeiro a encarar o fedor. Graças a Deus, não fui eu quem deu inicio.&lt;br /&gt;O primeiro foi um candidato do PMDB, que não ficou ali por mais de cinco minutos, devido ao fedor, que era fortíssimo. Na frente da câmera, ele disse: realmente, temos que rever isso aí... Depois dele, um candidato do PT; que, também, não passou dos cinco minutos, dizendo para as câmeras que de fato o fedor é grande, que quase desmaiou. Em seguida, um candidato do PL, um liberal que era capaz de fazer tudo por dinheiro. O homem, para a surpresa de todos, ficou o dia inteiro e no outro dia voltou.&lt;br /&gt;Ficou limpando o banheiro como se fosse da sua casa, e as pessoas já estavam gritando o nome dele. Mas daí, de repente entrou um bêbado, e urinou fora do buraco; depois vomitou, e fez uma sujeira digna de um mendigo miserável repleto de doenças físicas e mentais. O candidato liberal na mesma hora deu um tapa na cabeça do bêbado; chamou-lhe de porco, e lá na frente das câmeras da tevê, disse: o Brasil não vai para frente por causa duns desgraçados destes! Em um segundo, perdeu quase dois dias de trabalho.&lt;br /&gt;Restava eu; pois, os candidatos do PPSD; quero dizer, do Partido Pobre Sem Dinheiro, sempre fica por último em tudo. Entrei, e assim que senti o fedor apertando as narinas, quase desmaiei. Joguei vômito para todos os lados, tive nojo do ser humano, e raiva. Depois, limpei o vômito, e comecei a limpar o banheiro também. O zelador deste banheiro deveria receber uns dez salários mínimos, por esse serviço. Pois, parecia que ali só entrava homem porco, doente, com infecção em tudo quanto é saída do corpo.&lt;br /&gt;Eu fui tomando ódio pela Humanidade. Dava vontade de gritar, de explodir. Tive raiva de Deus, do pescoçudo do Otávio Nunes, da minha mãe que me colocou no mundo. E assim fiquei o dia inteiro. No dia seguinte, naquele fedor desgraçado, quase sai por umas três vezes. Mas, quando vi, estavam gritando o meu nome lá no lado de fora: eu havia ultrapassado o tempo do candidato do PL! Gostei do som, do povo me aplaudindo, e resolvi ficar uma meia hora a mais.&lt;br /&gt;Fiquei. E ao sair, fui aclamado. Me pegaram pelas pernas e me levantaram, e saíram andando pelas ruas do centro da cidade comigo em cima, como se eu fosse um rei, um deus, um campeão. Com certeza, essa vitória me fez vencer todas as outras. Em todas elas eu era ajudado. Morei lá no Canguru, está certo, mas foi talvez o melhor mês da minha vida. Todo dia tinha festa, e tinha mulher nova para mim. No ônibus, quando não havia assento, todos levantavam, dizendo: deixe o prefeito sentar.&lt;br /&gt;Já os outros candidatos, sempre reclamavam:&lt;br /&gt;– Realmente, o sistema de transporte urbano em nossa cidade não é só o mais caro como o mais péssimo de todos!&lt;br /&gt;– Eu não sei como o prefeito não dá assistência para essa merda de bairro. Aqui é o retrato fiel da miséria. Estão vendo aquela criança ali, com a barriga d’água? Olhando para gente com aquela cara de tristeza? A frauda suja pendurada na chupeta podre? É o mais comum aqui...&lt;br /&gt;– Trombadinha e ladrão é o que não falta por essas bandas. Se eu for prefeito, algo que está quase que impossível no momento, eu darei um jeito nesta joça.&lt;br /&gt;O mesmo aconteceu com os meus serviços em casa de ricos, ganhando a miséria do salário mínimo. Eles mal me deixavam pegar na vassoura, ou fazer algum esforço. Ficavam conversando comigo o dia inteiro, me dando suco, uísque, charuto. Conversas sobre política, religião e moral passavam longe de nossas bocas e ouvidos. Enquanto os outros; os outros falavam na televisão:&lt;br /&gt;– Precisamos rever o salário dos trabalhadores. Agüentar um patrão arrogante e estúpido a troco de uma mixaria não é vida para ninguém...&lt;br /&gt;– Eu não entendo esses patrões: só porque pagam uma miséria acham que podem tudo, inclusive montar em cima do funcionário.&lt;br /&gt;– Precisamos rever os sindicatos, montar uma equipe de vigilância trabalhista, porque são muitos os exploradores e explorados.&lt;br /&gt;– O sofrimento do povo é grande. Somos um faraó no Egito. Precisamos libertar o povo. Dar uma vida mais digna. Conheci muitos pais tristes, por não poderem dar o melhor para seus filhos. A tristeza deste povo é grande. E nós todos somos os culpados por isso, quando pensamos em nós mesmo, em nossas viagens, roupas caras e etc.&lt;br /&gt;– A vida como ela é nos desafora, nos bate na face e chuta o nosso estômago.&lt;br /&gt;Ora, eu não fiquei com medo dessas frases, dessas declarações humanitárias; pois, nunca vi alguém ganhar dinheiro com palavras, exceto um escritor ou outro, e mesmo assim quase velho já. Por isto, fiquei tranqüilo: a vitória era certa. Não havia nada de mais pior do que aquele banheiro fétido da praça Ari Coelho, e todos os homens sabiam disto – se agüentei ficar dois dias ali, eu era capaz dos maiores sacrifícios pela cidade.&lt;br /&gt;E assim se sucedeu. Graças ao pescoçudo do Otávio Nunes, que me olhava com a cara feia, eu havia saído do cargo de vereador e conseguido ganhar a eleição para prefeito num partido que era o último, que tinha menos dinheiro. No discurso da posse, em cima do palanque repeti, com muita vibração, várias vezes essa frase: os últimos serão os primeiros, minha gente! – e o palanque quase caiu.&lt;br /&gt;Mas ainda o meu sonho não estava realizado. E nem no primeiro ano se realizou, porque este período foi o de aprendizado. Mas no segundo, quando já estava malandro, na malandragem braba dos senadores e deputados, o meu sonho se realizou. E eu fui metendo a mão no dinheiro do povo; e comprei uma casona; e comprei um carrão; e abri uma empresa no nome de um sobrinho; e fiz viagens para o exterior; e tomei champanhe e vinho caro no navio; e conheci a praia de Fernando de Noronha, junto de umas três putas de luxo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;OS PRAZERES DA CARNE&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pararmos de comer carne, como querem os vegetarianos, como que vamos deixar os fazendeiros cada vez mais ricos, cheios da grana? E os donos dos frigoríficos e os donos dos açougues? E os que vendem o sal, para os bois lamber? Não, não vai dar certo. Se deixarmos de comer carne muitas crianças não vão morrer de fome, e ninguém mais vai poder ganhar dinheiro em cima delas, como fazem essas milhares de ONGs que se dizem não ter fins lucrativos. Não, não vai dar certo.&lt;br /&gt;Já imaginou? E para quem gosta daquele churrasco; daquela carne suculenta no espeto, com a gordura dourada, pingando no fogo do carvão e fazendo aquele barulho que dá tanta água na boca? Acaba-se o churrasco e com ele a alegria dos finais de semana, quando nos reunimos em volta da churrasqueira para zombar dos outros e beber cerveja gelada. Que alegria e felicidade podem dar uma mesa só de verduras, frutas, castanhas e legumes? Nenhuma! É o mesmo que ir à praia com a esposa.&lt;br /&gt;E a cerveja? Se deixarmos de beber cerveja, como querem aqueles que são contra o álcool, vamos falir muitos empresários e muitos donos de bar. Muita gente vai perder o emprego, haverá uma taxa enorme de suicídio, e ninguém mais vai poder bater na esposa e nos filhos e colocar a culpa na bebida. Não; né-ca-de-ti-bi-ri-ba! Acaba-se o álcool e junto com ele os poetas. Raul Seixas já dizia: veja um poeta inspirado em coca-cola, que poesia mais estranha ele não deve expressar?&lt;br /&gt;E em falar em coca-cola, outra judiação é querer que paramos de bebê-la. Aliás, se cortam o churrasco, a cerveja e a coca-cola vão acabar os obesos, os diabéticos, os cardíacos, os hipertensos; os donos das indústrias de medicamentos vão pros quiabos, ainda mais nessa crise que assola o mundo, com o Tio Sam usando aquele chapéu vermelho e branco estendido para os outros países, pedindo dinheiro tal como o mendigo na calçada, com a única diferença o sorriso esperto no rosto, próprio de quem sabe como é a vida.&lt;br /&gt;Não, não vai dar certo o mundo que esses sujeitos de consciência querem.&lt;br /&gt;Piorou o cigarro. Se deixarmos de fumar, como querem os antitabagistas, nossos pulmões vão ficar sempre vermelhinhos, bons, não dará câncer e uma boa parte dos pacientes dos hospitais vai desaparecer. E quem ganha a vida com a desgraça dos outros, como vai ficar? Um monte de médicos, de enfermeiras perderá o emprego. E os fabricantes de xarope, de mel, de remédio para o pulmão que se encontra preto, negrinho? Não vai dar. Já imaginou? Melhor do que dar aquela foda é fumar um cigarro depois; e se não pode fumar, que graça tem?&lt;br /&gt;E depois fumar causa impotência sexual. Se todos os homens pararem de fumar, como que a indústria que fabrica o Viagra ficará mais rica do que já é? Hã? O que será dela e das milhares de pessoas que sobrevivem graças a essas indústrias que prestam um grande favor à Humanidade?  O pessoal já conseguiu aprovar a lei que proíbe fumar em locais fechados, e agora querem que paramos de fumar até ao ar livre? Assim o Brasil não vai para frente, nem o mundo!&lt;br /&gt;Outra coisa ruim é esta história de fazer sexo com camisinha. Metade do prazer fica retido naquele plástico frio. Ninguém pega AIDS, sífilis e gonorréia, e mais uma vez a Medicina sai perdendo. Assim não vira. Essa história de ter só uma parceira é para homem que vive dentro de casa, com a família. Agora eu te pergunto: este tipo de homem sabe viver a vida? Sabe nada! E por isto que sempre vem com este papo, de corta isto e corta aquilo...&lt;br /&gt;Quando é que vamos ser livres, meu Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;TESTEMUNHA OCULAR&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todas as vezes que Alberto levantou a guarda com uma mão e a espada com a outra, ele se deu mal. Se contasse nos dedos o tanto de processos que poderia ganhar caso tivesse provas; isto é, testemunha ocular, as suas duas mãos seriam poucas. Se contasse pelos fios de cabelos a quantidade de vezes que teve de engolir um desaforo, uma vergonha ou humilhação precisaria de uma peruca, mesmo não sendo careca...&lt;br /&gt;A vida é dura.&lt;br /&gt;Injusta e desonesta, principalmente quando se está no papel de submissão. No direito dos direitos trabalhistas, o vivido no dia-a-dia, há apena um dever e um direito para o patrão e o empregado: o primeiro tem o dever de pagar e o direito de dar a ordem que bem quiser; enquanto o segundo tem o direito do salário e o dever de obedecer, nada mais que isto. Uma troca justa, não acha?&lt;br /&gt;O problema se dá quando um dos dois começa a infringir essas duas regras fundamentais, e isto acontece quase sempre. Tudo quando começa, começa uma maravilha, para ambos os lados. Mas depois, no desgaste da rotina, tudo leva para a atração do confronto. Quando não é o patrão insatisfeito, é o empregado; e quando não é o empregado, é a mulher do patrão. Ops. Tira a mulher do patrão, ela não tem nada a ver com a essa história, ou tem?&lt;br /&gt;No último serviço em que Alberto trabalhou; num posto de gasolina, foi desse jeitinho, tal como descrevi: no começo foi a maravilha das maravilhas; mas depois, depois dos sete meses exatos, começou a atração do confronto. Ou começou antes? Nunca se sabe. O que se sabe é que geralmente começa assim: o patrão sai lá da sala dele, as despesas são muitas e os lucros são poucos, e descarrega seus relâmpagos no pára-raios, que é o funcionário.&lt;br /&gt;O funcionário, na maioria das vezes, acha que está trabalhando muito e ganhando pouco, que merecia coisa melhor, viajar no fim de ano para praia, que nem o patrão. No ônibus ou em cima da bicicleta, ou até mesmo na moto ou no carro velho, ele acredita que merecia está andando com a camionete igual a do chefe. Não é todos, vale lembrar. Há muita gente conformada com o arroz e feijão. Mas, lá no subconsciente de cada empregado, essa história se repete desde quando o capitalismo é capitalismo.&lt;br /&gt;Alberto já estava ficando nervoso. O seu Ricardo também estava ficando nervoso. Um olhava para outro medindo o corpo, a massa muscular, a força. Por mais que um homem seja grande e forte, há sempre um ponto fraco. É no ponto fraco que se bate. Qual é o ponto fraco? O seu Ricardo era na orelha. No Alberto, era no olho. Brigas. O patrão saindo lá da sala dele, com o corpo todo rígido, armado, e soltando aquelas palavras que nos gibis são representadas assim: #&amp;amp;#!&gt;&lt;@#$%!!! Alberto olha de lado: ninguém viu. Nessas horas, ninguém vê. Nem para rir. Eu não vi, eu não sei, eu não estava – eis o sambinha da moda no Brasil. Em todos os pontos altos e baixos do posto de gasolina, uma câmera filmadora. No banheiro, tinha que se virar, para ninguém ver as suas vergonhas. Era vigiado oito horas por dia. Nos últimos empregos, perdeu tudo o que podia ganhar por falta de provas, por falta da testemunha ocular. Um patrão, por mais ranzinza que é, por mais chato que seja, sempre tem amigos. Os amigos vão, olham, ficam ali, embaçando, rindo não sabe o funcionário de quê. Na hora do confronto, são a eles que o patrão recorre. E os funcionários, recorrem a quem? Se ninguém viu, nem soube, nem estava lá? Alberto ganhava um salário mínimo. Todo o seu dinheiro ia para dentro de casa. Não sobrava nem para cerveja: as crianças pequenas carecem de uma vaca leiteira no quintal de casa. – Uma caneta filmadora? Prá que, Alberto? – Para colocar aqui no bolso, ó; e quando o patrão falar todas aquelas ofensas morais, é só mostrar para o juiz. – Alberto? Não é melhor abaixar a cabeça? Vagabundo que não gosta de patrão. – Gostar de patrão ninguém gosta, de verdade. A não ser que a pessoa ignora. – Ignora o quê, Alberto? – Ignora quando é passado para trás; que o patrão quase sempre só pensa nele... – Deus do céu, Alberto! E quanto que é essa caneta? Alberto disse o valor. A esposa respondeu:!@#$%¨&amp;amp;*$!!! Não teve acordo: se ele quisesse, que fosse ajuntando aos poucos. Assim Alberto fez, agüentando todos aquelas ofensas e desaforos. O ruim é que para as ofensas mais leves, o patrão até faz na frente dos outros; mas quando se é para dizer exatamente aquilo que ele pensa, o teatro se faz à sós, sem público e de cortinas fechadas – dias atrás vi na televisão uma mulher que processou o patrão por danos morais. Motivo? Ele chamava-a de feia e burra quando estavam sozinhos... Alberto finalmente comprou a caneta filmadora que valia dois salários mínimos. Passou a trabalhar de cabeça erguida, todo orgulhoso. Quando o patrão vinha lhe chamar de porcaria, de burro e imbecil, ele ria, mexendo na caneta no bolso da camisa. Em casa, ele passava as imagens no computador, um PC mais antigo que a mulher dele. Num dia, depois de filmar pela décima vez o seu patrão lhe dirigindo desaforos, falou: olha aqui, seu Ricardo, não agüento mais as suas ofensas, as suas humilhações, você me desrespeitando na frente dos outros ou à sós comigo, não agüento mais! – Quem não agüenta mais um funcionário porcaria e burro como você sou eu: tá demitido, filho de uma puta! Vocês sabem por que um homem fala isso para um funcionário? É simples. Ele não quer dar a razão. Enquanto ele trabalhou para conseguir tudo o que tem, os seus funcionários trabalharam para seus patrões conquistar tudo o que conquistaram. Além do mais, um funcionário gosta de beber cerveja no fim de semana, de gastar dinheiro à toa, e ama a sua vida de pobre. Como dar razão para seres humanos inferiores assim? Dias depois, na frente do juiz, o advogado do Alberto, na hora de chamar a testemunha puxou o DVD, pedindo para desligarem as luzes, e exibiu o longa metragem. Foi um dos filmes mais lindos que o advogado do Alberto assistiu. O juiz, comovido pela estética da opressão, fechou a cara para Ricardo, decretou a indenização por danos morais e bateu o martelo, encerrando a sessão. Lá fora, Alberto, às sós com Ricardo, disse: puta é a sua mãe, patrão burro e porcaria...  A BURROLOGIA  Aos vinte anos de idade já desconfiava de que iria me arrepender profundamente de passar a maior parte do tempo estudando, e só não tinha certeza porque todo mundo que conhecia me falava que o estudo iria me dar muitas coisas na vida, como um bom emprego, casa boa, automóvel do ano, reconhecimento intelectual, moral e assim por diante, ad infinitun. De fato, ganhei todas essas coisas, e mais: uma mulher maravilhosa que me deu dois filhos. Até aí, o que era desconfiança passou a ser visto por mim apenas como um medo juvenil, e passei até mesmo a estudar muito mais do que estudava há dez anos. Revolvi fazer doutorado, e passava mais tempo enfiado na universidade e nas bibliotecas do que na minha própria casa, junto da minha esposa e de meus dois filhos pequenos. Nesse tempo, ela, a mulher da minha vida, quase não reclamava da minha ausência: o título de doutor e o salário que ele iria me dar depois fazia dela uma mulher demasiadamente compreensiva. Mas a sua compreensão foi acabando aos poucos; e quando fui ver Laura não só reclamava da ausência do marido e pai de seus filhos como reclamava de tudo: do dia que estava muito quente, da tarde que estava muito seca, da noite que estava muito úmida, do chuveiro que saia água fresquinha, da cozinheira que fazia pratos para além de deliciosos. E a sua imensa compreensão acabou definitivamente no dia em que a universidade me presenteou com uma bolsa de pós-doutorado lá na Espanha. Para ela, isto foi o fim: ou era ela e meus filhos, ou era este maldito pós-doutorado na Espanha. Ora, como eu estava viciado num autor espanhol por nome de Xavier Zubiri, e também em todas as teorias que versavam sobre a inteligência, acabei ficando muito confuso, ainda mais porque iria fazer o meu PhD junto com o próprio Xavier Zubiri! Em crise, fui lutar contra os meus demônios. E eles me diziam: você vai se tornar um grande profissional do conhecimento; jamais faltará um grande emprego para você; e, se tudo correr bem, certamente serás um filósofo que entrará para a História – sem dúvida alguma, esses demônios eram mil vezes mais geniosos que o imaginado gênio maligno de Descartes... Desta luta, ressurgiu a desconfiança de que iria me arrepender amargamente de passar tanto tempo estudando, que eu devia levar à sério a minha digníssima esposa. Entretanto, não sei por qual demônio, acabei resolvendo ir fazer o meu pós-doutorado na Espanha – digo assim porque alguém soprou no meu ouvido de que na volta a minha esposa iria me perdoar. Fui, e passei dois anos fora. Na volta, meus filhos estavam grandes, mais altos do que eu, e rebeldes. Eu logo compreendi que a rebeldia deles vinha do excesso de hormônios, algo tão comum na adolescência, e pouco me preocupei. Já a minha meiga e querida esposa, estava agora muito mais nervosa do que antes, e reclamava inclusive de Deus, um ser tão Sublime e Bondoso que não é capaz de fazer mal a ninguém. Ao vê-la assim, fiquei na dúvida se compensava pedir a ela para voltarmos a ficar juntos. Depois de refletir bastante, descobri de uma vez por todas que a Laura era realmente a mulher com quem eu devia viver nesta Terra tão ingrata. Falei com ela, me perdoou, e voltamos. Contudo, o seu nervosismo e a sua irritação me deixavam doido – e mais que isso: solitário. Eu queria partilhar com ela a minha experiência na Espanha, falar sobre os costumes deste povo, de lugares e etc. Eu queria, a cima de tudo, falar de meu amigo Xavier Zubiri. Mas, era só pronunciar estes dois nomes, Espanha e Xavier Zubiri, para a minha geniosa esposa virar um animal bastante perigoso: uma onça protegendo seus filhotes era pouco perto dela. – Lá na Espanha... – Não quero saber da Espanha! – O Xavier Zubiri... – Dane-se o Xavier Zubiri! Ela não queria ouvir esses dois nomes nem mesmo da boca de um burro ou no canto de algum passarinho. Por isso, dentro de casa eu não falava deles nem mesmo para os meus filhos, que estavam se tornando cada vez mais drogados. – E você esperava o que deles, Josemar? – Que pelo menos fossem inteligentes! – E iam puxar a quem, para isso? – Ao pai. – Mas o pai é inteligente, por acaso? A minha adorável esposa se tornara uma mulher desgraçada; os meus filhos, uns desgraçados; e eu, um doutor burro. Uma vez ciente disto, comecei a me arrepender de ter passado tanto tempo na vida estudando, e vi que não tinha valido à pena. Desde então, decidi de uma vez por todas nunca mais estudar alguém inteligente, como fiz com Xavier Zubiri. Ao invés disto, passei estudar os burros, pois para entendê-los não precisa de livros, nem de mestrado nem doutorado: basta assisti-los. Já esbocei algumas teorias sobre a burrice, coisa que até hoje nenhum filósofo fez, e as coloquei, em partes, no papel. E se Deus permitir, divulgarei a minha nova ciência, da qual intitulei de “A burrologia”.    &lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;O BANQUETE CONTEMPORÂNEO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA: Eu quero que você me prove, sem usar da violência, que tudo não é um sonho dentro do sonho...&lt;br /&gt;O EPICURISTA: Tome um trago deste Malbec argentino, meu amigo, e verás que não.&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA: Eu tomo. Hum, que maravilha! Maravilhoso como o sonho. Logo, estamos sonhando.&lt;br /&gt;O REALISTA: Não, não estamos sonhando! E ainda que estivéssemos, este banquete acabará. Logo, o sonho terá fim, nos mostrando que a vida é real.&lt;br /&gt;O IDEALISTA: Real? Que real? Tudo é uma idéia dentro de uma idéia!&lt;br /&gt;O PRAGMATISTA: Deus do Céu! Como vocês são tão inúteis nessa discussão!&lt;br /&gt;O EXISTENCIALISTA: Deixe eles discutir, se angustiar. A angústia é o principio de toda a filosofia!&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: Que papo mais bravo este! Vamos comer, oras! E vamos beber enquanto é tempo!&lt;br /&gt;O ATEU: Eu não sei por que não me enforco...&lt;br /&gt;O RACIONALISTA: Você não se enforca porque tem medo...&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Como eu estava dizendo, senhores, não há verdade sem consenso...&lt;br /&gt;O NIILISTA: Lá vem ele com ironias...&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: A era da ironia já passou, bem como a filosofia solipsista destes. Temos que levar todos os assuntos à comunidade ilimitada de comunicação a fim de que tenhamos uma síntese transcendental da interpretação mediada linguisticamente!&lt;br /&gt;O ATEU: Como é que é mesmo?!&lt;br /&gt;O NIILISTA: Se ele não está com ironias, está com utopias. O mundo não precisa mais de ilusão. Nem da verdade. O mundo precisa assumir a sua condição de mundo.&lt;br /&gt;O EPICURISTA: O mundo, na verdade, senhores, precisa de um banquete como esses...&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Agora sim, hã? Falou pouco mais falou o essencial... Mas, todos têm que ter o direito de participar!&lt;br /&gt;O REALISTA: Ah é? Então porque você não trouxe aquele aleijado que estava sentado ao pé da porta, pedindo esmolas pelo amor de Deus?&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Vamos comer?&lt;br /&gt;O EPICURISTA: Agora o senhor falou a minha língua! Me passe aí esse peru assado, senhor solipsista.&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA: Falou comigo?&lt;br /&gt;O ATEU: Não, foi o seu gênio maligno que falou com você mesmo.&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: Ué, senhor ateu? Está acreditando até em gênio maligno agora, é?&lt;br /&gt;O ATEU: Não te conheço. Quem foi que te convidou?&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: O filósofo da comunicação.&lt;br /&gt;O ATEU: Ué? Agora até burro pode participar dos banquetes filosóficos?&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Quem disse que o senso comum é burro?&lt;br /&gt;O ATEU: É sim. Quer ver? Ei, senso comum? Você acredita na existência de Deus?&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: ô.&lt;br /&gt;ATEU: Viu?!&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: E quem disse que acreditar na existência de Deus é sinônimo de burrice?&lt;br /&gt;O ATEU: Eu.&lt;br /&gt;O FILOSOFO DA COMUNICAÇÃO: Olha, não vou discutir sobre isso com você. Esta discussão, aliás, é retrógrada, já passou. Ficou lá na Idade Média e Moderna. Os assuntos são outros. O senso comum, igual esse sujeitinho que aqui conosco está, é mais esperto do que todos nós juntos...&lt;br /&gt;O ATEU: Ah, é?! Então me prove!&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Eu mesmo nunca vi esse sujeitinho nem mais magro e nem mais gordo. Nem na Grécia, nem na França nem muito menos na Alemanha. Ele se aproveitou da minha filosofia e aqui entrou, sabendo que se eu expulsá-lo estarei caindo em contradição performativa!&lt;br /&gt;O FILOSOFO DA LIBERTAÇÃO: Quer que eu o tire para fora?&lt;br /&gt;O REALISTA: Acho bom não. Que ele sirva de exemplo para o solipsista e para o idealista, para verem que enquanto acreditam que tudo é uma idéia dentro de um sonho, quero dizer, que tudo é um sonho dentro da idéia, ah, não sei, para eles verem que enquanto sonham, os espertinhos aproveitam...&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA E IDEALISTA: Ei?!&lt;br /&gt;O EXISTENCIALISTA: Já estou ficando agoniado com essa discussão.&lt;br /&gt;O EPICURISTA: E eu? Viemos aqui para comer ou para filosofar?&lt;br /&gt;O PRAGMATISTA: Os dois. Não podemos viver só da teoria. Como já disse o grande filósofo, primeiro comer, depois filosofar.&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: Primeiro viver, e não comer.&lt;br /&gt;O REALISTA: Estão vendo? Como é espertinho esse senso comum?&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Já estou pensando em abandonar a minha filosofia...&lt;br /&gt;O EPICURISTA: Entra para a nossa...&lt;br /&gt;O ATEU: Ou para a minha...&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA: Olhem, enquanto vocês brigam como se fossem donos de partidos políticos, posso, senhores, fazer uma rápida consideração?&lt;br /&gt;TODOS: NÃO!&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA: Ei, até você, filósofo da libertação, me excluindo?&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Você é pobre, é? Não é. Você é um europeu burguês. O europeu burguês é a causa da desgraça dos latinos americanos. A minha filosofia é: liberte o pobre. Inclui o pobre, por amor a Javé!&lt;br /&gt;O IDEALISTA: Ih, lá vem ele com esse papo de Deus judaico...Você precisa se decidir, filósofo da libertação, se vai ficar com a Filosofia ou se vai ficar com a Teologia...&lt;br /&gt;NIILISTA: Olha aqui, senhor filósofo da libertação, se é que existe uma verdade, a verdade é que aqui é um banquete, não um salão da igreja.&lt;br /&gt;REALISTA: Agora eu gostei! É bom saber definir as coisas... O que é e o que não é! Se não, daqui a pouco o senso comum aí sairá daqui falando que o nosso banquete na verdade era uma reunião de terroristas.&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: E não é?&lt;br /&gt;O ATEU: Viram? Vão acreditando em Deus, em explorados, em coitadinhos, em prisioneiros do sistema para vocês ver...&lt;br /&gt;O IDEALISTA: Come um pouco, ateu. Aqui tem uns doces. Quem sabe adoça a sua vida...&lt;br /&gt;O EXISTENCIALISTA: Eu sei porque ele anda assim, desse jeito, revoltado com a vida... O ateu não está conseguindo mulher, é isso!&lt;br /&gt;ATEU: Ô existencialista?...&lt;br /&gt;O EXISTENCIALISTA: Diga?&lt;br /&gt;O ATEU: Em qual centro de macumba você anda freqüentando, hein?&lt;br /&gt;O EXISTENCIALISTA: No centro de macumba da sua mãe, ateu hipócrita.&lt;br /&gt;O FILOSOFO DA COMUNICAÇÃO: Epa, acho melhor vocês dois entrarem num consenso, num acordo, e parar de brigas, porque assim dá congestão, não é senhores?&lt;br /&gt;O REALISTA: Fora que discutir aumenta a pressão arterial, força as glândulas da garganta...&lt;br /&gt;O EPICURISTA: Vamos comer ou não?&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Qual é a pressa? Esse banquete não é uma homenagem ao banquete de Platão? Está lá no livro que esse banquete durou três dias e três noites! E que Sócrates bebeu e comeu por esses três dias sem cair no chão, como caíram os demais...&lt;br /&gt;O NIILISTA: Estão vendo a ingenuidade deste filósofo, não estão? Acredita em tudo... Por isso que lá em casa eu não deixo filho meu chegar perto da Bíblia! Porque dá nisso aí que vocês estão vendo...&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Você quer que eu te parto a cara?&lt;br /&gt;O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Antes, tentem um acordo.&lt;br /&gt;EPICURISTA: Deus do céu! Nunca mais me chamem! Por isso que prefiro virar as costas para o mundo. Vamos desfrutar e filosofar com amor ou vamos discutir que nem o gênio do solipsista gosta?&lt;br /&gt;O SOLIPSISTA: Ei, não tenho nada a ver com isto não! Nem meu gênio maligno. Não é, gênio?&lt;br /&gt;O SENSO COMUM: é.&lt;br /&gt;TODOS: Cala a boca!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;COMO VENCER NA VIDA.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou um escritor de livros de auto-ajuda; e se fosse, com toda certeza jamais seria um best-seller. Isto porque sou um desses sujeitos insuportáveis que só fala a verdade, somente a verdade, nada além da verdade; enquanto que a maioria destes best-sellers tende para o ilusionismo, inventado mil teorias de como ficar rico. São todos uns mercadores de ilusão, não passam disto. Aliás, se fosse seguir o conselho deles, até hoje seria um josé-ninguém na vida, e não teria tudo o que tenho, que é muito.&lt;br /&gt;Mas, de qualquer forma, vou contar aqui o verdadeiro segredo de COMO VENCER NA VIDA. Para isso, vou começar do início, a contar primeiramente como era a minha vida. E sabe como ela era? Uma verdadeira merda, literalmente – quem hoje me vê assim, levando uma vida farta e rica; andando de carrão do ano que muitos doutores por aí gostariam de ter; morando num duplex que jamais algum dos meus parentes moraram; viajando para lugares onde só os magnatas e desembargadores podem viajar; não acredita o quê um dia fui nesse meu passado fétido e nojento...&lt;br /&gt;Tudo começou quando uma fossa lá em casa entupiu. Eu não tinha dinheiro, meu irmão não tinha dinheiro, a minha mãe não tinha dinheiro algum para chamar um desentupidor de fossa. E; como eu era o único desempregado dentro de casa, com tempo e energia suficiente para ao menos tentar resolver o problema, resolvi arriscar; pois pelo menos assim estava fazendo alguma coisa, sendo útil, e não um vagabundo, desses que só porque não conseguem um emprego deixam de fazer tudo, inclusive tomar banho...&lt;br /&gt;Quem ficou do meu lado nessa decisão de eu mesmo desentupir a fossa de casa foi um vizinho, amigo meu. Descendente de japonês, o homem. Ia me ajudar, mas sem meter a mão na merda. A sua ajuda iria ser apenas verbal. E lá fui eu... Abri a tampa da fossa, senti o fedor nojento, enfiei o arame cano à dentro, puxei, enfiei novamente, e assim fiquei, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Até que de repente, senti um gosto estranho na boca, e vi que havia engolido merda. Cuspi, quase chorei, resolvi que era melhor parar, deixar tudo como estava; mas Ricardo não deixou: se você é homem mesmo, de verdade, com cabelo no saco e tudo o mais, vai até o fim!&lt;br /&gt;Eu já estava cansado de fugir dos desafios, dos outros passarem por cima de minha honra; e por isto, decidi que ia desentupir àquela fossa nem que isto me custasse mil anos, a fim de provar para esse japonês quem era o homem de verdade ali! Fiquei furioso, enfiei o arame com raiva, puxei; enfiei novamente, e fiquei assim, nesse vai e vem, tirando a sujeira, até conseguir. Era um fedor insuportável. De vez em quando, engolia fezes. Cuspia, tentando me livrar do gosto horrível. Mas não havia jeito: uma vez que você acaba comendo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo; e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravada na gente como que para sempre.&lt;br /&gt;Agora, imagina conviver com esse gosto por vários dias seguidos, várias semanas, anos. Foi assim comigo. Depois desse dia, em que finalmente conseguir resolver o problema da fossa lá em casa, começou aparecer serviços deste tipo para mim. Até hoje desconfio que foi o Ricardo quem me indicava – ele fala que não. Vinha gente de toda a vizinhança, pedindo-me para desentupir fossa. Então, lá dava eu, um recém formado em Administração de Empresas, com diploma debaixo do braço desentupindo fossa de gente que não sabe o que é uma universidade, o que é uma mensalidade da universidade, o que é a vergonha quando não se está em dia com eles.&lt;br /&gt;E você até pode dizer: alguém formado em Administração de Empresas jamais iria desentupir fossas para sobreviver. E eu direi, com todo o respeito: em que país ou mundo você vive? Diploma não é mais garantia de nada hoje em dia, e assim como uma boa parte dos brasileiros que conseguem cursar um nível superior com muito esforço, eu estava encontrando dificuldades também para arrumar o meu devido e merecido emprego, o qual estava lutando já há dois anos para obtê-lo, entregando currículo em tudo quanto era empresa que via pela frente.&lt;br /&gt;Merda de vida era essa minha vida de desentupidor de fossas. E; como o emprego podia esperar mas o dono da casa que cobrava o aluguel não, aceitava desentupir fossa até dos meus inimigos e dos que tinham inveja de mim. Eu dei muito desse gostinho para eles. Mas cobrava caro, é certo. Se queria, queria; se não queria, chamassem outro. Então eu ia, metia a mão na merda, na fossa, nos canos sujos de graxa, óleo, comida, em toda aquela gosma feia e asquerosa, e concluía o serviço como quem termina um trabalho pesado, como quem se livra de um funcionário preguiçoso.&lt;br /&gt;Por um lado, até que era bom; pois, sentia uma satisfação enorme, um orgulho muito grande quando dava conta do recado. O único problema é que o cheiro de merda não saia de jeito nenhum de minhas roupas, do meu corpo, do meu nariz. A minha mãe, sempre que me via sofrendo em cima do tanque, tentando à todo custo tirar o cheiro das fezes em minhas vestes,  me perguntava, com aquela cara de sofredora, de quem tem piedade, dó, compaixão, se não era melhor eu parar com tudo aquilo.&lt;br /&gt;As mães sempre são as primeiras a querer nos tirar do sofrimento merecido. Já os pais de verdade não: ver os filhos pegando no pesado, encarando todo tipo de desafio, é motivo para orgulhar-se consideravelmente. Quanto aos amigos e mulheres, sempre saem de perto quando vêem um homem na merda. O único amigo que ficou do meu lado foi o Ricardo, este meu vizinho descendente de japonês. Isto porque ele foi lá para o Japão e aprendeu a dar valor para todo e qualquer trabalhador: lá no Japão teve que transformar-se em dois, três, quatro, para no fim das contas não voltar rico para o Brasil, como imaginava que iria voltar.&lt;br /&gt;– Voltei é com o nervo ciático todo fodido.&lt;br /&gt;De tanto apertar parafuso de roda de carro na indústria onde trabalhava, com o passar dos anos a coluna e o nervo ciático do Ricardo ficaram comprometidas. Ele não podia inventar de agachar um pouco que, se bobeasse, não conseguia levantar novamente, porque o corpo não obedecia. Então ele ficava agachado por horas seguidas, de cócoras, até conseguir levantar. Era um sofrimento dos diabos, ele dizia. Mas homem que é homem não foge da luta; e eu, portanto, não podia fugir da merda.&lt;br /&gt;E quanto mais fossa desentupia, mais currículo eu deixava nas empresas. Não podia ter um tempinho de folga para andar pela cidade, conversando com os empresários, com os industriais, com toda essa gente. Era sempre a mesma conversa: quando aparecer uma vaga, te chamo. E então eu esperava. Ficava alegre por uns dois dias, crente que desta vez iam me chamar. Mas passava um dia, dois, três, uma semana, um mês e nada!&lt;br /&gt;Eu ficava enfezado com isto, mais nervoso que um homem sem amor. Nas minhas orações, eu blasfemava. Ajoelhado eu dizia: é isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti? Deus parecia um surdo, um cego, um mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com a merda. Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedendo, com cigarro do Paraguai na boca, encardido. Eu havia me transformado num miserável, isso sim. As mulheres bonitas, se me viam de um lado da rua, passavam para outro, a fim de me evitar, de passar perto. Só não tinham nojo de mim as feias, as gordas, as desdentadas.&lt;br /&gt;De vez em quando, tomava um banho de uma hora mais ou menos, passava um perfume, vestia uma roupa limpa, e saia para algum lugar, a fim de arrumar uma namorada bonita. Mas era incrível. Parecia que elas sabiam quem eu era. Não podia nem chegar perto para ser repelido! Até hoje eu fico pensando: como elas conseguem saber que um cara está na merda? Intuição feminina?! É isso?! O jeito era apelar para as feias. Essas me aceitavam na mesma hora.  Me chamavam para dançar, me apresentava para as amigas.&lt;br /&gt;Depois, elas mesmas faziam questão de me levar para debaixo de uma árvore escura, em alguma rua deserta. Ou então, quando por um milagre tinha dinheiro sobrando no bolso, para um motel. Agora, eu te pergunto: não era motivo para desistir da vida? Eu não era feio, nem burro. Eu era apenas um azarado, um desgraçado, um excluído, um Zé Ninguém que não pode ter uma oportunidade para subir na vida, mesmo com um diploma na mão. Eu era um rapaz bonito, inteligente; mas que por ironia do destino, estava na merda, desentupindo fossa.&lt;br /&gt;Todos no bairro sabiam disso. Alguns até que aprovavam: é isso mesmo, José, temos que trabalhar, não importa no quê; mas, a maioria dizia, eu sei que dizia: olha lá, um rapaz tão novo, com dentes brancos, rosto bonito, olhos azuis, formado, e desentupindo fossa... O que será desse nosso Brasil? Ter diploma não mão não é mais garantia de nada, do que adiantou ele ter estudado tanto?&lt;br /&gt;Em quase nada.&lt;br /&gt;Tanto é que não tenho orgulho nenhum da minha juventude. Quando vou à casa de algum amigo rico, e lá está ele sorrindo na foto, abraçado com uma garota bonita, ou com a roupa da formatura ou atrás de alguma mesa de escritório, todo orgulhoso, logo fico de mau humor, e nem toco no assunto.&lt;br /&gt;Mas, o pior de tudo mesmo era nos finais de semana, na casa de meus avôs, onde me encontrava com os parentes todos. Meu avô era o primeiro a me humilhar na frente de todo mundo, dizendo que eu não tinha fé; que eu era burro; e que um burro tem que acabar mesmo desentupindo fossa, na merda. As minhas tias, junto com a minha mãe, me protegiam, falavam por mim, porque eu não queria magoar o meu avô; não queria dizer para ele eu posso até estar desentupindo fossa agora, mas não estou pedindo nenhum dinheiro para você, nem um centavo. E além disso, tinha vontade de dizer: o dia que eu ficar bem, vou continuar te amando do mesmo jeito; tanto você quanto todo mundo presente aqui.&lt;br /&gt;Isto porque meus tios, meus primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim. Certa vez, um deles, que mal sabia falar, me disse: você é um derrotado. Eu perguntei: o quê?! Um derrotado. Quem disse isso para você?, perguntei, embasbacado. Meu pai, respondeu o menino. Guardei isso para mim. Por vários dias, enquanto desentupia fossa e engolia merda para sobreviver, lembrava dessas palavras vinda de um sobrinho. Foi quando decidi sair da merda sem esperar por um emprego como administrador. Passei a guardar dinheiro, a cobrar um pouco mais caro pelos meus serviços, e pensar num negócio para abrir.&lt;br /&gt;Um restaurante? Uma pizzaria? Uma loja de sapatos? Uma sorveteria? Pensei, refleti, e veio a ideia de montar uma auto-fossa, já que eu estava no ramo e entendia muito bem como tudo funcionava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos; prosperei; comprei carro, casa, viajei, conheci tudo quanto é tipo de mulher, de vinho – de Carbenet Sauvignon ao Vinho do Porto. Fiz amizades com quem jamais imaginava que um dia iria fazer; me tornei amigo de alguns homens mais ricos do Brasil e do Mundo. Fui feliz, e casei.&lt;br /&gt;Tive dois filhos. E por mais que eu tenha dinheiro para fazer o que quiser; inclusive rasgar e jogar no lixo, não facilito nenhum pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas ofereço oportunidades. Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha companhia, a fim deles comerem merda que nem o pai e aprender a dar o valor no meu e no dinheiro deles; depois, dou as oportunidades boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham. E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo de COMO  VENCER NA VIDA é esse. Encarar a merda da vida, pegar o que ela nos oferece, e fazer dela algo melhor... Ou não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;ZÉ CARLOS E A LITERATURA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elias, o grande – não o da Bíblia, mas o daqui da minha cidade – achou engraçado quando soube que o namorado de uma de suas netas queria ser escritor. Ele também desejou isso, na inocência de sua juventude. Mas só foi ver como era a vida dos escritores para logo em seguida pegar os seus dois romances, um livro de contos, um de poesia e tocar fogo.&lt;br /&gt;– Tocou fogo, Elias?&lt;br /&gt;– Toquei.&lt;br /&gt;– Por que?&lt;br /&gt;– Por que, por que... Você sabe que o fogo e o divino estão muito próximos, não sabe?&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– Pois então. Foi uma forma de exorcizar. De não sair perdendo. De esquecer os dez anos de erro. De tudo o que deixei de fazer, de ganhar, de viver por um troço que não trás felicidade a ninguém.&lt;br /&gt;– Tem escritores que são felizes, Elias.&lt;br /&gt;– Quem?&lt;br /&gt;– Sei lá. Algum.&lt;br /&gt;– Não conheço...&lt;br /&gt;Eu também não conheço. Está aí uma coisa difícil de ver: um escritor feliz... Mas, voltando à estória: Elias, o grande. Nos domingos, a família aparece, para o almoço. E num desses domingos, uma de suas netas trouxe o namorado, Zé Carlos. Foi; mas por insistência da namorada, porque a sua vontade mesmo era a de ficar na frente do computador, trabalhando no livro que estava escrevendo. Na primeira oportunidade que teve, Elias sentou ao lado dos dois.&lt;br /&gt;– Trabalha?, perguntou ele, para Zé Carlos.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Onde?&lt;br /&gt;– No cartório de meu pai.&lt;br /&gt;– Ouvi dizer que você é escritor...&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Eu, quando era jovem, era metido a escritor também.&lt;br /&gt;– Vô! – disse a namorada, lhe censurando.&lt;br /&gt;– Era? Interessante. A conversa começou a melhorar. Pensei que o senhor só falava de negócios...&lt;br /&gt;Um consolo: se não estava em casa escrevendo, pelo menos iria falar sobre Literatura.&lt;br /&gt;– Não. Na verdade, não sei. Será que eu falo só de negócios? Para um empresário, o mundo é um negócio. Se falo que viajei, quem escuta pensa que estou fazendo propaganda. E no fim das contas, estou. Querendo ou não, estou. A vida é uma droga, meu filho.&lt;br /&gt;Elias é assim mesmo dentro de casa: brincalhão.&lt;br /&gt;– Daí, meu filho, eu fui vendo as coisas. Vi a vida do escritor, do quanto que ele ganha. E descobri que trabalha-se muito e ganha-se pouco.&lt;br /&gt;– ...&lt;br /&gt;– Sem contar que aparecer na capa de revista famosa só é grandes coisas para os escritores do anonimato e para o possível comprador...&lt;br /&gt;– Vô!&lt;br /&gt;– Calma, minha neta, só estou conversando com o rapaz...&lt;br /&gt;– Pode falar, seu Elias.&lt;br /&gt;– O que eu estava falando mesmo?&lt;br /&gt;– Sobre os escritores.&lt;br /&gt;– Ah, sim. Não vale à pena.&lt;br /&gt;– Vale sim.&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;– Por quê? Por quê?... Oras, Fernando Pessoa já dizia: tudo vale à pena quando a alma não é pequena...&lt;br /&gt;– Ah, é? E você vai dar confiança para um português? Então anota aí. É um brasileiro quem está falando. Para uma alma grande, nem tudo vale à pena, meu filho.&lt;br /&gt;Imerso no mundo das idéias, ficou preso na frase de efeito; enquanto ele, o seu Elias, o grande, o magnífico, o conhecedor profundo do argumento astuto, com o sorriso paralisado no seu imenso rosto, retirou-se rapidamente, sem chance para a réplica, dizendo:&lt;br /&gt;– Agora, vou deixar vocês à vontade. Fique à vontade, meu amigo.&lt;br /&gt;E saiu de perto.&lt;br /&gt;– Seu avô é engraçado...&lt;br /&gt;– Achou?&lt;br /&gt;– Achei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta época Zé Carlos estava escrevendo um romance que falava sobre o tráfico de drogas na cidade. Foi à fundo. Entrava e saía das bocas de fumo, comprando droga e nunca usando. Jogava fora, nos terrenos baldios. Fez amizade com alguns donos de boca de fumo, com traficantes, foi ao Paraguai três vezes. Os policiais estavam no meio. Não todos; é claro. E nem a maioria, vale lembrar. Mas, estavam no meio.&lt;br /&gt;Num dia, assim que estava saindo da boca de fumo, a polícia apareceu, do nada. Só deu maconheiro e viciado em crack pulando o muro e correndo, inclusive o dono da boca. Zé Carlos foi o único que ficou ali imóvel, paralisado. Quando os policiais colocaram-lhe as algemas, e fizeram uma pergunta para ele, Zé Carlos não conseguiu dizer uma palavra: ficou como que um mudo, um gago...&lt;br /&gt;Ao contrário dos tempos antigos, José não foi jogado na gaiola do camburão: foi no banco da frente. Também, não foi tratado com indiferença: o que estava na direção foi conversando com ele. Na delegacia, o delegado não lhe deu uma surra, nem o torturou. Os tempos são outros. Mas, os procedimentos eram os mesmos: que ele confessasse...&lt;br /&gt;– Confessa, vagabundo!&lt;br /&gt;– Confessar o quê?&lt;br /&gt;– Quem é o dono da boca.&lt;br /&gt;– Eu estou falando que não sei. Que eu só estava ali só pesquisando para escrever meu romance.&lt;br /&gt;O delegado bufou:&lt;br /&gt;– Sei. Romance...  Você viu como ele é cínico, Juarez? – disse ainda para o amigo policial.&lt;br /&gt;– Esse sujeito merece uma surra, delegado. Ou melhor, o que ele merece é ser atropelado.&lt;br /&gt;– Atropelado? Que isso... Delegado, eu te juro. Não uso drogas. Você encontraram comigo algum pacotinho?&lt;br /&gt;– Não encontramos mas nada nos garante que você jogou fora assim que ouviu a policia chegar.&lt;br /&gt;– Então fica difícil eu provar – disse ele, e de repente, intuiu: – já sei. Vocês devem fazer um exame médico antes de mandar alguém para cadeia. Podem fazer em mim. Vocês vão ver que não uso droga nenhuma.&lt;br /&gt;– Vamos fazer sim. Mas não pense que você está livre da cadeia. Vai dormir em cana até que tudo se resolva. E escute bem: você vai ter que falar quem é o dono daquela boca de fumo.&lt;br /&gt;– Já te disse que não sei – falou Zé Carlos.&lt;br /&gt;Antes de ir para cela, Zé Carlos ligou para o pai, pedindo que ele trouxesse seu computador e um advogado. Meia hora depois, apareceram. Encontraram com Zé Carlos atrás das grades.&lt;br /&gt;– Já pagamos a fiança, meu filho. O delegado vai vir aqui antes de soltá-lo.&lt;br /&gt;– Ok.&lt;br /&gt;Dali um pouco o delegado apareceu, e Zé Carlos mostrou as suas anotações no computador. O delegado viu, e acreditando ou não, sabe Deus, disse:&lt;br /&gt;– Que tal fazermos uma troca? Você diz quem é o dono da boca de fumo e eu finjo que nunca te vi na vida. O que acha?&lt;br /&gt;Zé Carlos olhou para o advogado, que disse: fala logo quem é esse vagabundo.&lt;br /&gt;Zé Carlos falou.&lt;br /&gt;Dias depois, começou a escrever o romance. Terminou dentro de dois anos. Para ter uma opinião de fora, deu para alguns profissionais ler: o que ele levou dois anos para escrever não passava de jornalístico.&lt;br /&gt;– Jornalístico?&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Não tem nada de literário?&lt;br /&gt;– Tem.&lt;br /&gt;– Mas?&lt;br /&gt;– Não deixa de ser jornalístico.&lt;br /&gt;Dois anos. Tempo para ter noivado, casado e tido um filho. Ou então, montado um negócio, prosperado, ficado quem sabe quase rico. Jornalístico?! Não há nada pior para um escritor saber que o que ele escreve não é bom. Lembrou-se de Elias. Tocar fogo? Lembrou-se de Cristo: homem sábio este, não ter escrito uma linha! E lembrou-se de Sócrates, outro sábio. E lembrou-se de todas as pessoas que não liam romances, contos, e poesias mas devoravam livros de Direito, Administração, Psicologia, Marketing, Web Designe e auto-ajuda.&lt;br /&gt;O fogo tem uma relação muito próximo com o divino...&lt;br /&gt;Não tocou fogo. Procurou as grandes editoras, foi recusado. Tentou uma na cidade mesmo. Uma editora que estava mais para gráfica do que para editora de verdade. Pagou pela edição. Fez o contrato: eles iam distribuir os livros nas livrarias, fazer propagandas e Zé Carlos ia receber conforme as vendas. Três meses depois, a editora fechou. Todo mundo sumiu, desapareceu. Deram o calote nele e em mais outros escritores. Foi às livrarias, tentar recolher o que era seu. Não conseguiu, porque não tinha a nota.&lt;br /&gt;– Mas quem escreveu essa porcaria de livro fui eu!&lt;br /&gt;– Eu sei. Mas você precisa provar que o direito da venda é sua. Vai atrás do dono da editora e pegue com ele o contrato que fizemos.&lt;br /&gt;– Mas, como que vou atrás dele, se ele desapareceu do mapa?&lt;br /&gt;– Aí eu não posso fazer nada, Zé.&lt;br /&gt;Zé, Zé, Zé: Elias tem razão. Resolveu nunca mais escrever, a não ser no Inferno. Meses depois, enquanto andava tranquilamente na rua, foi abordado por um cara feio, que usava uma jaqueta militar e óculos escuros na cara. Tinha um monte de tatuagens no braço. Sem ter tempo para defender-se, levou um soco bem no meio do rosto. Viu um clarão, e caiu na calçada.&lt;br /&gt;– Toma! Escritor, né? Como foi cair na sua, seu filho da puta! – foi dizendo ele enquanto chutava Zé Carlos.&lt;br /&gt;– Para, para, para. Vamos conversar, meu amigo!&lt;br /&gt;– Não tenho amigo acagüete.&lt;br /&gt;Levou chute em tudo quanto é lugar, desmaiou. A ambulância apareceu e o levou para o Hospital, onde ele ficou internado na UTI, em coma. Duas semanas depois, recebeu alta. Em casa, pensou em escrever sobre essa sua experiência, quero dizer, tudo o que lhe aconteceu quando decidiu ser escritor, quando decidiu falar sobre o tráfico de drogas...&lt;br /&gt;Por pouco não cedeu, diante do erro. Viver é preciso, escrever não. Foi até à namorada, neta do Elias, o grande, pedi-la em casamento. Aproveitou a ocasião e esboçou um projeto  para o avô dela. Era uma empresa de fest food, que iria acabar com o Bob’s e o MacDonald’s. Elias, o grandíssimo, o maior, o empresário dos empresários, disse que ia pensar na idéia. Semanas depois, Zé Carlos casou. Um ano após, teve um filho. Hoje trabalha para Elias. Sempre que pode, fala do projeto. Mas Elias sabe que superar o Bob’s e o MacDonald’s é impossível, ainda mais aqui no Brasil...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;SEMINÁRIO DIOCESANO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entrei para o seminário com outra intenção a não ser um santo; ou melhor, um padre santo. A primeira dificuldade que tive nesta minha luta espiritual foi quanto aos votos: no seminário diocesano só havia dois, o de celibatário e o de obediência. O quê era muito pouco; pois, assim sendo, o padre diocesano só não pode casar e desobedecer ao bispo; do resto, pode tudo, inclusive ter empregada doméstica na casa paroquial e secretária bonita na paróquia.&lt;br /&gt;Eu não queria isso de maneira alguma para a minha santidade. Eu queria, além dos votos do celibato e de obediência, fazer os de castidade e pobreza. Perguntei ao bispo se isso era possível, quando na minha ordenação sacerdotal. Respondeu-me que não, mas que eu poderia fazer os votos direto com Deus; que eu podia muito bem ser um desses religiosos que negam a condição humana e não bebe uma gota de álcool que já acredita que está condenado ao inferno.&lt;br /&gt;Que isso, bispo, foi o que eu falei. Ele, por sua vez, sorriu, perguntando-me se eu não gostava de brincadeiras. Deixei passar. E já que não podia fazer meus votos oficialmente, faria entre eu e Deus apenas, sem testemunhas. E assim, toquei a minha vida de seminarista para frente, encontrando outras dificuldades. A segunda; vale dizer, foi a da completa degradação dos seminaristas, que estavam ali no seminário apenas para mamar nas tetas da Igreja e praticar sexo entre eles, numa homossexualidade de fazer inveja a qualquer gay bem resolvido e safado.&lt;br /&gt;Aliás, não há outro lugar melhor que um seminário religioso para um gay: ali ele terá um monte de seminaristas com a mesma opção sexual que a dele; e, ainda por cima, sem trabalhar terá duas faculdades, comida e roupa lavada de graça, com o único dever de não causar grandes escândalos na comunidade religiosa. Ora, a comunidade religiosa é nada mais nada menos que a pastoral, aonde todos os finais de semana íamos, de dois em dois, para dormir na casa dos fiéis.&lt;br /&gt;Não vou entrar em detalhes no que acontecia nas pastorais, para não fazer abrir a boca do leitor, para não deixá-lo pasmo e perplexo. Ficamos, pois, somente dos portões do seminário para dentro, os quais os seminaristas viviam pulando, depois da meia-noite. Os que eram homossexuais, viviam as suas homossexualidades pelos quartos; os que não eram homossexuais, viviam revoltados e bêbados.&lt;br /&gt;Mas é claro: tudo à surdina da noite, quando o reitor e os padres iam dormir. Então, eu me indignei e contei tudo para os meus superiores: fulano faz sexo com beltrano; que por sua vez faz com cicrano; que por sua vez faz com o primeiro, qual é o nome dele mesmo? Fulano. Isso, com fulano. Agora, quem não faz sexo com ninguém, dorme bêbado quase todos os dias; o alcoolismo aqui está beirando à loucura, reitor!&lt;br /&gt;– Mas, todo mundo está bebendo?&lt;br /&gt;– Exceto os que estão aqui apenas para estudar.&lt;br /&gt;– E os que estão aqui só por causa da boa vida?&lt;br /&gt;– Esses sim, estão bebendo e se amando.&lt;br /&gt;– E por que você não faz o mesmo?&lt;br /&gt;Eu só não dei uma de João Batista porque ainda não me considerava um santo perfeito. E também, porque quando fui falar com ele sobre todas essas calamidades, já estava em pecado, na condição de fofoqueiro. Em vez disso, engoli o desaforo e fui falar com Deus, pedindo justiça.&lt;br /&gt;E a justiça divina veio; entretanto, ela nunca é da maneira que queremos. Dias depois, lá estava eu, sendo perseguido pelos padres formadores: bom dia, puritano, como vai? Boa tarde, moralista, tudo bem? Já se castrou hoje?&lt;br /&gt;Eu só não saía na briga porque meu Deus prega o perdão e a misericórdia: se não fosse isso, partiria a cara deles no meio. Deixei para lá: o Inferno dava um jeito neles todos. E assim fui indo, denunciando sempre que podia. O engraçado é que eles nunca se esqueciam de me perguntar se eu era um ser humano. Eu falava que sim, e eles diziam: não parece...&lt;br /&gt;Foi quando finalmente a minha vida de santo chegou ao fim. Eu estava lá na capela, fazendo as minhas orações, meditando, conversando com Deus quando de repente me chamaram na reitoria. O reitor, ao me ver, pediu para sentar na cadeira em frente à mesa dele. Sentei, e ele começou a falar, rodeando, para finalmente chegar à razão daquela conversa mole e fiada: Augusto, você está expulso.&lt;br /&gt;– Expulso? Como assim?&lt;br /&gt;– É que nós estamos olhando o seu comportamento e vimos que você não tem vocação para o sacerdócio.&lt;br /&gt;– O que eu não tenho é vocação para a putaria, isso sim.&lt;br /&gt;– Viu? É melhor para você. A sua vocação é para ser religioso. Até fizemos uma carta de recomendação para as comunidades religiosas. É só escolher: você pode ser franciscano... jesuíta, salesiano...&lt;br /&gt;– Reitor?&lt;br /&gt;– Diga, meu filho.&lt;br /&gt;– Posso te fazer uma pergunta?&lt;br /&gt;– Faça.&lt;br /&gt;– E lá? É a mesma coisa que aqui?&lt;br /&gt;– Você quer mesmo que eu responda?&lt;br /&gt;– Não, não – eu disse, saindo; e fui embora, para nunca mais pisar no chão de um seminário religioso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;IRMÃ NOVA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que Juarez tinha ciúme doentio pela irmã de dezessete anos, tão nova quanto bela. Nem de que havia ajudado a criar com tanto amor e zelo para depois um malandro ou outro vir e colocar tudo a perder. O que Juarez não queria era que a irmã ficasse grávida de um moleque vagabundo que nem condições de criar a criança tem; e depois, cair tudo em suas costas, ou melhor, nas costas de sua família.&lt;br /&gt;Por isso, levava e trazia a irmã para onde ela queria ir. Levava e trazia a mocinha da escola, que lhe tratava mal na frente das colegas. Se tinha festa para ela ir, ia junto. Se havia um show do Bruno e Marrone, ia junto. Se era a estréia de um filme muito famoso no cinema, ia junto. Ia junto até no mercado, na soverteria. Era o sapato da mocinha, o guarda-costas vigilante, a pedra de tropeço para as suas ilusões e namoros.&lt;br /&gt;Mas, não teve jeito: a menina estava apaixonada; falou com a mãe, o rapaz veio em casa, pediu a mão, jurou respeito, eterno amor e todas essas ridicularidades própria dos apaixonados com menos de dezoito anos.&lt;br /&gt;– Tudo bem, ok, se amam? Se se amam de verdade, o Juarez podia vigiar...&lt;br /&gt;Juarez fumava.&lt;br /&gt;Levava a irmã na casa do rapaz e ficava de longe, vigiando e fumando. Havia vezes que fumava cinco cigarros durante o namoro. E dispensava os cuidados da mãe do rapaz.&lt;br /&gt;O rapaz tinha uma irmã, de dezoito anos. Era bonita. Gostava do Juarez, achava ele engraçado, e um pouco bobão no começo. Com os outros rapazes, era recatada. Com Juarez, cheia de ironias, de provocações: por que você fuma tanto? Não faz mal para a saúde, Juarez? Como é que a namorada agüenta? Não tem namorada? Também, vive em cima da irmã, como é que vai arrumar uma? Você já terminou os estudos, Juarez?&lt;br /&gt;– Já.&lt;br /&gt;– E não trabalha?&lt;br /&gt;– Só de manhã.&lt;br /&gt;– Que vida boa, hein, Juarez?&lt;br /&gt;– Estudei. Passei no concurso. Quem estuda e passa num concurso não pode ter a vida ruim. E você, estuda? Trabalha? Faz o que da vida?&lt;br /&gt;– Só estudo.&lt;br /&gt;– Que vida boa, hein, menina?&lt;br /&gt;Com o tempo, foi pegando raiva de ser chamada de menina. Falava-lhe: pare de me chamar de menina como se você fosse um velho; porque velho você não é! Juarez ria. Mas não dava confiança. Pelo contrário: desconfiava de Laurinha. Para ele, ela estava agindo a favor do malandro do irmão, que não podia lhe ver de costas para relar na irmã.&lt;br /&gt;– Ei?&lt;br /&gt;– Que foi?&lt;br /&gt;– Você sabe o que foi. Estou aqui, vendo tudo, que nem coruja. Cadê sua mãe?&lt;br /&gt;– Não precisa chamar ela.&lt;br /&gt;– Então, pare com as mãos.&lt;br /&gt;– Ah, mano, vai caçar o que fazer! Vive enchendo o saco! Ninguém merece!&lt;br /&gt;– Ninguém merece, é? Proíbo esse namoro e você vai ver o que significa merecimento.&lt;br /&gt;– Relaxa, Juarez.&lt;br /&gt;– E você fica na sua, menina!&lt;br /&gt;– Eu já falei para você parar de me chamar de menina!&lt;br /&gt;– E quer que eu te chamo do quê, hein?&lt;br /&gt;O Juarez era um infeliz, um amargurado, que não sabe deixar a vida fluir. Que é que tem de mais, uma mão boba? Convidou o Juarez para ir com ela, a Flavinha e o irmão para o cinema, no shopping. Depois do filme, a parada na praça da alimentação. Ouviu coisas do tipo: você tem que namorar, Juarez; olha o tanto de mulher bonita à sua volta; e pare de reter a vida, para que você acha que existe camisinha e anticoncepcional?&lt;br /&gt;Juarez se enfureceu.&lt;br /&gt;– Dá a sua bolsa, Flavinha.&lt;br /&gt;– Ih..., que é que você quer com a minha bolsa?&lt;br /&gt;– Daqui. Deixe-me ver o que tem dentro.&lt;br /&gt;– Isto é invasão de privacidade, posso te processar.&lt;br /&gt;– Processa, ué? Vai, me passa!&lt;br /&gt;– Não vou passar...&lt;br /&gt;– Não vai, é? Vou fazer um escândalo. Viro a mesa para todo mundo ver.&lt;br /&gt;Flavinha passou a bolsa.&lt;br /&gt;Juarez virou e revirou a bolsa da irmã, sem encontrar nada. Olhou para o Ricardinho. Pediu-lhe a carteira.&lt;br /&gt;– Passa a carteira.&lt;br /&gt;– Prá quê?&lt;br /&gt;– Não interessa o prá quê, rapaz, estou dizendo: passa a carteira.&lt;br /&gt;– Eu chamo a polícia, o segurança.&lt;br /&gt;– Ah é? Você chama a polícia e eu chamo o juizado de menores. Passa logo essa carteira, se você quer continuar namorando a minha irmã.&lt;br /&gt;– Que isso, Juarez?&lt;br /&gt;– E você fica na sua, menina.&lt;br /&gt;Laurinha cruzou os braços, com a cara fechada.&lt;br /&gt;Ricardinho passou a carteira. Revistou. Não tinha nem a sombra de uma camisinha.&lt;br /&gt;– Satisfeito?&lt;br /&gt;– Eu acho bom mesmo que tudo fique assim.&lt;br /&gt;Dias depois, Laurinha jogou-se em seus braços. Ele quase interrompeu o afeto; mas ela lhe abraçou forte, fazendo Juarez sentir seus seios. Eu te amo, ela falou, em seu ouvido. Eu te amo, Juarez.&lt;br /&gt;Dias depois, estavam transando. Dias depois, namorando. Dias depois, estavam noivos. Dias depois, ela estava grávida. Dias depois, a barriga estava crescendo. Dias depois, depois de meses depois, a criança veio ao mundo. Casaram. E a irmã de Juarez, dias depois, continua virgem, mais virgem do que quando nasceu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;DINHEIRO É UMA DROGA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sempre fui viciado em algum tipo de droga: na adolescência, fumava maconha umas duas três vezes por dia; depois, passei para a cocaína, e cheirava de sete a quatorze fileiras diárias. Hoje, já não fumo mais maconha, nem muito menos enfio o meu nariz numa porcaria que pode me matar sem piedade alguma; entretanto, sou um viciado em dinheiro: quanto mais tenho, mais quero.&lt;br /&gt;O mais engraçado de ser um viciado é que achamos que todo aquele que não usa a mesma droga que usamos está completamente errado. Quando eu fumava maconha, só considerava os maconheiros dignos de minha estima. Tanto era que só andava com maconheiros, vivia em roda de maconha, apertando o fumo, puxando, prensando e passando a bola para os meus verdadeiros camaradas. Juntos, a gente ria daqueles que morriam de overdose...&lt;br /&gt;Mas com o tempo fumar maconha passou a ser entediante. Eu fazia um fino e esperava o efeito: só dava bode. Fazia outro, um jamaicano bem grande, e fumava-o inteirinho, e nada! Desconfiei que fosse a maconha. Investiguei. Saí perguntando para os traficantes se a maconha estava em falta; se o que eu estava comprando não passava de fumo vencido. Riram de mim. E para não me deixar em dúvidas, me deram uma maconha boa, com uma porção de bolas de haxixe no meio: quero ver se eu ia reclamar...&lt;br /&gt;Fumava e nada. Nem ouvindo Bob Marley, nem ouvindo Door’s, nem com haxixe, nem transando com uma gostosa, nem em roda de maluco eu conseguia viajar como viajava antes. Foi quando resolvi cheirar cocaína. Aquilo me deu um ânimo violento, uma euforia desgraçada, passei a ficar mais social, mais empolgado, mais divertido, mais animado. Quando vi, os maconheiros não passavam de gente que não sabe viver a vida; que esse negócio de fumar maconha para ficar rindo de tudo é coisa para adolescente com tendência para o devaneio e a loucura.&lt;br /&gt;Com a cocaína veio o vício de ganhar dinheiro, de ser pró-ativo, e toda a filosofia que herdei puxando um fumo – a de que devemos viver com pouco, que devemos amar o próximo como a si mesmo, que precisamos ficar em paz e toda essa conversa fiada de gente que não quer nada com nada na vida eu deixei para eles, os fumeiros: maconheiro é tudo morgado, sem futuro, que fica rindo da vida enquanto outros a levam à sério e a conquistam.&lt;br /&gt;Fiquei viciado em cocaína, e todo aquele que não cheirava era para mim um otário. Mas o vício pelo dinheiro começou a prevalecer: quanto mais ganhava, mais queria viver. E; portanto, não podia perder a vida numa overdose que um dia ou outro sempre acaba chegando para o viciado em cocaína. Larguei o vício, e passei a considerar que todo aquele que enfia o nariz no pó é um sujeito burro, um jumento, para falar logo o português correto. E assim, fiquei viciado em uma única droga apenas: no dinheiro.&lt;br /&gt;E; da mesma maneira que considerava indignos da minha estima quem não fumava maconha, assim como considerava os maconheiros uns morgados quando passei a cheirar cocaína, comecei a desprezar toda pessoa que não gosta de ganhar dinheiro. E não só isso, a persegui-las também. Na minha empresa, se encontro alguém sem ambição, faço da vida dela um inferno. E se ao fazer da vida dela um inferno e a reação não é a que viso, que é ver a pessoa tornar-se ambiciosa, eu a demito, e excluo da minha vida sem remorso algum, sem esquecer-se de antes humilhá-la publicamente, com todo tipo de calúnias e injustiças.&lt;br /&gt;É, a droga do dinheiro faz isso...&lt;br /&gt;Mas o pior é que não pára por aí. Há outro estágio da droga, que está ligada ao problema da desconfiança. Assim como num certo tempo passava a desconfiar de que todo mundo vinha a ser meu amigo só por causa da minha maconha ou da minha cocaína, hoje desconfio de que todo mundo se aproxima de mim por causa do meu dinheiro. Chego a desconfiar que no fundo, no fundo ninguém me ama, nem mesmo a minha esposa e meus filhos: o que eles amam, na verdade, é o meu dinheiro, só isso, e nada mais.&lt;br /&gt;Já os meus amigos, esses são todos uns filhos da puta interesseiros: alguém já viu algum rico falir e às pessoas que se diziam ser amigos continuar em sua volta? A primeira coisa que elas fazem é virar às costas. É ou não é? Parece que o sujeito pegou uma doença pior do que a lepra. Isto, uma lepra. É como se o sujeito virasse, da noite para o dia, um leproso. Um leproso que pode contagiá-los. Que deve ser isolado da sociedade. Que deve ser esquecido. Que quando lembrado a conversa para, o clima fica pesado, e as pessoas batem com o dedo na madeira, dizendo: isola.&lt;br /&gt;Por causa disto, desta minha desconfiança, fui me tornando um homem solitário. Falo pouco com todo mundo, inclusive com a minha mulher e meus filhos. E quando falo; é só para fazer deles pessoas como eu. Que eles devem ganhar, ganhar, ganhar e ganhar o quanto puder. Que o dinheiro dá isso, que o dinheiro dá aquilo, que o homem é o que ele tem, que todos desprezam e humilham os pobres, os fracassados, os falidos, os perdedores na vida. Contudo, uma coisa eu não digo para eles, ocultando direitinho. E o que não digo é: o dinheiro, meus filhos, é uma droga, uma verdadeira droga...                                                            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;ISRAEL&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem todos os casamentos são sagrados, Israel, eles até podem ter passado pelos sacramentos, recebido a benção do sacerdote, se exibido para umas cem a duzentas pessoas que compareceram na festa; mas, de sagrado não tem nada, nada mesmo.&lt;br /&gt;Israel, se você se encontra pobre aí onde está, e de repente uma mulher bonita, jovem, rica e solitária começar a te dar mole, não crie fantasias, achando que agora você vai casar; que achou a pessoa certa; que vai ficar rico. Desconfie primeiro. Ela pode ser mulher de um homem rico.&lt;br /&gt;Israel, a fidelidade é algo muito bonito que acontece somente nas famílias dos pobres. Com os ricos as coisas são diferentes. Um dia você vai ser rico, quero dizer, se continuar desse jeito que você está, trabalhando e investindo, você vai ser rico e vai saber o que estou falando. Você vai ver que ser corno é como dentes bem cuidados: nunca dói.&lt;br /&gt;A única coisa que dói num rico, Israel, é o seu bolso, quando leva prejuízo. Se um dia você ver algum homem de posses bebendo, enchendo a cara, não pense você que ele deve estar aborrecido porque morreu alguém ou porque levou chifres da esposa: quando um homem de posses bebe, Israel, é porque ele perdeu dinheiro.&lt;br /&gt;Israel, caso você encontre uma jovem bonita e solitária que mesmo casada se diz apaixonada por você, não caia na besteira de pensar que ela pode trocar toda a riqueza do marido por um homem interessante, bonito mas pobre. Você não é mais criança, Israel, para acreditar em contos de ficção, ou é?&lt;br /&gt;Também, Israel, nunca desrespeite o corno. Nunca se ache melhor do que ele só porque está comendo a sua esposa. Nem sinta-se um justiceiro, ou um vingativo, dizendo eu posso ser pobre, mas levo para a cama as mulheres dos ricos. Não caia nesta besteira. Ele não precisa saber que você o ajuda; que você faz o bem para ele, pois é isto o que você faz, o bem.&lt;br /&gt;Pesquisas comprovam, Israel, e por isso que gosto muito da ciência, que noventa e nove por cento das pessoas que traem dizem que a relação conjugal volta a ser como antes. É como se a traição renovasse a energia sexual do traidor, compreende? Eu poderia falar os mistérios que estão por detrás disto, mas tenho medo de você não poder entender; mas, na sua linguagem, entrando no seu universo, posso te dizer:&lt;br /&gt;Você come arroz e feijão todo dia, não come?&lt;br /&gt;Então.&lt;br /&gt;Comer arroz e feijão todo o dia, por mais que se use temperos diferentes, acaba enjoando. Assim, você precisa comer uma coisa diferente, não precisa? Algo que te encoraje a aceitar todos os dias o seu arroz e feijão que você come. E assim, sem perceber, você acaba até comendo o seu baião de dois com mais gosto. É o que acontece com o homem ou com uma mulher depois da traição...&lt;br /&gt;Escuta, oh Israel, não seja moralista, nem puritano, achando que o quê é certo tem que ser absolutamente certo, e o que é errado é errado. Não entre no jogo do sim é sim e não é não. Diga sim e não ao mesmo tempo. Não fique com este ou aquele, mas fique com este e aquele, Israel.&lt;br /&gt;E quando você ficar rico, e de repente um pobre comer a sua mulher, não dê importância, pois ele está lhe fazendo um favor, um bem; antes, guarde as suas energias para cuidar de suas financias, Israel, porque é este o único motivo justificável para um homem rico derramar suas lágrimas, o único!, oh Israel...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;PALHAÇOS&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa eu tinha comigo: não iria falir por causa do mau atendimento de meus funcionários. É sempre assim: o sujeito ganha o emprego, trabalha um mês contente e depois começa a fechar a cara ou por isto ou por aquilo. Daí então começamos a exigir do fulano, ver se ele melhora. Mas toda vida é a mesma coisa: vira-se às costas e eles fecham a cara.&lt;br /&gt;Ora, o movimento do meu comércio estava caindo drasticamente. Passei a ter insônia, pesadelos, e medo do futuro. Virava e revirava na cama, pensando em algo para reverter essa minha situação dramática. Eu ia falir se não fizesse alguma coisa. Rezei, mas de nada adiantou. Foi quando – após ter a essa brilhante idéia – decidi vestir todos os meus funcionários de palhaço: quem quisesse assim, ok; quem não quisesse, a porta da rua era a serventia da casa.&lt;br /&gt;Todos ficaram, exceto um orgulhoso, que de repente revelou ter ensino superior completo: quem até então tinha apenas o segundo grau, agora era alguém formado e com diploma na mão, capaz de conseguir um emprego na área em que se formou, onde não iria precisar desempenhar a função de palhaço para cliente algum rir da cara dele. Eu falei tudo bem; é você quem manda chefe, e aceitei a sua demissão.&lt;br /&gt;Fora este; todos se vestiram de palhaços. No começo até que era aquela diversão; mas, como sempre, logo alguns começaram a ficar tristes. E eu não queria palhaço triste no meu estabelecimento comercial de maneira nenhuma! Por isto, quando via um neste estado, logo falava: eu nunca vi palhaço triste nem muito menos entediado, sorria, filho da puta! É claro que eu não usava este termo tão grosseiro. E então, lá davam eles, sorrindo feitos idiotas.&lt;br /&gt;O público gostou. O movimento em meu comércio deu uma reviravolta. E graça aos palhaços, não fali. Pelo contrário, estou ficando cada vez mais rico. Mas; o mais engraçado de tudo isto foi à conseqüência desta minha ação. Teve um que se descobriu: a minha vocação, chefe, é ser palhaço de verdade; quero dizer, de circo mesmo, muito obrigado, e pediu as contas – dias depois, ingressou numa companhia circense, e lá está até hoje, fazendo sucesso representando um palhaço que tira sarro da cara do patrão.&lt;br /&gt;Tive uma surpresa com outro; isto é, com o Flávio. Ele era um funcionário apagado, apático; que, depois de ser palhaço mostrou-se uma pessoa de valor inestimável aos meus olhos. Do dia para noite ficou inteligente, responsável, conselheiro, cheio de idéias para o progresso da minha empresa. E isso sem me apresentar caminhos em que seria obrigado a investir alto, correr riscos. Não hesitei, e nomeei-o ao cargo de gerente. Hoje, para quem andava de ônibus, tem carro, casa, veste-se e come bem.&lt;br /&gt;Aliás, foi ele quem me deu a sugestão de fazer a experiência de vestir-se também de palhaço. Você vai gostar, chefe, vai ver a vida com outros olhos, além de passar a idéia de que não é um patrão perverso que gosta de divertir-se à custa dos funcionários. Aceitei a sugestão, e passei a trabalhar como ele falou. Desde então, aprendi a rir de mim mesmo, coisa que raramente fazia, devido ao meu orgulho maldito. E mais que isso: aprendi a aceitar de bom grado os risos dirigidos à minha pessoa, uma vez que sendo palhaço todo mundo ria da minha cara com gosto.&lt;br /&gt;Renovar é tudo, eis a minha melhor lição. Contudo, não posso dizer que só me surpreendi com maravilhas: quem eu tinha como braço direito, depois da obrigação de se vestir de palhaço passou a ser o primeiro a me desprezar e falar mal de mim fora de minha presença. Me decepcionei muito com certas pessoas, e não cabe aqui nem falar nomes. Já outros, de obedientes passaram a ser rebeldes, de modo que tive de mandar muita gente embora. Foi quando concluí, de uma vez por todas, que o orgulho é realmente uma desgraça, que a humildade fica em primeiro lugar e acima de tudo...&lt;br /&gt;(Ah.., estava me esquecendo: quanto ao sujeito diplomado, dias atrás o encontrei na rua, ainda desempregado...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;JOANA, A LOUCA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos aqui sabem por qual motivo Joana ficou louca: virgindade. Ela; que não casou, enlouqueceu aos trinta anos, coisa que jamais teria acontecido se o nosso falso moralismo interiorano não existisse. É claro que a sua personalidade ajudou um pouco: era um tanto sonsa, coitada. Mas isso também tinha culpados: os pais – se eles não a tivessem prendido tanto, desde quando ela se tornara moça, muito provavelmente ela chegaria pelo menos no patamar de mulher educada, oras.&lt;br /&gt;Joana, por essa razão, vestia-se como a mãe, falava como a mãe, comportava-se tal qual. E sendo filha de mulher tapada, que não sabe se vestir, não sabe falar e muito menos se comportar com alguma elegância ou sensualidade, acabou assim, vestindo saias cumpridas e blusas bem tampadas, respondendo tal qual bicho do mato as perguntas de seus possíveis pretendentes. Logo, não demorou muito para ganhar mil apelidos pelo distrito, e ser motivo de piadas quando o assunto era mulher feia e bocó.&lt;br /&gt;Bocó, tudo bem, até que dava para admitir, mas feia, no sentido exato do termo, isto ela não era. Era bonita, então? Também não posso dizer, mas feia, repito: isto ela não era. Ela só não sabia se cuidar como mulher, ainda mais depois da loucura, quando ela começou a usar saias rasgadas e blusas regatas sem o sutiã por debaixo. Qualquer um que quisesse ver os seios dela, branquíssimos e volumosos, podia ver sem muito esforço. Mas, o fato dela ser louca, acrescentando o ralaxismo, pois nem tomar banho ela tomava, como também não cortava o cabelo e nem rapava o sovaco, fazia com que muitos nem admirasse ou ficasse com entusiasmado.&lt;br /&gt;Eu, por outro lado, olhava para os seios delas, balançando por debaixo das blusas regatas que ela usava. E pensava cá comigo: dando-lhe um banho, cortando-lhe o cabelo, raspando-lhe o sovaco, cortando-lhe as unhas, depilando, jogando perfume, por que não? Só porque era um homem de posses? E daí que ela era louca? Para que servem as cordas no momentos de surtos? Era só amarrá-la, trancá-la no quarto, deixá-la gritar e me mandar para rua nas noites de lua cheia, não era?&lt;br /&gt;Foi o que decidi. Num belo dia, fui até a sua casa e pedi ao seu pai, o seu Ernesto, e a sua mãe, a dona Capivara, quero dizer, Isaura, a mão de Joana em casamento. Seu Ernesto, desconfiadíssimo, me fez uma infinidade de perguntas, exigindo que eu me explicasse disso, me justificasse naquilo, que certamente um homem sadio e rico como eu não podia querer uma mulher doente e pobre como a Joana e etc., e etc. Respondi todas as perguntas e questionamentos do velho e por fim dei o meu xeque mate dizendo: eu amo a sua filha, seu Ernesto – e, para convencer mais ainda, acrescentei: e isso bem antes dela ficar louca; portanto, só por que ela ficou assim eu haveria de deixar de amá-la?&lt;br /&gt;Dias depois, Joana estava na minha cama, fazendo amor comigo. Era uma loucura, o que ela fazia. Tudo o que eu mandava, ela obedecia. O único problema era quando ela queria morder a minha bunda ou um dos meus testículos – quando isto acontecia, e tinha que ser rápido, eu tava um tapa na cabeça dela, para evitar o pior. Joana nem chorava, e voltava para o nosso amor. Era curiosa, a danada. Tudo queria ver, tocar, abrir, enfiar o dedo, mas nem tudo eu deixava, é claro.&lt;br /&gt;Salvo os seus acessos de loucura, Joana era perfeita, a melhor coisa que podia me acontecer na vida, principalmente na cama. Que mulher, em plena sã consciência, se passaria por cachorrinha, por macaca? Qual delas aceitaria uma coleira no pescoço e tudo mais? É muito difícil arrumar mulher assim, que aceita tudo. Então, eu tinha tirado a sorte grande. Por outro lado, como quase ninguém nesta vida pode ver um rico feliz, e o que não falta é gente querendo a infelicidade dos outros, logo comecei a sofrer criticas duras a respeito de meu amor.&lt;br /&gt;A mais freqüente delas, era a quanto ao tratamento psiquiátrico da Joana, algo que ela podia fazer, muito mais agora, que era mulher de um homem rico.&lt;br /&gt;– Tratamento psiquiátrico? Para quê?&lt;br /&gt;– Para ela ficar boa.&lt;br /&gt;– E você já viu algum louco ficar são?&lt;br /&gt;– Mas menos louco sim.&lt;br /&gt;– Não, não. Deixe Joana como está, está bom assim... Melhor estraga... – é o que sempre digo.&lt;br /&gt;Não estou certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;CAPITALISMO SELVAGEM&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha filha estava um tanto rebelde de uns tempos para cá, coisa normal, da adolescência; mas, o que ela me disse na última vez passou dos limites. Vi na mesma hora que tinha alguém falando mal de mim para ela. Mas quem? Meus funcionários? Meus concorrentes? Meus inimigos? Meus vizinhos?&lt;br /&gt;Apertei-lhe.&lt;br /&gt;– É isso mesmo o que você é: um explorador!&lt;br /&gt;– Quem disse isso?&lt;br /&gt;– Não interessa. Você é sim um liberal explorador!&lt;br /&gt;Liberal explorador, liberal explorador, hum, deixe eu ver, ah, termo intelectual! Os livros? Os livros que ela tinha no quarto? Os filmes? As músicas? Quem, Deus do Céu? E o Deus do Céu me respondeu: o professor dela. Qual professor, meu Pai? O de História.&lt;br /&gt;Lembrei da minha época de universitário, dos professores marxistas, que andavam mal arrumados, com a barba por fazer e um óculo de grau na cara: ainda existe professor assim?&lt;br /&gt;Fui conferir.&lt;br /&gt;Lá na escola, pedi para falar com o professor de História da minha filha. E lá veio ele, só que bem arrumado, cabelo penteado e a cara lisa, sem um fio de barba no rosto. Perguntei se nas aulas dele ele ia contra os profissionais liberais e ele sem hesitar disse que não era contra os profissionais liberais nem contra os empresários, mas ao capitalismo. Eu olhei bem para a cara dele e perguntei se tinha como ele parar com isso, porque a minha filha estava me desrespeitando em casa, me chamando de explorador maldito, capitalista selvagem e um monte de apelidos de mau gosto.&lt;br /&gt;Respondeu-me que não.&lt;br /&gt;– Como não?&lt;br /&gt;– É o meu dever, senhor.&lt;br /&gt;– E qual é o seu dever?&lt;br /&gt;– Mostrar para o aluno de onde vem os males da vida.&lt;br /&gt;– Mas, professor, o seu dever não é ensinar a matéria?&lt;br /&gt;– Também.&lt;br /&gt;– Ah, então quer dizer que o seu dever é caluniar aqueles que pagam o seu salário, é isto?&lt;br /&gt;– Não, não é isto. Eu não sou contra o senhor, sou contra o sistema que vivemos.&lt;br /&gt;– Mas não pode parar de falar essas besteiras para os seus alunos?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Mas, meu amigo. O mundo é assim. Como é que a minha filha vai poder encarar a vida como ela é?&lt;br /&gt;– Só depois que ela ajudar na transformação da sociedade.&lt;br /&gt;– Trans o quê?&lt;br /&gt;– Isto mesmo que você ouviu, senhor, transformação.&lt;br /&gt;– Ah. Você quer saber de uma? Vou conversar com o seu diretor. Passar bem.&lt;br /&gt;E fui à diretoria.&lt;br /&gt;– Não é que quero dar uma de vítima, seu diretor, mas está passando dos limites. O senhor deve imaginar o quanto que eu lutei para conseguir o que tenho. Não foi fácil. Trabalhei que nem um peão de obra, para dar dignidade à minha família e a mim, e agora tenho que engolir um desaforo desses?&lt;br /&gt;– O senhor está certo. Vou falar com ele. É jovem. Um dia aprende.&lt;br /&gt;– Eu acho bom mesmo. Eu pensei que este tipo de professor não existia mais.&lt;br /&gt;– Professor mal preparado, senhor. Não sabe nada e se apóia na autoridade de sua profissão para dizer mentiras que a vida inteira ouviu. O estilo revolucionário se confunde com o espírito crítico, mas não é. Estou te devendo essa, meu amigo.&lt;br /&gt;– Obrigado.&lt;br /&gt;E sai.&lt;br /&gt;Mas; a minha filha, entretanto, continuou me chamando de capitalista selvagem. Fui de novo ao diretor e o diretor me disse que passou vários dias escutando do lado de fora o que o professor dizia; que ele, depois de escutá-lo a sua recomendação, a de não falar mal do capitalismo, finalmente se corrigiu; e se não se corrigiu, pelo menos colocou o freio na língua, porque a única coisa que fazia era repetir o que estava escrito nos livros.&lt;br /&gt;– Será?&lt;br /&gt;– O homem virou um papagaio. Quer ir lá ouvir?&lt;br /&gt;– Quero.&lt;br /&gt;Fomos ouvir.&lt;br /&gt;Realmente, o professor não falava quase nada. Trabalhava em silêncio, só ouvia o barulho dos alunos e o de giz riscando o quadro.&lt;br /&gt;– Viu? Acabou o assunto. Tiramos dele a única coisa que sabia. Agora, vai falar o quê?&lt;br /&gt;– Será diretor?&lt;br /&gt;– Acredite, amigo.&lt;br /&gt;– Mas a minha filha continua me ofendendo.&lt;br /&gt;– Então já não é mais comigo. Você está de prova. Fiz o que você mandou e desmandou. Estou aqui às suas ordens. Se quiser que eu filme as aulas, eu filmo.&lt;br /&gt;– Não, não. Não é preciso, diretor. Eu vou ver o que faço.&lt;br /&gt;– Por que você não conversa com a sua filha? Expõe a sua vida para ela. Fala que você trabalhou que nem peão de obra para ter o que tem, para dar a ela o bom do melhor.&lt;br /&gt;– Peão de obra?&lt;br /&gt;– Não foi isso o que você me falou?&lt;br /&gt;– Não, diretor. Peão de obra nunca fui. Sou um administrador.&lt;br /&gt;– Ah; sim, me desculpe. Mas; fale com ela.&lt;br /&gt;– Vou falar.&lt;br /&gt;A conversa que tive com a minha filha não serviu de coisa alguma. Expliquei direitinho como é a vida, que até Deus concordava comigo; mas não teve jeito: continuou me chamando de capitalista selvagem. Eu quase acreditei no que estava me dizendo; que eu devia ser um capitalista maldito, crápula e sanguessuga, de tanto ela repetir. Mas, Deus me mandou uma voz bem no canto do ouvido, dizendo: pegue o livro de História dela, pegue para você ver...&lt;br /&gt;Peguei e li: era o livro. Fui até o diretor e falei com ele sobre a minha descoberta, que seria de bom senso que ele encontrasse um livro didático que não falasse mal dos capitalistas.&lt;br /&gt;O diretor passou a mão no cabelo, no rosto, coçou o queixo, torceu o nariz assim, ó, de lado, e finalmente falou: tudo bem, mas que livro? Não sei, seu diretor, não me formei em Pedagogia para saber.&lt;br /&gt;O diretor já estava para me mandar tampinha no asfalto; mas deve ter se lembrado do código civil; sobre o direito do consumidor e todas essas regras que existem para o nosso bom convívio social.&lt;br /&gt;– Eu vou ver – disse o diretor.&lt;br /&gt;Fiquei dias esperando por uma resposta dele, até receber um telefonema seu: olha, senhor Valdemir, eu passei a semana inteira lendo tudo quanto é tipo livro de História, é como se fosse uma praga, uma epidemia, não tem jeito, tanto o senhor como eu e os professores somos as vítimas; não existe um livro didático que não fala mal dos liberais, o que vamos fazer?&lt;br /&gt;Eu fiquei pensando em algo, numa solução, o mundo do ensino não pode estar sendo dominado assim por uma minoria, tal como no mundo dos negócios. Era preciso ver quem era o culpado; “transformar” a realidade, como me disse o professor da minha filha.&lt;br /&gt;– Já sei, diretor...&lt;br /&gt;– Já sabe, é? Então seja meu amigo e me conte – falou ele.&lt;br /&gt;– Vamos protestar; fazer um mutirão; pegar todos os livros que vão contra nós e tocar fogo em praça pública! O que você acha?&lt;br /&gt;– Você ficou louco.&lt;br /&gt;– Não, não fiquei não. Assim o Governo e o Ministro da Educação serão obrigados a fazer algo. Do contrário, vai ser sempre assim...&lt;br /&gt;– Olha, seu Valdemir. Me desculpe. Mas nessa eu não entro.&lt;br /&gt;– Não entra, é?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Então está bem – eu disse, desligando, e pensando comigo: como no mundo tem traidores...       &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-8062832506189747646?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8062832506189747646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8062832506189747646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/muita-ironia-e-pouca-vergonha-na-cara_23.html' title='MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-1502560025889408751</id><published>2010-06-20T08:31:00.000-07:00</published><updated>2010-06-20T08:35:54.538-07:00</updated><title type='text'>GOOGLE, PILANTRAGEM E ASTROLOGIA.</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TB41ToE2zcI/AAAAAAAAArw/vKPb1ysA-5I/s1600/tara.png"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 200px; height: 106px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TB41ToE2zcI/AAAAAAAAArw/vKPb1ysA-5I/s200/tara.png" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484880007475416514" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Se eu escrevesse um livro cujo título seria: “COMO USAR BEM O GOOGLE”; e, com uma grande sorte conseguisse uma editora para publicá-lo, fatalmente este projeto resultaria num grande fracasso. Motivo: todo aquele que tem acesso à internet acredita que pelo menos uma coisa neste &lt;span style="display: block;" id="formatbar_Buttons"&gt;&lt;span class="" style="display: block;" id="formatbar_JustifyFull" title="Justificar" onmouseover="ButtonHoverOn(this);" onmouseout="ButtonHoverOff(this);" onmouseup="" onmousedown="CheckFormatting(event);FormatbarButton('richeditorframe', this, 13);ButtonMouseDown(this);"&gt;&lt;img src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" alt="Justificar" class="gl_align_full" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;vasto universo virtual ele sabe usar perfeitamente – o Google. Ok, todos sabem usar o Google. Basta digitar aquilo que procura e este incrível motor de busca faz todo o resto.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Mas, usar BEM o Google já não é uma capacidade para todos. Do contrário, não existiria milhares de pessoas caindo em golpes absurdos, de todos os tipos. Um exemplo. Dias atrás, resolvi fazer uma consulta virtual com uma vidente. O nome dela: Tara. Não vou aqui dar desculpas esfarrapadas por que tomei tal atitude: estas coisas me interessam da mesma maneira que interessa à maioria – inclusive a você, que deve ter chegado aqui após ter digitado no Google palavras como vidência, astrologia; e até quem sabe: pilantragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, eu digitei no Google: astrologia; e apareceu o site da Tara. A primeira impressão que tive era de que a vidente não era famosa, apesar de seu site ser bem elaborado. Na verdade, esta impressão se deve ao fato de que pensei que ela fosse brasileira; e, portanto, uma vidente desconhecida. Num de seus banner’s estava escrito: faça uma vidência de seu futuro grátis... Logo desconfiei: não existe nada de graça! Entretanto, todavia e porém, acreditei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que preenchi o relatório, e esperar vinte e quatro horas pela minha vidência gratuita, ela me retornou, dizendo que eu tinha grandes problemas com a sorte; que a minha vida inteira fui um azarado por causa da posição de Mercúrio em relação à Terra; mas que agora, por Mercúrio ocupar outra posição, a minha vida iria ser, à partir de diante, um verdadeiro mar de rosas que é uma beleza, com eu ganhando na sena e na mega sena; quero dizer, com eu ganhando UMA GRANDE SOMA EM DINHEIRO! – segundo ela, os seis meses seguintes iriam ser decisivos em minha vida, marcantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta grande soma em dinheiro iria surgir de maneira subida e inesperada, lá por volta do dia 10 de julho. Era um fato consumado, virtualmente inscrito em preto no branco do meu céu astral. Para não perder esta chance, precisava contratar os serviços de minha amiga dedicada. Bastava pedir uma vidência com data marcada para saber quais os dias de sorte e os números ideais para preencher os jogos lotéricos. Não tinha erro: era apostar para ganhar. Ora, como não sou tão idiota assim, resolvi esperar primeiro pelo dia 10 de julho, já que era um fato consumado: se ganhasse algo, ok, iria contratar seus serviços para não perder nenhuma oportunidade dali para frente; se não ganhasse nada, ficaria na minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No obstante, dois dias depois de ter recebido a minha vidência urgente e gratuita, acabei encontrando na entrada do supermercado uma nota de cinqüenta reais! Eu nunca havia encontrado uma nota que tivesse o valor além de um real, quanto mais cinqüenta! A primeira coisa que me veio em mente foi o nome dela: Tara! E que realmente estava passando por um período de sorte, de muita sorte! Assim, comecei a acreditar um pouco nela, embora a desconfiança ainda era grande, muito grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas veja: dias depois, havia na minha caixa de entrada do de e-mail duas mensagens: uma de uma revista muito antiga, séria, me pedindo para me inscrever a um concurso de um Nissan Sentra e mais uma quantia que chegava perto da casa de 1 milhão de reais; e, na outra mensagem, apareceu o nome dela, Tara, me dizendo que na noite passada havia tido um sonho premonitório de meu destino, onde eu ganhava uma imensa quantia em dinheiro! Não pensei outra coisa: Tara – que não devia ter este nome porque é uma tarada – está certa! Vou entrar em contato com ela, pagar o que ela me pede, pedir conselhos e tudo o mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, um anjo bendito – que no momento identifiquei como um diabo lazarento – me dizia: será que a Tara não está envolvida diretamente com esta revista, que me obriga a assiná-la para concorrer a prêmios extraordinários? Era uma possibilidade. No entanto, um diabo maldito – que na hora acreditei ser um anjo sábio e protetor, disse: não é loucura sua, Glauber, desconfiar tanto assim das pessoas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava acreditar mais nas pessoas, convenceu-me este diabo sujo. Eu já estava ficando um doente, um neurótico que desacredita em tudo e em todos. Eu precisava dar um voto de confiança à minha sorte... Mas eis que; de repente, lembrei-me do Google, que ele busca sites onde consumidores enganados expressam suas revoltas contra aquilo que compraram na internet e se deram mal, e etc., e etc... Daí, eu fui ver algo sobre esta revista: havia uma centena de pessoas falando mal dela, por causa disto e daquilo... Logo, eu vi que era furada fazer uma assinatura por causa do prêmio que iria ganhar, segundo a Tara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se a revista era mal falada, não me custava nada saber o que falam desta Tara. Fui ver; e o resultado não podia ser outro: Tara é a pior espécie de pessoa... Uma pilantra! Num site norte-americano existe uma imensa lista de reclamações sobre ela, todas profundamente revoltadas... Então eu disse: é muita pouca vergonha na cara! E, falando em cara, resolvi levantar a sua biografia. Queria ver quem era aquela mulher vesga mas de olhar penetrante. Foi quando descobri, através do Google, este sábio senhor, que muito provavelmente esta tal de Tara não passa de um robô! De uma máquina que fala a mesma coisa dependendo do signo que a pessoa é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-1502560025889408751?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/1502560025889408751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/1502560025889408751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/google-pilantragem-e-astrologia_4465.html' title='GOOGLE, PILANTRAGEM E ASTROLOGIA.'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TB41ToE2zcI/AAAAAAAAArw/vKPb1ysA-5I/s72-c/tara.png' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-7573561664084743795</id><published>2010-06-12T15:51:00.000-07:00</published><updated>2010-06-12T15:55:31.514-07:00</updated><title type='text'>Publicações</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois de ter publicado aqui meus dois romances ("Enquanto a Fama Não Vem" e "O Templo dos Malditos") e a minha novela ("O Lobo do Circo"); publico, na íntegra, o meu livro de contos: Pobres Diabos. É um livro divertido, cheio de peripécias, com personagens incríveis, que vão te trazer alegria, raiva, ódio, amor e compaixão. É ler para divertir-se e rir prá valer. Uma boa leitura. Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-7573561664084743795?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/7573561664084743795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/7573561664084743795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/publicacoes.html' title='Publicações'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-6681736736140484131</id><published>2010-06-12T15:34:00.000-07:00</published><updated>2010-07-13T17:05:23.439-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='POBRES DIABOS - contos'/><title type='text'>POBRES DIABOS - contos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;“Se me calo, esperarão que eu fale;&lt;br /&gt;Se falo, estarão atentos;&lt;br /&gt;E se prolongo o meu discurso, levarão a mão à boca...”&lt;br /&gt;Sabedoria 8; 12.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas quem ficará com meus abismos se os&lt;br /&gt;Pobres diabos não ficarem?”&lt;br /&gt;Manoel de Barros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE.&lt;br /&gt;AS GRAÇAS DA LAMÚRIA&lt;br /&gt;A FARSA&lt;br /&gt;VILAS&lt;br /&gt;NA PELE DO NEGRO&lt;br /&gt;OS DEMÔNIOS DE DONA OTÍLIA&lt;br /&gt;A METÁFORA&lt;br /&gt;A CONSPIRAÇÃO DO UNIVERSO&lt;br /&gt;SANSÃO&lt;br /&gt;CAIXA DOIS&lt;br /&gt;ANTI-DEPRESSÍVOS&lt;br /&gt;A GALINHA DOS OVOS DE OURO.&lt;br /&gt;A INDENIZAÇÃO&lt;br /&gt;QUADRO NEGRO&lt;br /&gt;O VENDEDOR DE PAX&lt;br /&gt;O BANQUETE&lt;br /&gt;A MORTE DE CANTÍDIO&lt;br /&gt;CANDANGO&lt;br /&gt;O ABORTO&lt;br /&gt;POBRES DIABOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;AS GRAÇAS DA LAMÚRIA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;“A benção paterna fortalece a casa de seus filhos,&lt;br /&gt;a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces.”&lt;br /&gt;– Eclesiástico, III, 11.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dona Isaura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Isaura gostava de reclamar. Era mais do que um vício. Sabia que as palavras têm poder, mas sempre que lhe vinha o sofrimento; quando as coisas começavam a dar errado; quando a dor era maior que o prazer, ela desatava a falar com negatividade, dizendo palavras que provocavam em seu filho duas reações apenas: revolta ou desânimo.&lt;br /&gt;A cantiga de sua lamúria era a mesma, eterna e imutável: que eu trabalho feito uma escrava; que patrão não dá valor; que tudo cai sobre as minhas costas; que eu não tenho sossego; que ninguém me ajuda; que antes eu fosse uma desnaturada; que eu não tenho vida; que...&lt;br /&gt;O filho, por mais que lutava, não saía do lugar. De emprego em emprego, nenhum era bom, tudo quase a mesma coisa: quando não era o patrão que não assinava a carteira, era o patrão que atrasava o pagamento; quando não atrasava o pagamento, exigia muito; quando não exigia muito, não promovia; e quando não promovia, mandava-o embora.&lt;br /&gt;Desempregado, o aluguel atrasava, as contas acumulavam e dona Isaura dizia: vamos ficar no escuro, vamos ser despejados, vai faltar o que comer, por que tudo dá errado?&lt;br /&gt;E assim se fazia: o dono da casa pedia a casa; a luz cortava; a água cortava; a comida acabava. Com todos no escuro, restava a alternativa da violação:&lt;br /&gt;– Vai lá, para ser eletrocutado.&lt;br /&gt;O filho pegava a escada, subia lá no poste do padrão, tomava choque, os fios davam curto circuito, um fogaréu acendia, e ele pulava lá do alto da escada, se jogando no chão, dizendo: aí, meu Deus, não quero morrer agora não!&lt;br /&gt;– Viu, não falei? – dizia ela.&lt;br /&gt;– Também? Rogando praga – falava ele, mais pálido que um palmito.&lt;br /&gt;Ele chamava algum eletricista, para fazer uma ligação clandestina, ilegal. Ela dizia: vão descobrir! Não dava outra: dias depois, a campainha elétrica aparecia, via o engano, dava multa, processava.&lt;br /&gt;– Como foi que você falou? Que iam descobrir?&lt;br /&gt;Outra briga. Dali a pouco, chorava; porque ela, a mãe, não queria o mal para ninguém; que ela, a mãe, coitada. De fato, não queria o mal. Queria o bem, isso sim. Mas na hora da dor, do sofrimento, comparando o que podia ser com o que era, falava: droga, não sei o que faço dessa vida, dia e noite, noite e dia, tudo a mesma coisa, tudo eu, tudo eu, tudo eu, até quando, oh meu Deus? Até quando? Não tem ninguém! Não tem um filho de Deus!&lt;br /&gt;O nome de Deus não saia da boca dela, mas perdia para a frase: ai que ódio! O filho, hora ou outra, sentia a necessidade de se colocar a favor dela; pois, só podia ser isto o que ela queria, que o filho ficasse a seu favor. Deixava de pensar em si e ouvia os pedidos da mãe. Arregaçava as mangas; mas, logo ela dizia alguma coisa que lhe fazia sair de perto, depois de uma boa briga. Ela, em seu canto, vitimada, derramava-se em lágrimas, que não era isso o que queria em sua vida...&lt;br /&gt;Tinha mil planos, o filho. Na hora da raiva, tirava a mãe deles. Na hora da calma, colocava-a de volta. Depois, ia para a realidade, já prevenido. Fazia o teste, colocava-a à prova: sempre o mesmo! Nunca muda? As namoradas: deixe sua mãe, vamos viver a nossa vida. Ele esperançava: ela muda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu João é outro que não tem freios na língua. A única diferença entre ele e a dona Isaura é que, se numa tempestade esta profetiza que o barco vai afundar, pelo menos o João diz que não; nem que para isso jogue alguns tripulantes no mar. Bruto e estúpido, com a boca porca e cheia de maldições, não mede palavras para falar com os filhos e empregados, de tal forma que até hoje não se encontra um funcionário que fale bem dele – e vice-versa.&lt;br /&gt;O filho mais velho ouvia as duas versões, e ficava do lado deles: quem agüenta o seu pai?! Vive nervoso, quebrando tudo! Ele chega aqui, joga a ferramenta, fala merda, não aceita uma falha! Por isso que ele não vai para frente! Por isso que ele vive de aluguel, aquele homenzinho infeliz e amargurado!&lt;br /&gt;Não assinava carteira, não respeitava quem trabalhava para ele, não tinha paciência e se achava melhor do que os empregados. Os filhos, todos vagabundos. Nenhum prestava. Na idade dele, já tinha carro, casa, moto, mulheres. E eles têm o que nesta vida? Não tem nada! São inúteis, umas imundices!&lt;br /&gt;Os filhos, mariposas em volta da luz, pássaros de asas quebradas, vivendo sob o teto da maldição.&lt;br /&gt;Ainda assim, o filho mais velho tentava mudar o pensamento do pai. O irmão mais novo olhava para ele com desprezo: só mesmo sendo um burro para perder tempo com outro burro! O irmão mais novo desistira há tempos, quando brigava, brigava, e nada de bom acontecia; onde nessas brigas o mais prejudicado era ele mesmo no final, que acabava num bar, bebendo até cair.&lt;br /&gt;O mais velho, acreditava. Cego ou visionário, acreditava.&lt;br /&gt;Num dia, perguntou a um psicólogo: as pessoas mudam?&lt;br /&gt;– Não. Só melhoram. E olha lá...&lt;br /&gt;Cego ou visionário, mesmo assim ainda acredita na mudança do pai, coitado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Gilmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se numa tempestade a dona Isaura profetiza o naufrágio; e o João joga para fora os outros tripulantes se preciso for para firmar o barco; o seu Abílio aproveita a situação e se joga logo no mar... Assim que acorda, não vê sentido em levantar, e só levanta porque não tem muito sentido também ficar dormindo. No elas por elas, é melhor sair da cama, porque o corpo fica dolorido e nada pior do que a dor.&lt;br /&gt;A mulher com quem casou separou-se, cansada de ouvir a palavra “difícil”. Os filhos, quase não o visita, para não ouvir palavras de desânimo. De vez em quando, seu Abílio toma remédio para anemia. Reclama da falta de uma mulher em sua vida mas não procura, quase não sai de casa. O filho mais velho é imensamente gordo; e a filha mais nova, apesar de bonita, vive em depressão.&lt;br /&gt;Um funcionário dele, com a cabeça cheia de tanto ouvir as lamentações, disse-lhe certa vez:&lt;br /&gt;– Gilmar?&lt;br /&gt;– Diga.&lt;br /&gt;– Você já experimentou agradecer a Deus hoje, por todas as graças que ele te deu?&lt;br /&gt;– Que graças, se na minha vida só vejo desgraça?&lt;br /&gt;– A graça de você ter saúde, ter a vida, um teto para cobrir a cabeça, esse restaurante que pode sempre te desenvolver moral e intelectualmente... Tanta gente que não pode andar, não pode ver. Já agradeceu a Ele por isto, por poder andar e enxergar bem, filho de Deus?&lt;br /&gt;Dias depois, esse funcionário ganhou as contas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gilberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gilberto casou com uma mulher que francamente! Se a dona Isaura, na tempestade, diz que o barco vai afundar; e seu João diz que não; e o seu Abílio se atira no mar antes do resultado final; sua esposa fala: será? Será que vai afundar ou não? Gilberto, em alto mar, muda as velas e coloca os marinheiros para ajudar. Enquanto isto, conversa com a tempestade, a fim de convencê-la a dar trégua. Tem fé, e sempre vence.&lt;br /&gt;Acredita que as palavras possuem poder. Se a pessoa diz a, mesmo querendo b, acontece a. E depois Deus criou o mundo através das palavras: e faça-se luz, e a luz se fez. Por isto, quando vê algo que quer, diz: eu vou comprar. Quando quer vender, diz: eu vou vender. Quando deseja ser, fala: eu vou ser. Quando traça uma meta, afirma: eu vou alcançar, e vencerei! No fim, sempre compra, vende, e vence – Gilberto, porque sabe separar a semente boa da má, sempre sai vitorioso.&lt;br /&gt;A sua mulher; entretanto, nunca evolui. Casada de ser repreendida pelo marido, ainda não aprendeu a plantar. Não sabe esperar amadurecer e na colheita é um desastre: reclama do pouco e chora pelo muito. A mulher do Gilberto, coitada, ainda não aprendeu a dizer eu vou conseguir; tudo vai dar certo; no final sairei vencedora, com fé em Deus e confiando em mim. A mulher de Gilberto, francamente, deixa muito a desejar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filho de dona Isaura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas mudam, acreditava. Precisava ensinar a mãe a soletrar o bem, repreendê-la nas maldições.&lt;br /&gt;Necessário era cortar o mal pela raiz.&lt;br /&gt;No entanto, sempre que usava da correção, o orgulho falava mais alto, e dava em briga. Tinha fé que um dia ela parasse com as maldições e murmúrios e passasse para as benções e agradecimentos. Um pastor, ao ouvir pacientemente o seu drama, lhe disse: já passei por isto.&lt;br /&gt;– Já passou? – repetiu, iluminado de alegria.&lt;br /&gt;– Já. Mas no meu caso era com a minha esposa.&lt;br /&gt;– Ah é? E o que você fez?&lt;br /&gt;– O que fiz foi o seguinte. Eu estava na frente da televisão, a minha esposa para lá e para cá. Eu já estava farto, não agüentava mais. Lembrei das palavras do meu pastor daquela época, levantei-me, falei para minha esposa: daqui a sua mão. Ela deu, e eu disse: espírito da lamúria, da miséria, da maldição; eu, em nome de Jesus, te dou uma ordem, que você pegue todas as suas coisas e vá embora, pro diabo que te carregue infeliz!&lt;br /&gt;– O espírito foi?&lt;br /&gt;– Demorou, mais foi. Você precisava de ter visto a briga. Lutei com ele uns dez minutos, mais ou menos. Mas no final, Jesus venceu. Jesus sempre vence, meu filho.&lt;br /&gt;Não ia fazer isto, nem com a sua mãe nem com demônio: era melhor doutriná-los. Passou a dizer: você já agradeceu a Deus hoje, pela vida? Por ter onde morar? Por ter duas pernas, e não ser uma paralítica, uma paraplégica? Já agradeceu por ter visão, e não ser uma cega? Não tem medo do Senhor castigar?&lt;br /&gt;A partir de então, criou vergonha, e cessou com as reclamações e com os murmúrios. E a vida, ah, a vida ficou bem melhor, tanto para ela quanto para o filho e para o demônio, que também aprendeu o bê-á-bá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A FARSA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha que ser uma mulher mais bonita que a Valéria, e mais alta, para ela sentir-se inferior. Que tivesse o corpo bonito, sexy, os seios um pouco menor que os da Valéria e as pernas mais grossas, porque eram esses dois lugares que ela sentia-se menos satisfeita. Tinha que ser, também, uma mulher inteligente, que sabe se comportar, mostrar espírito, saga, cultura, pois a Valéria não possuía nada disso.&lt;br /&gt;– Aí fica difícil –, disse Carlos.&lt;br /&gt;– Por que? –, falou Nelson, da boca para fora.&lt;br /&gt;– Mulher assim não se encontra em qualquer lugar.&lt;br /&gt;– Você acha que não é capaz de encontrar uma assim?&lt;br /&gt;– Sexy, bonita, e inteligente sim.&lt;br /&gt;– E espirituosa, culta?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Quer desistir?&lt;br /&gt;– Só se não me chamasse Carlos.&lt;br /&gt;Carlos era capaz, desconfiar disto era uma ofensa. Tinha uma hombridade a honrar. Não era fracassado. Vivia rodeado de mulheres bonitas, comemorando vitórias. Por isso Nelson pediu a ele, e não para outra pessoa. E tinha que ser logo, porque queria ir embora o quanto antes.&lt;br /&gt;Nelson queria ir embora porque não tinha mais nada que fazer na cidade. A Valéria acabou com ele. Ia ser padre, estava no seminário há cinco anos, e faltavam apenas dois para ser ordenado. E ela, por diversão de adolescente, o desviou. Apaixonado, Nelson pediu dispensa do seminário. O reitor avisou-lhe que estava se transviando. Não deu ouvido. Saiu. Alugou um apartamento perto da casa da Valéria e prosseguiram o namoro por dois meses apenas. Assim que começou a falar em casamento, ela terminou o romance e foi rir com as amigas.&lt;br /&gt;A notícia espalhou-se e Nelson sentiu-se envergonhado, derrotado; pois, todos da congregação, da igreja e do bairro ficaram sabendo que foi ela quem terminou. Para a maioria essa notícia foi a melhor do ano, principalmente para seus ex-superiores, que viram nisso uma esperança para tê-lo de volta para a ordem. Convidaram-lhe para voltar, recusou. Quis dar a volta por cima, e tentou reconquistá-la. Tentou diversos romantismos; mas nada adiantou: por mais que fazia, ele só conseguia afastá-la cada vez mais.&lt;br /&gt;Não obstante, quanto mais fracassava na tentativa de tê-la de volta, mais frágil ficava. Quando foi ver, já estava se preocupando excessivamente com o que os outros pensavam sobre ele e sua vida. Só de pensar, ficava aflito. Calculava consigo: se eu voltar para a casa de meus pais, esse povo daqui vão me ter como um derrotado; se eu ficar, e sem a Valéria, eles me verão como um derrotado também; se eu sair de bermuda, vão ver as minhas pernas; se eu não fizer a barba, dirão que estou desiludido; se eu não fizer festa, dirão que estou de luto; se não sair de casa, falarão que eu morri; e assim por diante, no caminho exato da neurose e da loucura...&lt;br /&gt;E os meses foram passando e ele não conseguia de maneira alguma a Valéria de volta: a moça era mais cruel que uma modelo no topo das mais bonitas. Com isso, não era a melhor opção continuar vivendo na mesma cidade em que ela, onde todas as pessoas que o conhecia sabiam de sua derrota, de seu fracasso, de sua decepção amorosa e desilusão sobre a vida. Era demais para ele. Por causa disto, resolveu que ia embora, para nunca mais voltar, nunca.&lt;br /&gt;Antes de ir, teve uma idéia, a de encontrar uma mulher melhor que a Valéria, para todos saberem que ele deu a volta por cima: era a sua honra que estava em jogo. Porém, não era sedutor. Procurou aqui, ali, e nada. Nenhuma mulher queria saber de um homem desiludido como ele. Até que teve outra idéia: a de pedir para o Carlos que lhe arranjasse uma acompanhante, e pagava bem para isso...&lt;br /&gt;– Mas isso não é uma farsa? –, perguntou Carlos.&lt;br /&gt;– Não tem problema. Para quê uma farsa maior que a de passar por santo sem ser?&lt;br /&gt;– Quem faz isso?&lt;br /&gt;– A maioria daqueles padres pecadores, raça de víboras!&lt;br /&gt;Carlos, apesar de achar um absurdo à idéia de arrumar uma suposta namorada para o colega, ao mesmo tempo achou excitante. Ficou pensando com qual mulher falar: alguma de suas amantes? Alguma de suas amigas? Quem? Qual? Ficou pensando e logo veio vários nomes em sua mente. De todas elas, era só escolher, porque todas se submetiam prazerosamente à suas vontades. Mas quem? Ficou pensando, sem contudo decidir. Em casa, como não conseguia decidir qual mulher que iria escolher para a farsa, resolveu dar uma volta de carro, para relaxar.&lt;br /&gt;E eis que andando nas ruas, ao passar por uma esquina viu uma prostituta muito bonita, fazendo ponto. Era uma das mulheres mais lindas que seus olhos exigentes já viram. Era bem mais bonita que a Valéria. Se duvidasse, era mais bonita que a sua própria namorada! Tinha os olhos verdes, a pele bronzeada, o cabelo fio reto, castanhos; os braços pequenos, a cintura fina; e principalmente: ao contrário da Valéria, tinha os seios médios e as pernas grossas...&lt;br /&gt;Parou o carro.&lt;br /&gt;Perguntou quanto que era o programa. A prostituta aproximou-se do carro, abaixou-se e disse que cinqüenta.&lt;br /&gt;– Cinqüenta? –, repetiu ele.&lt;br /&gt;– Cinqüenta –, disse ela mais uma vez; e, olhando dentro de seus olhos, falou: – Mas já vou logo avisando que não sou mulher, tá benzinho? –, disse, num tom de voz sensual.&lt;br /&gt;– O quê?! – exclamou ele.&lt;br /&gt;– Isto mesmo que você ouviu. Por que o espanto? Parece mesmo que eu sou mulher de verdade? –, perguntou o travesti.&lt;br /&gt;Ficou perplexo.&lt;br /&gt;Desligou o carro e saltou, indo para perto dela; ou melhor, dele. Ao lado dele, viu que eram da mesma altura. De perto, pôde constatar que o travesti era mais bonita ainda. Ninguém, na face da terra, diria que ela era ele.&lt;br /&gt;– Minha nossa... –, falou, embasbacado.&lt;br /&gt;– Que foi?&lt;br /&gt;– Eu conheço um travesti a quilômetros de distância; mas posso jurar por Deus que pensei que você fosse uma mulher –, disse.&lt;br /&gt;– Mas não sou –, falou, rindo.&lt;br /&gt;Carlos ficou olhando para ele. O travesti não era um travesti: era sim uma linda mulher, perfeita, delicada, charmosa, sexy. Por isso, duvidou que algum homem no mundo pudesse saber que fosse um travesti sem que ele falasse. Foi nesse momento que, a fim de colocar à prova a sua crença, lembrou-se do Nelson: era tudo o que ele queria... Ao lembrar-se do amigo, falou a história para o travesti, perguntando no final se ela, ops!; ele, topava fazer o serviço.&lt;br /&gt;Topava.&lt;br /&gt;Carlos colocou o travesti dentro do carro e o levou até a casa do Nelson. Este, ao vê-lo, ficou encantado.&lt;br /&gt;– Serve? –, perguntou para o Nelson.&lt;br /&gt;– Serve sim, como se não?&lt;br /&gt;– Mas só tem um probleminha... – disse ele.&lt;br /&gt;Nelson arregalou os olhos, olhando para o travesti; que por sua vez olhou para Carlos, para ver o que ele ia falar.&lt;br /&gt;– Ela tem tudo o que você quer... É bonita, sexy, inteligente e esperta. Só não sei se ela é culta. Tem algum problema?&lt;br /&gt;O travesti, assim que ouviu o Carlos dizer que ela talvez pudesse não ser culta, sentiu-se um pouco ofendida, quero dizer, ofendido. Mas com a resposta de Nelson, não levou à sério essa pequena afronta.&lt;br /&gt;– Mas é claro que não... – respondeu Nelson, rindo.&lt;br /&gt;No domingo, Nelson foi com ela; ou melhor, com ele, à missa. O travesti parecia uma mulher de seus vinte anos de idade, no máximo. Estava vestida com roupas comuns, que o próprio Nelson comprou, de acordo com seu plano. Na missa, todo o mundo ficou olhando para eles dois. No final da celebração, Nelson fez questão de apresentá-la; isto é, apresentá-lo, como namorada. As pessoas ficavam encantadas com ela: tinha a voz suave, feminina, o comportamento decente, com ar de moça de família, e falava com facilidade, sem timidez ou receio. Todos que conheciam o Nelson, até mesmo os padres, rodearam a moça, ops!, o moço.&lt;br /&gt;– Que moça linda! –, diziam.&lt;br /&gt;– Sou mil vezes ela que a Valéria –, falaram também.&lt;br /&gt;– Ela parece ser mais inteligente, mais cuidadosa, mais bela –, disse um.&lt;br /&gt;– E mais madura –, disse o outro.&lt;br /&gt;– É assim que tem de ser, Nelson –, alguém falou também.&lt;br /&gt;E comentários daí para adiante.&lt;br /&gt;Nelson, enquanto ouvia esses elogios, ficava todo risonho e beijava o travesti na boca, sem saber o que de fato estava beijando. Carlos, quando via os dois se beijando, ria prazerosamente. Nelson, pelo fato de não suspeitar o que estava acontecendo, acabou até mesmo ficando apaixonado por ela, quero dizer, por ele. Pediu a moça; ou melhor, o moço, em namoro. Disse que já havia esquecido a Valéria, que ela foi à responsável por isso. A moça sentiu-se lisonjeada, mas falou que tinha namorado. Nelson ficou mais uma vez arrasado; e, ao invés de voltar para a sua cidade com o coração machucado pela Valéria, voltou com o coração apaixonado pelo Ricardo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;VILAS&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olá, minha irmã, estou mandando este e-mail para te contar como estão as coisas por aqui. Mudamos da vila Planalto para o bairro Aero Rancho, porque finalmente saímos do aluguel. Agora, não sei se estou feliz ou triste. Falo assim porque se por um lado não precisamos mais desembolsar uma grana preta para morar num bairro central, por outro lado estamos morando bem longe do centro; e o pior: numa casa pequena, sem reboque, feia, um moquifo.&lt;br /&gt;Está certo que o Adão vai reformá-la mais para frente, e está pensando inclusive em fazer um puxadinho; mas nada comparado com a casa em que morávamos, com dois quartos grandes, sala grande, banheiro grande, que nem desses de hotéis. Estou sentindo a diferença, irmã, tanto que às vezes me pego chorando, com vontade de separar do Adão, que está adorando viver aqui no Aero Rancho, por causa dos amigos que fez e que são muitos, e que ele considera como gente verdadeira.&lt;br /&gt;Quando ele fala isto, Ana, ele leva em conta os nossos vizinhos da vila Planalto. Lá ninguém é amigo de ninguém, e o sorriso falso forçado na cara na hora de cumprimentar é indisfarçável. Ninguém dizia: oi vizinho. Diziam oi, mas o vizinho nunca era usado. Ao contrário daqui, que é vizinho para lá e para cá. Aquele povo, Ana, lá da vila Planalto, são todos metidos, e só ficaram amigos da gente quando viram o caminhão de mudança com os nossos móveis dentro. Foi quando falaram com a gente, dizendo: vão mudar, é?&lt;br /&gt;Adão ficava revoltado com esses descasos. Dos dois anos em que moramos lá, não fizemos um amigo sequer! Agora, agora Adão acha que está no paraíso, com tanto vizinho para lá e vizinho para cá, sempre dispostos a tudo. Até aí tudo bem, Ana, acho até normal ser feliz com a humildade dos outros. O problema é que ele incorporou, do dia para noite, todos os costumes daqui. Se lá ele andava sempre bem vestido, e muitas vezes até de terno e gravata, aqui ele anda de qualquer jeito, com chinela havaiana no pé, a camiseta sobre o ombro, um short do São Paulo e a barriga à mostra.&lt;br /&gt;Ele, Ana, entrou para a turma dos barrigudos, que são os homens que ficam na frente do bar bebendo cerveja e exibindo a barriga lustrada e redonda: se antes de chegar aqui ele tinha uma barriga esbelta, agora ele se parece com uma mulher grávida de nove meses, minha irmã. Eles têm até um time de futebol, que se chama: “O Time Do Seu Barriga”. De quinze a quinze dias, eles jogam bola no campinho daqui, que numa parte tem grama e noutra não tem, apostando sempre uma, duas e até três caixas de cerveja. Já pensou?&lt;br /&gt;O que me chateia mesmo, Ana, é que ele começou a me tratar como os amigos dele tratam suas mulheres. Quando eles assam uma carninha aqui em casa – é assim que eles falam, Ana, “carninha”, e não “churrasco” – ele começa com as piadinhas de mau gosto, dando tapas na minha bunda na frente de todos eles, dizendo anda patroa, vai lá pegar cerveja que o copo secou. Eu fico puta da vida com isso, mas a raiva logo passa; ela sempre passa como sempre passou.&lt;br /&gt;Olha, Ana, como são as coisas. Até de religião ele mudou. Se antes Adão gostava de ir à missa, agora ele vive em centro de macumba, em terreiros de Umbanda e Candomblé. É um tal de Exu para lá e Exu para cá que eu não compreendo. Para falar a verdade, Ana, eu tenho medo. Ele fala que Exu nada tem a ver com o demônio, que ele é confundido com o coisa ruim por ser brincalhão, por falar como falamos, usando gírias e às vezes até palavrão.&lt;br /&gt;Adão diz que ele é o Orixá que está mais próximo do ser humano, e fala deste jeito para ganhar a nossa simpatia, que quando lhe chamam de demônio ele concorda, porque não gosta de perder tempo com gente ignorante. Que o Exu é, na verdade, uma espécie de anjo, que ajuda as pessoas em seus negócios, no amor e etc. Eu não sei não, Ana, se isso é verdade, mas sei que o pastor lá da esquina vive gritando contra esse tal de Exu. É por isso que eu fico com raiva de ser tão ignorante e preguiçosa. Se não fosse isso, Ana, iria estudar, ah se iria.&lt;br /&gt;No mais, Ana, está tudo bem. Ou melhor, penso que está tudo bem, fora tudo isso que te contei. Para falar a verdade, Ana, está bem sim, se visto que muita gente não tem nem onde morar, nem o que comer; que não tem saúde, e sofre por falta de tudo. Ainda assim, Ana, vou ver se aperto o Adão para ver se ele reforma logo essa casa; e também, se ele para um pouco de beber cerveja, e diminui a barriga, que já está de fazer vergonha, Ana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;NA PELE DO NEGRO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;“A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!”&lt;br /&gt;Jorge de Lima.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;– Eu seria feliz se fosse surdo – disse-me o Zulu, à mesa do bar. – Mas como não sou, tenho que engolir: se não é o meu pai me aporrinhando é o meu irmão; se não é o meu irmão é a minha mulher; se não é a minha mulher, com seu nervosismo de botar qualquer um doido, é a minha sogra; se não é a minha sogra, aquela velha que só sabe falar mal dos outros, são as piadas de mau gosto, como por exemplo, a de que se o preto não caga na entrada ele caga na saída... Ah, se eu fosse surdo...&lt;br /&gt;– Não fale isto –, disse eu; – Tem tanta gente surda neste mundo que daria tudo para poder ouvir, Zulu –, falei-lhe.&lt;br /&gt;– Ah, é?! Problema é deles! Porque no meu caso, se eu fosse surdo tudo seria melhor –, prosseguiu dizendo. – Com certeza jamais pegaria ódio daquele filho duma cadela do careca e jamais teria saído do seu lava-jato, aonde além de trabalhar feito um negro antes da abolição ainda por cima era humilhado; pois, o filho duma cadela me chamava do que bem entendesse na frente de todo mundo: ô lona de barraco de sem-terra; ô picolé de piche; ô frango de macumba; ô pau de fumo; e, quando eu fazia uma cagada ( e preto não pode fazer cagada alguma que os filhos duma cadela já montam em cima) o desgraçado dizia: eu tenho raiva é de quem cortou o rabo deste macaco e ensinou ele a falar! Não, se eu fosse surdo, jamais pegaria ódio da cara dele e não faria as cagadas que fiz, e ninguém iria me tratar como me tratam agora, sem respeito algum, já que para todos eles eu não tenho juízo algum na cabeça e nunca vou ter...&lt;br /&gt;Tive que interromper o Zulu, depois dele dizer tudo isso; afinal, o pai dele e o irmão tinham um escritório de contabilidade, ganhavam bem: era inconcebível ele trabalhar num lava-jato, ainda mais do careca. Perguntei:&lt;br /&gt;– Por que diabos você foi trabalhar lá no lava-jato do careca?&lt;br /&gt;– Na época que entrei no lava-jato do careca – disse ele – foi quando fugi de casa, porque lá não dava mais para viver. Eu queria fazer as minhas coisas de rapaz e meu pai e meu irmão me repreendiam que nem pastor repreende demônios, como se eles nunca foram rapazes na vida. E além do mais, quando queria dinheiro para sair, eles não davam. Eles tinham um mundo de dinheiro e não davam um centavo para o negro aqui gastar com as suas negras, nenhum centavo! Meu pai e meu irmão tinham fregueses para tudo quanto é lado na cidade, dinheiro não fazia falta. Mas... Ia eu pedir dinheiro para ver uma coisa... Não davam! O que me davam era serviço para fazer... Me mandavam atravessar a cidade, e de bicicleta ainda, para levar um documento à algum de seus clientes. E; quando voltava, ansioso para receber uma grana, cansado de tanto pedalar como se tivesse sempre uma voz atrás de mim dizendo: pedala, infeliz!; o quê ganhava era um vai tomar banho Zulu, você está fedendo...&lt;br /&gt;– Nossa, disse eu.&lt;br /&gt;– Não era motivo para se revoltar? De fumar tudo quanto é tipo de coisa; de beber tudo quanto é tipo de bebida; de injetar na veia tudo quanto é tipo de droga; de se tatuar com as imagens do demônio; de sair com travestis e virar bicha só de pirraça? Se fizesse, estava absolutamente no meu direito! Mas não fiz, porque nunca gostei de fumar, de beber, de drogas, tatuagens, bichas e piorou travestis. O que gostava era de fazer as minhas molecagens, de levar as minhas negras para um motel; não por mim, mas por elas, que sempre diziam Zulu meu amor, me leva num motel, já estou cansada de amar você nesses matos cheio de formigas para picar a bunda da gente! Ou então: Zulu, eu nunca fui ao cinema, como vão as minhas amigas, você me leva? Ou: Zulu, eu nunca levei dinheiro que se preze quando o pastor pede no ofertório; você me dá um dinheiro decente, não moedas que se joga em fontes, dinheiro mesmo, tipo dez reais? Mas eles não davam dinheiro para mim. Por isso eu saí de casa e fui me virar sozinho, a fim de ter o meu próprio dinheiro.&lt;br /&gt;– Está certo.&lt;br /&gt;– Fora de casa, procurei emprego. Consegui esse, com o careca filho duma cadela. Já no primeiro dia ele começou a me xingar. No começo, até que tolerava. Mas depois os outros começaram a fazer o mesmo que ele. Quero dizer, os funcionários orelhas secas que nem eu. Daí teve um dia que não agüentei e estourei, partindo para cima de um deles quando disse que preto é uma bosta. Bosta é o que saí do seu cú, seu merda!, eu falei. O quê?, perguntou o sujeito, que era o dobro de mim. Isso mesmo que você ouviu, ou quer que eu repita?, perguntei, provocando uma briga. Repete, se for homem, disse ele. Bosta é a que saí do seu cú, seu merda!, eu falei, alto, cuspindo na cara dele. A pancadaria rolou solta... Uns dizem que não pode sair briga num lava-jato, por causa das ferramentas, que podem servir como armas. Mas, nem pensei nisso. Nem eu, nem ele. De mão limpa mesmo, bati, não sei como, no sujeito até ele cair no chão. Isto é para você não se meter à besta comigo, eu falei, por cima dele. Você é um idiota, disse-me. Idiota é quem mexe comigo. Não levo desaforo para casa! Idiota!, falou ele, ainda. Repete! Idiota!, exclamou, o desgraçado. Dei mais uns chutes nele e parei, indo lá para frente do lava-jato. Tremia que nem uma taquara, de nervoso. Para me acalmar, acendi, com dificuldade, um cigarro. Dali um pouco o careca filho duma cadela apareceu.&lt;br /&gt;– E?&lt;br /&gt;– Ele disse, sem querer me ouvir: saia fora daqui, seu preto desgraçado. Como que é?, eu perguntei. Eu tô falando para você sair fora daqui, seu preto filho de uma puta!, disse. Não acredito... Foi ele quem me provocou!, eu protestei. Não interessa. Você está errado, preto. Suma, vai!, disse ele. Não consegui acreditar nisso. Peguei e saí de seu lava-jato jurando vingança. De lá, fui para o quarto que eu pagava aluguel, onde tinha apenas uma cama, uma cadeira, uma geladeira, um fogão e um pequeno armário para deixar os alimentos. No outro dia, fui atrás de emprego. Não encontrei em lugar algum, porque para quase todo o mundo um preto ou é ladrão, ou é safado, ou se ainda não é um dia ou outro vai ser...&lt;br /&gt;– Que isso!&lt;br /&gt;– Para você ver. Assim, dessa forma, como ninguém me dava emprego, resolvi fazer um empréstimo com um agiota e comprar uma moto. Isso porque quem tem uma moto dificilmente fica desempregado, inclusive um negro, porque sempre tem alguém precisando de quem tem moto para trabalhar ou de entregador ou de cobrador, independentemente da cor, do sexo e religião. Essa, enfim, foi a maior cagada que fiz na minha vida. Por causa dos juros que me cobrava, tinha que trabalhar dia e noite para quitar a divida com esse agiota filho duma prostituta – este é o único nome que encontro para chamar esse agiota: filho duma prostituta... E você vai logo entender o porquê... Contudo quando estava quase terminando de pagar a minha divida, acabei sofrendo um acidente escandaloso, que quase tirou a minha vida, mas que graças a Deus me tirou somente a moto. Sim, a moto deu perda total, e eu fui parar, inconsciente, na UTI. Fiquei em coma por um mês. Quando saí de coma, fiquei em observação por uma semana. Ao receber alta, com um monte de pinos na perna, fui para casa. Lá eu tive que me virar sozinho, afinal, nem meu pai, nem meu irmão, nem ninguém tinha o meu endereço, exceto as negras desse tempo – essas, que só me procuravam para andar de moto, desapareceram. Meus amigos também. A única pessoa que me procurou quando eu estava todo fodido em casa foi esse agiota filho duma prostituta, querendo saber como ia pagar ele.&lt;br /&gt;– Que tragédia!, exclamei.&lt;br /&gt;– Que tragédia? Tragédia é pouco! É que desgraça! Isso sim. Eu estava deitado quando ele me chamou. Não consegui levantar, como fazia para preparar algo para comer, e disse para ele ir entrando. Ele entrou e me pegou deitado, sem forças para levantar. Pode ficar deitado, negro, disse ele, assim que me viu. Depois sentou numa cadeira que estava perto da minha cama e foi logo me perguntando como ia fazer para pagar o que devia. Falei para ele: assim que começar a trabalhar eu pago tudo o que devo a você, tim-tim-por-tim-tim. E se você não conseguir arrumar um emprego?, perguntou ele. Aí eu não sei o que posso fazer, respondi. Não tem ninguém que pode lhe emprestar a grana? Não, eu disse. Mas todo mundo tem alguém que pode emprestar uma grana... Eu não tenho, falei. Faz uma força aí na cabeça, para lembrar. Não tenho, eu disse. Quem sabe um chute nessa sua perna cheio de pinos faz você lembrar, hein?, ameaçou ele. Não tenho ninguém que pode me emprestar, eu falei. Então: toma!, disse ele batendo na minha perna cheia de pinos. Ora, como eu estava na cama sem forças para levantar, a única coisa que me restou a fazer foi gemer de dor. Lembrou? Não, eu respondi. Toma outro, disse ele, me batendo novamente. Ai; tá doendo, eu falei. Lembrou? Não. E se eu queimar a sua perna com a brasa do meu cigarro?, perguntou, acendendo um. Aí eu tô perdido, falei. Ele deu uma boa tragada e a brasa ficou vermelhinha, queimando como fogo vivo. Toma, disse enfiando a brasa de seu cigarro na minha perna cheia de pinos. Ai, ai, ai, ai, eu falei. Lembrou? Não. Vou dar um mês, sentenciou. E se eu não arrumar a grana?, falei, preocupado. Aí você vai ver como eu sou ruim, disse o filho duma prostituta.&lt;br /&gt;– Desgraçado! , eu falei, indignado.&lt;br /&gt;– De fato, ele era muito ruim –, continuou dizendo o Zulu. Depois de um mês, ele retornou. Como não arrumei a grana que devia para ele, ganhei uns tapas, uns chutes, algumas queimadas da brasa de cigarros na perna, no rosto, no sovaco – lugar que dói pra caramba. Levei também chutes no saco, na barriga, na bunda, em tudo quanto é lugar. Até enfiar um pau no meu buraco negro ele quis. Mas não enfiou, porque quando ele estava para enfiar, eu falei está bem; não queria, mas vou pedir para o meu pai pagar a minha dívida. Ele parou logo em seguida. Cansado de tanto me bater, sentou-se numa cadeira perto da minha cama e ficou olhando para mim. Respirava ofegante. Aos poucos, a sua respiração foi voltando ao normal, e ele começou a falar. Ou melhor: a contar uma história. A história de seu avô, que era negro. Ele disse que seu avô foi o único da família que conseguiu levar uma vida honestamente; que nem seus pais, nem seus tios e nem ninguém conseguiu tal proeza. Em seguida, para concluir a história; isto é, para dizer a moral da história, ele falou, com a maior cara de pau: sabe por que meu avô... mesmo sendo negro... viveu uma vida honesta? Porque ele era um negro branco, entendeu? Era negro por fora, mas branco por dentro. Isto! Ele era negro mas um negro branco, mais branco que muitos brancos por aí...&lt;br /&gt;– Meu Deus...!, – exclamei.&lt;br /&gt;– Depois que ele falou isso, liguei para o meu pai pelo celular – sim, celular, porque hoje em dia até mesmo um miserável como eu por ter um. Contei para ele tudo o que havia acontecido e ele perguntou onde eu estava. Falei o endereço para ele e ele, junto com o meu irmão, apareceram quase no mesmo instante. O agiota filho duma prostituta esperou por eles mas lá do outro lado da rua, com medo de meu pai e meu irmão aparecerem com a polícia. Quando chegaram, sem a polícia, ele atravessou a rua e entrou no meu quarto, aonde meu pai e meu irmão me olhavam, com um ar de revolta e piedade – com certeza, não deve ter sido fácil para eles me verem assim, naquela situação, deitado na cama e cheio de pinos na perna e marcas de queimadura e hematomas pelo corpo inteiro. O agiota, a sua vez, entrou com uma arma apontada para o meu pai e para o meu irmão, a fim de intimidá-los; afinal, quem não se revoltaria e partiria a cara do agressor de seu filho e de seu irmão?&lt;br /&gt;– Só se for um pai e um irmão bem indiferentes! –, eu disse.&lt;br /&gt;– Era essa a vontade deles. Mas, com a arma apontada para eles, não puderam fazer nada. Iam fazer o quê? Tiveram que conter o sangue quente e ficar quietos. Enquanto isso, o agiota olhava para nós três com um sorriso malvado no rosto. Pediu para o meu pai passar a grana e ele passou. O agiota pegou o dinheiro, colocou no bolso e antes de sair, fez uma cara de que havia algo estranho. Vendo que meu pai era branco, e meu irmão também, perguntou se eu era filho dele de verdade ou não.&lt;br /&gt;– Ele teve essa coragem?, perguntei.&lt;br /&gt;– Teve. Quando ele perguntou isso eu me lembrei de uma certa conversa que tive com uma amiga. Alguém havia falado para ela que meu pai era branco. Daí ela veio e perguntou: por que você nasceu negro então?  Ah!.., eu resmunguei. Boa pergunta! Eu realmente não sei. Talvez nasci negro para expiar com mais sofrimento os meus pecados. Ou então, nasci negro por causa de uma aberração genética do meu pai e da minha mãe. Difícil resposta, não? Aliás, agora quem ficou curioso em saber por que nasci negro sou eu. Por que será que eu nasci negro, hein?, perguntei para ela.&lt;br /&gt;– Ela respondeu?&lt;br /&gt;– Não. Nem ela respondeu para mim nem meu pai respondeu para o agiota. Ao invés disso, pediu para o agiota ir, pelo o amor de Deus, embora. Com o dinheiro no bolso, o filho duma prostituta do agiota foi. Ao ir, meu pai e meu irmão me colocaram no braço e me levaram para o carro deles. De lá, voltei para a casa do meu pai. Meses depois, eu estava melhor. Novamente, voltei a fazer as minhas molecagens. Minhas não: das minhas negras. Porque são elas que precisam de dinheiro ou para isso ou para aquilo. Até uma dessas negras ficar grávida e eu ser obrigado a me casar com ela. Casei. Mas ainda continuo o mesmo moleque de sempre. E quando não é o meu pai me aporrinhando por causa disso, é o meu irmão. E quando não é o meu irmão, é a minha mulher; e quando não é a minha mulher é a sogra, a vizinha, a avó, ou o avô...&lt;br /&gt;– E o careca filho duma cadela?, eu perguntei.&lt;br /&gt;– O careca filho duma cadela que me aguarde! O dele está guardado... Na hora certa, no dia certo, no momento certo ele vai aprender a respeitar um negro: vou dar uma lição de cidadania nele. Não acha que estou certo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;OS DEMÔNIOS DA DONA OTÍLIA.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias, assim que a dona Otília chegava em casa, às sete horas da noite a sua vizinha começava a oração de exorcismo. Otília ficava ouvindo, achando graça nas palavras da evangélica: ó Senhor, o demônio chegou; o demônio e a sua legião de capetas chegaram; queima eles, Jesus, queima! Era engraçado, e Otília divertia-se muito, enquanto colocava lenha no fogão para fazer o jantar.&lt;br /&gt;A casa da dona Otília era a única de madeira naquela rua; tinha pouca iluminação e o chão era puro barro. Ainda não havia asfalto nessa rua, mas a maioria das casas era grande e boa. Hoje, dez anos depois, o asfalto já chegou; e o bairro, enfim, ficou bem mais valorizado. Até a casa da dona Otília, que era um casebre feio de madeira, agora se encontra feita de material, tal como as outras, ainda que não tão grandes nem tão belas.&lt;br /&gt;Mas o fato é que naquela época a casa da dona Otília era feiíssima; e ela, por ser boliviana, trazendo na face o aspecto indígena, era discriminada por algumas vizinhas – não muitas; aliás, talvez cinco ou seis, pois o resto lhe via com bons olhos: nem todo mundo tem pré-conceito e ódio dos pobres.&lt;br /&gt;Nem mesmo a sua vizinha crente tinha, antes de converter-se. Não obstante, assim que o pastor começou a colocar na cabeça dela toda uma demonologia, explicando a partir daí a origem e a razão da miséria, ela passou a ter ódio dos pobres. Ou medo, não sei. O que sei é que para essa crente – vale lembrar que nem todos os crentes são assim; e a minha intenção não é ofender religião alguma, nem ninguém – a dona Otília, sua vizinha, era a representação mais cabal do deus da miséria: Satanás e Otília eram pai e filha.&lt;br /&gt;Mas Satanás tem muitos filhos, e Otília tinha, portanto, muitos irmãos, tais como: o seu Tranca-Rua, demônio da morte e da miséria, que impedia o progresso da dona Otília; o seu Zé-Pilintra, demônio da bebida que pegava o marido dela e fazia dele um bêbado; a Pomba-Gira, demônio da sexualidade que botava desejos insaciáveis em sua filha assanhada; e assim por diante, uma legião interminável de encostos que acompanhava a dona Otília...&lt;br /&gt;E não só isso: dona Otília era macumbeira e fazia feitiços todos os dias – se a vizinha fosse uma dessas que ganham coragem para espiar em cima do muro, iria ver que o único feitiço que a dona Otília fazia era o jantar para a sua família afinal, nada além disto. Portanto, ela não acendia incensos para ninguém: ela acendia a lenha para o seu fogão, oras bolas. E enquanto cozinhava, divertia-se com os gritos da vizinha crente, sem saber, na sua grande inocência, que tais gritos eram dirigidos para ela e a sua legião de encostos.&lt;br /&gt;Mas um dia, graças a Deus, uma outra vizinha veio falar com ela, dizendo que o que a vizinha crente fazia era algo abominável; que coisas assim não se faz com ninguém, nem mesmo com as piores pessoas do mundo, que é chamar o outro de Satanás, de demônio.&lt;br /&gt;– Como é que é?!, disse a dona Otília.&lt;br /&gt;– Isso mesmo que a senhora ouviu. Quando ela diz ó Jesus, o demônio chegou, é a você que ela se refere...&lt;br /&gt;Dona Otília ficou triste com isso. Pensou em guardar para si. Mas, sem querer, acabou contando para o marido, na hora em que estavam jantando, na frente da televisão. O marido, ouvindo esta ofensa, disse: deixa a ela comigo, Otília, vou mostrar para essa vizinha dos infernos quem é o demônio aqui... Dito e feito... No outro dia, quando a vizinha crente estava saindo de casa para ir à igreja com uma outra irmã, ele sacou o revólver e mandou bala para o ar, só para assustá-las. Saíram correndo, as duas; e ele, ali mesmo, gritou:&lt;br /&gt;– Isto é para você nunca mais chamar a minha esposa de demônio, sua crente maldita!&lt;br /&gt;Apavoradas, conseguiram chegar à igreja. Falaram com o pastor:&lt;br /&gt;– É pastor, o demônio quase matou nós duas hoje...&lt;br /&gt;O pastor perguntou como. Elas relataram o caso. O pastor diagnosticou: livramento. E rendeu glórias, porque no fim Jesus venceu. Na hora dos testemunhos, lhe chamou para o altar. E lá ela falou que há tempos vem lutando contra o demônio; que o encardido, de tão furioso, quase matou ela e sua amiga e irmã em Cristo naquela noite; mas que para a honra e a glória de Jesus, elas não morreram, e sim foram livres de todo mal.&lt;br /&gt;– Aleluia!, gritou um.&lt;br /&gt;– Glória a Deus –, gritou o outro.&lt;br /&gt;O certo é que lá na igreja delas Jesus venceu; mas, depois deste dia, ela nunca mais ousou fazer uma oração de exorcismo dentro de casa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A TRAMA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou começar esta trama contando como conheci a Valéria. Eu estava nos testes para uma vaga de emprego como auxiliar administrativo de uma grande empresa, e ela também. Neste dia, havia umas cinqüenta pessoas disputando duas vagas apenas. Quem aplicava os testes era uma psicóloga, acompanhada por Evair, gerente de nossa repartição.&lt;br /&gt;No primeiro teste, ela passou com uma sacolinha com um monte de papeizinhos dentro, onde em cada um estava escrito o nome de um animal com o seu parceiro ou parceira. A regra era simples: assim que ela desse o sinal, era para todos representar, por meio de mímicas apenas, o seu bicho, a fim de se formar os casais. Não valia fazer ruídos, nem emitir uma palavra antes de encontrar o seu bicho correspondente: quem fizesse, estava fora.&lt;br /&gt;Assim que ele deu o sinal, eu comecei a imitar um galo. Pulava e batia as minhas asas, com uma vontade imensa de gritar cocorocó. Enquanto isto, procurava a minha galinha. Olhando para os lados, finalmente encontrei uma linda mulher loira, dos olhos azuis e os lábios bem grossos, da cintura fina e os quadris largos, imitando uma galinha. Não pensei duas vezes: corri em sua direção e me grudei nela.&lt;br /&gt;– Você que é o galo? – perguntou a loira.&lt;br /&gt;– Sim, sou eu – disse me levantando e levantando ela também.&lt;br /&gt;Fomos o primeiro casal a encontrar o seu par. Ali de pé, ficamos observando os outros. Aquelas pessoas, de terno e gravata no chão, se passando por animal, se sujeitando, assim como eu e ela para conseguir um emprego, era realmente muito engraçado. Aliás, o mundo inteiro está engraçado. Para onde se vai, é preciso se sujeitar, dizer que faz tudo pelo emprego, desde imitar galinha à rebolar de bambolê com um pirulito na boca.&lt;br /&gt;Perguntei o nome dela:&lt;br /&gt;– Valéria.&lt;br /&gt;– O meu é Aldair.&lt;br /&gt;– Prazer, Aldair.&lt;br /&gt;Os outros testes foram feitos visando avaliar nos candidatos a capacidade de concentração, a memória, a criatividade e como cada um lida com as pressões. Tanto eu quanto a Valéria nos saímos bem nestes testes, ocupando as únicas vagas que tinham. Eu me senti um verdadeiro espermatozóide dentro de um óvulo, um grande vencedor, embora o fato da sujeição me deixava um tanto impotente. Dias depois, estávamos trabalhando junto.&lt;br /&gt;Ainda que fosse proibido o relacionamento amoroso entre dois funcionários desta empresa, passamos a namorar – escondidos, é claro. Na realidade, éramos praticamente como casados, pois ela vivia mais na minha casa do que na dela. Tanto é que suas coisas estavam quase todas em casa, ocupando o meu quarto, a minha sala, o meu banheiro.&lt;br /&gt;Para não levantarmos nenhuma suspeita, cada qual ia com o seu carro, e durante o serviço evitávamos afetos calorosos. E assim ficamos por uns dois anos, e muito provavelmente ficaríamos uns cem, se não tivesse acontecido o que aconteceu. Tudo começou quando passei a desconfiar da Valéria com o Evair. O jeito que os dois conversavam não era algo normal. Eu ficava de olho, cuidando, esperando eles se denunciarem de uma maneira ou de outra. Até que num dia, aconteceu algo inesperado, que me colocou numa situação limite.&lt;br /&gt;Eu estava entrando na sala do Evair quando vi, do lado da mesa dele, os sapatos da Valéria aparecendo, dando-me a interpretar que ela estava ali, escondida atrás da mesa, de joelhos, praticando sexo oral no horário de serviço. Quase perdi o juízo! A vontade que me dei foi a de sair na porrada, de quebrar tudo, de colocar o emprego em jogo, de dizer que Deus ia castigar os dois.&lt;br /&gt;Mas, esperei para me certificar, até ela levantar-se e me ver, empalidecendo-se. Já Evair, vendo a minha reação, sentiu a necessidade de explicar-se, de mostrar que não era nada daquilo que eu estava pensando, perguntando para Valéria se ela conseguiu encontrar a lente de contato que havia caído no chão.&lt;br /&gt;– Não, não encontrei – disse a Valéria, olhando para ele.&lt;br /&gt;– Que lente de contato? – quis saber, já que a Valéria não usava lentes de contato.&lt;br /&gt;– A minha –, disse Evair.&lt;br /&gt;– Por que não procura você mesmo a sua lente de contato? – questionei, bravo, sem conseguir disfarçar meu ciúme.&lt;br /&gt;– Como, se não enxergo nada? – argumentou.&lt;br /&gt;Nisto ele tinha razão. Mas não me convenceu. Queria provas que me dessem certeza, de que não havia nada errado entre eles. Por isso, aproximou-me da mesa, dei a volta dizendo que ia procurar a lente de contato no chão e aproveitei para dar uma olhada em sua braguilha, para ver se ela estava fechada ou não: estava. Logo, só me restava procurar uma outra evidência: a lente. Não achei.&lt;br /&gt;– Ela é muito, mas muito fina...–, disse Evair.&lt;br /&gt;O que era verdade. Por outro lado, não dava mais para ficar ali. Saí da sala de Evair e fui para o pátio da empresa, tomar um ar. Não demorou muito e a Valéria apareceu para falar sobre o que havia acontecido. Ao me ver, me falou baixinho, para ninguém ouvir, que não havia acontecido nada do que eu estava pensando. Depois, me mostrou a lente de contato de Evair, ao que eu disse que aquilo não provava nada.&lt;br /&gt;– Então vai ser preciso que você acredite em mim, Aldair.&lt;br /&gt;– Você jura que está me dizendo a verdade?&lt;br /&gt;– Juro por Deus – disse ela.&lt;br /&gt;– Então acredito – falei, num ato irracional de fé.&lt;br /&gt;– Acredita? – perguntou, alegre.&lt;br /&gt;Falei que sim, e para me testar, a Valéria, olhando para os lados a fim de ver se havia alguém perto, pediu-me um beijo. Beijei-a, com um medo terrível de encontrar um gosto estranho em sua boca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Valéria era a mulher da minha vida, e não seria por uma besteira dessas que iria perdê-la. E se algo realmente tivesse acontecido, e daí? Eu teria casado com ela inclusive, se não fosse um fato muito estranho que aconteceu. Estávamos num bar, bebendo cerveja e se beijando, quando de repente, durante o beijo eu resolvi abrir os olhos, vendo Evair numa outra mesa.  Interrompi o beijo no mesmo instante, e a Valéria perguntou o que foi.&lt;br /&gt;– Não olhe agora, mas o Evair está por aqui.&lt;br /&gt;Minutos depois, ela olhou.&lt;br /&gt;– Deus do Céu, será que ele nos viu?&lt;br /&gt;– Não sei, mas ele está vindo para cá.&lt;br /&gt;– Tudo bem com vocês? – disse Evair, ao se aproximar.&lt;br /&gt;– Tudo. Você chegou agora? – fui logo perguntando, para ver se ele havia nos visto enquanto beijávamo-nos.&lt;br /&gt;– Eu estava aí. Vi vocês na mesa.&lt;br /&gt;No mínimo, havia visto sim.&lt;br /&gt;– Sente-se conosco – falei.&lt;br /&gt;O filho da mãe sentou.&lt;br /&gt;– Convidei a Valéria para um happy hour –, falei-lhe.&lt;br /&gt;– Ah, sim.&lt;br /&gt;– Mas, eu já estava de saída – disse para ele, em seguida.&lt;br /&gt;– Já?! Está cedo!&lt;br /&gt;– Está nada. Tenho algumas coisas para fazer em casa.&lt;br /&gt;– Ah, então está certo.&lt;br /&gt;Levantei-me, puxando um dinheiro na carteira.&lt;br /&gt;– A minha parte da conta.&lt;br /&gt;– Tudo bem – disse ela, pegando o dinheiro.&lt;br /&gt;E sai, deixando os dois sozinhos, fazendo sabe Deus o quê.&lt;br /&gt;Fui direto para casa, esperar por ela. E quanto mais pensava no ocorrido, mais ansioso ficava. Uma hora depois, ela apareceu.&lt;br /&gt;– Demorou, hein? – falou, ao abrir a porta de casa para ela.&lt;br /&gt;– Tive que despistar o homem – falou-me, indo direto para o banheiro, tomar um banho.&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– Lá vem você, com a sua desconfiança... –, disse ela, entrando no banheiro.&lt;br /&gt;Enquanto esperava a Valéria sair do banho, me perguntava: viu ou não viu? E fazer o quê, caso ele tenha visto? E agora, Deus meu?&lt;br /&gt;Quando a Valéria saiu do banho, conversamos sobre isto, com ela dizendo relaxa, Aldair, acho que ele nem viu. Tranqüilizado com as suas palavras, fui para cima dela, querendo sexo, o qual ela negou, alegando cansaço e dor de cabeça, por causa do chope. Não insisti, e deitou-me ao lado dela, que logo em seguida dormiu. Passei a noite em claro, pensando sobre tudo o que aconteceu.&lt;br /&gt;– Você não dormiu, Aldair? – perguntou ela, pela manhã, ao acordar.&lt;br /&gt;Respondi que não; que passei a madrugada toda pensando no que aconteceu – não somente nisso como também na possibilidade de ficar mais uma vez desempregado e ter que voltar a trabalhar num serviço qualquer, como se fosse um joão-ninguém na vida, que não estudou.&lt;br /&gt;– Você sofre por antecipação – disse a Valéria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Evair me chamou em seu escritório, dizendo que havia visto tudo. Explicou-me que regras são regras, que nós dois podíamos ter cargos de confiança futuramente, e um poder privilegiar o outro, em função do romance. Entretanto, entre eu e ela, preferia me conservar na empresa.&lt;br /&gt;– E você quem decide, Aldair.&lt;br /&gt;– Não tem um jeito? No Brasil para tudo se arruma uma maneira.&lt;br /&gt;– Desta vez não.&lt;br /&gt;– Eu a amo.&lt;br /&gt;– ?&lt;br /&gt;– Está bem. Pode me demitir – falei.&lt;br /&gt;Ao passar na sala da Valéria, dei o comunicado.&lt;br /&gt;– Ele vai me mandar embora também?&lt;br /&gt;– Não. Apenas eu. Estou indo. Te espero em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Valéria nunca mais apareceu em casa, nem mesmo para pegar as coisas dela. Trama dos dois? Medo de enfrentar o meu desemprego? Fui atrás dela, semanas depois, lá na empresa. A Valéria estava largando o expediente quando apareci.&lt;br /&gt;– Por que você sumiu? – fui logo dizendo.&lt;br /&gt;Não me respondeu.&lt;br /&gt;– Cadê seu carro?&lt;br /&gt;– Na oficina.&lt;br /&gt;– Vai embora do quê?&lt;br /&gt;– De ônibus.&lt;br /&gt;– Quer que eu te leve?&lt;br /&gt;– Não, obrigado.&lt;br /&gt;– Posso ao menos acompanhá-la até o ponto? – falei, então.&lt;br /&gt;– Pode.&lt;br /&gt;Começamos a andar. Andávamos na calçada. Ela do lado mais próximo da rua e eu do lado mais distante. Ela estava linda, radiante. Usava sapatos de salto alto, que eu tanto gostava. E usava o perfume que era o meu predileto, também. E usava a blusa azul que tanto admirava nela e usava a sua saia preta, de couro. Num dos pulsos, o seu lindo relógio, que com muito custo e economia dei de presente.&lt;br /&gt;– Por que você sumiu? –, perguntei novamente.&lt;br /&gt;– Não sei, Aldair. Mas acho que não vai dar mais certo, entende?&lt;br /&gt;O pior era que não dava para entender. Por causa disso, silenciou-me, enquanto andávamos em direção ao ponto de ônibus. E no silêncio, coloquei-me a observar o rosto da Valéria. Ela era linda. As pessoas que passavam por nós olhavam para ela com admiração. Isto me deixava bastante ciumento. Teve até mesmo um momento em que quase estourei quando ouvi de dois homens a frase: “Benza Deus!”, olhando para ela como se eu não estivesse ao seu lado. E foi assim até chegar ao ponto.&lt;br /&gt;– Meu Deus, como uma mulher tão linda assim pode entrar num ônibus coletivo?, pensei consigo mesmo, em silêncio.&lt;br /&gt;Longe, vi um moto-taxi. Pensei: nem que eu pague a corrida para ela, mas num ônibus coletivo não a deixo entrar! Olhou então para o moto- taxista e fiz sinal para ele parar. A Valéria perguntou por que ele fez isso. Falei para ela que era melhor ir de moto que de ônibus, que eu pagava. Ela balançou a cabeça, reprovando a idéia. Não me importei: ela ia de moto!&lt;br /&gt;O motoqueiro parou. Olhei para ele e vi na minha frente um homem com uma cara de safado, usando óculos escuros, cavanhaque, e roupas bem baratas. Imaginei a Valéria subindo na moto desse sujeito, pegando em sua cintura para apoiar-se. Depois imaginei o moto-taxista acelerando; e o corpo dela indo para trás e para frente, esfregando seus seios contra as costas do safado. E imaginei-a ficando excitada, pedindo para o motoqueiro que transassem.&lt;br /&gt;– Vai aonde? – perguntou ele.&lt;br /&gt;– Lugar nenhum. Me desculpe, mudei de idéia –, respondi.&lt;br /&gt;– Mudou de idéia? – disse ele, sem entender.&lt;br /&gt;– É.&lt;br /&gt;– Quer dizer que desistiu da corrida?&lt;br /&gt;– Sim, desisti da corrida.&lt;br /&gt;– Então, tá bom – disse ele, seguindo a diante, sem entender.&lt;br /&gt;E foi.&lt;br /&gt;A Valéria me olhou e perguntou por que havia dispensado o moto-taxista. Falou para ela que tive um pressentimento ruim. Ela repetiu: um pressentimento ruim? Falei: isto mesmo! Valéria então disse: você sempre tem pressentimentos ruins, Aldair, quando é que vai começar a ter pressentimentos bons?&lt;br /&gt;Não respondi.&lt;br /&gt;Em silêncio, fiquei ao seu lado, aguardando o ônibus chegar. Olhava para ela e lembrava de quando estávamos juntos. Até que o ônibus da Valéria apareceu e eu voltei para o momento presente. Quando o ônibus parou e abriu a porta para ela entrar, Valéria me olhou e disse, antes de subir:&lt;br /&gt;– Um dia a gente se vê por aí, Aldair.&lt;br /&gt;Fez que sim e fiquei ali, olhando ela desaparecer dentro do ônibus. Depois, triste como nunca antes, voltei para o meu carro. Em casa, fiquei olhando para as coisas da Valéria. Pensou no que fazer com elas. Eu podia muito bem fazer o que as pessoas geralmente fazem quanto terminam, repentinamente, com alguém, como por exemplo: queimar tudo, jogar fora ou  algo parecido; entretanto, resolvi guardar tudo o que era dela, no seu devido lugar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;INFELIZ NATAL&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte e uma horas de dez anos atrás: chegam os primeiros convidados. Vinte e duas horas: quase todos estão presentes: irmãos, irmãs, cunhados, noras, genros, netos e netas. Vinte e três horas: a ceia está pronta, servida à mesa, em volta de alegria, abraços, risos e palavras bonitas. Vinte e quatro horas: é natal! É festa! É hora de trocar presentes!&lt;br /&gt;Vinte e uma horas de dez anos depois: ninguém na casa a não ser o dono. As luzes estão apagadas. A única coisa que reluz é a televisão. Vinte e duas horas: o dono, pai de muitos filhos e muitas filhas; avô de muitos netos e muitas netas; bisavô de bisnetos e de bisnetas vai até o portão da frente, espia, nada vê. Vinte e três horas: uma das filhas aparece, acompanhado do filho mais velho, um jovem de vinte e oito anos.&lt;br /&gt;– Benção, pai.&lt;br /&gt;– Deus te abençoe.&lt;br /&gt;– Benção, vô.&lt;br /&gt;– Deus te abençoe.&lt;br /&gt;– Ninguém, pai?&lt;br /&gt;– Ninguém.&lt;br /&gt;Dois velhos, conhecidos do dono e também abandonados, se aproximam. Mãe e filho adentram na casa. A mãe pega o telefone, e começa a ligar, a querer saber onde está a família. O filho, sentado lá no fundo, tem vinte e oito anos de idade...&lt;br /&gt;– Ele só está colhendo o que plantou – diz a voz do outro lado da linha.&lt;br /&gt;– Mas ele é seu pai.&lt;br /&gt;– Ele quis assim.&lt;br /&gt;– Então vocês não vão vir?&lt;br /&gt;– Não. Se quiserem vir, venham.&lt;br /&gt;– Não, não vou. Não vou deixar meu pai sozinho.&lt;br /&gt;E desligou.&lt;br /&gt;O filho, vindo lá do fundo, diz:&lt;br /&gt;– Não deu nem o feliz natal?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– E o que vamos fazer?&lt;br /&gt;– Vamos passar o natal aqui.&lt;br /&gt;Que solidão!&lt;br /&gt;A mãe vai para a cozinha, ver o que tem para comer: arroz, feijão, carne. O dono da casa se despede dos velhos abandonados e entra. O neto diz:&lt;br /&gt;– Vamos beber?&lt;br /&gt;Os olhos do avô brilham.&lt;br /&gt;– Se você pagar, qual o problema?&lt;br /&gt;O filho busca as garrafas de cerveja. Os três bebem. Meia noite dizem feliz natal e o filho busca mais cerveja. Depois destas, filha e neto dizem: chega! E vão dormir. O velho, não muito bêbado ainda, faz que vai fechar o portão e sai para a rua. O velho, viúvo, avô e bisavô, abandonado na pobreza, aprisionado na amargura, entra no bar do Ari. Bebe uma, bebe duas, bebe seis.&lt;br /&gt;Volta.&lt;br /&gt;– Eu vou matar o Ari, eu vou matar o Ari!&lt;br /&gt;Filha e neto levantam assustados: o velho tem uma arma debaixo da cama.&lt;br /&gt;– Que foi que o Ari fez, meu pai?&lt;br /&gt;– Eu vou matar o Ari, já disse, e saia da minha frente.&lt;br /&gt;O neto se põe no meio, impedido a passagem para o quarto do velho. O avô pede para o neto sair do meio, o neto não sai. Tenta a força, mas o neto é mais forte. O velho começa a gritar e a lutar contra o neto, dizendo: saia da frente que eu vou matar aquele filho da puta do Ari! O neto, escutando a mãe chorar, derruba o velho no chão e diz: pegue uma corda, mãe, rápido!&lt;br /&gt;A filha-mãe, chorando, encontra uma corda lá no quintal e volta, para entregá-la ao filho. O velho grita: eu vou matar o filho da puta do Ari, aquele desgraçado infeliz. O filho-neto fala: esquece o Ari, vô; e o amarra. Amarrado, o velho dorme, rangendo os dentes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A METÁFORA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que João Guerra ganhou a eleição não faltou mais serviço para a empresa de construção civil onde Olavo trabalhava. É claro que no seu primeiro ano de mandato as coisas não estavam assim, uma maravilha. Foi preciso primeiro repor o dinheiro gasto na campanha eleitoral. Mas assim que ele repôs, as obras começaram nos quatros cantos da cidade.&lt;br /&gt;Aonde se ia, ouvia as pessoas falarem dele, louvando o prefeito João Guerra. Olavo ria, diante da ingenuidade dos moradores de sua cidade; e só não dizia o que o homem era de verdade porque tinha o rabo preso e as pontas dos chifres cortados.&lt;br /&gt;A última vez que Olavo viu o prefeito ele ficou com uma raiva danada. Isso foi num sábado antes do almoço, lá na casa dele. Estava bêbado, o homem. Perguntou o que Olavo queria e ele disse que estava ali a mando do seu chefe, o Rosa.&lt;br /&gt;– Ah, o Rosa?&lt;br /&gt;– Sim, o Rosa.&lt;br /&gt;– E o que ele quer? – perguntou.&lt;br /&gt;– Quer que você assine o contrato – disse Olavo.&lt;br /&gt;– É o contrato da rodoviária?&lt;br /&gt;– Sim, da rodoviária.&lt;br /&gt;– Deixe-me ver esses papéis.&lt;br /&gt;João Guerra pegou o contrato e começou a ler. No fim da leitura, assinou o seu nome e entregou-o de volta.&lt;br /&gt;– Bebe cerveja?&lt;br /&gt;Por educação, Olavo aceitou.&lt;br /&gt;Mas antes não tivesse aceitado, porque teve de ouvir a conversa sempre provocadora do prefeito. O homem falava usando um tom de superioridade que dava nos nervos. Olavo foi se aporrinhando, e para suportar tantas provocações, resolveu beber no mesmo ritmo do prefeito.&lt;br /&gt;Beberam uma, duas, três, seis cervejas. Quando viu, estava falando que nem o prefeito. A partir de então, a conversa se tornou um verdadeiro desafio de monólogos; com João Guerra contando as histórias dele e Olavo, as suas. Digo desafio porque a mensagem que transmitiam era uma apenas: eu sou melhor do que você; eu sou melhor do que você; eu sou melhor do que você.&lt;br /&gt;Olavo, entretanto, foi se cansando desta disputa imbecil. Ainda mais porque o prefeito, na hora de contar suas histórias, tinha uma mania feia de fazer perguntas para o seu ouvinte adivinhar o que ele havia feito numa determinada situação. Sem conseguir se conter; Olavo, já cansado de bancar o adivinho e sapientíssimo sábio guru, resolveu dizer:&lt;br /&gt;– Não, seu prefeito, eu não sei o que você fez. Diga aí: o que você fez?&lt;br /&gt;João Guerra, com esta afronta, ficou bravo, irritado, e chamou Olavo de ingênuo.&lt;br /&gt;– Eu? Ingênuo?&lt;br /&gt;– Ingênuo sim!&lt;br /&gt;– Não, não sou um ingênuo, e você sabe muito bem disto! – falou Olavo.&lt;br /&gt;– O que eu sei é que você é ingênuo sim senhor! Do contrário, não estaria trabalhando ainda como funcionário!&lt;br /&gt;Ficou calado, olhando para os lados, rindo sem graça, querendo desdenhá-lo. O prefeito, por sua vez, não se deixou vencer pelo desdenho, porque sabia que se Olavo estava ali era porque ele não valia nada também.&lt;br /&gt;Não valia nada também porque Olavo era um engenheiro que prestava serviços para a prefeitura; e um engenheiro que faz algum serviço para o prefeito, ao menos na sua cidade, geralmente se deixa corromper, porque a tentação é grande e o roubo parece mais que normal.&lt;br /&gt;Porque sabia disso, o prefeito continuou o seu discurso, fazendo com que Olavo ficasse quieto, só lhe escutando. No fim desse discurso; ele, com a sua mania feia de querer que os outros adivinhem o que quer dizer, perguntou-lhe: você sabe o que eu sei? A única coisa que sei?&lt;br /&gt;– Não, não sei; seu prefeito – respondeu-lhe Olavo, secamente.&lt;br /&gt;– A única coisa que sei é que a prefeitura comeu todas as putas! – falou, virando o copo.&lt;br /&gt;Olavo sentiu-se definitivamente ofendido. Levantou-se e saiu bruscamente, sem despedir-se. Na camionete, colocou no guarda-volume o contrato assinado pelo prefeito; ligou o carro e bateu a porta com força. Depois, acelerou forte, arrancando, queimando pneu. Lá na frente, repetiu o que o prefeito disse, desdenhando-o: a única coisa que sei é que a prefeitura comeu todas as putas... Hum...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;SANSÃO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu Cláudio tinha os cabelos brancos, era grande e forte. Até hoje não conheço uma pessoa que tenha mais força e saúde como ele. Veio para fazer a experiência da força. Mas não só isso. Dela, extraiu toda a sabedoria. Era um homem inteligente, sábio; e, além disto, forte como Sansão.&lt;br /&gt;A primeira vez que me dei conta disto eu estava indo ao mercado com um vizinho quando de repente ele me falou: quer ver como esse seu Cláudio é forte? E logo em seguida pegou-o pelo braço, puxando-o, medindo a sua força. Levou um baile do homem, que brincava com ele como se brinca com uma criança: está bom seu Cláudio, chega, está doendo.&lt;br /&gt;Como eu era um sujeitinho que estava mais preocupado com os livros de filosofia, teologia, sociologia, psicologia, ciências políticas e direito, deixei passar despercebido este fato, para um ano depois, retornar a assistir a sua força em movimento, junto com a sua alta capacidade de raciocínio. Na ocasião, ele estava fazendo frete para a nossa mudança.&lt;br /&gt;Ficou em cima do caminhão, e de lá não saiu. Olhava para os móveis, perguntando o que tinha e o que não tinha. E mandava pegar isso, e mandava pegar aquilo, tudo meticulosamente planejado em sua cabeça branca de velho. Numa certa hora, eu falei para ele: eu quero é ver onde você vai colocar esse sofá. O Sansão só respondeu: deixe comigo que esses meus cabelos brancos não são de hoje.&lt;br /&gt;Entre uma brincadeira e outra, fui desejando um filho assim. Que Deus me desse um que não viesse fazer a experiência da reflexão filosófica que for; nem da descoberta de um grande bem para a humanidade, mas que viesse simples, forte, que usasse a cabeça apenas em serviço da força. Era isso o que eu queria: a completa negação minha; pois, o que eu sofria pensando não desejava para ninguém.&lt;br /&gt;Tanto é que escolhi uma mulher forte, não muito gorda, mas alta e larga, e com ela me casei. O sofá? O sofá coube direitinho na mudança, num lugar pensado milimetricamente. O meu filho nasceu. Um negro forte, cheio de saúde: Deus ouviu as minhas preces! Acompanhei cada passo de seu crescimento, preocupando-me mais com a sua alimentação do que com qualquer outra coisa. Quando eu brincava com ele, era sempre medindo a sua força. O meu filho, que coloquei o nome de Sansão, lutava contra, resistia, chorava e voltava à luta.&lt;br /&gt;Fui exercendo este papel até não poder mais, quando ele finalmente ficou bem maior do que eu e a minha força não passava de cócegas em seus braços e músculos. Entretanto, só foi parar com essas minhas brincadeiras que ele começou a levar a vida mais a sério. Eu interferia: relaxa, meu filho; não se preocupe com isso, tem um monte de gente que já está preocupada com esta questão, não precisam de você para isso.&lt;br /&gt;– Mas pai, eu preciso saber.&lt;br /&gt;– Não, não precisa não. A vida é muito mais bonita que as teorias de Einstein.&lt;br /&gt;– Mas pai, e esse tal de Nietzsche? Todos falam dele. Eu quero ler.&lt;br /&gt;– Não, não, larga de mão, não compensa. Os filósofos são todos chatos. Não vale à pena.&lt;br /&gt;– Mais pai! A professora falou de um Max Weber. Fique fascinado. Quero ler!&lt;br /&gt;– Não precisa, meu filho. Só quem precisa de Max Weber são os veados, e você não é veado que eu sei, é?&lt;br /&gt;– Pai, você sabe que não. E não tem nada a ver com isso que você falou; que Max Weber são para os homossexuais. &lt;br /&gt;– Olha aí, já está até falando termo científico. Pare com isso. Você é um rapaz bonito, cheio de saúde, vá ser um lutador, um atleta, sei lá.&lt;br /&gt;– Não quero, pai.&lt;br /&gt;– Mas Sansão... Você não acredita em Deus? Quando eu pedi um filho a ele, pedi para que fosse um que quisesse fazer a experiência da força. Então veio você. É dá experiência da força que você vai extrair a sua sabedoria. Vai por mim. Os livros vão te estragar.&lt;br /&gt;– Não quero saber.&lt;br /&gt;Os filhos são uma rebeldia que entristece todos os pais. Se há um pai que é perfeitamente feliz com o seu filho, esse homem é cego e não quis aprender a ler em braile. Fui ver, meu filho já estava me copiando, me imitando. Enquanto isto, sem poder fazer nada, fui vendo ele desperdiçar a vida em cima dos livros. Fui ficando amargurado, triste, talvez mais triste que Fernando Pessoa, poeta que gosto tanto. Por muito pouco não entrei em depressão.&lt;br /&gt;Fiquei torcendo para isto ser algo passageiro; mas, quanto mais meu filho lia, mais ele queria ler mais. E não só isto. Queria aprender outras línguas, conhecer outras culturas, ler todos os filósofos que existem. E então, com ele se afundando cada vez mais nos estudos, não tive outra alternativa a não ser aceitar, a aceitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;CAIXA DOIS&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias atrás, antes de o Marcos ter certeza, a dona da loja, assim que chegou deu uma bronca na Priscila, que lhe doeu os tímpanos, a cabeça e a alma. Pensou em pedir as contas, ir para nunca mais voltar, e dizer umas verdades engasgadas há muito à dona Liana. Depois, desistiu, foi para trás do caixa, balançou as pernas, ansiosa, e disse para si mesmo: do primeiro cliente que comprar, dez por cento da venda é minha; ah, se é!&lt;br /&gt;Logo após, a dona Liana saiu e ela ficou sozinha com o Marcos; que, com a cara alegre, devia estar feliz pela bronca que a colega de trabalho levou logo cedo. Olhou para ele, riu, e disse: ri das desgraças dos outros, ri... Minutos depois, um cliente entrou. O Marcos foi lhe atender, mostrou umas roupas e fechou negócio. O cliente foi ao caixa, pagar, e saiu de sacolas nas mãos.&lt;br /&gt;– Ele pediu desconto? – perguntou Marcos, chegando de lado.&lt;br /&gt;– Pediu.&lt;br /&gt;– E você deu?&lt;br /&gt;– Dei.&lt;br /&gt;Perguntou: quantos?&lt;br /&gt;– Dez por cento.&lt;br /&gt;– Dez por cento?&lt;br /&gt;– Por que o espanto?&lt;br /&gt;– Por nada... – falou, saindo de perto.&lt;br /&gt;Na porta da loja, balançou as pernas, ansioso, e acendeu um cigarro, já que a patroa não estava. Dez por cento... Dez por cento uma mentira! Pensa que sou burro? Deixa ela... Deixa ela pensar que sou isso, um burro.... Apagou o cigarro e voltou. Foi até o banheiro, tirar o cheiro da nicotina da mão e dos dedos. Olhou no espelho, e mais uma vez disse: pensa que sou burro, não? Voltou para o trabalho. Na hora do almoço, no lugar de almoçar ali perto, num restaurante, como sempre fazia, almoçou em casa. Falou com irmão mais novo:&lt;br /&gt;– Vai lá na loja; mas finja que você não é meu irmão, que nem me conhece.... Compra duas camisas, pede desconto, e me fala quanto ela deu. Toma o dinheiro. A Priscila vai comer aqui, na minha mão!&lt;br /&gt;O irmão foi, escolheu duas camisas, e se dirigiu ao caixa.&lt;br /&gt;– Faz desconto?&lt;br /&gt;– Faço.&lt;br /&gt;– De quantos você pode fazer?&lt;br /&gt;– De quantos você quer?&lt;br /&gt;– Dez por cento?&lt;br /&gt;– Dez por cento não posso fazer, moço. Pode ser de cinco?&lt;br /&gt;– Está bem.&lt;br /&gt;Pagou e saiu.&lt;br /&gt;Logo em seguida, Marcos sondou:&lt;br /&gt;– Pediu desconto, o cara?&lt;br /&gt;– Aquele idiota?&lt;br /&gt;Teve vontade de dizer: idiota é o seu noivo, aquele playboyzinho metido; mas disse: isso, o idiota... Não, idiota não, o laranja; isso, o laranja...&lt;br /&gt;– Pediu.&lt;br /&gt;– Você fez? – perguntou ele.&lt;br /&gt;– Fiz.&lt;br /&gt;– Ah?! Não acredito... De quanto?&lt;br /&gt;– Dez por cento.&lt;br /&gt;– Dez por cento?! – indagou, e saindo de perto, disse: pensa que sou um idiota.&lt;br /&gt;– O que você disse?&lt;br /&gt;– O dia está bonito lá fora, não?&lt;br /&gt;Foi para frente da loja. Pegou o celular e ligou para o irmão.&lt;br /&gt;– De quanto foi o desconto?&lt;br /&gt;– Cinco.&lt;br /&gt;– Ladra... Falou que de dez...&lt;br /&gt;– Gostou das camisas? – quis saber, o irmão.&lt;br /&gt;– Só da branca.&lt;br /&gt;– E da verde?&lt;br /&gt;– Não, pegue ela para você.&lt;br /&gt;– Valeu!&lt;br /&gt;– Falou.&lt;br /&gt;E desligou.&lt;br /&gt;Voltou para a loja.&lt;br /&gt;– Priscila?&lt;br /&gt;– Diga.&lt;br /&gt;– Aquele idiota é o meu irmão.&lt;br /&gt;Ficou surpresa, empalideceu.&lt;br /&gt;– Sério?&lt;br /&gt;– Sério. Liguei para ele e ele disse que você fez cinco por cento de desconto, e não dez!&lt;br /&gt;– Eu fiz, é? Acho que me enganei quando lhe falei dez – disse ela.&lt;br /&gt;Marcos enfureceu-se, e numa raiva de inconformado, disse: escuta aqui; menina, já faz tempo que estou lhe cuidando, sondando os seus passos, o seu coração: fui eu que planejei de meu irmão vir aqui, confirmar como você aplica o golpe, sua golpista!&lt;br /&gt;Priscila ficou quieta, sem reação.&lt;br /&gt;– E agora?&lt;br /&gt;– E agora o quê? – perguntou ela.&lt;br /&gt;– O que vamos fazer? Falar com a dona Liana?&lt;br /&gt;– Não, com ela não, por favor.&lt;br /&gt;– O que vamos fazer, então?&lt;br /&gt;– O que você quer que eu faça?&lt;br /&gt;Teve vontade de falar: sexo comigo, porque gostava muito do corpo dela, do rosto dela, dos seios, das pernas, da bunda e dos cabelos. Entretanto, uma coisa não tinha nada a ver com a outra: o pecado dela era de ordem financeira, e não sexual.&lt;br /&gt;– Meio a meio – falou.&lt;br /&gt;– Meio a meio?&lt;br /&gt;– Meio a meio e não se fala mais nisso!&lt;br /&gt;– Fazer o quê?...&lt;br /&gt;Depois, combinou com ela como que iria pegar a sua parte: só no fim do mês, para evitar o risco de serem pegos.&lt;br /&gt;– No final do mês quero tudo o que é meu, tudo!&lt;br /&gt;– Está bem.&lt;br /&gt;– E se você for pega por ela, não me entrega!&lt;br /&gt;– Por que não?&lt;br /&gt;– Porque se não eu te mato; eu te mato, Priscila!&lt;br /&gt;– Você não é capaz disso – falou ela.&lt;br /&gt;Era?&lt;br /&gt;Não, não era...&lt;br /&gt;Mesmo assim, fez questão de responder: você não me conhece, Priscila, não me conhece...                          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTI-DEPRESSIVOS&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ando fumando um cigarrinho após o outro; veja meus dedos, bem amarelos, mas antes não fumava tanto assim não, e sabe?... Por trás deste bichinho aqui se esconde uma depressão, uma ansiedade dos diabos... Mas a gente escolhe: ou toma remédio, ou fuma e bebe à vontade... No meu caso, prefiro beber a minha cervejinha e fumar o meu cigarrinho até morrer, se é que vou morrer por causa de fumar e de beber... Então... Antes não fumava assim, mas depois que o homem da minha vida me traiu, passei a fumar um atrás do outro. Isso já faz três anos.&lt;br /&gt;Quando ele me traiu, fiquei ruim por um ano mais ou menos. Até dar alergia em meu corpo deu. Começou com uma coceira no pé, depois foi para as minhas pernas, e de repente atacou a minha barriga. Mas não coçava com as unhas não, para não machucar o meu corpo. Eu pegava uma fralda e passava em cima da coceira. Num dia, a alergia estava demais e então fui num médico conhecido meu. Ele me perguntou: Néia; faz quanto tempo que você não se deita com homem? Eu disse que fazia um ano, mais ou menos; que depois que o homem da minha vida me traiu comecei a pensar que todos os homens por quem me apaixonar vão fazer o mesmo.&lt;br /&gt;O médico conhecido meu disse besteira, você não pode pensar que homem é tudo igual; arruma aí algum e se deita com ele que essa alergia vai passar no mesmo dia. Sabe? Eu pensei comigo: esse doutor está coberto de razão, eu vou ficar aqui?!... Me acabando por causa de um homem que me traiu?!... E que agora deve estar lá com a outra fazendo um amor bem gostoso?!... Que deve estar tomando a sua cervejinha e dançando os bailes com a outra?! Curtindo a vida? Eu não! Peguei o meu carro, me emperiquitei toda e fui para o baile...&lt;br /&gt;Lá eu arrumei um rapazinho que sabe dançar que é uma delícia. Mas não me deitei com ele na primeira noite em que nos conhecemos. Nem na outra. Na verdade, ele nunca me cantava... Os outros homens lá do baile viviam me dando aquelas cantadas horríveis e ele nada! Os homens diziam: e aí, vamos dormir essa noite num motel? Eu falava o que é isso, motel?... É de comer?... É de vestir?... Eu não sei o que é isso não!... E fingia de boba, sem dar a resposta. Os homens se levantavam da mesa e iam atrás de outras...&lt;br /&gt;Até que um dia, no baile, depois de tantas e tantas vezes a gente conversar, esse rapaz finalmente me cantou. E me cantou de uma maneira bem bonitinha. Na hora de me deixar na minha mesa, assim que terminamos uma rodada de dança, ele me disse: Néia, eu não sei se você percebeu, mas estou querendo te conhecer melhor... Fomos para um motel. Gostei dele. Fizemos um amor bem gostoso e daí para frente começamos a namorar. E sabe? O doutor amigo meu tinha razão: depois de transar com ele, alguns dias depois a minha alergia sumiu completamente.&lt;br /&gt;Mas, voltando ao cigarro, ao motivo que ando fumando tanto assim, que é por isso que estou falando com você. Esse homem, que pensava ser o homem da minha vida, eu conheci num baile, há uns seis anos atrás. Ele era um homem muito bom, tratava bem os meus filhos, e por isso fiquei apaixonada. Era presidiário, ou melhor, um fugitivo. Nessa época ele já havia cumprido três anos de prisão, e estava sob a condicional. Eu nem sabia disso, e só fui saber quando a polícia o prendeu na rodoviária. Na delegacia, perguntaram por que ele fugiu assim, quando estava prestes a cumprir de vez a pena. Disse que só fez isso porque não queria matar a esposa, que aproveitava a sua ausência de noite para traí-lo...&lt;br /&gt;Para não matá-la, resolveu sumir da cidade onde morava e começou a viajar para tudo quanto é lado, até me conhecer e decidir morar comigo e meus filhos. O juiz nem se comoveu com a história e mandou o Antônio para o presídio daqui mesmo, cumprir mais um ano, só para ele aprender a respeitar as leis. Enquanto cumpriu a pena aqui, durante um ano eu fui fiel, ia de quinze em quinze dias visitar ele no presídio, levava cigarro, me deitei somente com ele e com nenhum outro homem, mostrei que era mulher. Mas ele..., ele me apunhalou pelas costas, aquele covarde! Depois que cumpriu a pena e veio morar comigo, ele passou a viajar novamente, à trabalho. Um ano depois, a ex-mulher dele, a que ele teve vontade de matar daquela vez, me ligou dizendo: “olha Néia, o Antônio tá com amante aqui. Estou falando porque eu gosto de você. E se você quiser provar que eu não estou mentindo, vem para cá que eu levo você para ver com seus próprios olhos. Você tem como vir aqui?”&lt;br /&gt;Podia ser mentira dela, para destruir a minha união com o seu ex-marido. Mesmo assim, resolvi pagar pra ver. Falei para ela que tinha sim como eu ir até a cidade dela, mas que não conhecia nada lá. Ela falou vem que eu te pego na rodoviária. Você paga uma pernoite em alguma pensão e a gente vai na casa onde ele está vivendo com a outra. Eu disse estou indo agora mesmo. Peguei e fui para a rodoviária. Eram oito horas da noite. Cheguei de manhã. A ex-mulher dele estava lá, me esperando. Era uma mulher simpática, até. Me pegou de carro e me levou. Ao chegar, ela disse: é aquela casa ali. Mas não posso ir lá, levar você. E você não diz que fui eu quem disse para você, tá bom? Eu falei tá bom, eu não falo. Agora eu vou embora. Eu falei obrigado e ela foi. Depois, eu bati lá na porta da casa que ela me disse que era.&lt;br /&gt;Uma mulher bem feia, horrível, apareceu na porta perguntando o que eu queria. Eu disse: quero falar com o homem que MANDA aí nessa casa... De repente o Antônio apareceu. Néia?..., perguntou ele, surpreso. Era verdade... Ele estava me traindo mesmo! Enquanto a besta aqui acreditava que ele estava viajando a trabalho somente, ele estava é morando também com outra mulher! Respondi para ele: sou eu mesma, a Néia, sua mulher... Vim aqui para saber o que você anda fazendo comigo, e também, para agradecer: obrigado por me trair! Mas... À partir de hoje, eu morri para você!&lt;br /&gt;A mulher feia e horrível dele quis me agredir com palavras mas o Antônio falou para ela: cala a boca, entra pra dentro, vai caçar o que fazer que ela é a primeira, você que é a segunda e sabe muito bem disso!&lt;br /&gt;– Onde você está hospedada? – perguntou ele, virando para mim.&lt;br /&gt;– Lá perto da rodoviária – falei para ele.&lt;br /&gt;– Eu vou te levar lá, a gente vai conversando...&lt;br /&gt;Eu disse tudo bem, vamos lá, porque eu precisava mesmo falar com ele, dizer tudo o que sentia. Acabamos indo para um bar. Bebemos todas. Eu fiquei bêbada e ele também.&lt;br /&gt;Daí, os dois pôde dizer tudo o que estava sentindo. Desabafei. Eu chorei e ele chorou. Falei para ele: você quebrou o meu coração; deixou ele em pedaços, estraçalhado. Antônio pediu desculpas, implorou para eu dar uma chance, que se eu o perdoasse ele nunca mais na vida nem iria olhar para a mulher com quem estava morando... Quase voltamos... Quase falei para ele tudo bem, eu esqueço tudo. Mas não podia! Eu tinha que me respeitar! Falei não, não, e não! Ele, ainda assim, perguntou se não podíamos ir para um motel, porque na cama era o lugar onde a gente sempre se entendia. Eu falei: depois do que você fez comigo, Antônio, este CORPO aqui não deita mais no seu; deita no corpo de um cachorro vira-lata da rua... Mas no seu não se deita mais não!...E não me deitei... Voltei para casa e fiquei triste por um ano mais ou menos, sem sair, sem ir nos meus bailes, sem tomar a minha cerveja. Só fumava, um cigarro atrás do outro, até deixar os dedos amarelos. Até que veio a coceira dos infernos e o doutor pedir para eu fazer amor que a coceira passava.&lt;br /&gt;Fui para os bailes. Eu amo dançar, beber, fumar, me divertir. Mas não gosto de qualquer homem não, principalmente esses que saem falando das outras mulheres. A coisa que eu acho mais terrível no mundo é um homem falar de outra mulher, que essa é larga... Que aquela é uma vadia... Que a outra é fedida... E essas coisas... Eu falo para os meus filhos. Tenho três. Um de vinte e sete anos; outro de vinte e seis, e o mais novo de vinte e um. Eu falo: não fale mal das mulheres que vocês saem, porque se não servem para vocês, servem para outros...&lt;br /&gt;Daí, eu conheci esse rapaz... Ele tem a idade do meu filho mais velho. Eu tenho quarenta e cinco anos de idade... Mas sou bonita. No baile aonde sempre vou só vai pessoas da mais idade. Vão homens com menos de trinta, mas são poucos. Lá eles me chamam de Barbie, de boneca... Eu?..., penso comigo, Barbie?... Aos quarenta anos de idade?...&lt;br /&gt;Graças a Deus, nenhum me falta com respeito, porque eles sabem que o rapaz que fica comigo tem muito ciúmes de mim. Ele me ama. Vai fazer um ano que estamos juntos. Mas não vamos casar não. Ele tem uma filha. É separado. Já pediu para me casar com ele. Eu falei que não; que já estava velha para isso; que tinha filhos adultos e que não ia saber viver com um homem dentro de casa me mandando. Eu sou muito independente. Mas, não impeço dele conhecer outra mulher que queira casar com ele, não quero fazer ninguém infeliz, não é? Enquanto isso, vamos vivendo a nossa vidinha..., dançando..., bebendo..., fumando..., fazendo amor bem gostoso..., afinal, o amanhã só a Deus pertence, não acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A GALINHA DOS OVOS DE OURO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da casa n° 369, na rua Bartolomeu de Gusmão, aquela pintada de branco e de azul, com o telhado tradicional, gramado bem verde na frente, varanda, muro e portão, sai todos os dias da semana, bem cedinho, a Silvana. E se manda para o serviço, no seu automóvel popular, um pálio de dez anos atrás. Sempre bonita, de saia próxima aos joelhos, camisa curta, cinto, bolsa, o cabelo volumoso, óculos de sol, ela entra no carro e vai embora, sempre de um bom humor contagiante.&lt;br /&gt;Logo depois dela, saem os três filhos pequenos, indo para o colégio. Às onze horas da manhã, surge Orlando, o marido. Na varanda, ele levanta os braços, se espreguiça, senta na cadeira, acende um cigarro e fica fumando. Depois, joga o cigarro, volta para dentro de casa, liga o aparelho de som num volume alto, abre um sorriso, e vai para a cozinha, fazer o almoço. Enquanto isto, acompanha:&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Ô vida boa; oô vida boa...&lt;br /&gt;Sapo caiu na Lagoa...&lt;br /&gt;Sou eu a caminho do meu sertão...&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca foi de trabalhar. Tudo o que possui, foi a mulher quem deu. Importa-se com isso? Jamais. A casa onde vivem; o carro da mulher; o seu; tudo veio graças à Silvana. Mas nem por isso algum dia deixou-se submeter. Quando vê as asas da Silvana crescer, poda, como sempre podou e continuará podando. Se preciso; lhe pega pelos braços, agride, chacoalha, mostra quem é que dá a última palavra. Silvana, com isso, se derrete: homem de verdade é como Orlando; o resto, cópia...&lt;br /&gt;Tem dó e nojo de homens que não se impõe; que aparecem com o rabo balançando e o focinho molhado só num estalar de dedos. Homens assim não merecem respeito. Quando arrumam uma mulher, ela é cheia de não pode isso não pode aquilo, a flor-do-não-me-toque. Quando arrumam uma que é fogo por todo corpo, entregam tudo o que tem. Que nem o seu primeiro chefe, seu Jaime. Morto de ciúme; deu-lhe um carro, só para ela parar de ficar conversando com os funcionários da empresa.&lt;br /&gt;– Sabe dirigir, Silvaninha?&lt;br /&gt;– Não sei mas aprendo.&lt;br /&gt;Entrou na auto-escola, três meses depois tirou a carteira, ganhou o pálio, jurou eterno amor. Orlando, neste tempo, que era somente namorado, pediu para fazer um test driver. Silvana disse que sim, que ia adorar dar uma volta de carro com ele. Mas Orlando entrou no pálio, pegou no volante, ligou a ignição, deu umas aceleradas e disse:&lt;br /&gt;– Espere aí; já volto, vou dar uma volta no quarteirão sem você, porque quero ir em alta velocidade e é perigoso.&lt;br /&gt;E foi; sem lhe dar tempo de falar que não tinha problema algum correr risco de vida estando ao lado dele. Dessa volta ele sumiu no mundo. Silvana passou a noite inteira chorando, de ódio. Pela manhã o distinto apareceu, para lhe entregar o carro. Estava bêbado e com a roupa cheia de marcas de batom:&lt;br /&gt;– Olha o que você ganhou, para deixar de ser imbecil – disse para si mesma.&lt;br /&gt;Sem querer, descobriu um modo de arrancar dinheiro de seu Jaime sem este desconfiar de qualquer maldade por parte dela, quando pensou estar grávida dele. Pediu a ela para tomar injeção, tomou, e no outro dia, a menstruação desceu. Assim que seu Jaime lhe viu, apurou. Por brincadeira, resolveu mentir. Seu Jaime, sem rodeios, perguntou se ela conhecia alguém que fazia aborto. Falou que sim, apenas por falar. Então seu Jaime sacou o talão de cheque, assinou uma folha em branco, e deu para ela:&lt;br /&gt;– Aborta.&lt;br /&gt;Olhou para a folha de cheque em branco e decidiu levar adiante a mentira. Contou para Orlando. Ele disse: você é uma bandida; uma pistoleira; menina, e tomou dela o cheque. Meses depois, Orlando pediu para ela aplicar mais uma vez o golpe do aborto. Fez resistência; e ele, chantagem. Dias depois, a mesma cena. Mais um cheque assinado em branco! Para Orlando. E teve a terceira e a última vez; só que agora, estava grávida de verdade, e o pior: do seu Jaime! Junto com o cheque, o fim do caso amoroso, porque ficou com medo de hora ou outra ela ficar grávida e aborto nenhum derrubar o anjinho.&lt;br /&gt;– Seu cretino! – disse, em lágrimas...&lt;br /&gt;Ganhou as contas, recebeu o acerto bem além do que merecia; foi numa farmácia, ver o que podiam fazer por ela. O farmacêutico lhe aplicou uma injeção. Nada adiantou. Voltou à farmácia, fez o teste de gravidez, deu positivo, e dali para frente não era mais problema do farmacêutico. Relutou, fez escândalo, perguntou por que não era mais problema dele.&lt;br /&gt;– Abortar é crime.&lt;br /&gt;– E o que você fez quando me deu a injeção?&lt;br /&gt;– Quando lhe apliquei a injeção não cometi crime algum. Quando lhe apliquei a injeção foi para matar o espermatozóide, que nem ter alma ainda tem.&lt;br /&gt;– Como não tem alma? Claro que tem alma! Quando um espermatozóide entra no óvulo de uma mulher, no mesmo instante Deus envia lá do céu a alma do infeliz. Tá na Bíblia, não sabia?&lt;br /&gt;– Eu duvido muito – disse ele.&lt;br /&gt;– Dúvida do quê, que está na Bíblia?&lt;br /&gt;– Não. Na Bíblia eu sei que não tem nada disso. Eu já fui um desses crentes que andam com a Bíblia debaixo do sovaco; que tem a bendita de cor na cabeça. Pelo que eu sei, na Bíblia não diz nada disso, de que Deus envia a alma no momento em que o espermatozóide entra no óvulo.&lt;br /&gt;– Então você duvida que quando um espermatozóide entra no óvulo Deus manda uma alma para ele?&lt;br /&gt;– Isso.&lt;br /&gt;– Tá bom, moço. Mas não é isso o que quero saber, se você duvida ou não duvida disso ou daquilo. O que quero saber é como eu vou ficar?&lt;br /&gt;– Não sei; se vira. Procura alguém que aborta. Ou então tenha a criança!&lt;br /&gt;A criança não ia ter. Lembrou-se de um amigo que passou a ser a favor do abordo depois de abandonar a vida religiosa. Ligou para ele.&lt;br /&gt;– Você quer matar a criança, é isso? – disse sério, mas brincando.&lt;br /&gt;– Matar não, abortar.&lt;br /&gt;– Sim, e não é a mesma coisa?&lt;br /&gt;– Não. Abortar é uma coisa, matar é outra.&lt;br /&gt;– Eu não vejo diferença – disse, levando adiante a brincadeira.&lt;br /&gt;– Mas eu vejo. Ah, na verdade, o que importa? Entre matar ou abortar eu prefiro não ter essa criança...&lt;br /&gt;– E por que não?&lt;br /&gt;– Porque não é do Orlando.&lt;br /&gt;– De quem é?&lt;br /&gt;– Do meu chefe maldito.&lt;br /&gt;– Eu conheço um cara, que vende uns comprimidos que derruba.&lt;br /&gt;– Que cara?&lt;br /&gt;– Um sujeito que trabalha no camelódromo.&lt;br /&gt;– Vamos atrás dele.&lt;br /&gt;– Quando?&lt;br /&gt;– Agora.&lt;br /&gt;– Agora?&lt;br /&gt;– Sim, agora.&lt;br /&gt;– Mas eu tenho aula.&lt;br /&gt;– Mata – disse ela.&lt;br /&gt;Ao dizer isso, Pedro falou:&lt;br /&gt;– Você realmente está uma assassina, hein?&lt;br /&gt;Foram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No camelódromo, o matador de crianças. Discutiram o preço; era caro de mais, mas no fim concordou. Eram quatro comprimidos, dois via oral e dois via vaginal. Tinha que ser bem dentro, para alcançar o útero. Perguntou se queria que fizesse o serviço: nem morta! Avisou que era difícil; que colocar a mão na massa era o mesmo que estar mexendo com cimento; e abriu o sorriso com os dentes pobres. Nojento, foi a palavra que ouviu de Silvana. Foram embora. Em casa, a tentativa de homicídio. Insucesso. Voltou. O assassino matador sorriu de novo, tinha um dente de ouro no canto, brilhando. Desta vez, usou a palavra feia, aquela parecida com a bolsa em diminutivo, deixa? Ódio, injúria, revolta. Venceu o orgulho; viu o dente de ouro brilhar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Magaíver não morreu – disse ela por telefone, para o Pedro.&lt;br /&gt;– Quem?&lt;br /&gt;– O Magaíver.&lt;br /&gt;– Quem é esse?&lt;br /&gt;– Quem? O neném, seu idiota.&lt;br /&gt;– Ah, sim...&lt;br /&gt;– Vamos lá comigo de novo.&lt;br /&gt;Foram.&lt;br /&gt;Passou mais uma vez pelo constrangimento. E advinha? O feto não morreu! Daí, viu que era uma vontade de Deus esse menino vir ao mundo. Contou toda a verdade para Orlando.&lt;br /&gt;– Mentira! – disse ele, com os olhos alegres.&lt;br /&gt;– Verdade!&lt;br /&gt;– Mas que neném forte!&lt;br /&gt;– Pois é.&lt;br /&gt;– Vai tê-lo! Por que se não, quando você morrer, Deus te manda diretinho para o inferno!&lt;br /&gt;– Mentira! Deus perdoa.&lt;br /&gt;– Perdoa? Vai nessa... Na verdade, ele manda você retornar, e você nasce de novo aqui na terra, para expiar seu erro, sabia?&lt;br /&gt;– Deus não é tão cruel assim.&lt;br /&gt;– Já pensou? Que bom ter que voltar e viver mais uma vez aqui, ao invés de ir para o paraíso eterno?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Eu mesmo adoraria viver umas cem vezes essa vida.&lt;br /&gt;– Deus me livre.&lt;br /&gt;– Você diz isso porque vive sofrendo. Já eu, não. Vivo uma vida de prazeres.&lt;br /&gt;– Você é um inconseqüente!&lt;br /&gt;– Não, não sou. Olha, mudando de assunto, você vai ter esse filho, e o pai vai ter que pagar pensão! E a pensão tem que ser alta, viu? Alta!&lt;br /&gt;Teve o filho.&lt;br /&gt;O menino, que colocou o nome de Tiago, nasceu cheio de complicações, devido aos abortivos que ingeriu. Mas sobreviveu. Em sua fase de crescimento, sofreu vários acidentes. Teve um que era para ter morrido. Hoje, quase todo o mundo lhe chama de Magaíver. Quer ser policial, quando crescer.&lt;br /&gt;Depois do seu Jaime, teve dois patrões, fora o de agora. Com os três, os mesmos golpes, as mesas sortes. No total: três filhos, uma casa, dois automóveis, poupança gorda, pensões altas para receber...&lt;br /&gt;Assim que terminou de fazer o almoço, as crianças chegaram da escola. Depois veio Silvana. Almoçaram. As crianças, como sempre, ficaram em casa, com ele; e Silvana voltou para o seu serviço como secretária...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A INDENIZAÇÃO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ritinha, a negra da minha vida, quis saber por que ultimamente eu carregava tanto o Silvinho para lá e para cá, naquela cadeira de rodas. Inventei uma desculpa bem esfarrapada: caridade, minha negra. Desde quando você tem uma alma caridosa, em seu infeliz?, disse ela, brava, do jeito que sempre fica quando alguém quer fazê-la de idiota.&lt;br /&gt;A Ritinha tinha razão: a minha alma não era tão boa assim. Depois que fui dispensado do quartel; depois que perdi meu emprego porque o chefe de cozinha não foi com a minha cara; depois que o Silvinho passou a usar uma cadeira de rodas; eu deixei de ser bonzinho e passei a ser rancoroso. Foi quando conheci a Ritinha, a negra da minha vida. No começo, ela tentou me curar, com seu amor, mas com tempo viu que não tinha jeito e passou então a me vigiar, a querer saber de todos os passos que dava.&lt;br /&gt;– Anda, diga, o que você faz tanto com o Silvinho, Rivaldo?&lt;br /&gt;– Nada de mais.&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– Verdade.&lt;br /&gt;Assim que falei verdade o Silvinho apareceu no portão de casa, me chamando.&lt;br /&gt;Fui atendê-lo.&lt;br /&gt;– O homem do revólver está esperando, lá no centro – disse ele.&lt;br /&gt;Eram três horas da tarde.&lt;br /&gt;Voltei para a Ritinha e disse que ia dar uma saída, coisa rápida.&lt;br /&gt;– Se cuida – disse ela, quando eu estava no portão.&lt;br /&gt;Peguei o Silvinho pela cadeira de rodas e fomos para o ponto de ônibus. Não demorou muito e o lotação chegou. Coloquei o Silvinho no elevador automático e ele subiu. Todo mundo parou para olhá-lo. Tive pena do Silvinho: quem até alguns meses atrás esbanjava saúde agora estava ali, enfrentando as vergonhas da invalidez. Deixei-o no canto reservado para os cadeirantes e desci, dando a volta para entrar pela porta da frente. Ao passar a catraca, fui para perto do Silvinho.&lt;br /&gt;– Se eles tivessem me dado uma indenização decente, teria comprado um desses carros para deficientes, sabe qual é? – perguntou-me ele.&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– E uma cadeira de roda eletrônica também – disse ainda.&lt;br /&gt;A indenização que pagaram ao Silvinho era de dar risada.&lt;br /&gt;– Mas o que eles me deram? Um salário que não dá nem para comer direito!&lt;br /&gt;– São todos uns putos, sem coração!&lt;br /&gt;O ônibus chegou ao centro da cidade e então saltamos. Na calçada, o Silvinho disse que o sujeito do revólver estava esperando no trilho do trem, perto do Mercadão Municipal. Fomos. Ao chegarmos, um homem magro, cheio de tatuagens no braço, vestindo uma camisa regata veio até nós. A primeira coisa que perguntou para o Silvinho foi se eu era da polícia. Silvinho respondeu que não, que ele podia ficar tranqüilo. Acreditou. Pegou o dinheiro do Silvinho, e passou o revólver, um 38.&lt;br /&gt;– Você nunca me viu – disse o tatuado, para o Silvinho.&lt;br /&gt;– Você também.&lt;br /&gt;Olhei para o homem e depois para o revólver.&lt;br /&gt;– Fique com ele – disse Silvinho.&lt;br /&gt;Peguei o revólver e coloquei na cinta.&lt;br /&gt;– Você sabe como usar isso? – quis saber o sujeito que vendeu o revólver.&lt;br /&gt;– Quem não sabe? – eu falei.&lt;br /&gt;O tatuado não disse nada.&lt;br /&gt;– Qualquer um, ao ser obrigado a usar uma arma, saberá como fazer – disse ainda.&lt;br /&gt;No meu caso, havia aprendido a usar no quartel.&lt;br /&gt;Saímos, de volta para o ponto de ônibus.&lt;br /&gt;O ônibus chegou e então coloquei novamente o Silvinho na plataforma automática para deficientes físicos.&lt;br /&gt;– Só na perna dele – avisou Silvinho, novamente.&lt;br /&gt;– Quantas vezes você vai me lembrar disso? – falei.&lt;br /&gt;– Eu tenho medo que você não faça o que combinamos.&lt;br /&gt;– Por que eu não faria?&lt;br /&gt;– Sangue quente...&lt;br /&gt;– Pode ficar tranqüilo, Silvinho – eu disse.&lt;br /&gt;Silvinho fez silêncio, confiando. Depois, perguntou:&lt;br /&gt;– Que dia?&lt;br /&gt;– Amanhã mesmo, bem cedinho – respondi.&lt;br /&gt;No dia seguinte, iria me vingar do desgraçado que colocou o Silvinho na cadeira de rodas. O que César fez com Silvinho não tinha perdão.&lt;br /&gt;Pouco tempo depois, saltamos do ônibus.&lt;br /&gt;Levei-o até a sua casa, onde ele preferia locomover sem a cadeira de rodas. Era horrível o seu jeito de andar. Tremia todo. Parecia uma máquina velha; ou melhor, um robô velho, que a cada passo parece que vai cair – ver Silvinho andando assim, de um lado para outro, era algo muito revoltante. Fiquei somente um pouco com ele e fui para minha casa. Lá chegando, a Ritinha perguntou mais uma vez o que eu andava tramando.&lt;br /&gt;– Nada.&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;Mudei de assunto.&lt;br /&gt;Jantamos.&lt;br /&gt;Lá pelas onze da noite, fomos para a cama. Quatro horas da manhã, eu estava de pé.&lt;br /&gt;Peguei a moto e fui até a casa do César, o sacana maldito que não foi com a minha cara e que colocou o Silvinho numa cadeira de rodas. Cheguei uma hora depois. Ele saia as seis, para o trabalho. Desliguei a moto, coloquei o capuz e fiquei esperando. Enquanto isso, lembrava do dia que ele trancou o Silvinho dentro da câmara fria, por brincadeira de mau-gosto. A porta, desgraçadamente, emperrou. Tentaram arrombá-la, sem conseguir. Chamaram a manutenção e eles cerraram a porta de aço. Demorou. Quando conseguiram, o Silvinho estava duro, encolhido, inconsciente. Levaram o Silvinho para o hospital, salvaram a vida dele; mas depois disso nunca mais ele pôde andar direito, nunca mais pôde correr, nunca mais pôde trepar com uma mulher.&lt;br /&gt;Agora, meses depois, ali estava eu, pronto para dar-lhe o troco. Não sabia se ia ter coragem, pois nunca havia atirado em alguém. Cinco horas da manhã, ele apareceu, abrindo o portão. Ainda estava escuro. Não havia ninguém na rua exceto eu. Ao me ver, empalideceu-se. Tentou voltar, fugindo. Não deu tempo: dei três tiros nas pernas dele. César caiu no chão. Desci da moto e o vi rastejar. A vontade que me deu foi a de atirar na cabeça dele, e matá-lo de vez. Mas lembrei do Silvinho, e dei mais quatro tiros no mesmo lugar.&lt;br /&gt;O infeliz gritou de dor. Ficou gemendo, tentando ver quem era que estava atirando em suas pernas. Isso me deu outra vontade: tirar o capuz e mostrar para ele que era eu quem ia colocá-lo numa cadeira de rodas também. Mas; contive-me. Subi na moto. Antes de apertar a ignição, olhei para as mãos, ver se estava tremendo. Estavam. Liguei então a moto e fugi. Ninguém me viu. Dali fui direto para a casa do Silvinho. Quando passei pela marginal, joguei o revólver no rio.&lt;br /&gt;– Fez o serviço? – perguntou Silvinho, ao me ver – ele estava na frente de sua casa, sentado na sua cadeira de rodas.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Todos na perna do infeliz?&lt;br /&gt;– Todos.&lt;br /&gt;– E o revólver?&lt;br /&gt;– Joguei no rio.&lt;br /&gt;– Quer beber alguma coisa?&lt;br /&gt;– Quero.&lt;br /&gt;– Vamos beber o quê?&lt;br /&gt;– Conhaque.&lt;br /&gt;– Quantos tiros?&lt;br /&gt;– Sete.&lt;br /&gt;– Será que a policia vai vir aqui?&lt;br /&gt;– Vai.&lt;br /&gt;– E o que vamos fazer?&lt;br /&gt;– Agir naturalmente.&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;– Esquecendo do que aconteceu.&lt;br /&gt;– Como eu posso esquecer, se foi aquele sacana que me colocou nessa cadeira de rodas?&lt;br /&gt;– Esquece. Você já se vingou, não se vingou?&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Então?&lt;br /&gt;– Já esqueci. Não sei de nada, não vi nada – disse ele.&lt;br /&gt;– Cadê o conhaque?&lt;br /&gt;– Está lá dentro, vamos entrar.&lt;br /&gt;Entramos. Silvinho empurrou o seu carrinho até a porta, onde ele deixou-o para entrar com as próprias pernas. E foi andando daquele jeito horrível, que me dava uma revolta danada. Na sala, sentei-me num dos sofás. Dali a pouco, ele voltou, com o conhaque e os copos na mão. Ao vê-lo, com o seu jeito horrível de andar, me incomodei e quase pedi para ele sentar na cadeira de rodas dele. Mas não fiz, não queria ofender meu grande amigo. Ele sentou num outro sofá e começamos a beber. Bebemos a garrafa inteira. Numa certa hora, Silvinho, já bêbado e empolgado com uma conversa que tivemos, de repente levantou-se dizendo que ia dançar.&lt;br /&gt;Quase falei que não, que ele não fizesse isso pelo amor de Deus. Sem coragem para repreender meu grande amigo, Silvinho levantou-se e começou a dar uns passos. Foi uma das coisas mais feias que vi na minha vida, ver Silvinho dançar daquele jeito. Senti-me um impotente: se pudesse, devolvia-lhe a capacidade motora. Mas eu não era Deus, não era um santo. Eu era agora um assassino, tinha uma morte nas costas. Portanto, o jeito era deixá-lo dançar, ser feliz; e, para alegrá-lo mais ainda, levantei-me também e dancei com ele, ao lado dele, como grandes amigos. Até que deu a hora do almoço e fomos para casa.&lt;br /&gt;O almoço estava bom. A Ritinha me xingou, porque estava bêbado antes do meio-dia. Quando terminamos, Silvinho foi para casa e eu fui para a cama, dormir. Fui acordar à noite. Liguei a televisão e vi no noticiário a reportagem sobre o César. Estava no hospital, entre a vida e a morte. Dias depois, fiquei sabendo que ele sobreviveu, graças a Deus. E melhor ainda: que ele estava numa cadeira de rodas, e que nunca mais iria poder andar com as próprias pernas. Fiquei feliz, quis dançar, mas me lembrei do Silvinho, me lembrei que ele não podia dançar decentemente: depois deste dia, eu nunca mais dancei em minha vida, nunca mais!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;QUADRO NEGRO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da sala de aula, a colegial com as pernas abertas, sem calcinha, mostrando o risco dourado. Na frente dele, o quadro negro, cheio de linhas do ponto de História. Volta e meia, o grito, clamando o professor. Em cima do caderno, a visão radiante dos seios, novinhos, um bico para lá e outro para cá, espetados: a educação é um sacerdócio...&lt;br /&gt;Soa o sino do recreio. Na sala dos professores, venda de cosméticos, rifas e roupas. Corpos à vontade, corpos apreensivos, tensos. Alguns rindo; outros, reclamando: esses alunos são tudo sem educação...&lt;br /&gt;– Uns diabos...&lt;br /&gt;– Que isso!, diz Evandro.&lt;br /&gt;De vez em quando, dava aulas em escolas particulares. Lá, os alunos, sabiam mais que ele, o professor. A maioria quer ser um médico, um advogado, um doutor. Enquanto que ali, no último bairro da cidade, os alunos tem dificuldades para aprender, e sabem que é uma utopia, uma ilusão querer ser alguém importante na vida.&lt;br /&gt;– Fez a tarefa?&lt;br /&gt;– Fiz não.&lt;br /&gt;Adiantava lutar por alunos assim? Um professor, com longos anos de experiência, disse-lhe certa vez: na minha sala eu só cuido para eles não brigar. A aula? Não dou. Quando dava, vivia no médico. Você acha que aluno gosta do professor? Só se você fizer a vontade deles...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana, o nome da colegial.&lt;br /&gt;Rua, a palavra que ouviria em caso de escândalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois, Sabrina apareceu. Tinha carro do ano, vestia-se bem, era bonita, morava em bairro nobre, fazia mestrado.&lt;br /&gt;– É preciso abrir os olhos desses alunos para a vida, são muitos conformados!&lt;br /&gt;– O que pode salvá-los? Só a educação...&lt;br /&gt;– Pensam que a educação não é de nada...&lt;br /&gt;– Precisamos mudar isso; formar verdadeiros cidadãos; conscientes, solidários, cooperativos, tolerantes, intelectuais: eis aí a nossa missão!&lt;br /&gt;– Como que é o seu nome?&lt;br /&gt;– Evandro.&lt;br /&gt;– Prazer, Sabrina.&lt;br /&gt;Desde então, profissionais unidos.&lt;br /&gt;Longe dele: bonito este rapaz, não?&lt;br /&gt;– Inteligentíssimo...&lt;br /&gt;– Forte, né?&lt;br /&gt;– Mas pobre...&lt;br /&gt;– Pobreza não é defeito, ao menos para mim. O que vale é o caráter.&lt;br /&gt;– Você diz isso porque é nova... Mas vai em frente, amiga...&lt;br /&gt;De mãos dadas, entravam e saiam da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Persistente; Ana, a colegial, conseguiu o seu telefone celular. Ligou dizendo que estava no banho, pensando nele.&lt;br /&gt;– Como você conseguiu meu telefone?&lt;br /&gt;– Conseguindo...&lt;br /&gt;– Com quem?&lt;br /&gt;– Não posso dizer.&lt;br /&gt;– Vou desligar.&lt;br /&gt;– Por favor, estou no banheiro...&lt;br /&gt;Imaginou: água do chuveiro caindo, pele ensaboada, marquinhas de biquíni pelo corpo – Cristo, quem agüenta?&lt;br /&gt;– Queria você aqui... Até consigo lhe ver, me beijando...&lt;br /&gt;A boca secou.&lt;br /&gt;– Vem.&lt;br /&gt;Jogou ar para os pulmões, contou até dez.&lt;br /&gt;– Vem...&lt;br /&gt;Diante do raio da tentação subindo, a pergunta:&lt;br /&gt;– Está sozinha?&lt;br /&gt;– Sim, mamãe viajou.&lt;br /&gt;– Ninguém em casa?&lt;br /&gt;– Só eu, peladinha, prof...&lt;br /&gt;– Onde que é a sua casa?&lt;br /&gt;Falou: três quadras do colégio. Foi. Portão aberto, porta da casa aberta, porta do banheiro também aberto – tudo aberto.&lt;br /&gt;Tirou a roupa e entrou.&lt;br /&gt;– Que força.&lt;br /&gt;– É você, menina.&lt;br /&gt;– Já vou.&lt;br /&gt;– Não vá, fique; quero mais!&lt;br /&gt;Teve mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... Dias depois, a chantagem:&lt;br /&gt;– Todo o mundo no colégio vai saber.                &lt;br /&gt;– Eu desminto!&lt;br /&gt;– Em quem vão acreditar?&lt;br /&gt;– Não me importo!&lt;br /&gt;– Não seja bobo, que tem de mais?&lt;br /&gt;– Que tem de mais que sou seu professor, menina!&lt;br /&gt;– E daí?&lt;br /&gt;– E daí que tenho uma noiva também...&lt;br /&gt;– Aquela cretina rica?&lt;br /&gt;– Olha como você fala dela!&lt;br /&gt;– Eu falo dela como eu quiser! Só hoje...&lt;br /&gt;A partir de então, sempre cedia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabrina ficou sabendo:&lt;br /&gt;– Cafajeste descarado! Como você pôde fazer isto comigo? Dizia que me amava; que eu era o seu tudo; que sem eu você não era ninguém, isso e aquilo e me apunhala pelas costas?! Desgraçado!&lt;br /&gt;Ela mesma prontificou-se em entregá-lo ao diretor.&lt;br /&gt;– O que é isso, Evandro?&lt;br /&gt;Onde se ganha o pão não se come a carne...&lt;br /&gt;– Por favor, eu preciso deste emprego!&lt;br /&gt;– Me desculpe, para o seu bem.&lt;br /&gt;Punido, ganhou a rua e uma lição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conseguiu aulas numa outra escola, depois de andar muito por aí. Casou-se com Ana, teve filhos, teve amantes.&lt;br /&gt;– A educação é um negócio...&lt;br /&gt;– Um mau negócio.&lt;br /&gt;Hoje, na sala dos professores, tem a postura relaxada, gargalha, toma café, e exibe a barriga redonda. Quando vê um professor querendo transformar a realidade, sente pena. Quando vê uma professora pessimista, se aproxima.&lt;br /&gt;– Esses alunos são uns demônios...&lt;br /&gt;– Uns demônios nojentos!&lt;br /&gt;– Acabei de ver alguns alunos pulando o muro. O que será que vão fazer, hein professor?&lt;br /&gt;– Se acabar em drogas...&lt;br /&gt;– Triste, não? Tinha umas meninas com eles, será que vão se drogar também?&lt;br /&gt;– No mínimo... Depois, abrem as pernas e está tudo em ordem!&lt;br /&gt;– Tão jovens, né?&lt;br /&gt;– Sim, mas tem um fogo no meio das pernas que ninguém apaga!&lt;br /&gt;– Que coisa...&lt;br /&gt;– Sim – em tom episcopal.&lt;br /&gt;– Eu quero ver quando eles enxergar a realidade...&lt;br /&gt;– Aí vai ser tarde demais...&lt;br /&gt;– Uma pena...&lt;br /&gt;– Uma pena?!&lt;br /&gt;– Não?!&lt;br /&gt;– Claro que não! Cada um tem aquilo que merece!&lt;br /&gt;– Você tem razão.&lt;br /&gt;– Quem semeia vento, colhe furacão.&lt;br /&gt;– Eu não sei por que ainda dou aula.&lt;br /&gt;– Nem eu.&lt;br /&gt;– Estão abrindo vários concursos.&lt;br /&gt;– Vou fazer todos, para ver se saio desta vida...&lt;br /&gt;– Eu também...&lt;br /&gt;– Você bebe cerveja?&lt;br /&gt;– Bebo.&lt;br /&gt;Entre um gole e outro, uma nova amante. Quando estão nas salas dos professores, riem dos colegas empenhados em transformar a realidade. Depois, ficam tristes. Ela porque o demônio não lhe deixa sair dessa vida; e ele porque lembra da Sabrina idealista, da Sabrina apaixonante, educada, bela, sonhadora e de sexualidade discreta: o que seria se tivesse casado com ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A CONSPIRAÇÃO DO UNIVERSO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O serviço era na aeronáutica, com um plano de carreira de sete anos, com um salário digno. Eu havia vencido mais de duzentas pessoas, estava desempregado e um tanto desiludido com a existência: a vaga era a minha última tentativa.&lt;br /&gt;Uma pessoa luta, entra numa faculdade, se encontra, e quase não dorme: só sonha, dia e noite, acordado. Da turma de quarenta pessoas, dez delas no máximo logo arrumam um emprego. Outras vinte demora um pouco, mas encontram. Sobram os dez. Alguns, cansados, partem para outra. Outros insistem e morrem.&lt;br /&gt;No último teste havia eu, o Roberto e Cláudio disputando duas vagas apenas. Venceram. Foi quando então decidi assassinar um dos dois. Mas quem? Aquele que tinha menos afinidade? Não gostava nenhum deles. Eu só gostava de mim.&lt;br /&gt;Fosse um assassino, mataria o primeiro que viesse em mente. Mas não era, e para me decidir, resolvi investigar a vida deles. Comecei pelo Cláudio, e vi que ele era pai de família, tinha dois filhos pequenos e uma esposa gorda e feia. Era ele quem levava e trazia os meninos da escola, da natação, do futebol. Tinha amante, uma loirinha de dezessete anos.&lt;br /&gt;Dias depois, comecei a vigiar o Roberto, e logo no primeiro dia confirmei aquilo que suspeitava desde o inicio: era gay. Morava com a mãe, uma velha de cabelos bem brancos. Cuidava bem dela, amava-a. Tinha um namorado, um rapaz de uns vinte anos, que vivia de camiseta regata.&lt;br /&gt;O adultero ou o homossexual?&lt;br /&gt;Pergunta difícil: os dois tinham lá suas redenções: o primeiro, um bom pai, o segundo, um bom filho. Levei dois dias para decidir isto. Laura, que sempre reclamava de minha frieza, protestou. Pedi a ela compreensão, que eu estava triste com a minha derrota no concurso. Ela disse que sim, e desistiu de conversar comigo, fincando aborrecida pelos cantos da casa.&lt;br /&gt;Assim que decidi quem assassinar, planejei tudo. Eu iria abordá-los dizendo é um assalto, e depois atiraria em Roberto. Era um sábado à noite. Os dois saíram, bem vestidos. Desci do carro e fui atrás deles. Duas quadras depois, vi que era a hora. Ao dobrarem o quarteirão, desisti, porque apareceu uma casa noturna, uma boate, com muitas pessoas ali na frente, algumas na fila e outras não.&lt;br /&gt;Recuei.&lt;br /&gt;Eles entraram na fila e eu fiquei pensando se entrava também ou se ficava ali, do lado de fora, esperando. Resolvi entrar e peguei a fila. Ao chegar à portaria, perguntei para o segurança o que era ali.&lt;br /&gt;– Um bistrô.&lt;br /&gt;– Bistrô? Mas bistrô não é restaurante francês?&lt;br /&gt;– Aqui não.&lt;br /&gt;Entrei.&lt;br /&gt;Lá dentro vi homens para todos os lados. Havia também travestis, e mulheres. O som estava altíssimo, e a maioria dançava olhando para os gogos-boy que dançavam em lugares altos, estratégicos. Usavam apenas sunga; e alguns homens, enquanto dançavam, passavam a mão neles.&lt;br /&gt;Procurei relaxar.&lt;br /&gt;Comprei uma cerveja e fiquei dançando, evitando olhar para os dançarinos. Contudo, volta e meia olhava, e quando desviava o olhar, sempre via um monte de homens me olhando. De vez em quando, algum viado pegava em meu braço, piscava, se aproximava. Mas eu dava uma desculpa qualquer e saia de perto, em direção ao bar.     &lt;br /&gt;Enquanto bebia, olhava para as mulheres. Algumas delas fechavam a cara, demonstrando indignação. Outras, por outro lado, riam. Uma delas se aproximou.     &lt;br /&gt;– Você não é homossexual, é?&lt;br /&gt;Fiz que não.     &lt;br /&gt;– É bi?&lt;br /&gt;– Também não.     &lt;br /&gt;– Então o que você faz aqui?     &lt;br /&gt;– Curiosidade – falei.     &lt;br /&gt;– Já experimentou?       &lt;br /&gt;– O quê?     &lt;br /&gt;– Ficar com homem?     &lt;br /&gt;– Não.     &lt;br /&gt;– Nunca teve vontade?     &lt;br /&gt;– Não.     &lt;br /&gt;– Hoje em dia é moda. Todo mundo experimenta. Eu mesmo gosto dos dois, de homem e de mulher. No começo me sentia ruim com isso, hoje me considero uma pessoa feliz. Você tem certeza de que nunca teve vontade?     &lt;br /&gt;Disse que não, nunca.    &lt;br /&gt;Dali um pouco ela começou a se insinuar para cima de mim. Esquivei-me, porque ela estragaria tudo. Ao deixá-la para trás, ouvi as palavras: veado gazela.    &lt;br /&gt;De longe ficava olhando Roberto e seu namorado beijando na boca enquanto dançavam. Era estranho, esquisito. Não suportei. Sai da boate gay e fiquei esperando por eles, num canto escuro, atrás de uma árvore. Uma hora depois, eles saíram. Passaram por mim e eu fui atrás. Segui os dois por três quarteirões, quando resolvi gritar: é um assalto.    &lt;br /&gt;Levantaram as mãos.    &lt;br /&gt;Dei três tiros no coração de Roberto. Seu namorado, cheio de pavor, saiu correndo. Deixei-o ir, e me certifiquei se ele estava morto. Em seguida, voltei para o meu carro. Dei a partida e voltei para casa. Quando cheguei, a Laura estava com suas malas na mão, dizendo que ia embora.    &lt;br /&gt;– Para onde?    &lt;br /&gt;– Para casa de minha mãe.    &lt;br /&gt;– Por que?    &lt;br /&gt;– Porque não posso viver com um homem frio como você!    &lt;br /&gt;Aproximei-me dela.    &lt;br /&gt;– Se afaste, por favor – pediu, quase em lágrimas.    &lt;br /&gt;– Eu juro que mudarei – eu disse.    &lt;br /&gt;– Mas você não muda, José!    &lt;br /&gt;– Me dê mais uma chance!    &lt;br /&gt;– Não posso – falou, indo em direção à porta.    &lt;br /&gt;Foi quando comecei a chorar, depois de longos anos que não chorava. Quando ela estava na porta, falei para ela o que havia acabado de fazer. Foi um ato irracional, eu sei.   &lt;br /&gt;– O quê?    &lt;br /&gt;– Isso mesmo. Eu matei um homem.    &lt;br /&gt;– Por quê?    &lt;br /&gt;Expliquei-lhe.&lt;br /&gt;Não sei por qual razão, Laura, ao fim me abraçou, e me beijou, desistindo da ideia de me deixar.     &lt;br /&gt;Dias depois, assumi o cargo que era do Roberto. O Claudio, não sei por qual motivo, me odiava. De vez em quando, brigávamos lá no quartel. Era quando tinha a absoluta certeza de que fiz a escolha errada, que era ele quem devia ter exterminado. E por sete anos – o nosso tempo de trabalho – foi assim. Quando fomos dispensados, saímos brigados, sem nos falar.     &lt;br /&gt;E mais uma vez desempregado, saí à procura de trabalho. Encontrei um, que era também com processo seletivo, e pagava melhor do que na aeronáutica. O Cláudio, por ter a mesma profissão que a minha, estava concorrendo. Dessa vez, era uma vaga apenas; e, novamente, ele me venceu. Assim, era muito arriscado matá-lo, porque no mínimo o principal suspeito seria eu. Mas resolvi fazer. Matei-o a sangue frio, e assumi o cargo.&lt;br /&gt;Nunca fui preso por isso, pois nunca tiveram provas fortes contra mim. A Laura, ao saber do assassinato, perguntou se eu tinha algo a ver com o crime. Falei que não, que era apenas o Universo, o grande Universo conspirando a meu favor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;O BANQUETE&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alice caçava oferendas – era esse o seu serviço, como repórter, na igreja em que fazia parte. Era bem renumerada, e o seu programa chamava-se “Mistérios”, que tinha como objetivo mostrar como que funciona a religião pagã. Era esse o modo que evangelizava: mostrava o mal para as pessoas se conscientizarem e se converterem à fé cristã.&lt;br /&gt;Procurava as oferendas em terrenos baldios, nas encruzilhadas, nos matagais, em beira de rios, cachoeiras, trilhos de trem e assim por diante. Tinha cartão de visita, o qual deixava com os moradores dos bairros por onde passava procurando. Dava recompensa, e por isso o seu telefone não parava de tocar. Num de seus dias, logo pela manhã, uma mulher ligou-lhe dizendo que viu perto de sua casa uma oferenda que a deixou bastante assustada.&lt;br /&gt;– Onde?&lt;br /&gt;A mulher, que se chamava dona Maria, disse o endereço.&lt;br /&gt;– O que te assustou?&lt;br /&gt;– O tamanho da oferenda... É enorme.&lt;br /&gt;– Estou indo aí.&lt;br /&gt;Desligou o telefone e ligou para uma das várias ex-mães-de-santo que lhe ajudavam. Eram mulheres da mesma igreja que a sua, que se converteram. Nesse dia, uma estava disponível, porque era o seu dia de folga do serviço.&lt;br /&gt;– Vou te buscar.&lt;br /&gt;– Estou aguardando.&lt;br /&gt;Foi, junto com o obreiro Flávio, câmera-man.&lt;br /&gt;– Como vai, Orlandina? – disse ela, ao vê-la.&lt;br /&gt;– Vou bem, graças a Deus – respondeu, entrando no carro.&lt;br /&gt;– A mulher me disse que é coisa feia, horrível.&lt;br /&gt;– Não me assusta.&lt;br /&gt;No caminho, foram conversando, e Orlandina lhe contou vários casos do passado, quando era a mãe-de-santo. Falou dos trabalhos que fazia para amarração, para o sucesso financeiro, para isso e para aquilo – Alice e Flávio foram ouvindo.&lt;br /&gt;Por fim, chegaram.&lt;br /&gt;– Nos leva lá? – disse Alice, para dona Maria.&lt;br /&gt;– Levo sim.&lt;br /&gt;No caminho, Alice deu dinheiro para a mulher.&lt;br /&gt;Era num mato, debaixo de uma árvore. Alice pediu para o obreiro Flávio ligar a câmera. Ele ligou e começou a filmar a oferenda. Havia dezesseis galinhas d’ angola, bem grandes e gordas; e dezesseis garrafas de pinga. Alice pegou o microfone e perguntou para Orlandina que tipo de trabalho era aquele.&lt;br /&gt;– Um banquete.&lt;br /&gt;– Um banquete? – repetiu Aline, curiosa.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– E o que isso significa?&lt;br /&gt;– Significa que a pessoa quer muito aquilo pediu às entidades.&lt;br /&gt;– Dá para saber o que essa pessoa deseja?&lt;br /&gt;– Nesse caso, não. A única coisa que sei é que essa oferenda não é a última deste trabalho.&lt;br /&gt;– Não?&lt;br /&gt;– Não. Veja que há duas aberturas, que precisam ser fechadas...&lt;br /&gt;Alice olhou para a oferenda, e Flávio acompanhou com a câmera. As galinhas e as garrafas de pinga estavam colocadas de modo a fechar um oito, se não fosse as duas aberturas.&lt;br /&gt;– Aliás – continuou a dona Orlandina – esse trabalho foi feito pela própria entidade, incorporado num pai ou mãe-de-santo. Então, essa entidade vai pedir outras oferendas, antes de dar a pessoa o que ela pediu...&lt;br /&gt;– E dá certo?&lt;br /&gt;– Geralmente, sim; mas no máximo por três meses. Quando esse prazo vence, e as coisas começam a dar errado, as entidades pedem mais sacrifícios, mais banquetes como esse. A pessoa nem sabe, mas ela está prestando culto ao demônio...&lt;br /&gt;– E se a pessoa se dá conta disso e deixa de oferecer sacrifícios a eles? – perguntou Alice.&lt;br /&gt;– Então eles tiram tudo o que deu à pessoa... E não só isso: o encardido fica tão encapetado, tão furioso, mas tão revoltado com a deslealdade da pessoa que passa a agir contra. Logo a pessoa fica com a vida amarrada, e tudo o que vai fazer dá errado...&lt;br /&gt;– E o que a pessoa deve fazer para reverter essa situação? – perguntou Alice.&lt;br /&gt;O Flávio, ouvindo essa pergunta, focou sua câmera bem no fundo dos olhos de Orlandina.&lt;br /&gt;– Aí, é só o Pai das Luzes para desfazer tudo isso... Para dissipar todas as trevas... Para mandar pro inferno toda a legião que o demônio delegou para acabar com a vida dessa pessoa...&lt;br /&gt;Alice, com essa resposta, disse ao Flávio que já estava bom, que ele podia desligar.&lt;br /&gt;– Obrigada, Orlandina.&lt;br /&gt;– De nada.&lt;br /&gt;– Precisávamos mostrar isso, para as pessoas saberem com quem estão lidando.&lt;br /&gt;– É esse o meu dever, é esse o meu ministério: desmascarar todos àqueles que me enganaram a vida toda...&lt;br /&gt;– E o meu também, Orlandina, o meu também...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;A MORTE DE CANTÍDIO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na parede do casebre de madeira, o Jesus Misericordioso. Antes de morrer, Cantídio tossia a tosse do fim, o incêndio que não sossegou enquanto não acendeu. Recebia visitas, mas rotineira, mais preocupada com a limpeza da casa que com afetos. A velha era quem mais prestava cuidados. As filhas, todas casadas; exceto uma, a caçula. Apareciam pouco. O abandono, a solidão e a morte eram suas companheiras fieis.&lt;br /&gt;– Cuidado o sereno – dizia a velha, despedindo-se.&lt;br /&gt;De vez em quando um vizinho, que era crente, aparecia. Tinha fé no poder curador de Jesus, e num dia lhe chamou para um culto de cura. Entre uma tosse e outra, conseguiu levantar-se e ficar sentado na cama. Pigarreou, cuspiu no chão vermelho, olhou para a lâmpada acesa, depois para o rapaz. Lembrou-se da juventude, de quando dançava com as quengas, o cigarro numa mão e o copo de cachaça noutra.&lt;br /&gt;– Não vou não, meu filho.&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;– É tarde.&lt;br /&gt;– Para Deus nada é impossível.&lt;br /&gt;– Ainda que fosse, não quero.&lt;br /&gt;– Velho é cabeça dura mesmo...&lt;br /&gt;– Já acabou?&lt;br /&gt;– Ainda não.&lt;br /&gt;– Então, diga.&lt;br /&gt;– Jesus te ama, arrepende-se.&lt;br /&gt;– Me arrepender do quê?&lt;br /&gt;Era tarde. Prisioneiro do corpo, desejou uma última noite. Na miséria, a morte não tem nome, só reclama. Judite, Catarina, Afrodite. Afrodite? De onde ela tirou este nome? Virgem Santa. Na miséria, a morte nunca clareia. Debaixo do colchão, o maço de cigarros. Fumava um e era o fim da vida aqui nesta terra. Que viesse o fim, logo! Sem a presença do crente idiota, riscou o fósforo. Deu um trago, dois, três, e jogou fora, sem conseguir ir até o fim. Depois; a dor, a imensa dor, o ar agora era uma reminiscência, uma lembrança dos bons tempos. Dor.&lt;br /&gt;Sem ninguém para acudir, foi levado para o hospital somente no dia seguinte, pela manhã. Estou morto? Infelizmente não estava. Morria e seria feliz. Por que ninguém o matava? Por que não acontecia alguma tragédia? Por que ele não conseguia escorregar e quebrar o crânio? Por que não engasgava com um osso de galinha, a garganta entalada e o fim certo? Onde estão as paradas cardíacas neste momento? Os derrames? Os abraços calorosos? A vida? O seu castigo era grande: aqui se faz aqui se paga! Deus, lá no Esplendor, nada fazia, só assistia.&lt;br /&gt;– Não passa de um mês.&lt;br /&gt;A velha levou-o para casa.&lt;br /&gt;– Cantídio...&lt;br /&gt;– Quê?&lt;br /&gt;– Eu te perdôo.&lt;br /&gt;– Perdoa o quê?&lt;br /&gt;– Tudo de ruim que você me fez nesta vida!&lt;br /&gt;Abaixou a cabeça.&lt;br /&gt;– Vou mandar Maria lhe cuidar por alguns dias.&lt;br /&gt;– Obrigado.&lt;br /&gt;E foi embora.&lt;br /&gt;– Por que eu? – disse a caçula.&lt;br /&gt;– Porque sim.&lt;br /&gt;– E as outras filhas?&lt;br /&gt;– Não podem. Tudo tem filho, marido, você não.&lt;br /&gt;– Eu tenho a minha vida!&lt;br /&gt;Foi, mesmo assim.&lt;br /&gt;Cantídio, na cama, olhava para a filha que cresceu, alheia a ele. Mal olhava para o pai. De vez em quando, tinha vontade de abraçá-lo. Chegava perto, sentia o fedor, recuava. Voltava para a vassoura. Pensava. A certeza era unânime: aqui se faz aqui se paga. O velho, com seu câncer e seu enfisema, pensava às vezes em quebrar o orgulho, pedir perdão. Pedir perdão para quê? No que isso ia mudar? Cof, cof, cof; depois um hrum; e cuspe, e mais cuspes, o suor e a fraqueza.&lt;br /&gt;– Não me arrependo de nada nesta vida...&lt;br /&gt;– O quê, pai?&lt;br /&gt;– Falei que não me arrependo de nada que fiz nesta vida.&lt;br /&gt;– Mas devia.&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;– Porque sim.&lt;br /&gt;– Eu quero saber o porquê.&lt;br /&gt;– Para a sua alma subir com menos peso.&lt;br /&gt;– Besteira.&lt;br /&gt;Dias antes, as últimas visitas.&lt;br /&gt;– Como vai, pai?&lt;br /&gt;– Do jeito que você está me vendo.&lt;br /&gt;– Eu te perdôo.&lt;br /&gt;– Perdoa do quê?&lt;br /&gt;– De todas as coisas que você fez a gente passar.&lt;br /&gt;– Mas vocês não estão vivas?&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– E desejam a morte como desejo?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– E por que tem o quê reclamar?&lt;br /&gt;– Não estou reclamando. Só estou dizendo que te perdôo.&lt;br /&gt;– Arre.&lt;br /&gt;Veio à noite. A filha dormia, acendeu um cigarro. Puxou um trago, encheu os dez por cento que ainda tinha do pulmão; tossiu, soltou a fumaça. Depois, voltou para a cama, quase morto, sem a vista. Tosse. Dor. Tosse. Dor. A filha acordou. Levantou-se, e foi ver como o velho estava. Não estava. Tinha ido sabe Deus para onde. Fechou os olhos do pai, traçou o sinal da cruz, ligou para a mãe:&lt;br /&gt;– O velho morreu.&lt;br /&gt;No velório e no enterro, poucas pessoas.&lt;br /&gt;Foi a velha quem puxou o terço....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;O ABORTO.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anita tinha vergonha do Fred. Ele dizia: vamos nos assumir? Ela respondia: não. Então, Fred perguntava: é por que eu sou pobre e você é rica, é isso? Falava que não. É por que não sou uma pessoa interessante, não é? Também não. O que é, então?, perguntava, rispidamente, a fim dela acabar logo com esse mistério.&lt;br /&gt;Anita não respondia. Às vezes, quando fazia essas perguntas, ela iniciava um discurso, argumentando para terminarem. Ele nunca a deixava passar das primeiras premissas. Ou lhe dava um afeto, ou mudava de assunto, ou fazia outra coisa parecida. Ela desistia. Fred ficava feliz. Mas em nada mudava a vergonha que tinha por ele.&lt;br /&gt;E a sua vergonha era tanta que nunca deixou Fred conhecer seus pais, nem mesmo seus amigos e amigas; exceto a Carla, que o conheceu por acaso, num dia em que ela encontrou a Anita bebendo com ele num bar comum. Ao vê-la, pediu para o Fred esconder-se; mas não deu tempo, e Carla viu-o, sendo apresentados depois.&lt;br /&gt;Nesse dia, Anita quase terminou o namoro.&lt;br /&gt;Num outro dia, Carla lhe reconheceu no centro da cidade, dizendo: você estava com a Anita naquele dia num bar, não estava?&lt;br /&gt;– Estava.&lt;br /&gt;– O que você é dela?&lt;br /&gt;– Nada – falou.&lt;br /&gt;– Mentira – disse ela.&lt;br /&gt;– Mentira?&lt;br /&gt;– Mentira. A Anita me falou. Vocês tem um caso.&lt;br /&gt;– Ela te falou?&lt;br /&gt;– Falou sim.&lt;br /&gt;Ao saber disso, viu que a Carla poderia lhe dizer por que a Anita não o assumia.&lt;br /&gt;– Vocês duas são grandes amigas, não são? – disse ele.&lt;br /&gt;A Carla abriu um sorriso, lisonjeada.&lt;br /&gt;– Ela disse?&lt;br /&gt;– Disse.&lt;br /&gt;– Eu não sabia...&lt;br /&gt;– Não?&lt;br /&gt;– Não. Na verdade, sempre pensei que a Anita apenas me tolera... Sabe, não sou tão rica quanto ela, na verdade, nem rica eu sou. Nos conhecemos quando meus pais ainda eram alguma coisa na sociedade, antes dele falir. Acho que ela continuou falando comigo por compaixão...&lt;br /&gt;– Posso te pagar uma cerveja? – falou.&lt;br /&gt;– Nossa! Mas não sou tão pobre assim para não dividir a conta com você...&lt;br /&gt;– Tudo bem – disse ele – afinal de contas, eu também não sou tão rico assim para sair pagando cerveja para os outros.&lt;br /&gt;Foram.&lt;br /&gt;No bar, depois de uma meia hora conversando, perguntou para a Carla se ela sabia por que a Anita tinha vergonha dele. Sabia, mas tinha medo de magoá-lo. Perguntou-lhe se realmente ele queria saber; disse que sim, e com cuidado, falou:&lt;br /&gt;– É porque você é feio, Fred.&lt;br /&gt;Ficou aborrecido, ao ouvir isso.&lt;br /&gt;– Muito?&lt;br /&gt;– Muito...&lt;br /&gt;– Só porque sou vesgo?&lt;br /&gt;– Porque você é vesgo, tem a boca torta e a pele do rosto cheia de espinhas.&lt;br /&gt;– Ela te disse tudo isso?&lt;br /&gt;– Disse.&lt;br /&gt;– Droga!&lt;br /&gt;– Você disse que não ia se magoar.&lt;br /&gt;– Mas me magoei.&lt;br /&gt;– De qualquer forma, Fred, eu te acho uma pessoa simpática, inteligente, e uma pessoa assim pode ter a mulher que quiser...&lt;br /&gt;– Posso?&lt;br /&gt;– É só você querer.&lt;br /&gt;– Obrigado.&lt;br /&gt;– Nada. O que você precisar de mim, é só pedir.&lt;br /&gt;– Está bem.&lt;br /&gt;Trocaram telefones.&lt;br /&gt;Depois, pagaram a conta e ela foi para um lado e ele para outro.&lt;br /&gt;No dia seguinte, viu a Anita. Ao acabarem a primeira transa, num motel, deitou de lado e falou é por que eu sou feio, não é?&lt;br /&gt;– O que você está dizendo, Fred?&lt;br /&gt;– Você não me assume por que sou muito feio.&lt;br /&gt;– Quem te disse isso?&lt;br /&gt;– O espelho – falou, evitando comprometer a sua amiga.&lt;br /&gt;Anita fez silêncio.&lt;br /&gt;– Não é?&lt;br /&gt;Mais silêncio.&lt;br /&gt;– Diga!&lt;br /&gt;– È Fred, é por isso...&lt;br /&gt;Chorou; e, em voz alta, perguntou para Deus por que Ele o fez um sujeito assim, sem beleza exterior.&lt;br /&gt;Ele não respondeu.&lt;br /&gt;– Está tudo acabado entre nós – disse ela.&lt;br /&gt;– Não acredito! – falou, com lágrimas nos olhos.&lt;br /&gt;Depois, disse várias coisas para Anita, a fim de fazê-la mudar de ideia. Não teve acordo. Acabou ali mesmo e disse para ele nunca mais ligar. Chorou de novo, e ela deixou-o no motel sozinho, abandonado. Contudo, não foi isso o que a Anita lhe fez de pior. Pois, terminar com ele até que era perdoável, mas o que ela fez semanas depois, não tem perdão. Quem lhe avisou antes dela fazer o que fez foi a sua amiga Carla.&lt;br /&gt;– Alô? – disse ela, no telefone: – É você, Fred?&lt;br /&gt;– Sim, sou eu.&lt;br /&gt;– Você precisa correr. A Anita está grávida de você e vai abortar.&lt;br /&gt;– O quê?!&lt;br /&gt;– Isso. Ela vai abortar. Nessa hora ela já deve estar na clínica.&lt;br /&gt;– Que clínica?&lt;br /&gt;A Carla lhe disse a clinica.&lt;br /&gt;Fred desligou o telefone e saiu correndo. Na rua, pegou o primeiro moto-taxi que viu pela frente e foi. Na clinica, falou para as recepcionistas que se elas não dissessem onde estava acontecendo o aborto que ele ia denunciá-los para policia imediatamente. Ao ameaçá-las, elas chamaram a dona da clínica. Uma mulher de seus quarenta anos de idade apareceu.&lt;br /&gt;– Onde a Anita está?&lt;br /&gt;– Calma, rapaz – disse ela.&lt;br /&gt;– Calma uma pinóia! Onde?&lt;br /&gt;– De repouso. Ela passou mal, perdeu o bebê.&lt;br /&gt;– Mentira! Ela abortou. Criminosos!&lt;br /&gt;– Ninguém fez aborto nenhum, menino. Ela passou mal, perdeu o bebê, foi isso.&lt;br /&gt;– Vou denunciá-los!&lt;br /&gt;– Fique à vontade.&lt;br /&gt;Não adiantava ofender uma mulher cínica como aquela.&lt;br /&gt;Foi para as questões práticas.&lt;br /&gt;– Cadê ela?&lt;br /&gt;– Está de repouso.&lt;br /&gt;– Aonde?&lt;br /&gt;– Lá em cima.&lt;br /&gt;– Me leve até ela!&lt;br /&gt;Levou.&lt;br /&gt;Enquanto iam para o seu leito, rezava para ela estar mentindo, sobre o aborto já ter sido realizado.&lt;br /&gt;A Anita estava deitada, vestindo as roupas do hospital. Ao lhe ver, pediu desculpas.&lt;br /&gt;– Por que; Anita, você fez isso comigo?&lt;br /&gt;Não respondeu.&lt;br /&gt;Ficou olhando para ela por um minuto mais ou menos, até dar vontade de sair.&lt;br /&gt;Foi o que fez.&lt;br /&gt;Saiu; e na rua, chorava, chorava pelo filho que nem chegou a conhecer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;POBRES DIABOS&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magrinha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você me pergunta quem é o Cido e quer que eu fale dele de uma maneira justa, com todo o cuidado do mundo. Mas eu digo a você que para dizer quem é o Cido não precisa de muitas palavras, de muitos rodeios, pois uma só palavra diz tudo o que ele é, e sabe qual palavra é essa? A palavra é tonto! O Cido é um tonto, coitado... Desde o primeiro dia em que eu o conheci, lá na casa onde eu trabalhava, logo percebi que ele era um tonto. Eu cheguei à mesa dele e disse: paga uma cerveja para mim? Ele pagou, sem dizer uma palavra contrária. Fiquei com dó. Sentei em seu colo e comecei a fazer carinho nele. Enquanto fazia carinho nele, olhava para o seu rosto. Que homem mais feio! Eu nunca havia visto alguém mais feio que ele. Feio de dá dó...&lt;br /&gt;Depois de tomarmos umas sete cervejas, fomos para um dos quartos. Me comeu, e gostou. Passou a ser cliente, e se apaixonou por mim. Me pediu para abandonar a minha vida de mulher sem futuro e morarmos juntos, no meu barraco. Aceitei, sem avisar para ele sobre o Tião, meu marido, que na época estava no presídio. Ele foi para a minha casa e ficou morando eu, ele, e a minha filha, a Jana. A Jana não gostou nada, nada dele. Mas filho da gente não pode decidir nossa vida, não mesmo. Coloquei o Cido dentro de casa e ele passou a me ajudar, porque era para isso que deixei ele vir morar comigo. Colocou piso na casa, carpiu o matagal, e não deixou faltar comida. Nem comida nem a nossa cervejinha no final de semana. Até aparecer o Tião, e ele teve que sair do barraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Magrinha é atraso de vida; ela só quer o meu dinheiro, aquela bandida. Um dia ela me pediu dinheiro para a filha dela viajar, visitar a avó. Dei, pensando que ela estava falando a verdade. Era mentira. Passei na casa dela e vi a filha dela lá, brincando na rua com as amiguinhas. Cadê sua mãe?, perguntei para ela. No bar, respondeu. Fui no bar. Peguei ela no flagra, bebendo cerveja com o meu dinheiro. Perguntei da filha e ela disse viajou. Viajou nada, eu falei.  Você está me chamando de mentirosa, Cido? Eu disse mentirosa e sem vergonha. Você só quer saber do meu dinheiro, não está nem aí para mim, sua pilantra. Briguei com ela mas logo em seguida perdoei, sentei ao seu lado e bebemos cerveja o dia todo. Meses depois apareceu esse marido dela, um tal de Tião.&lt;br /&gt;Estava na penitenciária máxima; é bandidão, o cara. Eu tive que sair da casa dela e voltar para a minha família. Eu odeio a minha esposa, aquela feiosa sem coração. Meus filhos estão grandes. Eu falo para eles: parem de se preocupar com a minha vida, já criei tudo vocês, me deixam em paz! Mas não tem jeito. Todo o mundo foi contra eu ficar com a Magrinha. Meus conhecidos falaram: larga mão dessa biscate, Cido, isso não é futuro para você não. E quando eu abandonei a minha família para ir morar com a Magrinha, eles disseram pare com isso Cido, você tem a sua casa, a sua esposa, a sua família, pare com isso!&lt;br /&gt;Mas quem disse? Ela tem um negócio na chana que pega o nosso pau assim e puxa pra dentro. Uma coisa doida, doida mesmo. Você já pegou uma mulher assim? Já? E não perdeu a cabeça por causa disso? Não? Meu Deus, que tipo de homem você é? Normal? Você é engraçado... Então, como eu estava dizendo, apareceu esse marido dela que estava preso na cadeia. Bandido, o cara. Saí perguntando para algumas pessoas se matar um ex-presidiário dá problema. Alguns falaram que sim e outro falaram que não. Os que falaram que não disse que matar um ex-presidiário a polícia não vai nem querer saber quem foi o assassino. Eu acreditei nisso. Comprei um revólver e fui matar o bandido. Chegando na casa dela, ele estava lá. Não tive coragem. Voltei. Os dias passaram e então eu resolvi pagar alguém para matar ele. Não encontrei. Fui largando de mão. Até o dia em que dei de frente com ele na rua. Ele veio para o meu lado, estudando onde me bater. Eu estava com revólver na cinta. Ele veio rápido, me bateu no peito e me derrubou no chão. Quando vi, estava com o pescoço debaixo do pé dele. Ele me sufocou, dizendo que ia me matar ali, naquele instante. Tentei sacar a arma, mas não consegui. Depois, falei para ele que não queria mais saber da Magrinha; nem para beber cerveja do lado de vitrola. Acreditou. Tirou o pé do meu pescoço e eu levantei. De pé, pensei em pegar o revólver da cinta para matar ele mas não tive coragem. Nunca tive coragem de matar alguém. Ele virou as costas. Foi embora.&lt;br /&gt;Depois desse dia, jurei que ia no terreiro, pagar para o pai-de-santo para colocar no rabo dele sete exus. Juntei dinheiro e fui. Já que não tinha coragem de acabar com a vida dele de um jeito, resolvi fazer de outro. No terreiro, falei para o capa-preta: eu quero que você coloca sete exus no rabo dele. Eu quero ver esse homem em ponta de boteco, bebendo e caçando briga com os outros. Eu quero que ele fique falando sozinho na rua, com a voz alta, para todo o mundo ver que ele está doido, que nem o Sabiá daqui da vila. Eu quero que ele fique assim e a polícia leve ele de volta lá para a gaiola de urubu onde ele estava. A Magrinha tem que ser minha, não dele.&lt;br /&gt;Estou esperando isso acontecer. Já fiquei sabendo que ele anda bebendo e caçando briga em ponta de boteco. Estou aguardando ele falar alto na rua, que nem o Sabiá. E quando ele voltar lá para a penitenciária – e eu sei que os exus vão fazer isso – vou morar com a Magrinha, a mulher que esse pobre diabo aqui ama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tião:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico pensando o quê um homem como o Cido têm na cabeça. Só pode ser minhoca, de certo. Eu já vi muitos homens desmiolados; eu mesmo sou um deles, mas um homem como o Cido nunca vi. Porque quando uma mulher é muito vagabunda, como a Magrinha é, qualquer otário cai o fora. Eu só não caio o fora porque não tenho pra onde ir: a casa é dela; os móveis são dela; e a comida que eu como é ela quem ganha do governo por obrigar a filha dela ir para a escola. Em vez em quando ela saí por aí atrás de alguns homens que pagam para comer ela. Eu não sei como eles tem coragem de pagar. Deve ser por causa da buceta dela, que puxa o nosso pau pra dentro, como se tivesse uma mão lá dentro – que puxa e volta, puxa e volta, parecendo uma punheta. Você já viu uma coisa dessa? É muito difícil encontrar, e por isso que quando um homem encontra uma mulher dessa fica louco, como esse Cido aí. Eu; por exemplo, quando estava lá em Serra Pelada, no garimpo, tinha um monte de mulher desse jeito, que puxava o nosso pau para dentro com a buceta. Eram tudo umas vadias. E vadia, para mim, não vale nem a nossa moeda mais barata no bolso.&lt;br /&gt;Fora isso, que valor tem essa mulher? Feia; tem os dentes podres; é magricela, os peitos são caídos; enfim, é de amargar, é de jogar fora. Agora esse Cido aí, que é apaixonado por ela, devia colocar na cabeça que não existe só uma Magrinha no mundo; que tem dentro da buceta uma mão que pega o pau da gente e faz a gente ficar louco, não. Tem um monte de mulher por aí assim... Na zona tá cheio delas... Na verdade, ele devia fazer que nem eu: não dar o mínimo de atenção para uma vadia dessa, porque ela não merece. Como eu já disse, eu só fico com ela porque não tenho para onde ir. E se eu não dou uma de homem bravo, esse Cido aí me pega e me joga no olho da rua. E quem quer ficar dormindo à céu aberto, no relento, só com as estrelas para contar? Eu não quero! Por isso que não dou mole. Se ele vir aqui, eu puxo a minha peixeira e vou em cima, sem dó. E; se for o caso, furo o desgraçado, nem que eu volte para a cadeia de novo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magrinha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Cido devia entender que eu amo o Tião; que ele é só quando eu quero tomar a minha cerveja e não tenho dinheiro. Eu não gosto do Cido, eu gosto do dinheiro dele, só isso. No dia em que o Tião saiu lá da gaiola de urubu, eu disse para o Cido: Cido, eu amo ele. Eu gosto de ficar com você, de tomar cerveja com você, só isso. Volte para a sua família, ela que te ama de verdade. Já eu, como posso dar amor a você quando nessa vida o meu amor é o Tião, hein? E ele, o Cido? Você pensa que ele voltou para a família? Ficou uns dias lá e assim que dei conta ele estava morando perto do meu barraco, num quartinho, que alugou para ficar perto de mim.&lt;br /&gt;Num dia, ele me levou lá no quartinho dele. Eu antes pedi um dinheiro, falando que estava com vontade de tomar cerveja fazia mais de uma semana. Ele disse e aquele seu marido bandidão? Não te dá dinheiro para a sua cerveja, sua sem vergonha? Eu falei: o Tião não dá dinheiro nem para pagar a luz; o máximo que ele pode fazer é armar uma gambiarra quando cortam a nossa energia e um gato quando nos corta a água; só isso. Agora dar dinheiro, coitado, ela não consegue nem para pagar as pingas que toma. Mas mesmo assim eu amo o Tião; ele é o primeiro, o resto é resto, homem que para mim vale somente o dinheiro que tem...&lt;br /&gt;Agora, se o Cido quiser ficar comigo, eu fico com ele, sem problema algum, conquanto ele não queira que eu largue meu marido. Basta ela pagar uma cerveja atrás da outra, até eu ficar bêbada, porque não tem coisa melhor neste mundo que tomar cerveja, têm? Se tem eu não sabia. Sexo? Sexo com o tempo enjoa, se torna algo como cagar, mijar, você não acha? Não? Você é novo, quando ficar mais velho vai concordar comigo. Por enquanto, tudo é novo, tudo é novidade. Eu também pensava como você... Ah... Falando nisso, eu até agora não entendo por que você quer saber tanto sobre o Cido; afinal você é um desses desocupados, que não fazem nada na vida? Um escritor? E você vai escrever sobre nós? Pra quê? Pra botar dentro de um livro? Deixe disso, rapaz! Perda de tempo. Por que você não escreve sobre pessoas interessantes? Nós somos tudo uns pobres diabos; não passamos disso! De pobres diabos e nada mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu:...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-6681736736140484131?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/6681736736140484131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/6681736736140484131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/pobres-diabos-contos-glauber-da-rocha.html' title='POBRES DIABOS - contos'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-8399253120165976256</id><published>2010-06-09T18:02:00.000-07:00</published><updated>2010-06-09T18:10:40.384-07:00</updated><title type='text'>google analytics</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Faz tempo que não dou uma olhada no meu google analytcs, aquele programa do google que informa ao dono do blog de onde vem seus leitores. Uma de suas funções é mostrar o que digitaram no google para acabarem caindo aqui. Seis deles escreveram: contos de merda. Cinco: pare de fumar maconha, remédio controlado. Teve mais outros cinco que digitaram no google: esporrou na minha bunda... Três digitaram: empresa filho da puta. E um digitou: aumento peniano - tração manual...&lt;br /&gt;kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-8399253120165976256?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8399253120165976256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8399253120165976256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/google-analytics.html' title='google analytics'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-2762088868059147770</id><published>2010-06-08T18:12:00.000-07:00</published><updated>2010-06-08T18:14:10.131-07:00</updated><title type='text'>Franz Kafka</title><content type='html'>"Se soubesse que a barata era o senhor Franz Kafka, eu não teria pisado bem em cima...&lt;br /&gt;Glauber da Rocha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-2762088868059147770?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/2762088868059147770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/2762088868059147770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/franz-kafka.html' title='Franz Kafka'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-8516221444778885025</id><published>2010-06-07T17:07:00.000-07:00</published><updated>2010-06-12T16:07:06.490-07:00</updated><title type='text'>A TRAÇÃO MANUAL.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu tinha um pênis minúsculo, menor que o celular de última geração do sr. Johnson. Desde pequeno tive vergonha dele, principalmente depois da observação que uma amiga de minha mãe fez ao vê-la me dar banho: ei Neuza, o pingolinho de seu filho não vai crescer não? Não é melhor &lt;span style="display: block;" id="formatbar_Buttons"&gt;&lt;span class="" style="display: block;" id="formatbar_JustifyFull" title="Justificar" onmouseover="ButtonHoverOn(this);" onmouseout="ButtonHoverOff(this);" onmouseup="" onmousedown="CheckFormatting(event);FormatbarButton('richeditorframe', this, 13);ButtonMouseDown(this);"&gt;&lt;img src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" alt="Justificar" class="gl_align_full" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;levar ele num médico, para ver isso? Eu tinha dez anos de idade quando isto aconteceu. O efeito desta pergunta foi tão traumático que à partir de então nunca mais fiquei pelado na frente de alguém, até conhecer a Patrícia e a dona Suzana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                      * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na adolescência, meu pênis continuava quase do mesmo tamanho quando deste triste episódio, apesar de passar uma boa parte do meu tempo esticando-o, para ver se o infeliz crescia. Fazia isto enquanto estudava, trancado no meu quarto. Mas, de nada resolvia, e então parei. Depois, conheci a Patrícia. Durante um ano de namoro não deixei ela nem encostar no meu membro: sempre que ela ia com a mão, eu esquivava, pois tinha medo dela acabar o namoro por causa do tamanho.&lt;br /&gt;Até que finalmente, resolvi deixar. Patrícia pegou, riu, disse olha que bonitinho, e quando vi, já estava com ele dentro de sua boca. Foi neste dia que perdi a minha virgindade. Ela gostou, e a partir de então, passamos a transar quase todos os dias. Contudo, era somente na frente dela que eu tinha coragem de me despir, e quando aparecia uma oportunidade de transar com outra garota, eu fugia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                          * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus, apareceu a dona Suzana em minha vida, para reverter de uma vez por todas essa minha situação. Estávamos, eu e a Patrícia, na frente de casa, namorando. De repente, um carro importado parou e uma mulher loira, de olhos azuis, aparentando ter uns trinta anos, nos chamou, pedindo informação de uma rua ali no bairro. Pedi para a Patrícia dizer mas ela se recusou.&lt;br /&gt;Falei então:&lt;br /&gt;– Você segue em frente duas quadras e vire à direita; depois, à esquerda, é ela.&lt;br /&gt;– Ai moço... será que vou saber?&lt;br /&gt;– Vai sim – eu falei, porque só se fosse uma burra para não saber.&lt;br /&gt;– Você não quer me levar até lá? Eu trago você de volta. É rapidinho...&lt;br /&gt;Olhei para a Patrícia e ela disse vai, Alfredo. Fui. Na volta, a dona começou a dizer que eu era muito bonito, e me deu o seu telefone. Coloquei-o no bolso, por educação, e disse qualquer coisa eu ligo. Na frente de casa, saltei do carro rapidamente, quase me esquecendo de despedir-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                     * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite, na cama, antes de dormir, comecei a pensar na dona Suzana. Imaginei-a nua, fiquei excitado, peguei no meu pinto e comecei a mexer nele. Logo depois, fui me masturbando. Enquanto me masturbava, sofria com este conflito existencial: estou me masturbando por alguém que posso ter de carne e osso... E tudo isto por vergonha! Assim que me dei conta disto, broxei. Revoltado, falei para mim mesmo: vira homem, Alfredo, e come essa gostosa! Noutro dia liguei para a dona Suzana, e marcamos um encontro, na casa dela. Fui. Chegando, dei de encontro com uma mansão.&lt;br /&gt;– A dona Suzana está? – perguntei, na portaria.&lt;br /&gt;– Você é o Alfredo?&lt;br /&gt;– Sim, sou eu.&lt;br /&gt;– Entre. Ela está lhe esperando – disse o porteiro.&lt;br /&gt;Entrei.&lt;br /&gt;Vi um grande jardim, uma pequena rua que dava de frente à porta de entrada da casa dela; e, na frente dessa porta, ela, vestida com um roupão.&lt;br /&gt;– Alfredo?&lt;br /&gt;Me abraçou, pegou na minha mão e me levou direto para a sua suíte. Lá ela tirou o roupão e ficou nua. Olhei para o seu corpo e vi que estava tudo em ordem. Mesmo assim, não consegui ficar excitado, pois estava nervoso, a minha mão suava e meu coração batia mais forte do que quando jogava futebol de salão na escola.&lt;br /&gt;– Não tenho o corpo de uma jovem? Peque aqui, nos meus seios, para você ver como eles são duros...&lt;br /&gt;Peguei.&lt;br /&gt;– Pegue na minha bunda, agora.&lt;br /&gt;Obedeci. Quando vi, estava abraçado com a dona Suzana, lhe beijando. E, ainda assim, sentindo o seu calor, a sua segurança, o meu pinto não subia de maneira alguma. A dona Suzana percebeu, e para me deixar excitado, tirou a minha roupa. Ao me ver nu, com um pinto do tamanho do pinto de uma criança de cinco anos de idade, ficou desanimada. Afastou-se, sentando na beira da cama, e me perguntou: por que você não me falou antes?&lt;br /&gt;– Falou o que? – perguntei, já sabendo da resposta.&lt;br /&gt;– Que ele é pequeno...&lt;br /&gt;Nesse momento, tive vontade de sair dali correndo, mas nem isso consegui. Chorei, apenas. A dona Susana se apiedou e me chamou para o seu colo, tal como a minha mãe fazia quando eu era criança. Fui, e com o calor de seu corpo, me dando um aconchego maternal, comecei a desabafar. Falei para ela que nunca ficava pelado na frente dos outros, nem de garotas e piorou de garotos; que eu ficava pelado somente na frente da Patrícia, minha namorada.&lt;br /&gt;Disse para ela que por causa do tamanho do meu pênis eu não freqüentava clubes de lazer, não ia à praia e odiava o inverno, pois no frio o meu pinto desaparecia. Contei-lhe também da vez que um colega abaixou as minhas calças no recreio da escola, e que todo mundo viu, principalmente as meninas, e que, a partir desse dia ganhei uma porrada de apelidos: piquinês, japa, minhoca, e etc.&lt;br /&gt;Ao dizer isso, a dona Suzana riu. Fiquei com raiva. Saí de seu colo, reclamando puxa vida, eu aqui abrindo o meu coração para você e você ri? Que mundo cruel! Ela, no entanto, disse não estou rindo de você, seu bobo: estou rindo porque eu tenho a solução para o seu problema!&lt;br /&gt;– Tem?&lt;br /&gt;– Eu não. O sr. Jhonson, meu marido.&lt;br /&gt;– Marido? – indaguei, apavorado.&lt;br /&gt;– Não se preocupe, somos um casal aberto.&lt;br /&gt;Fiquei mais apavorado ainda.&lt;br /&gt;– Por que seu marido?&lt;br /&gt;– Porque foi ele quem descobriu essa técnica, a de aumentar o pênis e dá-lo mais vigor, a fim de que o homem não goze em menos de uma hora – disse ela.&lt;br /&gt;Fiquei ressabiado, e lembrei-me daquelas bombinhas em revistas pornográficas – não sei aonde, li ou ouvi dizer que aquilo causava uma impotência sexual desgraçada nos homens, irreversíveis.&lt;br /&gt;– Não é bombinha, é?&lt;br /&gt;– Nada! Melhor que isso. É uma técnica natural, chamada de a tração manual!&lt;br /&gt;E me explicou. Disse que quando o homem tem ereção, o sangue segue para três partes do pênis. Quem segura esse sangue é o corpo cavernoso, os quais só podem encher de acordo com o tamanho do pênis. Aumentando portanto esse corpo cavernoso, aumenta-se também o membro masculino. Para isso, basta uma série de exercícios, e logo o pinto do cara se transforma num cacete de dar inveja.&lt;br /&gt;– E sobre o cara ficar mais de uma hora sem gozar? – perguntei.&lt;br /&gt;Disse ela: ao redor do ânus existe um músculo chamado púbeo-coccígeno. Quando o homem tem um orgasmo, ele se contrai repetidas vezes. São essas contrações que joga o esperma para fora, através do canal uretral. A maioria dos homens tem esse músculo pouco desenvolvido, e o resultado disso são ereções medíocres, ejaculações precoces, baixo vigor sexual.&lt;br /&gt;Assim, se aplicar a tração manual nele, desenvolvendo-o e deixando-o mais forte, o tempo para o homem gozar se prolonga.&lt;br /&gt;– Posso-lhe mostrar esse músculo? – disse a dona Suzana, após essa explicação.&lt;br /&gt;– No meu cú ninguém toca! – falei.&lt;br /&gt;– Deixa de ser machista, rapaz. E não é no seu cu, é ao redor de seu ânus...&lt;br /&gt;– E não é a mesma coisa?&lt;br /&gt;– Não. Deite aí. Vou mostrá-lo.&lt;br /&gt;Deitei, de barriga para cima, é claro. Ela então colocou a mão lá, e meu pinto endureceu. Tive medo de ser veado gazela, com isso.&lt;br /&gt;– Se fosse um homem passando a mão aqui tudo bem, até concordo que você poderia ser um veado, Alfredo – disse ela, me aliviando.&lt;br /&gt;E aplicou a tração manual. Depois, fez os exercícios no corpo cavernoso de meu pênis, e ele ficou duro, bem duro. Quis comer a dona Suzana, mas ela disse que não, que só iria para a cama comigo depois da obra ficar pronta, ou melhor, depois que o meu pênis se tornasse um cacete de uns dezenove centímetros – para isso acontecer, era para eu ir à sua casa todos os dias.&lt;br /&gt;– Por que você está fazendo isso por mim? – eu perguntei, antes de ir embora.&lt;br /&gt;– Porque acho uma aberração da natureza homens com um pênis tão pequeno como o seu, só isso. Nada de amor à humanidade, à igualdade e etc. É só por isso, mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                             * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Patrícia morava numa edícula no fundo da casa que ficava bem de frente à minha. Pagava aluguel, ou melhor, eram os pais que arcavam com as suas despesas, visto que ela veio para a capital porque na sua cidade não havia curso de psicologia. Só estudava, nada mais. Nessa época, eu não fazia curso algum, nem estudava, porque trabalhava para ajudar em casa. Quando nos vimos, logo começamos a conversar, e fiquei apaixonado por ela, namoramos e fomos para cama, como o leitor já sabe.&lt;br /&gt;Apesar dela dizer que gostou de transar comigo, ainda assim tinha lá as minhas dúvidas. Inseguro, sempre perguntava para ela entre uma foda e outra: você gostou? De tanto fazer esta pergunta, um dia a Patrícia se aporrinhou e disse: porra, Alfredo, você acha que estaria transando contigo se não gostasse? É claro que eu gosto! Na verdade, eu amo! Você é gostoso, sabia?&lt;br /&gt;– Mesmo com o pinto pequeno?&lt;br /&gt;– Mesmo.&lt;br /&gt;Para a Patrícia, graças a Deus, tamanho não era documento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                      * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a ir todos os dias na casa da dona Suzana. No começo, ia porque acreditava nela, que o meu pênis iria se transformar num verdadeiro cacete. Depois, ia porque queria de qualquer maneira comer a dona Suzana: isto tornou-se, em mim, uma obsessão bem incontrolável. Enquanto isto, os progressos de meu pênis eram bem satisfatórios: se antes ficava no máximo meia hora em cima da Patrícia, agora ficava uma, duas, até três horas seguidas!&lt;br /&gt;Havia vezes que ela, cansada, parava no meio da transa, deitava de lado e dormia, reclamando cansaço. Num dia, quando no começo de uma foda a Patrícia estava com ele nas mãos antes de levá-lo à boca, ela disse:&lt;br /&gt;– Alfredo?&lt;br /&gt;– Que é?&lt;br /&gt;– O seu pinto está maior?&lt;br /&gt;– Impressão sua – falei.&lt;br /&gt;Nesse dia, ela acreditou. Dias depois, voltou a falar no assunto.&lt;br /&gt;– Ele está ficando maior sim! O que você anda fazendo, Alfredo?&lt;br /&gt;– Nada.&lt;br /&gt;– Como nada? Deite aí na cama, para eu ver.&lt;br /&gt;Deitei, de barriga para cima.&lt;br /&gt;– Está vendo? Antes ele não alcançava o seu umbigo, agora, ele ultrapassa...&lt;br /&gt;– Sempre alcançou. Você que nunca viu.&lt;br /&gt;Mais uma vez, ela acreditou, ainda que ressabiada. Contei para a dona Suzana.&lt;br /&gt;– Ele já cresceu três centímetros. Faltam mais cinco para a obra ficar pronta – disse ela.&lt;br /&gt;No mês seguinte, não teve mais como esconder da Patrícia.&lt;br /&gt;– Alfredo?&lt;br /&gt;– Diga, Patrícia – exclamei, já aporrinhado.&lt;br /&gt;– Você vai me dizer o que anda fazendo, porque se não eu termino o nosso namoro agora!&lt;br /&gt;– Não ando fazendo nada!&lt;br /&gt;– Como nada? Antes não doía, agora a dor está insuportável! Se você não parar já com o que anda fazendo, nunca mais transo contigo! – disse ela.&lt;br /&gt;Ouvindo isso, entrei em desespero. Passei por um dia inteiro pensando sobre essa ameaça, e decidi continuar os exercícios, porque queria por toda lei comer a dona Suzana. Enquanto isto não acontecia, fugia da Patrícia, a fim dela não saber que eu estava continuando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                      * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de alguns meses indo à casa da dona Suzana, conheci o seu marido, o sr. Johnson. Ele estava de viagem, a trabalho, divulgando o seu produto: a tração manual. Não foi com a minha cara, e logo vi que o papo de casal aberto era furado, coisa que só funciona na Internet. Nos primeiros dias depois de me conhecer, ele me tolerou. Mas com o tempo, ele começou a pegar pesado, me ameaçando.&lt;br /&gt;– Quantos você acha que vale, hein rapaz?&lt;br /&gt;– Não sei.&lt;br /&gt;– Por mil reais eu encontro alguém que te apaga!&lt;br /&gt;– Pode procurar – eu falei, com a coragem própria dos obsessivos.&lt;br /&gt;– Dez mil. Te dou dez mil para você cair o fora.&lt;br /&gt;Eu ainda não havia comido a dona Suzana, e por isso, neguei.&lt;br /&gt;– Você já não está com o pau grande? – disse ele.&lt;br /&gt;– Estou, mas a obra ainda não está pronta.&lt;br /&gt;– Eu sei porque você diz isso. A Suzana, minha esposa, me contou. Falou que só ia transar com você depois que terminasse a sua arte. E você sabe o que é isso? Uma grande mentira... – falou o desgraçado, rindo.&lt;br /&gt;Me entristeci, porque acreditei. Mas depois, lembrei que ela ia transar comigo mesmo antes, quando ainda não tinha um cacete grande, no dia que fui pela primeira vez em sua casa.&lt;br /&gt;– Mentira!&lt;br /&gt;– Mentira? Ela só está fazendo um capricho dela. Porque a amo, aceito. Mas, com uma condição: que vocês dois não transem!&lt;br /&gt;Estava flertando comigo, o corno. Do contrário, não era preciso me oferecer grana e me ameaçar de morte.&lt;br /&gt;– Quer saber? – disse para ele: – foda-se você!&lt;br /&gt;Ficou com raiva, mas se conteve. Depois, num tom de voz mais calmo, apelou para a sua descoberta.&lt;br /&gt;– Sabe, Alfredo....Você pode até ser um cuíudo... mas jamais será um homem como eu.... E sabe por que? Porque eu fiz um grande bem à humanidade.... Você sabe o que é isso, humanidade?&lt;br /&gt;– Sei.&lt;br /&gt;– Pois então... Que grande bem você pode fazer à humanidade, hã? Nenhum! Nem estudar você estuda... Então... eu serei melhor do que você sempre... entendeu? Sempre...&lt;br /&gt;– Entendi – falei, dando de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                     * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha obsessão pela dona Suzana foi colocada à prova. Foi a Patrícia a responsável por isso. Depois de um mês fugindo dela, ela conseguiu me pegar. Fomos para cama, e ela, ao reclamar mais uma vez que estava doendo, me obrigou a contar tudo.&lt;br /&gt;– Aquela dona do carrão? – disse ela, pasma.&lt;br /&gt;– Sim, ela mesma.&lt;br /&gt;– E vocês já transaram?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Que pergunta idiota a minha... É claro que transaram! E você gostou... Porque se não gostasse, você não iria lá, sempre...&lt;br /&gt;– Vou lá porque quero atingir o máximo que posso.&lt;br /&gt;– E vocês não transam?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Conta outra...&lt;br /&gt;– É a mais pura verdade!&lt;br /&gt;Ela me disse: Alfredo, só quando você atingir o máximo que pode que vamos transar...&lt;br /&gt;– Não acredito Alfredo. Não tenho vocação para burra, nem muito menos para corna...&lt;br /&gt;Fiz silêncio, pensando sobre toda essa situação. Por fim, quebrei o silencio e perguntei para ela:&lt;br /&gt;– Você me ama, Patrícia?&lt;br /&gt;– Te amo.&lt;br /&gt;– Então se você me ama, deixe ela terminar a obra.&lt;br /&gt;– Nunca! Você só quer terminar essa obra porque quer ir para cama com ela! Mas fique sabendo, se você for mais uma vez lá, está tudo acabado!&lt;br /&gt;Ao ouvir isso, vi que tinha que me decidir. Para não enganá-la, falei:&lt;br /&gt;– Está bem, então está tudo acabado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                          * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A obra está pronta – disse a dona Suzana, dias depois.&lt;br /&gt;– Então agora podemos ir para cama – falei.&lt;br /&gt;– Você já viu algum artista transar com a sua obra? – falou ela.&lt;br /&gt;Esperando pelo pior, pensei em dizer: você não é uma artista, apenas uma pessoa que está usando uma técnica, nada mais. Nem mesmo o Sr. Johnson é um artista, e sim um cientista, só. Mas resolvi não falar.&lt;br /&gt;– Nunca, nunca vi – respondi – à esta altura, se ela dissesse não, eu comeria a dona Suzana à força, mas não ficava na vontade.&lt;br /&gt;– Mas eu transo! – falou-me.&lt;br /&gt;Isto me deu uma alegria dos diabos: Sr. Johnson? Você perdeu...&lt;br /&gt;– Vem, me coma, me foda com esse pau grande, seu pausudo! – disse ela.&lt;br /&gt;Tive uma ereção fodida. Mas, ao ir para cima dela, lembrei da Patrícia: enquanto esta me amava de verdade, a dona Suzana só queria sexo, e estava tudo consumado. Peguei as minhas roupas e comecei a me vestir.&lt;br /&gt;– Onde você vai?&lt;br /&gt;– Embora.&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;– Não sou uma máquina de fazer sexo. Não sou um produto de laboratório. Eu sou o Alfredo, que ama a Patrícia, entendeu bem?&lt;br /&gt;– Não, não entendi. Você não pode fazer isto. Volte aqui, seu mal agradecido!&lt;br /&gt;– Vai à merda – falei, saindo do seu quarto.&lt;br /&gt;Ela veio atrás. Lá fora, assim que já havia alcançado uma certa distância, e a dona Suzana já havia desistido, ainda pude ouvir o sr.Johnsons dizer:&lt;br /&gt;– Viu o que dá, Suzana, fazer o bem para os outros?...&lt;br /&gt;Na rua, só pensava na Patrícia. Peguei o ônibus e voltei para casa. Estava quase de noite. Quando cheguei, fui direto para a edícula da Patrícia. Um rapaz abriu a porta. Entrei, perguntando por ela.&lt;br /&gt;– No banheiro.&lt;br /&gt;– E o que você está fazendo aqui?&lt;br /&gt;– Estou ficando com ela – disse-me.&lt;br /&gt;Olhei em volta, e vi um litro de vinho em cima da mesinha que ficava na frente da televisão. Vi duas taças cheias.&lt;br /&gt;– Estão tomando vinho, é?&lt;br /&gt;– Vamos começar, se você cair o fora – falou ele.&lt;br /&gt;Ao ouvir isso, dei um soco na parede.&lt;br /&gt;– Ir embora?! Você sabe com quem está falando?!&lt;br /&gt;– Não, não sei.&lt;br /&gt;– Você está falando com o homem que paga o aluguel desta edícula, entendeu?&lt;br /&gt;– Você é o pai dela?&lt;br /&gt;– Que pai porra nenhuma!&lt;br /&gt;– Ela disse que é o pai dela quem paga!&lt;br /&gt;– E você acreditou? Que ingênuo você... É isso o que dá acreditar nas mulheres... Quantos anos você tem, garoto?&lt;br /&gt;– Dezoito.&lt;br /&gt;– Quer passar disto?&lt;br /&gt;– Quero.&lt;br /&gt;– Então vaza, moleque! Porque se não te dou um tiro! – falei, blefando.&lt;br /&gt;O cara assustou, e apavorado, saiu correndo. Sentei-me no sofá, e peguei uma das taças de vinho. Bebi um gole. Depois, falei que nem o sr. Johnson:&lt;br /&gt;– Esses moleques pensam que são alguma coisa... Que bem eles podem fazer à humanidade? Que bem?&lt;br /&gt;A patrícia apareceu.&lt;br /&gt;– Cadê o Ricardo?&lt;br /&gt;– Que Ricardo?&lt;br /&gt;– O cara que estou ficando.&lt;br /&gt;– O cara que você está ficando sou eu, seu namorado – falei me levantando, para pegá-la à força. Patrícia tentou resistir, mas logo cedeu. Quando vi, estava me beijando como antes.&lt;br /&gt;– Não transei com ela – falei.&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Isso mesmo, não transei. Na hora h, lembrei-me de você, do seu amor por mim. E daí eu disse para a dona Suzana: dona Suzana, vai à merda!&lt;br /&gt;– Você fez isso?&lt;br /&gt;– Fiz!&lt;br /&gt;– Então diz que me ama.&lt;br /&gt;– Eu te amo.&lt;br /&gt;– Me dá um beijo.&lt;br /&gt;Beijei-a, e senti as lágrimas da Patrícia em meu rosto. Depois, fomos para cama, amarmo-nos como antes, e felizes como no princípio...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-8516221444778885025?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8516221444778885025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/8516221444778885025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/06/tracao-manual_07.html' title='A TRAÇÃO MANUAL.'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-6329899327549027171</id><published>2010-05-29T14:18:00.001-07:00</published><updated>2010-05-29T14:21:09.578-07:00</updated><title type='text'>Na integra</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TAGFNjwM3vI/AAAAAAAAArg/CjaZoqsZUw8/s1600/lobo.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 200px; height: 164px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TAGFNjwM3vI/AAAAAAAAArg/CjaZoqsZUw8/s200/lobo.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5476805089841438450" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Lobo à baixo, na integra, a novela: O Lobo do Circo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-6329899327549027171?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/6329899327549027171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/6329899327549027171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/05/na-integra.html' title='Na integra'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TAGFNjwM3vI/AAAAAAAAArg/CjaZoqsZUw8/s72-c/lobo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-1664100857579682498</id><published>2010-05-29T13:36:00.001-07:00</published><updated>2010-07-13T17:06:11.938-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O LOBO DO CIRCO - novela'/><title type='text'>O Lobo do Circo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;FUI ACORDAR somente lá pelas dez horas da manhã, com uma dor de cabeça terrível. De olhos abertos, vi todos eles olhando para mim. Estavam do lado de fora da jaula, conversando enquanto me olhavam. Levantei-me, para falar com eles. Ao me verem de pé, espantaram-se, e recuaram, com medo.&lt;br /&gt;Fiquei preocupado com isto, e perguntei-me: o que está acontecendo? Sem encontrar resposta, tentei perguntar para eles. Não tive êxito. Pois, por mais que tentava falar, não saía palavra alguma de minha boca. Será que estou mudo? Dei um grito, para testar. Eles se espantaram novamente. E desta vez, eu também fiquei espantado...&lt;br /&gt;Me espantei porque ao gritar ouvi um uivo, saindo de minha boca. Um uivo?! Não acreditei. Gritei mais uma vez, para certificar se eu estava uivando. Estava! Fiquei com medo, apavorado. Olhei para eles e depois para o meu corpo. Olhei primeiramente para as minhas mãos, e vi que no lugar delas havia patas. Patas?! Não dava para acreditar.&lt;br /&gt;Virei então para o restante do meu corpo: havia pêlos negros por toda parte. Lá atrás, vi um rabo balançar. Espere aí: um rabo?! Sim, um rabo, balançando. Abaixei a cabeça entre as pernas dianteiras e vi uma barriga branca, com poucos pêlos; e, depois da barriga, vi a cabeça vermelha de um pênis, saindo, tal qual dos cachorros. Foi então que percebi que havia virado um cachorro. Um cachorro não, porque cachorro não uiva...&lt;br /&gt;Eu havia virado um lobo!&lt;br /&gt;Fiquei desesperado. Aquilo não era possível. Pensei na possibilidade de estar sonhando. Bati a cabeça contra as grades da jaula, assustando-os. Machuquei-me, e a dor de cabeça aumentou. Senti um pouco de sangue escorrendo, me certificando que aquilo tudo não era um sonho dentro do sonho. Era real. Mas como?! Como que havia me tornado um animal, um lobo especificamente?! Dei mais alguns uivos. Depois, silenciei-me, para ouvir o que eles, do lado de fora da jaula, falavam a meu respeito.&lt;br /&gt;– Como será que esse lobo foi parar aí? – perguntou seu Lagos, o dono do circo.&lt;br /&gt;– Será que o Mauro se transformou em lobo? – disse o anão Rafael.&lt;br /&gt;– Você ficou louco?! – disse o palhaço João.&lt;br /&gt;– No mínimo ele colocou esse lobo aí – falou Marcos, o mágico.&lt;br /&gt;– Para quê? – perguntou Maria, sua ajudante.&lt;br /&gt;– Para brincar conosco.&lt;br /&gt;– Será? – disse Carmem, uma das equilibristas.&lt;br /&gt;– Com certeza.&lt;br /&gt;– E agora? O quê vamos fazer? – quis saber Raquel.&lt;br /&gt;– Vamos soltar ele? – disse Fabrínia.&lt;br /&gt;– E se ele nos avançar? – falou a Lúcia.&lt;br /&gt;– E se ele estiver com raiva? – perguntou Cláudia.&lt;br /&gt;– E se ele for o Mauro? – disse Josy.&lt;br /&gt;Escorreram lágrimas de meus olhos, quando ela falou isso.&lt;br /&gt;– Vamos matá-lo! – sugeriu repentinamente o motoqueiro José.&lt;br /&gt;– Matá-lo? – falou seu irmão Fábio, como que reprovando a idéia.&lt;br /&gt;– Sim, matá-lo!&lt;br /&gt;– Não. Matá-lo não podemos –, disse seu Lagos.&lt;br /&gt;– Por quê? – disse o palhaço João.&lt;br /&gt;– Matar animais de circo é crime.&lt;br /&gt;– Mas ele não é do circo.&lt;br /&gt;– Mesmo assim. Pode dar problemas.&lt;br /&gt;– Será que ele tem dono? – perguntou Maria.&lt;br /&gt;– Quem iria ser dono de um lobo? – disse Marcos, rindo da estupidez de sua ajudante.&lt;br /&gt;Enquanto isto, eu ficava cada vez mais com raiva, deles falando dessa maneira sobre mim.&lt;br /&gt;Comecei a rosnar para eles, a fim de intimidá-los.&lt;br /&gt;Ficaram com medo, se afastaram.&lt;br /&gt;– Mas como que ele foi parar aí? – disse, impaciente, o seu Lagos.&lt;br /&gt;– A jaula está fechada? – perguntou o anão Rafael.&lt;br /&gt;– Sim – e sem seguida, falou: – Mas aonde foi parar esse Mauro, meu Deus?!&lt;br /&gt;– Isto é um mistério – disse a Carmem.&lt;br /&gt;O meu sumiço havia virado um mistério.&lt;br /&gt;Fiquei com mais raiva ainda.&lt;br /&gt;Uivei.&lt;br /&gt;Eles se assustaram.&lt;br /&gt;– O que vamos fazer, chefe? – perguntou Marcos.&lt;br /&gt;– Não sei. Vamos deixá-lo aí, por enquanto.&lt;br /&gt;– E se ele for o Mauro? – perguntou ele.&lt;br /&gt;– É por isso que também não podemos matá-lo.&lt;br /&gt;– Mas você acredita na possibilidade dele ter se transformado num lobo? – perguntou o anão Rafael.&lt;br /&gt;– Acredito! – disse seu Lagos.&lt;br /&gt;– Acredita?! – disse o palhaço João, espantado.&lt;br /&gt;– Claro. Já vi muita coisa nessa minha vida – falou seu Lagos.&lt;br /&gt;– Pois eu não acredito! – disse Marcos&lt;br /&gt;– Para mim, foi ele quem colocou esse lobo aí, para brincar conosco.&lt;br /&gt;–... Ou para se vingar..., não? – disse o palhaço João.&lt;br /&gt;– Meu Deus... – disse Carmem.&lt;br /&gt;– Será que ele é capaz de se comunicar com a gente? – perguntou Josy.&lt;br /&gt;– Comunicar? Como, se os animais não pensam?! – disse o anão Rafael.&lt;br /&gt;– Para mim, eles pensam sim, que nem nós, seres humanos!&lt;br /&gt;– Ah, é? Se eles pensam então eles podem ser filósofos, cientistas, inventores... – disse o palhaço João.&lt;br /&gt;– Não é nesse sentido que estou falando, seu bruto – disse a Josy, se defendendo: – Estou falando no sentido de que eles nos entendem.&lt;br /&gt;– Não, eles não nos entendem – falou o palhaço João.&lt;br /&gt;– Vamos tentar – disse a Josy.&lt;br /&gt;– Besteira – disse João.&lt;br /&gt;– Eu vou!&lt;br /&gt;– Vai?&lt;br /&gt;– Vou.&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;– Assim – disse ela se agachando, em minha direção.&lt;br /&gt;– Cuidado... – disse seu Lagos.&lt;br /&gt;E; ali na minha frente, agachada, olhando no fundo dos meus olhos, falou-me:&lt;br /&gt;– Você me entende? Se você me entende, levanta a pata...&lt;br /&gt;Fiquei sem saber se levantava a pata ou não.&lt;br /&gt;– Você me entende?&lt;br /&gt;Resolvi responder, e levantei a pata.&lt;br /&gt;– Você é um lobo? – perguntou ela.&lt;br /&gt;Abaixei: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;não, não sou&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Você é o Mauro?&lt;br /&gt;Não respondi.&lt;br /&gt;– Hein? Você é o Mauro?&lt;br /&gt;Não sabia se respondia para ela.&lt;br /&gt;– Diga – pediu-me, com a voz meiga.&lt;br /&gt;Não resisti, e levantei a pata.&lt;br /&gt;– Viram? Ele é o Mauro! – gritou ela.&lt;br /&gt;– Não acredito! – disse João.&lt;br /&gt;– Também não – falaram alguns, em coro.&lt;br /&gt;– Ele me respondeu – disse Josy.&lt;br /&gt;– Mas isso não prova nada – falou seu Lagos.&lt;br /&gt;– Como não?&lt;br /&gt;– Precisamos de algo mais concreto, mais seguro. Vou atrás do Elias, ele saberá nos dizer – sempre que aparecia um problema de aparência insolúvel, o seu Lagos ia atrás desse Elias, um bruxo.&lt;br /&gt;Ao dizer isto, eles viram que não podia fazer nada até uma segunda ordem. Logo depois, saíram todos de perto, me deixando sozinho. Fiquei triste, uivando como um lobo solitário. E me perguntava: como isto foi acontecer? Como que eu pude me tornar um lobo, da noite para o dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que a minha dor de cabeça cessou, lembrei de como fui parar dentro dessa jaula. Quem me trancou ali na noite anterior foi o seu Lagos e o palhaço João. Eu estava bêbado, e uma jaula era a única solução para me fazer parar. Do contrário, subiria na corda bamba e me equilibraria, como vinha fazendo dias atrás. Eu era o equilibrista do circo e, para aumentar o meu salário, passei a trabalhar bêbado.&lt;br /&gt;Foi a maneira que encontrei para o circo ganhar mais público, pois somente assim o seu Lagos podia me dar aumento. O que deu certo: com um equilibrista embriagado a atração ficava mais emocionante – ainda mais sem a rede de segurança... Com todos esses atrativos, não eram poucas as pessoas que iam ao circo principalmente para me ver, obrigando o seu Lagos a aumentar meu ordenado.&lt;br /&gt;Entretanto, depois da décima segunda apresentação que fiz bêbado, o seu Lagos me proibiu subir embriagado. O salário não era a questão, e manteve o que prometeu, sem abaixar o meu ordenado. A questão era a minha vida: eu podia cair e quebrar o pescoço. Para não acontecer uma tragédia, recolocou a rede de segurança e pôs o palhaço João para cheirar o meu hálito antes de subir lá em cima. Tornou-se o meu bafômetro, o palhaço: se meu bafo estivesse com cheiro de bebida, nada feito!&lt;br /&gt;Depois de duas apresentações que fiz sóbrio, resolvi desobedecer João e quis subir mesmo alcoolizado. Ele barrou a minha passagem. Briguei com ele. E quando dei conta, estava sendo carregado por ele e pelo seu Lagos para essa jaula. Jogaram-me como se joga um criminoso para dentro da cela, e fiquei atrás das grades. Ao me trancarem na jaula, comecei a gritar, a chamar-lhes de tudo quanto é nome, dizendo que eles não podiam fazer aquilo comigo. Não deram ouvidos e saíram.&lt;br /&gt;Mesmo assim, continuei gritando, e ia gritar muito mais quando o espetáculo terminasse, porque daí os espectadores iriam ver o que estavam me fazendo. Esperei. De vez em quando, soltava um grito de protesto, dizia coisas absurdas, prometia que ia acabar com a vida do palhaço João e de seu Lagos. No entanto, de muito gritar, berrar, espernear, maldizer e lançar maldições, acabei dormindo, para acordar somente no dia seguinte, metido numa pele de lobo. Depois que me lembrei do acontecido, parei para pensar nessa minha nova condição: iria ser um lobo para sempre? Se sim; eles seriam capazes de me sacrificar? Como iria sair dali, se a chave da jaula estava com o dono do circo? O que ia ser da minha vida agora, Deus do céu? Eu estava perdido, isto sim. Perdido e preso numa jaula, como se fosse um criminoso...&lt;br /&gt;Enquanto andava de um lado para outro, fazia uma retrospectiva, desde o dia em que cheguei ao circo até o momento presente. Vinha duma cidade do interior, com a vontade de ser equilibrista – vontade esta que surgiu após ver a apresentação deste mesmo circo em minha cidade, quando ainda era seminarista e estava indeciso se iria ou não me tornar padre. Lembro que faltavam apenas algumas semanas para a minha ordenação diáconal, eu estava aflito e não sabia o que fazer. Então apareceu o circo, e tudo deu no que deu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia que cheguei, o circo estava armado, com lonas listradas de cores amarelas, azuis e vermelhas, com uma bandeira verde lá em cima, no alto, balançando. Em volta, as jaulas dos animais, alguns trailers, carros e motocicletas espalhadas circo adentro. Não havia ninguém ao redor, nem mesmo um guarda, para prevenir algum roubo ou algo parecido. Ainda assim, não entrei. Fiquei esperando alguém aparecer, a fim de me dizer quem era o dono e me levá-lo até ele. Enquanto esperava, olhava.&lt;br /&gt;De repente, um homem gordo apareceu, saindo de dentro do circo, indo em direção a alguns dos trailers. Vestia uma calça social enorme, uma camisa com listas finas, em vertical. Usava suspensórios. Andava rápido. Assim que me viu, parou; e de longe, perguntou o que eu queria. Disse em voz alta: conversar com o dono do circo.&lt;br /&gt;– Entre! – disse ele, me chamando.&lt;br /&gt;Entrei. Ao chegar perto dele, estendi a mão dizendo prazer, meu nome é Mauro. Ele disse prazer e ficou me olhando como se perguntasse o que eu queria, e que respondesse logo, porque estava com pressa. Falei. Disse para ele que queria trabalhar no circo, que queria ser equilibrista, mais exatamente. Ele me olhou de cima em baixo e respondeu venha, vamos conversar no meu escritório.&lt;br /&gt;Fiz que sim e fui atrás dele. Ele entrou num dos trailers. Entrei também e logo vi uma mesa de escritório, com tudo muito bem organizado. Ele sentou-se atrás dessa mesa e me pediu para sentar-se numa cadeira que ficava à sua frente. Sentei-me.&lt;br /&gt;– Você é um equilibrista? – foi logo me perguntando, com a respiração ainda ofegante.&lt;br /&gt;– Não – eu respondi.&lt;br /&gt;– Não?! – disse ele, surpreso.&lt;br /&gt;– Não. – E como você pretende trabalhar como equilibrista, então? – falou abrindo um sorriso de curioso.&lt;br /&gt;– Quero aprender...&lt;br /&gt;– Aprender?! – disse ele, com o mesmo riso na face.&lt;br /&gt;– Sim. Sou uma pessoa que aprende rápido.&lt;br /&gt;– E porque você quer ser um equilibrista? – falou, voltando à seriedade.&lt;br /&gt;Não querendo dizer apenas porque sim, falei:&lt;br /&gt;– É um sonho de criança.&lt;br /&gt;– Sonho de criança?! – disse ele, surpreso.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Você só pode ser mesmo um maluco – falou rindo enquanto soltava o seu corpo na cadeira.&lt;br /&gt;– Não, não sou um maluco. Quando eu era criança, via o equilibrista e queria ser igualzinho. Não tem gente que quer ser palhaço? Ou qualquer outro tipo de artista? Então... Eu quero ser equilibrista!&lt;br /&gt;Acreditou.&lt;br /&gt;– Sabe?... – disse ele voltando com o corpo – Quando contrato alguém que não sabe nada, normalmente coloco a pessoa para fazer os serviços gerais, até que ela aprenda algo – disse ele.&lt;br /&gt;– Eu faço, sem problema algum.&lt;br /&gt;– Não é esse o caso.&lt;br /&gt;– Não?!&lt;br /&gt;– Não. Vou deixá-lo aprendendo sem precisar fazer nada. É porque justamente estou sem equilibrista. Preciso de um. O último saiu da companhia e nunca mais voltou. Nem sei onde ele se encontra, sabe Deus. Então apareceu você. O emprego é seu. Mas você só vai ganhar algum dinheiro quando estiver pronto para o seu número, tudo bem?&lt;br /&gt;– Tudo. Muito obrigado, seu?&lt;br /&gt;– Lagos – disse ele.&lt;br /&gt;– Seu Lagos. Muito obrigado. Não sei como lhe agradecer.&lt;br /&gt;– Agradeça trabalhando.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;E, me olhando, disse:&lt;br /&gt;– Bom, vi que você veio com a mochila.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Então nem preciso dizer que para trabalhar no circo é preciso morar conosco.&lt;br /&gt;– Não, não precisa dizer.&lt;br /&gt;– Então, vou levar você ao seu quarto.&lt;br /&gt;– Obrigado. Fomos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos de seu trailer e entramos num outro. Estava tudo desorganizado. Havia na parte direita a cozinha; no centro, a sala, com dois sofás e uma televisão encostada na parede; e na parte esquerda, o quarto. No quarto havia um beliche, com a cama de cima desocupada. Tinha também, ao lado desse beliche, outra cama. Pelo chão, roupas espalhadas. Roupas masculinas, que eu logo perguntei de quem era.&lt;br /&gt;– Do João, o palhaço do circo; e do Rafael, o homem-bala. Eles dormem aqui.&lt;br /&gt;– No beliche?&lt;br /&gt;– O João dorme no beliche de baixo; e o Rafael, nessa cama. Você vai dormir na cama de cima.&lt;br /&gt;Era a cama do equilibrista que sumiu e nunca mais voltou.&lt;br /&gt;– Eles não se importam de dividir o quarto? – perguntei.&lt;br /&gt;– Não, não. São pessoas boas. Vão gostar de você.&lt;br /&gt;Seu Lagos deu mais uma olhada no interior do trailer e depois falou vamos, vou mostrar para você o restante do circo; aproveito e apresento você para o pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei a minha mochila ali e saímos do trailer. Lá fora, ele apontou para as jaulas dizendo: ali naquela estão os elefantes; naquela outra, os macacos; e do outro lado estão às jaulas dos leões, das girafas; e nessa a dos coelhos e das pombas do mágico. Outra hora você vai lá. Essas motos que você está vendo são as motos do globo da morte. Os carros, de alguns que trabalham aqui no circo. Você tem carro, moto?, perguntou em seguida.&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;Entramos no circo. A maioria deles conversava na arquibancada, próximos da arena. Eram mais ou menos trinta pessoas, sendo que a maior parte eram mulheres. Senti-me num paraíso. Me cumprimentaram, dando boas vindas, e logo me enturmei. O seu Lagos, antes de sair, pediu a eles para me ajudarem no que fosse preciso. Responderam afirmativamente; e na saída de seu Lagos começaram a me fazer perguntas sobre mim. Uma delas, chamada Josy, perguntou-me o que fazia antes de chegar ao circo.&lt;br /&gt;– Seminarista – eu respondi.&lt;br /&gt;– Seminarista? – disse ela, surpresa.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante os sete anos no seminário, sempre direcionei os meus estudos para combater a filosofia de Nietzsche, embora eu tivesse uma forte inclinação pelo pensamento deste filósofo. Era a minha tentação intelectual, que me obrigava a combater do mesmo modo que combatia o meu grande desejo pelas mulheres. Para vencer ambas às tentações, eu me apegava ao terço e aos livros de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, juntamente com alguns teólogos modernos.&lt;br /&gt;Não era nada fácil. Tudo o que acreditava e vivia era implacavelmente criticado por este pensador. Para ele, eu fazia parte de uma classe inferior ressentida, fraca, que transformou os verdadeiros valores em pecado: os judeus, impotentes com a ocupação da Palestina pelos romanos, encontraram no cristianismo o seu advogado, provocando uma inversão de valores, onde a nobreza e a honra passaram a ser vistos como mal...&lt;br /&gt;Os escravos romanos, em sua impotência, fizeram o mesmo, fortalecendo o cristianismo, que para Nietzsche não passa de uma moral doentia e perigosa... Portanto, segundo ele eu era um fraco e ressentido, que negava a vida, os meus instintos. Não era um espírito livre, capaz de criar as próprias regras, a própria moral...&lt;br /&gt;Para combater estas acusações, levava em conta à teologia que Nietzsche criticava: a puritana, da qual ele fora vitima – a minha, quero dizer, a teologia de minha época, é equilibrada, quase liberadora, que visa muito mais a felicidade, o prazer e a realização pessoal que o sofrimento. No mais, Nietzsche não via o meio termo, mas antes o extremo: para ele ou se é cristão, cheio de limites por causa da sua doutrina, ou se é um super-homem...&lt;br /&gt;No entanto, apesar de ter esta perspectiva a respeito deste grande pensador, ainda entrava em crise quando lia suas obras. Angustiado, pensava em abandonar o seminário e a minha religião. Foi o que terminei fazendo. Prestes à me ordenar, pulei o muro e me mandei para outra cidade, à procura por este circo.&lt;br /&gt;Entretanto, no circo continuei, por um bom tempo, um seminarista exemplar: educado, piedoso. Com este meu comportamento, as mulheres do circo fugiam de mim. Rejeitado, perguntava-me: será que elas não me enxergam como homem? Comecei a ficar inseguro – aliás, não há coisa pior na vida de um homem do que ser tomado pela insegurança: junto com ela vem o nervosismo, a amargura e a tristeza, essa tríade infalível para afastar todas as mulheres para bem longe. Para chamar a atenção delas, fui deixando a minha ganância aflorar, e pensei num modo de conseguir aumentar o meu salário. Encontrei esta alternativa, a de subir embriagado na corda bamba, sem a rede de segurança. Depois, fui tomando parte na administração do circo, aconselhando seu Lagos em tudo o que podia. Quando vi, estava mandando e desmandando.&lt;br /&gt;Poderoso, comecei a chantagear as mulheres do circo: ou iam para cama comigo ou para rua. Todas preferiram a demissão, e eu fui mandando embora uma a uma, contratando outras, tais como a Carmem, a Fabrínia, a Maria, a Lúcia, a Cláudia e a Raquel. A única que não demiti foi a Josy, porque nunca cheguei a chantageá-la, embora ele fosse bonita e gostosa – quanto às demais; isto é, quanto a Carmem, a Fabrínia, a Maria, a Lúcia, a Cláudia e a Raquel, só não as chantageei por falta de tempo; ou melhor: porque quando ia começar a chantageá-las acabei me transformando em lobo.&lt;br /&gt;Com os homens, era o seguinte: ou me obedecia ou eu mandava embora. Fizessem algo que fosse para me desafiar, estavam demitidos. Demiti muitos deles, sobrando apenas o palhaço João, o anão Rafael, o mágico Marcos e os irmãos Fábio e José, que eram os motoqueiros do globo da morte. Com todos eles eu não tinha problema algum, exceto com o palhaço João, que falava mal de mim pelas costas. Por esta razão, por duas ou três vezes pedi ao seu Lagos para mandá-lo para o olho da rua, mas não obtive sucesso algum.&lt;br /&gt;E tudo para atrair as mulheres do circo para mim! Algo que hoje sei que estava completamente equivocado, que o meu erro não era ter um salário comum, e sim o de ser, antes de passar a ser uma espécie de gerente no circo, um sujeito bonzinho e educado de mais com elas. Quem me confirmou isto foi Elias, o bruxo que seu Lagos foi atrás, a fim de saber se o lobo na jaula era eu mesmo afinal.&lt;br /&gt;– É ele.&lt;br /&gt;– O Mauro?&lt;br /&gt;– O próprio.&lt;br /&gt;– Meu Deus do céu! Como isso foi acontecer?&lt;br /&gt;– Simples. O moço era bonzinho, as moças lhe repudiavam... Resolveu ser mau. Acabou virando lobo.&lt;br /&gt;– Não é possível.&lt;br /&gt;– Tudo é possível.&lt;br /&gt;– E agora?&lt;br /&gt;– Agora o quê?&lt;br /&gt;– O que vamos fazer para ele voltar ao normal?&lt;br /&gt;– Nada.&lt;br /&gt;– Nada? Não existe nenhum feitiço para resolver essa situação?&lt;br /&gt;– O que você acha?&lt;br /&gt;– Sei lá, oras. O bruxo aqui é você.&lt;br /&gt;– Não, não há nenhum feitiço.&lt;br /&gt;– E agora?&lt;br /&gt;– Agora a coisa é com ele, só com ele. Se ele quiser voltar a ser o Mauro, primeiro ele precisa se transformar num cordeiro. Será que ele vai querer?&lt;br /&gt;– No meu caso, quereria sim.&lt;br /&gt;– Se fosse comigo, não queria não.&lt;br /&gt;– Isto porque você é um bruxo.&lt;br /&gt;– Não. Só não iria querer me transformar num cordeiro porque o lobo ganha vantagem na luta pela sobrevivência; enquanto o cordeiro, coitado, todo o mundo quer comer...&lt;br /&gt;– Nisto você tem razão.&lt;br /&gt;– E depois, para ele se transformar num cordeiro vai ser preciso se tornar um cristão. Não o cristão da boca para fora, mas o cristão que perde nesta vida para ganhar na outra. Quem quer isto nos dias de hoje?&lt;br /&gt;– Quase ninguém.&lt;br /&gt;– Ninguém hoje em dia quer ser casto, pobre e obediente. Você quer ser isto, seu Lagos?&lt;br /&gt;– Eu não.&lt;br /&gt;– Hoje o mundo vive o culto ao sexo, ao dinheiro a qualquer custo...&lt;br /&gt;– A vida fácil, desregrada...&lt;br /&gt;– Quase ninguém quer sair perdendo...&lt;br /&gt;– Quase ninguém...&lt;br /&gt;– São poucos os verdadeiros trabalhadores da fé, que praticam a caridade. O sonho da maioria é ficar rico. Um ou outro sonha em ocupar um lugar de destaque no céu.&lt;br /&gt;– É isto mesmo...&lt;br /&gt;– Está certo que existem muitas pessoas de bem, que trabalham para o próprio progresso e evitam fazer o mal para outro. Mas é certo também que muitos não querem o sofrimento, as provas dadas por Deus para a evolução de cada um.&lt;br /&gt;– Verdade.&lt;br /&gt;– Você, por exemplo, sofre sem murmurar?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Enfrenta crises financeiras, de saúde e emocionais com resignação?&lt;br /&gt;– Também não.&lt;br /&gt;– E se Deus lhe tirasse tudo: este circo, a sua saúde, e etc; você aceitaria rindo, feliz?&lt;br /&gt;– Creio que não.&lt;br /&gt;– Está vendo, como é difícil?&lt;br /&gt;– Muito.&lt;br /&gt;– Será que o Mauro vai querer essa vida para ele? O sujeito já se transformou num lobo porque queria todas essas mulheres lindas que trabalham aqui... Você acha que ele é capaz de renunciar o sexo livre e viver o amor com todas as suas implicações, principalmente a fidelidade?&lt;br /&gt;– Acho que não.&lt;br /&gt;– Ele queria ter dinheiro, não é? Você acha que ele vai querer viver uma vida simples, tendo que perder muitas vezes em favor de sua fé?&lt;br /&gt;– Acho que não.&lt;br /&gt;– Eu também acho.&lt;br /&gt;– E o que será dele, então?&lt;br /&gt;– Só Deus sabe, seu Lagos, só Deus.&lt;br /&gt;– E o que faço enquanto isso?&lt;br /&gt;– A única coisa que você pode fazer é rezar e esperar, só.&lt;br /&gt;– Fazer o quê, não? Vamos rezar e esperar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditei nas palavras do bruxo. Fazia sentido. Contudo, estava num paradoxo crucial: queria voltar a ser homem, mas não queria de maneira alguma voltar a ser cristão. Eu não queria perder a minha vida, e sim aproveitá-la ao máximo com mulheres e dinheiro. E agora, caso quisesse ter a minha pele humana de volta, ia ter que voltar a rezar como rezam os verdadeiros cristãos...&lt;br /&gt;Primeiramente, ia ter de me arrepender de tudo o que fiz. Depois, fugir e me apartar do mal. Perdoar. Amar Deus sobre todas as coisas e o próximo com a si mesmo... Coisa difícil, muito difícil. Se quisesse, ia ter de esquecer as mulheres do circo – eu queria todas elas, uma por uma, numa obsessão incurável, numa idéia e vontade fixa – e escolher apenas uma, casar-se com ela, ter filhos e formar uma família sagrada, sem traições.&lt;br /&gt;Por outro lado, continuar sendo um lobo, um animal, dava no mesmo que ser um cristão: como iria tê-las para mim agora? Antes uma que nenhuma. Por isso, decidi ser cristão. Arrependi-me dos meus pecados, renunciei ao mal, perdoei quem tinha que perdoar. Assim, pude iniciar no Caminho: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo...&lt;br /&gt;Passei o dia inteiro meditando sobre isto, andando de um lado para outro, cheirando o chão, cuidando os meus sentimentos e o meu pensar. Enquanto meditava, sabia que não iria ser nada fácil ser um homem de Deus; e, por conseguinte, me transformar num cordeiro, a fim de ter a minha pele humana de volta. Iria haver as provações, as tentações, e todas essas coisas que acontecem a todo aquele que deseja ser um fiel. Iria haver as mulheres e Nietzsche no meu ouvido... Dito e feito: só foi a noite chegar, com todas as suas venturas, para vir sobre mim às primeiras provações...&lt;br /&gt;Mais exatamente, pela madrugada.&lt;br /&gt;Isto aconteceu quando as mulheres começaram a chegar de uma festa. Chegaram todas juntas, menos a Maria, que não foi. A Josy, a Raquel e a Fabrínia foram direto para seus respectivos trailers, dormir. A Lúcia e a Carmem, não. Ficaram ali, perto da jaula. Conversavam, sobre a festa. Enquanto conversavam, fumavam. Estavam alegres, por causa da bebida. De repente, resolveram aproximar-se de mim.&lt;br /&gt;– Será que ele é mesmo o Mauro? – perguntou a Lúcia para a Carmem.&lt;br /&gt;– Nada. Você acredita nisso?&lt;br /&gt;– A Josy acreditou.&lt;br /&gt;– Ela acredita em tudo. Aonde já se viu um ser humano virar animal?... – disse Carmem.&lt;br /&gt;– Estranho, não? Esse lobo aparecer assim, justo no dia em que trancaram o Mauro aí... – comentou Lúcia.&lt;br /&gt;– Muito estranho.&lt;br /&gt;– Será que esse lobo é capaz de machucar alguém? – perguntou a Lúcia.&lt;br /&gt;– Acho que sim.&lt;br /&gt;– Você tem coragem de passar a mão nele?&lt;br /&gt;A Carmem disse que não.&lt;br /&gt;– Pois eu tenho – disse a Lúcia.&lt;br /&gt;Aproximou, me chamando, com uma voz doce. Fui, porque queria ser bonzinho, manso e humilde de coração. Levou a mão à minha cabeça e eu deixei ela me acariciar. – Viu, ele não é tão mau assim...&lt;br /&gt;– Parece que não.&lt;br /&gt;– Passe a mão nele.&lt;br /&gt;– Eu não!&lt;br /&gt;– Por que não?&lt;br /&gt;– Tenho medo. Apesar de me mostrar um ser manso e bom, a minha imagem de lobo ainda assustava muito.&lt;br /&gt;– O risco vale à pena.&lt;br /&gt;– Acho melhor não.&lt;br /&gt;– Ah, eu não sabia que você era tão medrosa...&lt;br /&gt;– E não sou!&lt;br /&gt;– Então vai, passe a mão nele...&lt;br /&gt;Carmem aceitou o desafio.&lt;br /&gt;Aproximou-se, levando à mão em minha cabeça.&lt;br /&gt;Deixei.&lt;br /&gt;Depois, comecei a lamber a mão dela, num gesto de carinho; afinal, eu queria a Salvação.&lt;br /&gt;– Ui – disse a Carmem.&lt;br /&gt;– Que foi?&lt;br /&gt;– Ele tem uma língua molhada.&lt;br /&gt;– Uma língua molhada? – perguntou Lúcia, excitada.&lt;br /&gt;– Credo, Lúcia, deixa de ser nojenta!&lt;br /&gt;– Não é nojento.&lt;br /&gt;– Claro que é!&lt;br /&gt;– Deixe eu ver – disse ela, colocando a mão em minha boca.&lt;br /&gt;Lambi a sua mão, tal como fazem os cachorros em seus donos.&lt;br /&gt;– Ai, que delícia – disse – Dá até vontade de. N&lt;br /&gt;a hora que ela pensou nisso, logo vi que estava diante de uma tentação.&lt;br /&gt;- Não acredito que você pensou numa coisa dessas!&lt;br /&gt;– Pensei. Deve ser excitante.&lt;br /&gt;– Excitante?&lt;br /&gt;– Sim. Será que ele lambe a nossa?&lt;br /&gt;De fato, era uma tentação, uma grande tentação: se antes precisava fazer chantagens para tentar levá-las para cama, agora uma delas estava ali, de graça para mim, sem precisar esforço algum de minha parte.&lt;br /&gt;– Não acredito que você teria a coragem.&lt;br /&gt;– Teria!&lt;br /&gt;– Que nojento!&lt;br /&gt;– Não tem nada de nojento. Tem de gostoso. Você nunca deixou um animal fazer isso por você, Carmem?&lt;br /&gt;– Um animal?&lt;br /&gt;– É, um animal. O cachorro de casa, um gato...&lt;br /&gt;– Eu não!&lt;br /&gt;– Que mentira!&lt;br /&gt;– Verdade!&lt;br /&gt;– Todo mundo já fez isso quando criança ou no começo da adolescência!&lt;br /&gt;– Pois eu não!&lt;br /&gt;– Já eu sim! Quando era adolescente. Eu pegava um gato lá de casa e deixava ele lamber – disse a Lúcia.&lt;br /&gt;– E ele lambia?&lt;br /&gt;– Melhor do que os homens!&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que vadia!, pensei comigo&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Era bom?&lt;br /&gt;– Nossa, nem me fale.&lt;br /&gt;– Você tem coragem de deixar esse lobo fazer isso? – perguntou a Carmem.&lt;br /&gt;– Tenho!&lt;br /&gt;– Vai fazer?&lt;br /&gt;– Vou!&lt;br /&gt;Na hora que ela disse isso, fiquei demasiadamente excitado.&lt;br /&gt;– Viu isso? Ali, no meio das pernas dele, saindo para fora?&lt;br /&gt;– Vi.&lt;br /&gt;– É muito vermelho.&lt;br /&gt;– E grande.&lt;br /&gt;– Ai, fiquei excitada, e você? – disse a Lúcia.&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Vou levantar a minha saia.&lt;br /&gt;– Você ficou louca? E se alguém aparecer?&lt;br /&gt;– Você me avisa – disse Lúcia para Carmem.&lt;br /&gt;Em seguida, levantou a saia.&lt;br /&gt;Ao levantar a saia, tirou a calcinha e eu pude ver sua genitália.&lt;br /&gt;Era uma das bucetas mais belas que vi em toda a minha existência: a rosa aberta dos poetas safados.&lt;br /&gt;Depois, ela aproximou-se da grade e levou sua vagina perto da minha boca.&lt;br /&gt;Uma voz interior me disse: agora é a hora da verdade, da provação – resistir e alcançar a graça de me tornar um cordeiro ou entregar-me ao pecado e continuar sendo um lobo?&lt;br /&gt;Desta vez, a escolha era mais difícil ainda; pois, se antes imaginava que enquanto lobo nunca poderia tê-las para mim, agora a situação me mostrava exatamente o contrário: era o fato de ser lobo que elas estavam ali, querendo sexo comigo.&lt;br /&gt;Tentei uma oração, virei à cara, mandei Satanás afastar-se. Não afastou. Pelo contrário: fez com que a Lúcia colocasse a buceta mais perto ainda, e como se não bastasse a tentação em si, começou a pedir com uma voz sensual para que eu lambesse:&lt;br /&gt;– Vem, lobinho, vem...&lt;br /&gt;Não resisti.&lt;br /&gt;Coloquei o foucinho e cheirei.&lt;br /&gt;Depois, comecei a lambê-la; e ela, a ficar louca.&lt;br /&gt;– Ai, que delícia, Carmem! – disse ela.&lt;br /&gt;– É mesmo?&lt;br /&gt;– Nossa!&lt;br /&gt;– Eu também vou querer!&lt;br /&gt;– Agora não. Espere um pouco.&lt;br /&gt;Fiquei lambendo a buceta da Lúcia, me esquecendo completamente do meu dever de cristão.&lt;br /&gt;– Vou gozar – disse ela.&lt;br /&gt;– Verdade?&lt;br /&gt;– Verdade.&lt;br /&gt;– Então é bom mesmo! – exclamou a Carmem.&lt;br /&gt;– Muito! Ahhhhhhhhhhhhhh!&lt;br /&gt;E gozou.&lt;br /&gt;Ficou com as pernas bambas.&lt;br /&gt;Quase caiu, sem forças.&lt;br /&gt;– Agora sou eu – disse a Carmem, levantando a saia.&lt;br /&gt;E; logo depois, tirou a calcinha e se aproximou, colocando a vagina na minha cara.&lt;br /&gt;Fiz o mesmo com a Carmem: primeiro encostei o meu foucinho e depois comecei a lamber.&lt;br /&gt;– Nossa, que tesão! – disse ela.&lt;br /&gt;– É demais!&lt;br /&gt;– Será que ele lambe meus seios também? Adoro quando os homens lambem meus seios.&lt;br /&gt;– Faça o teste Fez.&lt;br /&gt;Levantou a blusa e o sutiã.&lt;br /&gt;Eram redondinhos, bem redondinhos, e firmes.&lt;br /&gt;Ela agachou, para eu poder lambê-los.&lt;br /&gt;Primeiro encostei o foucinho e senti que eles estavam bem quentes; depois, lambi-os.&lt;br /&gt;– Ai, que delicia – disse Carmem.&lt;br /&gt;– Estou vendo.&lt;br /&gt;Ficou agachada até sentir as pernas formigarem.&lt;br /&gt;– Que pena! As minhas pernas formigaram!&lt;br /&gt;Levantou.&lt;br /&gt;Colocou a buceta na minha cara e eu lambi.&lt;br /&gt;Fiquei lambendo a buceta da Carmem até ela gozar.&lt;br /&gt;Quando gozou, ficou com as pernas tremendo, que nem a Lúcia.&lt;br /&gt;– Agora vamos embora – disse a Carmem.&lt;br /&gt;– Será que alguém viu, ouviu?&lt;br /&gt;– Acho que não.&lt;br /&gt;– Vamos contar para alguém?&lt;br /&gt;– Não. Segredo nosso.&lt;br /&gt;E foram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que elas se foram, a tristeza do pecado invadiu a minha alma de lobo. Agora, estava certo de que por ter cedido às tentações eu havia dado um grande passo atrás no plano espiritual. Precisava portanto me arrepender, recomeçar do zero, e não pecar de novo. Orei, pedindo perdão ao Criador.&lt;br /&gt;Enquanto orava, comecei a duvidar se o que havia cometido era de fato um pecado: no meu intimo, onde a doutrina cristã e Nietzsche moravam, era sim e não. Preferi acreditar que sim. Precisava, portanto, me arrepender. E não só isto: para mostrar arrependimento verdadeiro, era obrigado nunca mais fazer de novo.&lt;br /&gt;Não, eu nunca mais iria fazer aquilo novamente.&lt;br /&gt;Meia-hora depois, apareceram na minha cela os motoqueiros do globo da morte. Vinham do centro da cidade. Pararam na minha frente, e ficaram me olhando. Fábio puxou o maço de cigarros do bolso e ofereceu para José. José aceitou, acendeu, deu um trago e soltou a fumaça no ar. A fumaça logo desapareceu, com o vento. Fábio fez o mesmo. Enquanto davam os primeiros tragos, olhavam-me, curiosos.&lt;br /&gt;De repente, o silêncio foi quebrado entre eles e começaram a falar.&lt;br /&gt;– Será mesmo que esse lobo é o Mauro?&lt;br /&gt;– Pode ser que sim.&lt;br /&gt;– É algo muito difícil de acreditar.&lt;br /&gt;– Pois é.&lt;br /&gt;– Você lembra do Pé-de-garrafa?&lt;br /&gt;– Lembro sim!&lt;br /&gt;– Eu morria de medo dele, quando era criança.&lt;br /&gt;– Mamãe nos deixava apavorados, quando a gente dava trabalho para ela. Lembra o que ela falava quando a gente se comportava mal?&lt;br /&gt;– Lembro. Ela dizia que o Pé-de-garrafa ia nos pegar de noite e levar a gente para a caverna dele, onde ele costumava a devorar as pessoas.&lt;br /&gt;– Credo em Cruz! Tenho arrepios só de lembrar.&lt;br /&gt;– Eu morria de medo dele.&lt;br /&gt;– E eu, então? Nem dormia...&lt;br /&gt;– Cansei de passar a noite acordado por isso.&lt;br /&gt;– Como será que ele era?&lt;br /&gt;– Eu acho que ele era que nem esse lobo aí.&lt;br /&gt;– Eu já acho que ele tinha uma cabeça de cavalo, com um olho só no meio da testa.&lt;br /&gt;– Virgem Nossa!&lt;br /&gt;– Deus que me defenda!&lt;br /&gt;– Você lembra dos assovios dele, no meio da mata do sítio?&lt;br /&gt;– Não gosto nem de lembrar.&lt;br /&gt;– Papai falava que era para marcar território.&lt;br /&gt;– E que com esses assovios ele hipnotizava as pessoas que queria capturar ele.&lt;br /&gt;– Meu Deus...&lt;br /&gt;– E as pegadas que ele deixava?&lt;br /&gt;– Parecia de fundo de garrafas...&lt;br /&gt;– Pois é.&lt;br /&gt;– Será que não era alguém que fazia essas marcas no chão?&lt;br /&gt;– Sei lá!&lt;br /&gt;– E esse lobo aí, será que é um Pé-de-garrafa também?&lt;br /&gt;– Bom, pelo menos os pés dele é de lobo.&lt;br /&gt;– Será que é um lobisomem?&lt;br /&gt;– Se for o Mauro, agora é.&lt;br /&gt;– Vamos sair daqui?&lt;br /&gt;– Que isso, homem, tá com medo do quê?&lt;br /&gt;– Sei lá. De ele de repente sair daí e pegar a gente.&lt;br /&gt;– Deixa de bobagem. Ele não é mau, não. Olha para ele.&lt;br /&gt;José me olhou.&lt;br /&gt;Fiz uma cara simpática, eram meus amigos.&lt;br /&gt;– Ei, é você Mauro?&lt;br /&gt;Respondi que sim.&lt;br /&gt;– Deixe disso.&lt;br /&gt;– Ele nos respondeu. Parece que é o Mauro sim.&lt;br /&gt;–Pobre do Mauro, não?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ei, não quero que tenham pena de mim, não!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Bem que ele mereceu. Ué, Fábio, você não era o meu amigo?&lt;br /&gt;– Por que? – perguntou José.&lt;br /&gt;– Desse negócio dele querer ser o melhor do que os outros. Não gosto disto.&lt;br /&gt;– Culpa das meninas, que não queriam saber do coitado.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Já falei: coitado não, pomba!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Pois é.&lt;br /&gt;– Se as garotas ao menos fossem gente boa...&lt;br /&gt;– Umas piranhas...&lt;br /&gt;– Só salva a Josy. O resto, nenhuma delas prestam, inclusive a Maria, mulher do mágico.&lt;br /&gt;– Por que você diz isso?&lt;br /&gt;– Porque se não fosse o Marcos, eu já teria levado ela para o trailer.&lt;br /&gt;– É mesmo?&lt;br /&gt;– Pode escrever. Mas o Marcos é nosso amigo, e não merece.&lt;br /&gt;– Verdade.&lt;br /&gt;– Vamos entrar, dormir? Estou com sono.&lt;br /&gt;– Vamos.&lt;br /&gt;E saíram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minutos depois, a Maria saiu do seu trailer e entrou no trailer de seu Lagos. Fiquei vendo. Até esse dia, não havia suspeitado nada dela. Nem de seu Lagos. Contudo, a vida é deles; e um bom cristão não se preocupa com a vida alheia, a não ser em caso de ajuda, de solidariedade, de compaixão. Logo depois, apareceu o Marcos. Parou na frente da minha jaula, olhando para os lados, como quem procura por alguém.&lt;br /&gt;– Onde a Maria foi se meter, meu Deus?&lt;br /&gt;Tive vontade de apontar a pata para o trailer do safado de seu Lagos.&lt;br /&gt;O Marcos, depois de fazer essa pergunta, olhou para mim.&lt;br /&gt;– Será que é você mesmo, Mauro, que está aí?&lt;br /&gt;Fiz que sim.&lt;br /&gt;– Meu Deus do Céu! Será?&lt;br /&gt;Repeti o meu gesto.&lt;br /&gt;– É loucura demais. Não dá para acreditar.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O corno é sempre o último a acreditar&lt;/span&gt;, pensei comigo.&lt;br /&gt;– Eu só acredito vendo!&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;É a sina do corno: só acredita quando vê!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;– Se você de repente se transformar no Mauro, na minha frente.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;É o que mais quero&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Eu só devo estar ficando louco, ficar falando com um lobo. Eu vou atrás da Maria – disse ele, saindo.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Entra por ali,&lt;/span&gt; tentei dizer, apontando para o trailer do seu Lagos.&lt;br /&gt;E sumiu, na escuridão.&lt;br /&gt;Pouco depois, Maria saiu do trailer de seu Lagos.&lt;br /&gt;Ao passar na minha frente, aproximou-se. Parou e ficou me olhando.&lt;br /&gt;– Será mesmo que você é o Mauro?&lt;br /&gt;Não respondi.&lt;br /&gt;– Mas como é possível um ser humano se transformar num bicho, meu Deus? – disse consigo mesmo.&lt;br /&gt;E começou a pensar em voz alta: será que foi um castigo, o Mauro ter se tornado um lobo? Se sim, que bicho eu seria transformada caso fosse castigada? Numa galinha? Numa cadela? Numa piranha? Ai meu Deus, nunca me castigue nesta vida! E pensando ainda, disse: e o seu Lagos, se fosse castigado com um castigo desses, que bicho ele seria? Um bode velho? Um cavalo? Um camaleão? Ah, nem quero pensar numa coisa destas! Vou-me embora para meu trailer, dormir, porque ganho mais... E antes de ir, me olhou no fundo dos olhos e disse:&lt;br /&gt;– Olhe, Mauro, você não me viu sair do trailer de seu Lagos, combinado?&lt;br /&gt;Não respondi.&lt;br /&gt;– Ai, meu Deus, eu devo estar ficando louca, combinando algo com um lobo... – disse ela, se retirando.&lt;br /&gt;Assim que saiu, o Marcos passou, indo para o seu trailer.&lt;br /&gt;De repente, o seu Lagos saiu do seu trailer e veio apavorado para o meu lado.&lt;br /&gt;– Minha nossa, eu estava esquecendo, Mauro. Você viu tudo, não viu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz que sim. – Vai me entregar, se você voltar a ser o Mauro?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vou&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Como eu posso comprar o seu silêncio?&lt;br /&gt;Fiquei quieto, e ele ficou pensando em algo.&lt;br /&gt;– Já sei! – disse ele, de súbito.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O quê?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Vou chamar o pastor Mello aqui. Ele vai fazer você voltar a ser o Mauro. Se eu fizer isso, e der certo, você jura que não viu nada?&lt;br /&gt;Fiz que sim, era uma possibilidade, e por que não?&lt;br /&gt;– Então amanhã cedo vou buscar o pastor Mello. Com ele não tem para ninguém. Deus faz tudo o que ele pede.&lt;br /&gt;E voltou, para o seu trailer.&lt;br /&gt;Meia-hora depois, o palhaço João e o anão Rafael apareceram.&lt;br /&gt;Antes de irem para o trailer, aproximaram-se à jaula, tal como fizeram os irmãos Fábio e José.&lt;br /&gt;Vinham da casa de dona Tereza, um prostíbulo.&lt;br /&gt;Estavam bêbados.&lt;br /&gt;Ao me verem, começaram a falar a meu respeito.&lt;br /&gt;– Será que esse lobo é o Mauro mesmo? – perguntou o palhaço João.&lt;br /&gt;– Não – disse Rafael.&lt;br /&gt;– Como esse lobo foi parar aí?&lt;br /&gt;– Coisa do Mauro, para nos sacanear.&lt;br /&gt;– Sabe que eu já estava ficando com nojo da cara dele?&lt;br /&gt;– Por que? – perguntou Rafael.&lt;br /&gt;– Esse negócio dele mandar as garotas embora porque não iam para a cama com ele.&lt;br /&gt;– Realmente, ele deixou de ser aquele rapaz bom que era quando apareceu aqui.&lt;br /&gt;– Você sabia que ele estava fazendo uma campanha para o seu Lagos me tirar do circo?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Pois é. Fiquei sabendo esses dias. O filho da mãe inventou um monte de calúnias a meu respeito.&lt;br /&gt;– Será que ele fez isso comigo também?&lt;br /&gt;– Não, com você não.&lt;br /&gt;– Por que será que ele ficou assim?&lt;br /&gt;– Eu acho que foi a rejeição das mulheres do circo.&lt;br /&gt;– Mas precisava ele ficar assim?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– E esse lobo, hein? O que vamos fazer com ele? – disse Rafael.&lt;br /&gt;– Sabe o que vamos fazer com ele? – falou o palhaço João.&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Vamos urinar nele!&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Isso mesmo... Vamos urinar em cima desse lobo... Estou com vontade de urinar e vou fazer isto bem na cabeça dele!&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Urinar na minha cabeça?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Para quê? – perguntou Rafael.&lt;br /&gt;– Para quê sim. Estou bêbado e com vontade de urinar. Que seja na cabeça dele, então!&lt;br /&gt;– Você ficou louco.&lt;br /&gt;– Não fiquei. É divertido. Você vai fazer o mesmo!&lt;br /&gt;– Eu?&lt;br /&gt;– Sim, você!&lt;br /&gt;– Eu não!&lt;br /&gt;– Por que não?&lt;br /&gt;– Porque não sou de ficar mijando em cabeça de lobo!&lt;br /&gt;– Você está com medo!&lt;br /&gt;– Medo do quê?&lt;br /&gt;– Dele te pegar depois, machucar você!&lt;br /&gt;O que era verdade: eles iriam ter comigo, se fizessem isso; ah, se teriam!...&lt;br /&gt;– Eu não!&lt;br /&gt;– Então urine nele!&lt;br /&gt;– Não vou urinar!&lt;br /&gt;– Frangote!&lt;br /&gt;– Não sou frangote!&lt;br /&gt;– Então urina... O quê que custa?&lt;br /&gt;– Não custa nada!&lt;br /&gt;– Então?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Vamos urinar os dois, juntos!&lt;br /&gt;Rafael, de repente, resolveu topar.&lt;br /&gt;Rosnei para eles.&lt;br /&gt;Mas foi em vão: os dois, quase ao mesmo tempo, tiraram o pinto para fora e começaram a mijar em mim.&lt;br /&gt;Tentei fugir mas não teve como.&lt;br /&gt;Molharam a minha cabeça, o meu corpo, entrou mijo em minha boca...&lt;br /&gt;Eles acharam divertido, gargalharam:&lt;br /&gt;– Rá-rá-ra! Toma mijo, lobo! Toma mijo!....&lt;br /&gt;Depois, quando terminaram, foram para o trailer. Eu fiquei completamente molhado, fedendo. Passei a madrugada inteira acordado, puto da vida. Quem de dia estava perdoando, à noite estava tendo ódio. Lancei diversas maldições em cima deles. Mandei os dois para o Inferno. Quando amanheceu, graças a Deus a Josy veio me dar comida e água. Ao chegar perto de mim, sentiu o fedor da urina.&lt;br /&gt;– Nossa! Que cheiro horrível!&lt;br /&gt;Fiz uma cara de cachorro triste.&lt;br /&gt;– Alguém fez isso... – disse ela consigo mesma – Quem deve ter sido?&lt;br /&gt;Tentei responder, mas saiu apenas alguns ruivozinhos.&lt;br /&gt;–Foi o palhaço João?&lt;br /&gt;Levantei a pata.&lt;br /&gt;– Perverso! Como ele teve essa audácia!&lt;br /&gt;Uivei.&lt;br /&gt;– Vou dar um jeito nesse cheiro – disse ela, saindo de perto.&lt;br /&gt;Voltou com um balde de água e jogou sobre mim.&lt;br /&gt;Depois, pegou mais um balde de água e jogou na jaula.&lt;br /&gt;Aliviou.&lt;br /&gt;– Você deve estar com fome, não está, Mauro?&lt;br /&gt;Fiz que sim.&lt;br /&gt;Ela voltou para o seu trailer, e me trouxe uma vasilha com comida.&lt;br /&gt;Comi, e ela ficou me vendo comer.&lt;br /&gt;Depois foi embora.&lt;br /&gt;E; ali sozinho, pensando em tudo o que aconteceu, vi que não iria ser nada fácil deixar de ser lobo, de ser rancoroso e malvado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira coisa que tinha que fazer era perdoar o palhaço João e o anão Rafael. Mas, como iria perdoar quem urinou em mim? Como? Era algo muito difícil. Mesmo assim, tentei. Comecei a orar e a pedir esse dom de perdoar a quem nos faz o mal. Orei, e na oração, pude sentir o amor de Deus, e com isso consegui perdoá-los. Depois, ficou bem claro que iria ter que resistir às tentações do adversário, porque estava sendo fortemente provado. E, ao pensar nisso, de repente apareceu o seu Lagos com o pastor Mello.&lt;br /&gt;– Aqui está ele.&lt;br /&gt;– Ele quem?&lt;br /&gt;– O Mauro.&lt;br /&gt;– Você está de brincadeira comigo, não está?&lt;br /&gt;– Não, não estou. É o Mauro.&lt;br /&gt;– Você não quer que eu acredite num absurdo desses, quer? –&lt;br /&gt;Você não acredita que existem demônios?&lt;br /&gt;– Acredito.&lt;br /&gt;– E não consegue acreditar que alguém pode se transformar num animal?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Espere aí, seu Lagos, animal é a&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Se você tivesse me dito isto, nem teria vindo.&lt;br /&gt;– Mas eu lhe juro, ele é o Mauro. Quer ver? Mauro, se você é o Mauro, levante a pata direita.&lt;br /&gt;Levantei a pata direita.&lt;br /&gt;– Viu? Está vendo. É ele, o Mauro!&lt;br /&gt;– Mas isto não prova nada.&lt;br /&gt;– Então pede para ele te dar um sinal.&lt;br /&gt;O pastor Mello pensou, viu que era um absurdo, mas por insistência de seu Lagos, me pediu um sinal.&lt;br /&gt;– Se você é mesmo o Mauro, como o seu Lagos está dizendo, dê uma volta – pediu ele.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Uma volta? Só faltava essa...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;– Viu? Ele não fez nada.&lt;br /&gt;– Espere – pediu o seu Lagos. Dei a volta.&lt;br /&gt;– Está vendo? É ele!&lt;br /&gt;– Mas isto não prova nada.&lt;br /&gt;– Então pede outra coisa para ele fazer.&lt;br /&gt;O pastor Mello pediu para dar três pulos vezes três.&lt;br /&gt;Dei nove pulos, como ele pediu.&lt;br /&gt;– Viu?&lt;br /&gt;– Vi.&lt;br /&gt;– Acredita agora?&lt;br /&gt;– Estou perplexo. Isto só pode ser obra do cão.&lt;br /&gt;– Então faz uma oração nele, para dar um jeito nisso.&lt;br /&gt;– Só se ele não me morder. Vou precisar impor a mão na cabeça dele. – Ele não vai te morder. O pastor Mello colocou a mão na minha cabeça e começou a orar.&lt;br /&gt;Ao fazer isso, fui ficando com raiva dele, com ódio, e comecei a rosnar, a uivar.&lt;br /&gt;– Em nome de Jesus, Satanás eu te ordeno: saia deste corpo! C&lt;br /&gt;omecei a babar, e tentei morder a mão dele, sem conseguir.&lt;br /&gt;– Demônio dos Infernos, eu te ordeno: saia!&lt;br /&gt;Uivei mais forte, rosnei, e então o pastor Mello ficou com medo e desistiu do exorcismo.&lt;br /&gt;– Sozinho não consigo. Vou buscar mais pastores; para nós todos, juntos, poder expulsar esse Capeta que está nele. E saiu, junto com o seu Lagos, prometendo voltar logo, logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que os dois saíram, uivei, chamando a Josy. Ela veio, e eu parei de uivar.&lt;br /&gt;– Você está triste? – perguntou ela.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não&lt;/span&gt;, falei, com a pata.&lt;br /&gt;– Você precisa ser forte, para sair dessa.&lt;br /&gt;Olhei para ela.&lt;br /&gt;– Estou com você – falou-me, levantando-se para sair.&lt;br /&gt;Balancei o rabo. – Ficou feliz? Sim, falei de novo, com a pata. – Quando precisar de mim, é só uivar. Do jeito q&lt;br /&gt;ue você estava fazendo. Está bem.&lt;br /&gt;– E me perdoe.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Perdoar? Do quê?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;– Me perdoe por não ter tido coragem de assumir o que estava sentido por você... Quem sabe, nada disso teria acontecido.&lt;br /&gt;Balancei a cabeça, gesticulando que ela estava perdoada.&lt;br /&gt;– Te amo! – disse também.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Me ama?!&lt;/span&gt;, indaguei, surpreso.&lt;br /&gt;– Vou estar sempre perto – falou, saindo.&lt;br /&gt;Fiquei ali pensando em tudo o que ela disse. Ela me amava! Como nunca fui perceber? De fato, nunca daria para perceber, uma vez que não estava interessado no amor, mas apenas em comer as mulheres do circo. Então, o peso do arrependimento pesou em meu ser, e fiquei triste.&lt;br /&gt;Por outro lado, ela me amava, e isso era motivo para ter esperança. O amor sempre nos dá isso, esperança. Por esta razão, me senti forte para vencer todas as tentações. Eu tinha o seu amor, o amor de Deus, e isso eram armas poderosas para deixar de ser um lobo.&lt;br /&gt;Não obstante, assim que a madrugada chegou – o pastor não voltou nesse dia com os outros pastores – fui tentado mais uma vez, e de forma mais forte e cruel. A Lúcia e a Carmem, desta vez, apareceram acompanhadas da Raquel e da Cláudia!&lt;br /&gt;As duas haviam traído a promessa de guardar segredo e contaram o que tinham feito comigo na noite anterior, despertando interesse nelas. Aproximaram-se. A Lúcia, para provar que o quê ela estava dizendo era verdade, logo foi se aproximando de mim. Senti o seu perfume, e quase esqueço de todo o meu propósito. Ela, chegando bem perto, levantou a saia e colocou a buceta bem diante do meu foucinho – nesta noite, ela estava tão preparada que nem calcinha vestiu.&lt;br /&gt;Recusei.&lt;br /&gt;– O que foi benzinho, está com vergonha das outras?&lt;br /&gt;Fiquei imóvel.&lt;br /&gt;– Vem – pediu ela.&lt;br /&gt;Orei: afasta-se de mim, tentação dos Infernos!&lt;br /&gt;– Não vai querer? – disse ela.&lt;br /&gt;A Raquel e a Cláudia começaram a desconfiar que fosse verdade o que elas lhes disseram.&lt;br /&gt;– Vem, vem? Lambe a minha bucetinha, lambe?&lt;br /&gt;Fiz que não.&lt;br /&gt;Elas riram.&lt;br /&gt;– Que foi, tá dodói hoje, é?&lt;br /&gt;Não respondi.&lt;br /&gt;– E seu eu der meus seios para você lamber? – falou ela, levantando a blusa.&lt;br /&gt;Também não respondi.&lt;br /&gt;Ela tirou o sutiã.&lt;br /&gt;Vi que seus seios eram perfeitos, lindos.&lt;br /&gt;Meu pau endureceu e saiu para fora do coro.&lt;br /&gt;Fiz então um esforço mental para ele amolecer.&lt;br /&gt;Foi em vão.&lt;br /&gt;– Viram? Ele está excitado!&lt;br /&gt;– Mais um pouco e ele te lambe – falou a Carmem.&lt;br /&gt;Dito e feito: coloquei o foucinho nos seios dela e cheirei, colocando a perder todo o meu esforço.&lt;br /&gt;Depois, a língua; e fiquei lambendo até ela se levantar, a fim de que agora eu lambesse a sua vagina. Lambi até ela gozar. A Raquel e a Cláudia acharam isso incrível, muito excitante. Levantaram a saia também e colocaram a buceta para o lobo lamber. E não somente a buceta, mas os seios, as pernas, e as coxas também.&lt;br /&gt;A Raquel, com muito tesão, virou a bunda em minha direção, dizendo me come, lobinho, me come. Levantei as patas dianteiras; e, segurando-me nas grades, levei o meu cacete de lobo em direção à genitália de vadia dela. Enfiei, e ela começou a gemer. As amigas dela viram isso e começaram a rir, excitadas, dizendo eu também quero. Comi a Raquel com avidez, me segurando para não gozar e conseguir comer elas todas: com certeza, o Inferno já era meu... Adeus, Mauro! Jamais será cordeiro!&lt;br /&gt;Depois dela, veio a Lúcia; e depois da Lúcia, a Carmem, seguida pela Cláudia. Quando gozei, afastei-me delas e cai exausto, no chão da cela. Me perdoa, meu Deus... Elas, ao me verem ali deitado, saíram de perto, voltando para seus trailers. E eu, fiquei na jaula, mais uma vez derrotado pelo Adversário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Pela manhã acordei com o palhaço João e o anão Rafael colocando uma vasilha de comida na minha jaula. Levantei e fui ver o que tinha para mim. A refeição estava com um aspecto horrível. Cheirei-a, para ver se dava para comer. Negativo. A comida fedia a lixo, a lavagem, e não duvidei que o palhaço João e o anão Rafael mijaram e defecaram nela, a fim de sacanearem comigo. Rejeitei. Os dois perceberam a minha recusa e começaram a zombar da minha cara.&lt;br /&gt;– Estou achando que ele não gostou muito da comida – disse João para Rafael.&lt;br /&gt;– Fez até cara de nojo, você viu?&lt;br /&gt;– Vi. O que será que ele quer comer, filé mignon?&lt;br /&gt;– Arroz bem branco, mandioca e picanha, de certo – disse Rafael.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eu vou é comer um pedaço de vocês!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Sabe? – disse João.&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– O que você acha da gente cuspir nele?&lt;br /&gt;– Cuspir?&lt;br /&gt;– Sim, cuspir. Dar umas cusparadas bem amarelas nele.&lt;br /&gt;– Uma boa idéia.&lt;br /&gt;– Quem cospe primeiro?&lt;br /&gt;– Eu – falou Rafael.&lt;br /&gt;E cuspiu, o desgraçado. O cuspe acertou o meu rosto em cheiro. Em seguida, João cuspiu também. Deram várias cusparadas em mim, e se divertiam muito. Tentei suportar tudo isso com resignação, tal como Cristo no Calvário. Contudo, não consegui me conter, e rosnei alto, com raiva; e mostrei os dentes, ameaçando atacar. Eles me subestimaram, fazendo ironias, dizendo ah é, o lobo está nervosinho? Vamos cuspir nele, para ver se acalma...&lt;br /&gt;E cuspiram.&lt;br /&gt;Fiquei mais nervoso ainda e comecei a rosnar mais alto, que nem um cachorro louco. Depois, avancei na direção deles. Assustaram. Deram um passo para trás; e, vendo as grades da jaula me impedindo de atingi-los, resolveram não ceder à minha ameaça. Fiquei mais furioso ainda, ao ver que eles permanecerem parados na minha frente. A minha fúria foi tão grande que sem me dar conta virei uma verdadeira fera.&lt;br /&gt;Provavelmente a fera mais assustadora que eles viram até então. Pois, ao avançar em direção deles pela segunda vez, saíram correndo, assustados, apavorados. Jesus faria igual, disse para mim mesmo. E, sem conseguir me conter, continuei furioso, rosnando, como se estivesse louco, e nada me fazia parar. Chamei a atenção de todos no circo; e começaram, um a um, ver o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;Os primeiros a chegar foram os irmãos Fábio e José. Me pediram calma; que eu parasse de rosnar pelo amor de Deus; que eles estavam preocupados comigo; que queriam, de todo o coração, fazer algo por mim, mas que não sabiam o que fazer. Em seguida apareceram o mágico Marcos e Maria. Ficaram apavorados com a minha fúria. Quiseram fugir; mas ficaram, à pedido dos motoqueiros. Depois deles, apareceu o seu Lagos.&lt;br /&gt;– Meu Deus do céu, acalme-se, Mauro!&lt;br /&gt;Não me acalmei. Eu estava furioso, possuído, e rosnava sem parar. Era algo maior do que eu. Seu Lagos, com isso, me pedia calma. Resolveu aproximar-se, e colocou a mão perto da grade. Mordi-a, com violência. Ele saiu de perto gritando de dor, mas evitou me xingar. Saiu sangue, e ele apartava a outra mão no ferimento, para estancar. Depois clamou pelo amor de Nosso Senhor que eu me acalmasse. Mas não acalmei. Eu estava fora de mim, surtado. E quanto mais nervoso ficava, mais alto rosnava para eles e para o mundo.&lt;br /&gt;O seu Lagos, mesmo ferido, aproximou-se novamente, dizendo-me que o pastor Mello estava chegando com outros pastores, para resolverem o meu problema. Ainda assim, continuei no mesmo estado. Logo depois, apareceram a Lúcia, a Carmem, a Raquel e a Cláudia. Ficaram apavoradas. Quiseram sair correndo mas o seu Lagos proibiu, e então tiveram que ficar ali, assistindo um lobo em estado de transe, de loucura. De fato, eu estava louco, e nem mesmo a presença da Josy, que chegou logo depois, me fez acalmar.&lt;br /&gt;Continuei rosnando e uivando alto desenfreadamente. Minutos depois, o pastor Mello apareceu. Estava com trezentos e dezoito pastores junto com ele. Ao vê-los, comecei a rosnar mais alto ainda, e mais furioso. Eles, ao mesmo tempo, começaram a orar. De repente, o pastor Mello ousou colocar a mão na minha cabeça. Quase perdeu os dedos, com a mordida que dei. Outros pastores tentaram o mesmo, mas não deixei. E quanto mais eles oravam, mais eu rosnava. E quanto mais rosnava mais eles oravam, em voz alta. Foram uns dez minutos assim, até eles desistirem de vez.&lt;br /&gt;– Nunca, em toda a minha vida, vi um demônio tão forte como este.&lt;br /&gt;– Esse deve ser o próprio.&lt;br /&gt;– Só pode, para se transformar num lobo.&lt;br /&gt;– E agora, o que vamos fazer?&lt;br /&gt;– Vamos voltar para as nossas casas. Mas vamos ficar em jejum por quarenta dias, e depois voltamos, com mais força.&lt;br /&gt;E foram.&lt;br /&gt;O seu Lagos, ao verem que nada podiam fazer, foi até o seu trailer, e voltou com uma seringa. Havia um líquido dentro dela, e uma agulha enorme na ponta. Veio rápido, correndo, e sem medo de levar uma mordida, conseguiu aplicar a injeção em mim. Fui perdendo a força. De repente, tive vertigens. Olhava para eles e via-os embaçados. Depois, o que era claro se fez escuro, e fiquei zonzo, até cair. Assim que fui ao chão, apaguei sem poder me defender. E ali fiquei por umas vinte horas mais ou menos.&lt;br /&gt;Ao acordar, vi a Josy, ao pé da jaula.&lt;br /&gt;Era noite.&lt;br /&gt;– Tudo bem com você, Mauro?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mais ou menos&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Está com fome? Estou.&lt;br /&gt;– Vou buscar comida para você.&lt;br /&gt;Fiz que sim, que ia esperar. Ela foi até o seu trailer, preparar uma boa refeição para mim. Logo depois, voltou, empurrando a comida ao meu alcance. Eu estava com muita fome. Não pude nem mesmo agradecê-la. Fui logo comendo. Enquanto comia, a Josy me observava. Ria, da velocidade em que devorava o quê ela trouxe.&lt;br /&gt;– Pode ficar tranqüilo, que eu não vou deixar faltar nada para você, está bem?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ok&lt;/span&gt;, falei, balançando a cabeça.&lt;br /&gt;Comi tudo em questão de segundos. Ao terminar, ela se aproximou, agachando. De frente com ela, coloquei a pata na porta da jaula, onde estava o cadeado. Fiz uma cara triste, implorado para ela trazer a chave para mim. Josy entendeu. Eu precisava fugir dali! Minutos depois, ela voltou, abriu o cadeado e ficou me esperando sair. O que quase fiz; se não tivesse passado pela minha cabeça uma idéia macabra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recuei uns passos, olhei para ela e comecei a rosnar. Ela ficou sem entender como que eu poderia estar sendo hostil quando deveria ser grato e generoso. Tentou mudar a minha ação, ficando parada, mostrando que não estava nem um pouco com medo de mim. Por causa disto, rosnei mais forte, e avancei nela, mordendo o seu braço. Josy correu, machucada, e não voltou mais, nem tampouco alertou os outros o que havia acontecido com ela. Assim que saiu apareceram a Lúcia, a Carmem, a Raquel e a Cláudia.&lt;br /&gt;– Parece que ele está bem, agora.&lt;br /&gt;– Eu pensei que ele ia sair daí e devorar a gente.&lt;br /&gt;– Ele deve ter tido apenas um acesso, só isso.&lt;br /&gt;– Morri de medo.&lt;br /&gt;– E eu?&lt;br /&gt;– Eu também fiquei apavorada.&lt;br /&gt;– Eu adorei o que ele fez comigo antes de ontem – disse a Lúcia.&lt;br /&gt;– Eu também – falou a Raquel. –&lt;br /&gt;Será que ele faz de novo? – perguntou a Carmem.&lt;br /&gt;– Será? Eu que não tenho mais coragem de fazer de novo. Vai que ele fica que nem ontem, maluco?&lt;br /&gt;– Fica nada. O surto já passou.&lt;br /&gt;– Será?&lt;br /&gt;– Pode crer. Querem ver? – disse a Lúcia, levando a mão em minha cabeça. Lambi a mão dela.&lt;br /&gt;As mulheres se alegraram, dando gritinhos maliciosos.&lt;br /&gt;– Ele é tão gostoso...&lt;br /&gt;– Uma delícia.&lt;br /&gt;– Vou fazer com ele de novo – disse a Lúcia, levantando a saia.&lt;br /&gt;Estava sem calcinha, a cadela.&lt;br /&gt;– Vai, lambe ela, lobinho, lambe.&lt;br /&gt;Lambi, e depois, me ergui, segurando-me nas grades, a fim de penetrar nela. Ao penetrá-la, tirei as mãos da grade e me enlacei em sua cintura, aprisionando-a. Com ela presa em meus braços, comecei a rosnar, porque queria que todo mundo visse o quanto que elas não prestavam. Pouco depois, apareceram os irmãos motoqueiros, o seu Lagos, o anão Rafael e o palhaço João. As mulheres, para se safarem, começaram a gritar: foi ele quem pegou ela! Eles acreditaram nelas, e tiraram a Lúcia dos meus braços.&lt;br /&gt;Depois, com raiva de mim, o palhaço João disse: vamos mijar em cima dele! Mas nenhum dos homens toparam, exceto o anão Rafael. Fiquei quieto, esperando: era tudo o que mais queria que eles fizessem! Abriram as calças e colocaram os pintos para fora. E nesse momento eu saí da jaula e fui direto ao pinto do palhaço João.&lt;br /&gt;Abocanhei-o, mordi com força, até arrancá-lo de seu corpo. Ele gritou de dor. O anão Rafael, ao ver isso, saiu correndo. Cuspi o pinto do palhaço no chão e fui atrás dele. Peguei-o, e fiz o mesmo: arranquei fora o pinto do anão também. Ele começou a gritar. Os homens e as mulheres começaram a gritar e a correr, se escondendo. Mas, eu não queria fazer mal ao restante, e fugi decidido em jamais ser um cordeiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei alguns dias rondando o local, me escondendo nas matas, lugar onde vivo até hoje. Nos dias de apresentação, vou ao circo. Subo rapidamente na corda bamba, sem deixá-los me pegar, e faço o meu espetáculo e represento da melhor maneira o que o homem é e a sua condição. O homem é um lobo numa corda bamba. É vingativo, é raivoso, é agressivo. Pode até lá ter as suas redenções, as suas bondades, as suas purezas. Mas em seu íntimo, em sua estrutura mais ontológica, ele é tudo isso o que eu disse e mais um pouco.&lt;br /&gt;Agora, uma vez por mês, quando a lua fica cheia, eu pego uma mulher – ou até mesmo uma donzela, alguma virgem – e avanço nelas e as como por inteira. Não deixo nenhuma viva. As pessoas da cidade, lideradas pelos eunucos João e o anão Rafael, saem em caçada ao lobo do circo. Nunca me pegam. E quando há apresentação, entro no circo, driblo todo mundo, e faço o meu espetáculo.&lt;br /&gt;Depois desço, correndo para não me pegarem. Me escondo num canto e fico esperando alguma mulher passar, para comê-la inteira. Às vezes, de vez em quando, eles tentam armar uma cilada, uma arapuca para mim. Mandam as mulheres do circo como iscas, e elas vêm, ficam perto das matas, e me chamam. Eu sempre vou, e então elas tiram a roupa, me deixam lamber o corpo, enquanto os homens saem da surdina devagarzinho, com passos lentos, cuidadosos, para me surpreenderem.&lt;br /&gt;Contudo, nunca conseguem. Tenho um faro que me permite identificar o inimigo a quilômetros de distância. Assim, logo que sinto o cheio deles, volto correndo para a mata, lugar onde só os bichos conhecem bem. Eles pegam os revólveres, as espingardas e atiram em minha direção. Nunca acertam; os ruins de mira. Então entro num covil, fico por lá por algum tempo, para depois andar pelas matas, até dar a vontade de ir para a cidade e comer alguma mulher, alguma donzela, alguma virgem.&lt;br /&gt;Outras vezes, o palhaço João, junto com o anão Rafael e o prefeito, oferecem prêmios valiosíssimos a quem tem coragem de entrar na mata e me matar. E sempre aparece alguém corajoso. Vêm à mata, arma ciladas, armadilhas; fica à minha espreita. Confesso que alguns deles quase me pegaram, mas sempre venço. E quando venço, faço questão de arrancar o pênis do valente. Eles então voltam para a cidade gritando de dor, anunciando o que fiz. É a minha marca de vitória, e já estou fazendo a cidade uma cidade de eunucos.&lt;br /&gt;Alguns eunucos, entretanto, voltam para se vingar. E voltam mais nervosos, mais raivosos, mais cheios de ódio ainda. Quando esses voltam, não me resta outra coisa a não ser matá-los e jogá-los de volta à cidade.&lt;br /&gt;– Lobo maldito!&lt;br /&gt;– Desgraçado!&lt;br /&gt;– Por que ele faz isso?&lt;br /&gt;– Por que ele não morre?&lt;br /&gt;– Por que ele não desaparece?&lt;br /&gt;De vez em vez, Josy se oferece para vir falar comigo, pedir para parar com as minhas atrocidades. Mas sempre nego, e rosno para ela. Às vezes, lhe machuco. Ela foge, porém sempre volta, para me ver, para conversar, para tentar me converter. No entanto, nunca purifico o meu coração. Mantenho-o sempre faminto, insaciável, cheio de maldades e impurezas. E quando ela sai, eu uivo a noite toda, numa canção triste e solitária, tal como o blues. E uivo tão alto que a cidade inteira não consegue nem mesmo dormir, com um medo terrível do lobo do circo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glauber da Rocha&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-1664100857579682498?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/1664100857579682498'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/1664100857579682498'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/05/o-lobo-do-circo_29.html' title='O Lobo do Circo'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-4128099633723457831</id><published>2010-05-28T13:17:00.000-07:00</published><updated>2010-05-28T13:24:03.923-07:00</updated><title type='text'>continuação de o lobo do circo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira coisa que tinha que fazer era perdoar o palhaço João e o anão Rafael. Mas, como iria perdoar quem urinou em mim? Como? Era algo muito difícil. Mesmo assim, tentei. Comecei a orar e a perdi esse dom de perdoar a quem nos faz o mal. Orei, e na oração, pude sentir o amor de Deus, e com isso consegui perdoá-los. Depois, ficou bem claro que iria ter que resistir às tentações do adversário, porque estava sendo fortemente provado. E, ao pensar nisso, de repente apareceu o seu Lagos com o pastor Mello.&lt;br /&gt;– Aqui está ele.&lt;br /&gt;– Ele quem?&lt;br /&gt;– O Mauro.&lt;br /&gt;– Você está de brincadeira comigo, não está?&lt;br /&gt;– Não, não estou. É o Mauro.&lt;br /&gt;– Você não quer que eu acredite num absurdo desses, quer?&lt;br /&gt;– Você não acredita que existem demônios?&lt;br /&gt;– Acredito.&lt;br /&gt;– E não consegue acreditar que alguém pode se transformar num animal?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Espere aí, seu Lagos, animal é a p&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– Se você tivesse me dito isto, nem teria vindo.&lt;br /&gt;– Mas eu lhe juro, ele é o Mauro. Quer ver. Mauro, se você é o Mauro, levante a pata direita. Levantei a pata direita.&lt;br /&gt;– Viu? Está vendo. É ele, o Mauro!&lt;br /&gt;– Mas isto não prova nada.&lt;br /&gt;– Então pede para ele te dar um sinal.&lt;br /&gt;O pastor Mello pensou, viu que era um absurdo, mas por insistência de seu Lagos, me pediu um sinal.&lt;br /&gt;– Se você é mesmo o Mauro, como o seu Lagos está dizendo, dê uma volta – pediu ele. Uma volta?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Só faltava essa...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Viu? Ele não fez nada.&lt;br /&gt;– Espere – pediu o seu Lagos.&lt;br /&gt;Dei a volta.&lt;br /&gt;– Está vendo? É ele!&lt;br /&gt;– Mas isto não prova nada.&lt;br /&gt;– Então pede outra coisa para ele fazer.&lt;br /&gt;O pastor Mello pediu para dar três pulos vezes três.&lt;br /&gt;Dei nove pulos, como ele pediu.&lt;br /&gt;– Viu?&lt;br /&gt;– Vi.&lt;br /&gt;– Acredita agora?&lt;br /&gt;– Estou perplexo. Isto só pode ser obra do cão.&lt;br /&gt;– Então faz uma oração nele, para dar um jeito nisso.&lt;br /&gt;– Só se ele não me morder. Vou precisar impor a mão na cabeça dele.&lt;br /&gt;– Ele não vai te morder.&lt;br /&gt;O pastor Mello colocou a mão na minha cabeça e começou a orar.&lt;br /&gt;Ao fazer isso, fui ficando com raiva dele, com um ódio, e comecei a rosnar, a uivar.&lt;br /&gt;– Em nome de Jesus, Satanás eu te ordeno: saia deste corpo!&lt;br /&gt;Comecei a babar, e tentei morder a mão dele, sem conseguir.&lt;br /&gt;– Demônio dos Infernos, eu te ordeno: saia!&lt;br /&gt;Uivei mais forte, rosnei, e então o pastor Mello ficou com medo e desistiu do exorcismo.&lt;br /&gt;– Sozinho não consigo. Vou buscar mais pastores; para nós todos, juntos, poder expulsar esse Capeta que está nele.&lt;br /&gt;E saiu, junto com o seu Lagos, prometendo voltar logo, logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que os dois saíram, uivei, chamando a Josy.&lt;br /&gt;Ela veio, e eu parei de uivar.&lt;br /&gt;– Você está triste? – perguntou ela.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não&lt;/span&gt;, falei, com a pata.&lt;br /&gt;– Você precisa ser forte, para sair dessa.&lt;br /&gt;Olhei para ela.&lt;br /&gt;– Estou com você – falou-me, levantando-se para sair.&lt;br /&gt;Balancei o rabo.&lt;br /&gt;– Ficou feliz?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sim&lt;/span&gt;, falei de novo, com a pata.&lt;br /&gt;– Quando precisar de mim, é só uivar.&lt;br /&gt;Do jeito que você estava fazendo.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Está bem&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;– E me perdoe.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Perdoar? Do quê?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;– Me perdoe por não ter tido coragem de assumir o que estava sentido por você...&lt;br /&gt;Quem sabe, nada disso teria acontecido.&lt;br /&gt;Balancei a cabeça, gesticulando que ela estava perdoada.&lt;br /&gt;– Te amo! – disse também.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Me ama?!&lt;/span&gt;, indaguei, surpreso.&lt;br /&gt;– Vou estar sempre perto – falou, saindo.&lt;br /&gt;Fiquei ali pensando em tudo o que ela disse. Ela me amava! Como nunca fui perceber? De fato, nunca daria para perceber, uma vez que não estava interessado no amor, mas apenas em comer as mulheres do circo, e nada mais. Então, o peso do arrependimento pesou em meu ser, e fiquei triste. Por outro lado, ela me amava, e isso era motivo para ter esperança. O amor sempre nos dá isso, esperança.&lt;br /&gt;Por isso, me senti forte para vencer todas as tentações. Eu tinha o seu amor, o amor de Deus, e isso eram armas poderosas para deixar de ser um lobo. Não obstante, assim que a madrugada chegou – o pastor não voltou nesse dia com os outros pastores – fui tentado mais uma vez, e de forma mais forte e cruel.&lt;br /&gt;A Lúcia e a Carmem, desta vez, apareceram acompanhadas da Raquel e da Cláudia! As duas haviam traído a promessa de guardar segredo e contaram o que tinham feito comigo na noite anterior, despertando interesse nelas. Aproximaram-se. A Lúcia, para provar que o quê ela estava dizendo era verdade, logo foi se aproximando de mim. Senti o seu perfume, e quase esqueço de todo o meu propósito.&lt;br /&gt;Ela, chegando bem perto, levantou a saia e colocou a buceta bem diante do meu foucinho – nesta noite, ela estava tão preparada que nem calcinha vestiu. Recusei.&lt;br /&gt;– O que foi benzinho, está com vergonha das outras?&lt;br /&gt;Fiquei imóvel.&lt;br /&gt;– Vem – pediu ela.&lt;br /&gt;Orei: afasta-se de mim, tentação dos Infernos!&lt;br /&gt;– Não vai querer? – disse ela.&lt;br /&gt;A Raquel e a Cláudia começaram a desconfiar que fosse verdade o que elas lhes disseram.&lt;br /&gt;– Vem, vem? Lambe a minha bucetinha, lambe?&lt;br /&gt;Fiz que não.&lt;br /&gt;Elas riram.&lt;br /&gt;– Que foi, tá dodói hoje, é?&lt;br /&gt;Não respondi.&lt;br /&gt;– E seu eu der meus seios para você lamber? – falou ela, levantando a blusa.&lt;br /&gt;Também não respondi.&lt;br /&gt;Ela tirou o sutiã.&lt;br /&gt;Vi que seus seios eram perfeitos, lindos.&lt;br /&gt;Meu pau endureceu e saiu para fora do coro.&lt;br /&gt;Fiz então um esforço mental para ele amolecer.&lt;br /&gt;Foi em vão.&lt;br /&gt;– Viram? Ele está excitado!&lt;br /&gt;– Mais um pouco e ele te lambe – falou a Carmem.&lt;br /&gt;Dito e feito: coloquei o foucinho nos seios dela e cheirei, colocando a perder todo o meu esforço. Depois, a língua; e fiquei lambendo até ela se levantar, a fim de que agora eu lambesse a sua vagina. Lambi até ela gozar. A Raquel e a Cláudia acharam isso incrível, muito excitante. Levantaram a saia também e colocaram a buceta para o lobo lamber. E não somente a buceta, mas os seios, as pernas, e as coxas também.&lt;br /&gt;A Raquel, com muito tesão, virou a bunda em minha direção, dizendo me come, lobinho, me come. Levantei as patas dianteiras; e, segurando-me nas grades, levei o meu cacete de lobo em direção à genitália de vadia dela. Enfiei, e ela começou a gemer. As amigas dela viram isso e começaram a rir, excitadas, dizendo eu também quero. Comi a Raquel com avidez, me segurando para não gozar e conseguir comer elas todas: com certeza, o Inferno já era meu... Adeus, Mauro! Jamais será cordeiro!&lt;br /&gt;Depois dela, veio a Lúcia; e depois da Lúcia, a Carmem, seguida pela Cláudia. Quando gozei, afastei-me delas e cai exausto, no chão da cela. Me perdoa, meu Deus... Elas, ao me verem ali deitado, saíram de perto, voltando para seus trailers. E eu, fiquei na jaula, mais uma vez derrotado pelo Adversário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-4128099633723457831?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4128099633723457831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/4128099633723457831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/05/continuacao-de-o-lobo-do-circo_28.html' title='continuação de o lobo do circo'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-2429115961669075997</id><published>2010-05-27T16:23:00.000-07:00</published><updated>2010-05-27T16:24:21.248-07:00</updated><title type='text'>sábado</title><content type='html'>sábado estarei postando a continuação de o lobo do circo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7068114107138479413-2429115961669075997?l=meuscontoseromances.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/2429115961669075997'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7068114107138479413/posts/default/2429115961669075997'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meuscontoseromances.blogspot.com/2010/05/sabado.html' title='sábado'/><author><name>Glauber da Rocha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04118048450641046204</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_86yabO3mfEA/TGm7kyndAEI/AAAAAAAAAsM/Ci_Tde-OtLo/S220/LGIM0061.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7068114107138479413.post-5637017524979099729</id><published>2010-05-15T11:24:00.001-07:00</published><updated>2010-05-15T11:40:42.058-07:00</updated><title type='text'>continuação de o lobo do circo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;resumo: 1°)
